Enquanto a lua azul não vem, jogo de sombras.
Ericeira, 2017 © AMCD
Um dos lugares mais frescos de Portugal para escapar à canícula, descoberto agora pelos ricos.
O mundo não está bem.
Raramente, nas últimas décadas, esteve tão perto de abismos diversos.
António
Barreto, aqui e no Público de hoje
Quem luta com monstros deve velar
para que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se olhares,
durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti.
Nietzsche
Abismos diversos. Temos o abismo nuclear, o abismo climático, o abismo demográfico,
o abismo económico e financeiro (as crises geradoras de desemprego e miséria), o
abismo sanitário (virológico e bacteriológico, pandémico), o abismo político (a ascensão dos regimes autoritários) e mais algum abismo que nos escapa ou, pior, que desconhecemos, como o peru do Dia da Acção de Graças que nem suspeita o que lhe vai acontecer, tão bem tratadinho que é.
Caminhamos numa senda perigosa e estreita, rodeada de abismos. Não sabemos como estaremos quando sairmos daqui, ou se iremos sequer sair daqui.
E o que acontece quando nos pomos a mirar os abismos mais
profundos, ali, até onde a vista alcança e se perde no negrume? Ouvimos soar do fundo uma ameaça aterradora. Um rugido gutural, nunca ouvido. O fim.
O melhor é atalhar caminho e estugar o passo, sem olhar para trás.
Há momentos em que o Kitsch se pode tornar uma coisa nauseabunda e é difícil imaginar que a própria hierarquia da Igreja não reconheça e não se sinta incomodada por ela.
António Guerreiro
"Deus ex Media", Ipsilon, Público, 11 de Agosto de 2023
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O que é a Igreja afinal, senão a primeira multinacional do mundo, com as suas sucursais implantadas desde cedo em todos os continentes, à excepção da Antárctida. Os seus serviços religiosos têm de ser promovidos de modo a serem empacotados e vendidos em todo o lado. Vive por isso bem com o kitsch.
Paulatinamente, e só dessa forma, a Igreja, com a sua inércia temporal, vai-se ajustando lentamente à rápida mudança social imposta pelas agendas progressistas. Também ela muda, sob pena de, se não o fizer, não conseguir vender os seus serviços, independentemente da vontade de Cristo (que expulsou os vendilhões, uma espécie de mercadores, do templo). Se a Igreja é a esposa de Cristo, então é uma esposa emancipada e empoderada que não precisa da anuência do marido para ir mais além. Nada que não soubéssemos há muito.
Todos os dias nasce um sol novo. (Heraclito)
Ninguém pode regressar ao lugar onde já esteve. A cada microssegundo deixamos de ser quem éramos. A cada microssegundo somos já outro e assim é com todos os lugares. Assim é com o Sol. Ninguém volta ao que já deixou. Esta é a mensagem da cantiga do pastor.
Pastor
«Ai que ninguém volta
Ao que já deixou
Ninguém larga a grande roda
Ninguém sabe onde é que andou
Ai que ninguém lembra
Nem o que sonhou
Aquele menino canta
A cantiga do pastor»
De
facto, é impossível fugir ao kitsch,
procurando refúgio na religião, quando a própria religião é kitsch. A
«modernização» da Missa católica e do Livro de Oração anglicano foi, na verdade, um processo de kitschificação; e as intenções da arte litúrgica estão,
hoje em dia, contaminadas pela mesma efemeridade. As cerimónias litúrgicas
comuns das igrejas constituem um testemunho confrangedor de que a religião está
a perder a sua orientação puramente divina, e a converter-se ao mundo da
produção em massa.
Roger Scruton (1998)
A Cultura Moderna, Edições 70, 2021 pág. 125 (destaques nossos)
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Hoje
temos uma religião pop, missas pop, Papa pop, bispos pop,
cardeais pop, os portugueses, burgueses até ao tutano, tolentinos &
aguiares. A aparição do Papa, em qualquer lugar, é celebrada como uma
efemeridade, um grande evento de marketing religioso. Esta é a Era do
Mercado, que tomou conta de tudo.
A Inquisição oficializada principalmente a partir da Contra-Reforma
prolonga-se até ao século XIX em Portugal. O Pombalismo terá também essa faceta
inquisitorial bem patente na sua polícia específica, assim como as décadas de
vigilância fascista no século XX, ou, embora com aspectos bem distintos, o Estado
democrático exerce também o controlo quase absoluto da sociedade nos últimos 50
anos.
A Inquisição transformou-se num modelo mental e estruturou de modo profundo o nosso plano de comportamentos, as dimensões morais e até judiciais.
João Maurício Brás, O Atraso Português,
Guerra e Paz, pág. 140
Cumpre-se por obediência e medo, na maior parte das vezes
irracional, não por respeito ou por se considerar que seguir determinado
caminho é o mais correcto e eficaz. Mexericos e bisbilhotices, a má-língua no
trabalho e na vizinhança, a pequena calúnia, são vestígios de uma cultura de
resquícios inquisitoriais.
