sexta-feira, julho 18, 2008

Tomado pela(s) Graça(s)

As três Graças (1505)

Rafael (1483-1520)


As filhas de Zeus e de Eurínome


As três Graças de belas faces gerou-lhas Eurínome,

de aspecto gracioso, filha de Oceano,

Aglaia, Eufrósine e a amável Tália.

Hesíodo, Teogonia

Tempo de festa: é preciso não baixar os braços pois a crise vem aí

A Dança do Casamento (c. 1566)

Pieter Bruegel "o Velho" (1525-1569)

Este quadro encontra-se na colecção do Detroit Institute of Arts e pode ser analisado detalhadamente com uma lupa no excelente site desse instituto.

É curioso: todos estão a divertir-se menos um sujeito misterioso que se encontra na sombra, no limite do lado direito do quadro, por detrás dos tocadores de gaita-de-foles. Será um desmancha-prazeres?

Não há festa sem descontentes. Apre! (Se calhar é ele que vai pagar a boda.)

quarta-feira, julho 16, 2008

Serenity

A Landscape at Sunset (1773)

Claude-Joseph VERNET , 1714 - 1789

terça-feira, julho 15, 2008

O neoliberalismo no seu melhor

A Reserva Federal vai apoiar financeiramente um banco californiano falido - o IndyMac - , assim como duas imobiliárias falidas, reponsáveis por grande parte do crédito imobiliário concedido nos EUA - a Fanny Mae e o Freddie Mac.

Com Estado a colaborar a favor dos interesses dos especuladores financeiros, pagam os contribuintes americanos e ganham os especuladores.

Privatiza-se o lucro e nacionaliza-se o prejuizo. É o neoliberalismo no seu melhor e para exportação.

terça-feira, julho 08, 2008

Navegação de Verão

Dependura o timão, bem lavrado por sobre a lareira
e tu próprio espera que chegue a estação navegável.
Então arrasta a rápida nau para o mar e nela coloca
A carga adequada, para que regresses a casa com lucro.
(...)
Cinquenta dias depois de volver o sol
quando chega ao fim do verão, fadigosa estação,
propícia se apresenta a navegação aos mortais: nem tu o barco
despedaças, nem o mar arruina os teus homens,
se, benévolo, Poséidon ou Zeus, rei dos imortais, os não quiserem destruir,
pois neles se encontra o fim quer de bens quer de males.


Hesíodo, Trabalhos e Dias

domingo, julho 06, 2008

Se isto é socialismo e social-democracia...


Using a population-weighted average for EU-25 Member States in survey year 2004 (income reference year 2003) the top (highest income) 20% of a Member State's population received 4.8 times as much of the Member State's total income as the bottom (poorest) 20% of the Member State's population. This gap between the most and least well-off people is smallest in Slovenia (3.1), Hungary (3.3), Czech Republic (3.4) and the Nordic Member States (3.3–3.5). It is widest in Portugal (7.2), Latvia (6.1), Greece (6.0), Estonia (5.9) and Slovakia (5.8).

European Commission (2007), The social situation in the European Union, 2005-2006, página 35.

O “prestígio nacional”, pelas declarações dos nossos governantes, é de capital importância para o país. Estão preocupados com a nossa imagem. Mas uma imagem para ser credível tem de fundar-se em factos reais, caso contrário, não passará de um simulacro enganador, que com o tempo será desmascarado.

Ora não adianta muito referirem que diminuíram umas décimas as desigualdades sociais entre os 20% mais ricos da nossa população e os 20% mais pobres (considerando o rendimento disponível das famílias reflectido no índice de Gini) e ocultarem que o nosso país ainda é o que regista as maiores desigualdades sociais de entre os 27 estados membros da União Europeia. Mas é exactamente isso que os nossos governantes andam a fazer: ocultam a enorme disparidade preferindo salientar a insignificante redução.

Tal facto não é bom, nem para a qualidade de vida do povo português, nem para o “prestígio nacional”, que tanto os preocupa.

