Parece que os homens estão
condenados a não se entenderem. Babel repete-se, vezes e vezes sem conta. O
projecto europeu não é mais do que um edifício babélico, um edifício inacabado
que corre o risco de desabar a qualquer momento. Aliás, o mundo já é uma Babel em
potência: a globalização transformou a Terra numa imensa torre de Babel. Uma
confusão de línguas, culturas e civilizações que se entrechocam como placas
tectónicas em tensão, umas contra as outras. Se a lição bíblica estiver
correcta, então estaremos para sempre condenados ao desentendimento.sexta-feira, março 22, 2013
Condenados ao desentendimento
Parece que os homens estão
condenados a não se entenderem. Babel repete-se, vezes e vezes sem conta. O
projecto europeu não é mais do que um edifício babélico, um edifício inacabado
que corre o risco de desabar a qualquer momento. Aliás, o mundo já é uma Babel em
potência: a globalização transformou a Terra numa imensa torre de Babel. Uma
confusão de línguas, culturas e civilizações que se entrechocam como placas
tectónicas em tensão, umas contra as outras. Se a lição bíblica estiver
correcta, então estaremos para sempre condenados ao desentendimento.Inocentes pelos braços
Gaza. Fotografia do Ano 2013 da World Press Photo. Autor: Paul Hansen
Alepo, 15 de Março de 2013, pai e filho. Autor: Tomada Sebastiano
Islamabad, 20 de Março de 2013. Autora: Zohra Bensemra
Islamabad, 20 de Março de 2013. Autora: Zohra Bensemra
Inocentes pelos braços
Pelos braços transportados,
Pelos braços levados,
Pelos braços abraçados.
Inocentes!
Este é o veredicto do mundo que observa,
Sem querer saber dos culpados.
quinta-feira, março 21, 2013
Porque hoje é Primavera e Dia Mundial da Poesia
Hoje, pleno dia de Primavera e
Dia Mundial da Poesia, deixo aqui um poema que alia o melhor destes dois mundos.
É de um amigo da blogosfera que já não aparece há cerca de cinco semanas, mas
que disse um dia que não nos inquietássemos com a sua ausência, se fosse
demorada, pois provavelmente estaria em viagem e que renasceria na Primavera como a folhagem do jardim e a luz que se
derrama na cidade de Lisboa ao respiro da liberdade.
Primavera
Tudo o que sempre quis foi conhecer
um a um os mistérios do teu rosto
e sem medos nem pressas percorrer
os recantos secretos do teu corpo.
Tudo o que sempre quis foi recolher
ao abrigo seguro do teu porto
e para sempre aí permanecer
sem sombra de pecado ou de desgosto.
E agora que te tenho, Primavera,
quero que sejas minha por inteiro
após longa e dolorosa espera,
pois consegui furar o nevoeiro
e de todo esquecer-me de quem era,
meu amor de raiz, amor primeiro.
Torquato da Luz, Espelho Íntimo
terça-feira, março 19, 2013
Patuleias
Todos nós temos visto homens de noventa anos morrer aos vivas a determinada Patuleia que os fez vibrar. A dita Patuleia já no cisco da História, e eles ainda com aquele sonho no coração!
Caramba! Nunca é tarde para uma Patuleia!
Miguel Torga, Diário II, 3ª edição revista, Coimbra, 1960, p. 131
Caramba! Nunca é tarde para uma Patuleia!
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Citações,
Miguel Torga
domingo, março 17, 2013
sábado, março 16, 2013
O “corralito” cipriota e a Primavera
A questão que cada vez mais se
coloca é a seguinte: para quando uma Primavera Mediterrânica? A continuarem assim
as “políticas de austeridade” e a miopia política dos dirigentes, será apenas
uma questão de tempo. A outra, a Primavera Árabe, começou quando Mohamed
Bouazizi se imolou pelo fogo. Quase todo o sul do Mediterrâneo, de Tunes a Damasco, se agitou e agita ainda nalguns lugares. Só faltava agora que outro fogo de Primavera
alastrasse aos países da margem norte do “Mar no Meio da Terra” pelos quais já
passa a linha de demarcação da pobreza. E assim, num ápice, passámos
do Norte ao Sul do mundo, na geografia flexível da globalização.
Chegaram os "corralitos".
Chegaram os "corralitos".
No bom caminho
“Apesar da revisão em alta dos objectivos do défice e da deterioração acentuada das condições económicas, a implementação do programa "continua no bom caminho", considera a troika no final de uma missão de quase três semanas em Portugal.”
É a "constância na persistência",
diz o ministro Gaspar.
Enfim, isto já nem tragédia é. É
uma trágico-comédia à qual é preciso pôr termo o mais rapidamente possível.
sexta-feira, março 15, 2013
O pensamento económico encurralado
Uma agenda económica para o crescimento, eis a solução, dizem eles (Barroso incluído).
Todos eles. Da direita à esquerda (deixemos agora a hemiplegia moral do Ortega y Gasset). Até a esquerda se deixou encurralar pelo pensamento do crescimento-económico-que-não-vem-e-que-é-preciso-que-venha-para-que-se-gere-emprego. Primeiro crescimento, depois emprego. O crescimento precede sempre o emprego nos discursos dos políticos e da ortodoxia económica vigente. Aguardamos portanto o crescimento que não vem,
como quem aguarda por Dom Sebastião. Eis onde está o actual pensamento económico
encurralado. O mesmo reduto do qual não conseguia sair no final dos anos 20 do
século passado. O resultado é conhecido: a Grande Crise Económica de 1929, com
prolongamento na década seguinte.
Como é que se sai deste reduto de pensamento?