João Maurício Brás, O Atraso Português,
Guerra e Paz, pág. 129
Continuamos a construir os nossos panópticos sociais sob a égide da governação do Partido Socialista.
Temos agora um Portal da Delação, digo, Portal da Denúncia (procedimento muito socialista e até nacional-socialista ou estalinista).
Maravilhoso mundo novo. Aos poucos a liberdade e a privacidade vão perdendo território para o controlo social. Que ideia maravilhosa essa a de os cidadãos controlarem os cidadãos.
Suspeito que alguns de nós têm no seu DNA um gene mais desenvolvido: o gene inquisitorial. Em Portugal a Santa Inquisição durou até ao século XIX. Um período tão prolongado de controlo das ideias não poderia deixar de marcar a genética social e a de muitos portugueses.
Com o Portal da Denúncia, far-se-á da pequena calúnia grande. Como a imagem sugere, o pequeno caluniador tem agora um altifalante para se fazer ouvir. Para nosso bem e com cobertura governamental.
A soberba desta gente. Nem se dão conta. Na sua cabeça o mundo pode perfeitamente ser dividido em dois, qual novo Tordesilhas. “O mundo é suficientemente grande para os EUA e a China”. É traçar um meridiano para que não se atropelem na sua hegemonia sobre os demais. Que grandes que eles são.
«Me marché con el puño cerrado… Vuelvo con la mano abierta.»
RA
«Balada para los poetas Andaluces de hoy»
¿Qué cantan los poetas andaluces de ahora?
¿Qué miran los poetas andaluces de ahora?
¿Qué sienten los poetas andaluces de ahora?
Cantan con voz de hombre, ¿pero dónde los hombres?
Con ojos de hombre miran, ¿pero dónde los hombres?
Con pecho de hombre sienten, ¿pero dónde los hombres?
Cantan, y cuando cantan parece que están solos.
Miran, y cuando miran parece que están solos.
Sienten, y cuando sienten parece que están solos.
¿Es que ya Andalucía se ha quedado sin nadie?
¿Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?
¿Que en los mares y campos andaluces no hay nadie?
¿No habrá ya quien responda a la voz del poeta?
¿Quien mire al corazón sin muros del poeta?
¿Tantas cosas han muerto que no hay más que el poeta?
Cantad alto. Oiréis que oyen otros oídos.
Mirad alto. Veréis que miran otros ojos.
Latid alto. Sabréis que palpita otra sangre.
No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo
encerrado. Su canto asciende a más profundo
cuando, abierto en el aire, ya es de todos los hombres.
Rafael Alberti.
De: «Ora marítima» – 1953
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Balada para os poetas andaluzes de hoje
Que cantam os poetas andaluzes da agora?
Que olham os poetas andaluzes da agora?
Que sentem os poetas andaluzes da agora?
Cantam com voz de homem, - mas onde estão os homens?
Com olhos de homem olham, - mas onde estão os homens?
Com peito de homem sentem, - mas onde estão os homens?
Cantam e quando cantam parece que estão sós.
Olham e quando olham parece que estão sós.
Sentem e quando sentem parece que estão sós.
Será que a Andaluzia está já sem ninguém?
Nos montes andaluzes não haverá ninguém?
Nos mares e campos andaluzes não haverá ninguém?
Não haverá já quem responda à voz do poeta?
Quem olhe o coração sem muros do poeta?
Tantas coisas morreram que não há mais que o poeta?
Catai alto. Ouvireis que ouvem mais ouvidos.
Olhais alto. Vereis que olham outros olhos.
Pulsai alto. Sabereis que palpita um outro sangue.
Não é mais fundo o poeta em seu subsolo escuro
encerrado. Seu canto ascende mais profundo
quando, aberto, no ar, é de todos os homens.
Rafael Alberti (trad. por José Bento)
Antologia da Poesia
Espanhola Contemporânea, Assírio e Alvim, 1985
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ᴪ ᴪ ᴪ ᴪ ᴪ
O fim é certo como o destino.
O Douro
Não é a tristeza que encontro
Quando caminho pela margem
Do Douro, no Porto.
O seu vinho, as suas gentes e os verdes olhos das minhotas,
Aquecem-me o coração.
Nem o céu plúmbeo
Me pesa.
Ali consigo esquecer a dor.
Como um ópio que me invade o corpo,
Uma aguardente.
Esqueço tudo,
Até a solidão.
No píncaro do território de Portugal Continental jazem duas torres degradadas e uma promessa recente: “Investimento de €30 milhões cria um observatório, residências científicas, áreas comerciais e um teleférico para ligar três aldeias do maciço central”. Assim reza o subtítulo da notícia do semanário Expresso. Reparai no tempo do verbo criar. Deveria ler-se “criará” ou “irá criar”. Não! A coisa já está feita!
Eis o expoente máximo de um país, num dos seus lugares mais simbólicos: degradação e promessas.
Amanhã é que é.