O “prestígio nacional” está estampado nos relatórios internacionais como o Relatório do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas de 2008, ou no Relatório Anual do Banco Mundial, ou ainda no supracitado relatório da Comissão Europeia de 2007, quando neles o país é apontado como o possuidor dos maiores índices de desigualdade entre ricos e pobres na União Europeia. Mas os nossos governantes sabem que o povo tem mais que fazer do que ler relatórios e o facto não parece incomodá-los.

O país da Revolução de 25 de Abril de 1974, volvidos mais de 34 anos de governações sociais-democratas e socialistas, chegou a este estado e não se desenvolve. Argentiniza-se, brasileiriza-se…

sábado, julho 05, 2008

Não há força que sempre dure

Um dia ouvi esta frase proferida pelos lábios de Arafat: “Não há força que sempre dure”. E apetece dizer: nem fraqueza. Mas quando a força se converter em fraqueza e a fraqueza em força, voltaremos à estaca zero, mas em pólos opostos e a história continuará. Quem nos garante que os fracos tornados fortes serão melhores que os actuais fortes então tornados fracos? Enquanto o ódio morar no coração dos homens, bem podem os governantes das superpotências deste mundo apadrinhar acordos de paz entre os beligerantes, com apertos de mão para a fotografia e sorrisos de conveniência. Não haverá paz enquanto o ódio não for erradicado do coração de cada homem.

O problema não se resolve “de cima para baixo”, mas de “baixo para cima”. Infelizmente digo-o muitas vezes, na minha descrença: “Hei-de ser velhinho, ter barbas brancas e andar de cajado, e quando ligar a TV para ver o telejornal, lá me depararei com eles a anunciar a paz nas conferências e a fazer a guerra nas ruas”. Intifadas, muitas! Incitações à paz, milhentas, mas o ódio, esse, grita mais alto.

sexta-feira, julho 04, 2008

A nação do gueto

Mais uma vez o gueto. Agora não à escala do bairro, nem da cidade, mas à escala de um país. O país dos israelitas, a nação do gueto! Das judiarias ao gueto de Varsóvia, de triste memória, e agora ao gueto de Israel, este parece ser o destino dos judeus errantes. E se recuássemos ainda mais no tempo, outros guetos por certo encontraríamos (em Jericó, na Babilónia, no Egipto faraónico…) encerrando este povo que se encerra e que agora impõe guetos aos outros – a faixa de Gaza não é mais do que um gueto...

Mas não sejamos lestos em apontar-lhes o dedo indicador da ignomínia. Na verdade pululam os guetos neste mundo a todas as escalas. Alguns muros invisíveis separam o Norte do Sul (a União Europeia fortaleza, os EUA e o muro que os separa do México, a Austrália rodeada por fossos oceânicos…). A outras escalas materializam-se outros guetos: muros e vedações rodeando condomínios fechados e restritos, onde se aprisionam os ricos e se segregam os pobres, tanto no Norte, como no Sul. Um paradoxo da globalização: à medida que aumenta a mobilidade humana, aumentam os muros e as divisões visíveis e invisíveis, segregadoras, obstáculos a essa nova liberdade de movimentos. Como se o Homem pudesse proteger-se de si mesmo e do contacto com os outros. Como se os muros pudessem conter os bárbaros, no grego sentido da palavra, quando os bárbaros somos todos nós.
P.S. - Outro paradoxo: a nação da diáspora, da dispersão pelo mundo é ao mesmo tempo a nação do gueto, da concentração. Dispersão e concentração reunidas num só destino.

segunda-feira, junho 30, 2008

Mar de Senhoras

Luz da Manhã
Paul Jean Clays (1866)

sábado, junho 21, 2008

Summertime

La plage de Trouville
Monet, 1880-1926


quarta-feira, junho 18, 2008

António de Oliveira Salazar

(poema de Fernando Pessoa, anos 30)

António de Oliveira Salazar.
Três nomes em sequência regular…
António é António.
Oliveira é uma árvore.
Salazar é só apelido.
Até aí está bem.
O que não faz sentido.
É o sentido que tudo isto tem.

Este senhor Salazar
É feito de sal e azar.
Se um dia chove,
A água dissolve
O sal,
E sob o céu
Fica só azar, é natural.
Oh, c’os diabos!
Parece que já choveu…

Coitadinho
Do tiranozinho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho…

Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começaram
A escassear no mercado.

