Os instalados pombos, racistas, sedentários, ridículos, manifestam-se contra a andorinha errante.
Pois o mural fica também aqui.
Aqui ninguém o apagará.

Desde a revolução industrial nascida das minas de ferro britânicas, a
metalização da sociedade adquiriu ainda uma nova dimensão. Simultaneamente, a
exploração do interior da terra dá um salto. Nascem então minas gigantescas que
descem até às profundidades mais negras das entranhas da terra. Os mineiros
tornam-se o exército-fantasma da civilização industrial – exploradores explorados;
os operários da siderurgia tornam-se a tropa de elite do ataque capitalista
contra a crosta «avara» da terra. Finalmente, a economia moderna capitaliza
todas as riquezas naturais do subsolo e, por milhões de penetrações, de perfurações
e de extracções, faz avançar a guerra mineralógica contra a crosta da terra
para queimar as riquezas extraídas ou para as transformar em utensílios e em
sistemas de armamento. Quotidianamente, as civilizações industriais condenam à
morte milhões e milhões de seres vivos e milhões de toneladas de substâncias. Nelas se consuma a relação mantida com a terra pelos senhores saqueadores das
civilizações ocidentais.
No «projéctil capaz de pensar», chegámos ao ponto extremo da moderna dissimulação
do sujeito, pois o que se chama sujeito
na época moderna é na verdade esse eu da autoconservação que se está a retirar
passo a passo da vida até ao auge paranóico.
Aquilo que destinámos ao inimigo – a sua aniquilação numa grande
superfície por consumpção, contaminação, atomização -, temos de começar por o
fazer sofrer à própria arma. No fundo, mais não é do que a nossa mensagem para
o nosso adversário, transmite as nossas intenções a seu respeito. Por esta
razão, as armas são os representantes do inimigo no nosso próprio arsenal. Quem
forja uma arma dá a perceber ao seu
inimigo que será tão impiedoso a seu respeito como a respeito da moca, do bloco
de ferro, do obus e da ogiva. A arma é já o adversário maltratado; ela é a coisa-para-ti. Quem
se arma está sempre já em guerra. De facto, esta opera continuamente
segundo alternâncias de quente e de frio e chamamos abusivamente paz à fase
fria. Na óptica do ciclo polémico, a paz significa tempo do armamento, quer dizer, transferência das hostilidades para os metais; a guerra é, por conseguinte, a utilização e consumo dos produtos de armamento; a actualização das armas contra o adversário.
A queda do homem não apagou de uma penada todos os vestígios do Jardim do Éden. Os viajantes do século XVIII sucumbiram a uma espécie de ilusão
premeditada quando pensaram ter encontrado raças humanas inocentes no paraíso
dos Mares do Sul ou nas florestas do Novo Mundo. Mas as suas idealizações
tinham uma certa validade. Os homens primitivos, que existiam, por assim dizer,
fora da história, seguindo usos sociais e mentais dos primórdios e possuindo
uma certa intimidade com as plantas e os animais, encarnavam efectivamente uma condição mais natural. O seu divórcio
cultural com a natureza ocorrera evidentemente centenas, milhares de anos
atrás, mas fora menos drástico que o do homem branco: em termos mais precisos,
os seus usos culturais, os seus rituais, mitos, tabus, técnicas de recolha de
alimentos eram calculados para aplacar a natureza, para confortá-la, para viver
com ela, para tornar a divisão entre natureza e cultura em algo menos violento,
menos dominante.