Pois bem, e sem mais delongas: ao invés de uma agenda
económica para o crescimento, é necessária uma agenda social para o emprego. A criação de emprego em primeiro lugar. O crescimento económico
que venha depois.
Na realidade, o grande desafio dos tempos que atravessamos consiste na criação de emprego em contexto de recessão. Soa a quimera, não?! A verdade é que o crescimento
por si só, não é garante de criação de emprego, como muitos nos querem fazer crer.
Houve épocas, na história, em que o crescimento não foi acompanhado
pela geração de emprego. Houve épocas em que foi o emprego o gerador do crescimento.
segunda-feira, março 11, 2013
sábado, março 09, 2013
É uma escola sob uma ponte
Altaf Qadri / AP
Uma escola sob uma ponte. AQUI.Da mesma forma que um antigo general grego afirmou, e bem, que uma cidade são os seus cidadãos, podemos afirmar que a essência da escola são os seus alunos e professores e as relações pedagógicas que entre eles se estabelecem. Ou melhor, a essência da escola é a relação entre quem aprende e quem aprende. Todos aprendem. Aprende-se a aprender e aprende-se a ensinar.
É uma escola sem dúvida. Não é a Escola de Atenas, mas é uma escola. Podia ser à sombra de uma árvore, numa palhota ou numa praia...
Platão, contudo, fundou a Academia num lugar mais aprazível, mais dado à reflexão, numa área arborizada nos arredores de Atenas, junto ao túmulo de Academo.
Já esta escola está muito distante de Atenas, embora exista uma ténue ligação entre elas.
----------------------------------
P.S. - Levado ao extremo, este é o sonho dos neoliberais que nos governam: uma escola livre, sob uma ponte, sem quaisquer custos para o Estado.
O comandante embalsamado
Pobre comandante idolatrado,
O teu corpo, embalsamado,
E não em cinzas cremado
e no Orinoco libertado.
(Como por certo desejarias)
Ou simplesmente, sepultado.
Que gente é esta que idolatra restos mortais
Como se isso importasse mais que imorredouros ideais?
(Que por certo defendias)
Ignaros é o que são!
O teu corpo já serviu
E brilho já não tem.
Será apenas uma imagem,
Exibida à passagem
Numa urna de cristal.
Para sempre exposto num mausuléu
Para consumo de massas e romarias,
E turistas noutros dias.
Para consumo de massas e romarias,
E turistas noutros dias.
É o culto da imagem.
E ainda lhe chamam homenagem...
Triste fado,
O do comandante empalhado.
terça-feira, março 05, 2013
Da legitimidade
As political systems develop, recognition is
transferred from individuals to institutions—that is, to rules or patterns of
behavior that persist over time, like the British monarchy or the U.S.
Constitution. But in either case, political order is based on legitimacy and
the authority that arises from legitimate domination. Legitimacy means that the
people who make up the society recognize the fundamental justice of the system
as a whole and are willing to abide by its rules. In contemporary societies, we
believe that legitimacy is conferred by democratic elections and respect for
the rule of law.
Francis Fukuyama, The Origins of Political Order: From Prehuman Times to the French Revolution, Farrar, Straus and Giroux, 2011, p. 56
Tradução livre:
«À medida que os sistemas políticos se desenvolvem, o reconhecimento é transferido dos
indivíduos para as instituições – ou seja, para regras e padrões de
comportamento que persistem no tempo, como a monarquia britânica ou a
Constituição americana. Mas em ambos os casos, a ordem política é baseada na
legitimidade e na autoridade que brota da dominação legitimada. Legitimidade
significa que as pessoas que compõem a sociedade reconhecem a justiça fundamental
do sistema no seu todo e estão dispostas a respeitar as suas regras. Nas sociedades contemporâneas, acreditamos
que a legitimidade é conferida por eleições democráticas e pelo respeito pelo Estado de Direito.»
***
A legitimidade de um governo
deixa de existir quando se estabelece um estado de excepção infundado aos olhos dos
cidadãos, em detrimento do Estado de Direito, ainda que esse governo se tenha constituído
pela via de eleições democráticas. O desrespeito por direitos e garantias constitucionais por
parte de um governo é motivo suficiente para que se considere que este tenha
perdido a legitimidade.
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Ciência Política,
Política
Uma amabilidade de viagem
Vivemos todos, neste mundo, a bordo de um navio saído de um porto que desconhecemos para um porto que ignoramos; devemos ter uns para os outros, uma amabilidade de viagem.
Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego
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Fernando Pessoa
domingo, março 03, 2013
Mais um importante sinal foi dado.
Manifestação "Que se lixe a troika", Faro.
Seria bom que a troika e o Governo deixassem agora de
tratar os cidadãos com desprezo e cinismo, ou como simples números, quando
anunciam as suas sinistras medidas disseminadoras de desemprego, insegurança e
desespero. Seria bom que atentassem nos sinais. Hoje cantou-se a Grândola Vila Morena. A democracia está
viva e não se limita às urnas. Melhor ainda seria que a troika e o Governo se fossem embora de vez e o Presidente convocasse
novas eleições. Está preocupado com o prestígio nacional? Pois o prestígio nacional
neste momento é irrisório. Ninguém nos respeita lá fora porque não nos respeitamos.
Quem se coloca numa posição de subserviência não se respeita a si próprio e
Portugal encontra-se nessa posição, devido às decisões dos políticos que nos governaram
e governam.
Mas atenção, saiba a troika e o Governo que este povo de “brandos
costumes” que hoje cantou a Grândola
do pacífico Zeca, é também o povo que tem inscrito no seu Hino apelos às armas
e marchas contra elas. Não é um povo tão brando assim, e os historiadores
sabem-no bem.
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