Coitadinho
Do tiranozinho!
O meu vizinho
Está na Guiné
E o meu padrinho
No Limoeiro
Aqui ao pé.
Mas ninguém sabe porquê.

Mas, enfim é
Certo e certeiro
Que isto consola
E nos dá fé.
Que o coitadinho
Do tiranozinho
Não bebe vinho,
Nem até
Café.

(extraído da obra; Fernando Pessoa, Obra Poética e em Prosa, Vol. 1, Lello & Irmão – Editores, Porto, 1986, págs. 578-579.)

Em honra do Dia da Raça!

Raça sim!

Charolesa, mirandesa e barrosã.

Boas carnes.

terça-feira, junho 03, 2008

O desvanecimento da memória, mais uma vez

Por aqui têm desfilado personalidades de vulto, mestres, que nos avivam a memória para o facto de que vivemos actualmente um grande paradoxo: é exactamente no momento em que mais proliferam os suportes mediáticos da memória, que o passado, em particular o mais recente, “o passado público” da época em que vivemos, se obscurece na memória dos homens, principalmente, na dos homens jovens. Vivemos numa espécie de “presente contínuo”, à deriva, sem qualquer vinculação à experiência vivida pelas gerações passadas.

Senhoras e Senhores, Eric Hobsbaw:

A destruição do passado – ou melhor, dos mecanismos sociais que vinculam a nossa experiência pessoal à das gerações passadas – é um dos fenómenos mais característicos e lúgubres do final do século XX. Quase todos os jovens de hoje crescem numa espécie de presente contínuo, sem qualquer relação orgânica com o passado público da época em que vivem. Por isso os historiadores, cujo ofício é lembrar o que outros esquecem, tornam-se mais importantes que nunca no fim do segundo milénio. Porém, por esse mesmo motivo, eles têm de ser mais que simples cronistas, memorialistas e compiladores, embora essa seja também uma função necessária do historiador.

Hobsbawm, Eric, A Era dos Extremos, Editorial Presença, 1996, Pág. 15.

sábado, maio 31, 2008

Numa boa sociedade

Numa boa sociedade, um homem deve (1) ser útil, (2) estar o mais possível protegido contra o infortúnio não merecido, (3) ter oportunidade de livre iniciativa por todos os meios não prejudiciais aos outros.



Bertrand Russell, O Impacto da Ciência na Sociedade, 1967

domingo, maio 25, 2008

O Partido Neoliberal Democrata, o Partido Neoliberal Socialista, o Neoliberalismo e o Quarto Mundo

O Partido Social Democrata sempre foi neoliberal (um neoliberalismo escondido por detrás do chavão “Social”), o Partido Socialista passou a sê-lo após ter colocado o socialismo “na gaveta”. E embora o neoliberalismo seja mais variegado do que pareça, a verdade é que ambos os partidos o advogam, um de uma forma mais pura, o outro de uma forma mais soft. Mas qualquer neoliberalismo, por mais variegado que seja, parte de premissas comuns: a liberalização dos mercados, a austeridade fiscal e a privatização do sector público.

Estas premissas são acompanhadas geralmente por elevados custos sociais e ambientais e por um retrocesso no grau de reconhecimento de determinados direitos de cidadania, em áreas como a segurança social, o apoio no desemprego, no direito a níveis salariais dignos ou à estabilidade no emprego. Esta velha ideologia com novas roupagens, que grassa pelo globo, apoia-se na progressiva retirada do Estado Social, que nos apoiava nos momentos de infortúnio – no desemprego, na doença e na velhice – e deixa o cidadão, nesses momentos, cada vez mais desamparado e abandonado à sua sorte. As sociedades tornam-se menos solidárias e mais egoístas porque se advoga o fim do papel redistributivo exercido pelo Estado. Este deverá ser “emagrecido” – é o lema do “menos Estado, melhor Estado”, levado ao seu máximo expoente. De acordo com os neoliberais, o Estado deverá ter apenas o papel de regulador da economia e da sociedade, interferindo o menos possível no mercado e na vida dos cidadãos. Persistem numa fé inabalável no Mercado e na “sociedade civil” para a resolução de todos os problemas, quando já se percebeu que o Mercado não funciona sem o Estado regulador, porque não existe nenhuma “mão invisível” que o conduza aos carris quando descarrila.

Adopta-se esta ideologia, quando a mesma revela já sinais de decadência noutros lugares. Os EUA, pioneiros na sua aplicação agonizam agora numa crise profunda, e correm o risco de perderem a sua hegemonia mundial, tornando-se em breve num país como qualquer outro, nas palavras do historiador Fernandez-Armesto, em entrevista ao El Mundo, abandonando a sua condição de hiperpotência.

As políticas neoliberais mal conduzidas deram origem a novas formas de pobreza, nos países mais desenvolvidos, e ao aparecimento do Quarto Mundo, que mais não é do que a emergência do Terceiro Mundo no Primeiro. O aparecimento de bolsas de pobreza e o aprofundamento de desigualdades sociais lançam cada vez mais a democracia representativa no descrédito. Afinal quem representam os partidos? A desregulação e a retirada do Estado do Bem-estar Social (welfare state), deu origem a esse Quarto Mundo, onde, nas palavras dos geógrafos espanhóis, Romero e Noguet (2007), se incluem os excluídos do mercado de trabalho, os desempregados de longa duração, os trabalhadores pouco qualificados e com trabalho precário, os idosos não assistidos e com pensões de miséria, os imigrantes não legalizados e explorados por empresários sem escrúpulos, os grupos étnicos marginalizados, os grupos de jovens marginais oriundos de famílias desestruturadas, com claros deficits educativos e sérios problemas de acesso a uma actividade laboral e a casa própria, ante o encarecimento da mesma e a quase total ausência de habitação social. A utopia neoliberal do mercado livre está a levar o Ocidente a uma espécie de brasileirização, ou seja à irrupção, sobretudo em termos do mercado de trabalho, do precário, do descontínuo, do impreciso, do informal, de tal forma que a sociedade típica do Estado de Bem-estar está a converter-se numa “sociedade de risco”, à imagem e semelhança do Terceiro Mundo.

Os partidos que têm alternado no Governo do nosso país, têm progressivamente adoptado políticas neoliberais, com todas as consequências da sua governação a emergirem, em particular, ao nível económico e social – aumento das desigualdades sociais e territoriais (disparidades regionais), da pobreza e do desemprego.

Os candidatos concorrentes à liderança do Partido Neoliberal Democrata (assim se deveria chamar, em vez de Partido Social Democrata), finalmente assumiram essa condição de neoliberais, em particular o candidato mais novo, que com toda a transparência acenou bandeiras neoliberais, e marcou cedo a sua posição nesse campo. Em seu favor está o facto de não ter ocultado essa sua linha de acção política e de a ter assumido claramente. Aparentemente, por arrasto, a candidata menos nova, presumível vencedora, retirou o véu diáfano que cobria o seu pensamento neoliberal e passou também ela a defender, por exemplo, um Sistema Nacional de Saúde (SNS) reformado, ou para dizer a verdade, o fim do SNS, ou um SNS à americana. Um SNS só para alguns, os mais necessitados, ou seja, os mais pobres dos pobres. A maioria, os mais remediados, a classe média (cada vez menos média), os mais abastados e os poucos ricos, mas muito ricos, esses que recorram aos seguros de saúde ou às clínicas privadas. As companhias de seguro e as clínicas e hospitais privados agradecem. A perversidade de tudo isto é que a real preocupação dos candidatos não é com os mais pobres, mas com os possíveis lucros dos lobbies que os apoiam - o ramo segurador e o sector privado ligado a várias actividades económicas, entre as quais a saúde, para não nomear outras. Seguir-se-á a educação, e tudo o mais que possa ser privatizado.

Quanto à maioria dos cidadãos, se querem saúde, educação, circular nas estradas ou simplesmente, beber água, pois que a paguem já que têm posses para isso porque o Estado, esse, já não pode suportar o fardo de sectores despesistas, como o da Saúde ou o da Educação entre outros e por isso quer sacudi-los para o sector privado como quem sacode a água do capote.

Etiquetas