sexta-feira, outubro 05, 2012

O último Dia da República?


E não nos venham agora dizer, que é Dia da República sempre que o homem quiser.

Aí está o Dia da República, pela primeira vez na sua história, comemorado à porta fechada. Os representantes do povo de costas viradas para o povo. Bonito. Que os vejam pela TV. E o primeiro-ministro ausente, em plena viagem fugidia, foge do povo, da República, foge da República no último Dia.

Bom seria que em resposta, à mesma hora que lá dentro se engalanassem os discursos, o povo, cá fora, na Praça do Município, montasse palanque, e quem quisesse, livremente, da multidão ao palanque subisse, e fizesse o seu discurso laudatório e sorrisse.

Que se gritassem mil vivas à República!

quarta-feira, outubro 03, 2012

A verdadeira magnitude do problema


Os rendimentos do trabalho, entre outros, continuam a ser sugados, como se confirmou hoje, mais uma vez. Essa subtracção com origem na expansão descontrolada da super-bolha especulativa de 2008 – um autêntico buraco negro criado inadvertidamente pela especulação financeira na qual se envolveram os bancos e outras instituições financeiras, arrastou atrás de si, inicialmente, os “fundos de pensões dos trabalhadores, as poupanças das famílias, as primeiras e segundas amortizações e as reservas bancárias” (Edward Soja, 2009). O capital financeiro desbaratado na economia de casino especulativa superou então, em valor, a soma do PIB de todos os países do planeta. E é esta a verdadeira magnitude do problema. Esta é a razão de fundo pela qual são cada vez mais atingidos os salários e outros rendimentos gerados na economia real assim como as pensões. Tudo é sugado para esse buraco negro, pois os bancos e as instituições financeiras precisam recuperar as suas perdas. Contudo, o buraco é demasiado grande e é por isso que esta história não acaba aqui…

 Aguardemos os próximos capítulos.

Abaixo traduz-se um excerto de um texto de Edward Soja (2009), sobre a verdadeira magnitude do problema (optou-se por inserir depois o excerto original, pois a tradução pode conter sempre imperfeições, pelo que se sugere a consulta do original).

Diz então Edward Soja (2009):

«O que aconteceu em 2008 girou em torno desta versão enormemente expandida e distorcida do capital financeiro, melhor definido através do acrónimo largamente usado FIRE – “Financial services, Insurance and Real Estate” (serviços financeiros, seguros e imobiliário). A contribuição do sector FIRE para o produto interno bruto e para o emprego geral, cresceu a uma taxa extraordinária nas últimas três décadas, contudo o seu de desenvolvimento para lá dos limites normais da economia real foi ainda mais extraordinário. A “bolha” da economia baseada no crédito foi-se insuflando com triliões de dólares agravada com valores de troca fictícios na forma de “hedge funds, credit default swaps, private equity funds” e outras formas electronicamente recicladas de dinheiro e crédito. A actividade bancária tradicional, a qual tinha sido tão drasticamente reestruturada e reorganizada ao longo dos últimos vinte anos ao ponto de tornar-se quase irreconhecível, foi absorvida pela bolha em expansão a qual se tornou muito maior do que a combinação de todos os produtos internos brutos de todos os países da Terra.
Os fundos de pensões dos trabalhadores, as poupanças das famílias, as primeiras e segundas amortizações e as reservas bancárias – qualquer fonte de capital, ainda não absorvida pelos investimentos de alto risco, foram sugados por esta super-bolha virtual e desregulada dos serviços financeiros, seguros e imobiliário. A ideologia neoliberal, posta em prática nos anos Tatcher-Reagan e acelerada nas últimas duas décadas, espalhou o evangelho da privatização, da desregulação, do “pequeno” governo, [o que abdica da sua função de estado social ou apoio social], da magia do mercado em quase todo a parte no mundo, facilitado pela revolução das tecnologias de informação e comunicação, transmitido através da globalização do capital, do trabalho e da cultura, e mantido por exércitos ideológicos de spin doctors. Quase toda a gente acreditou. Afinal, a palavra “crédito” deriva da palavra latina credo, ou seja, “acredito”.»

Edward Soja, “Resistance after the Spatial Turn” in
Jonathan Pugh (Edit.), What is Radical Politics Today?, Palgrave Macmillan, 2009, pág. 70-71

(traduzido por AMCD, os sublinhados são nossos)

Segue-se o original:

terça-feira, outubro 02, 2012

Eric Hobsbawm

Eric Hobsbawm (1917-2012)

Outro Mestre que parte (partiu ontem). O da Era dos Extremos e doutras Eras que estudou e que nos deu a conhecer. Era o melhor historiador britânico da actualidade. Metia o Sr. Niall Ferguson no bolso. Marxista. Para Hobsbawm a Era dos Extremos teve origem em 1914 e cessou em 1991. O eclodir da Iª Guerra Mundial e o fim da URSS eram os marcos que limitavam o século XX de Hobsbawm. Quais cem anos?!

Neste blogue Hobsbawm já nos tinha servido de inspiração. AQUI.

Que descanse em paz.

domingo, setembro 30, 2012

Enquanto dormimos vamos sendo despojados


«à vista de um país que ardeu como nunca, atiçado pelos eucaliptais, pretende [o Governo] abrir às celuloses as zonas de Reserva Agrícola Nacional, que elas há tanto tempo cobiçam; e que se prepara para, de forma cobarde e sinuosa, entregar a Reserva Ecológica Nacional à especulação imobiliária, começando por dispersar a respectiva lei por várias outras leis (cada uma das quais abrindo excepções e alçapões à medida), e por dispensar de autorização, para já, as “pequenas construções” de “apoio agrícola” e etc. (o que rapidamente se traduzirá em golfes, aldeamentos turísticos, juro-vos eu).»

Miguel Sousa Tavares, “Yale, Campo de Ourique”, Expresso, 29 de Setembro de 2012

Na sanha de tudo vender, tudo privatizar, tudo tornar mercadoria, o Governo vira-se agora para as reservas de território que permaneciam relativamente incólumes e protegidas da voracidade da especulação: a reserva agrícola nacional e a reserva ecológica nacional. O território que se reservava à agricultura e ao ambiente é agora entregue aos amigos das celuloses e aos dos campos de golfe. Um verdadeiro governo ao serviço das grandes interesses empresariais e especulativos, contra os cidadãos, avança com a neoliberalização do território, de forma cobarde e insidiosa.

sexta-feira, setembro 28, 2012

quinta-feira, setembro 27, 2012

Afinal há uma ministra...


Uma ministra que ainda escapa no meio da desgraça geral que nos governa. Dizem que é populista? Não creio. É verdade! Tem razão! A impunidade tem de acabar. Na verdade afirma que “a impunidade na justiça terminou”. A ver vamos. Que não se esqueça do caso dos submarinos.

Aqueles que, por mais do que incompetência, enquanto governantes, trataram de fazer acordos ruinosos para o país, em benefício próprio ou dos seus partidos e em prejuízo dos contribuintes, devem ser julgados por isso. É preciso traçar bem a linha entre a responsabilidade política e a responsabilidade criminal. 

Quem nos governa não tem carta branca para assumir todo o tipo de acordos ruinosos em nosso nome ou em nome dos vindouros. Estamos hoje todos a pagar por essas “incompetências”.

Qual Portugal?

Se há algum período da história de Portugal que se assemelha ao actual momento do país (qual país? pobre país?), não tenhamos dúvidas, é o do domínio filipino, esse entre 1580 e 1640, quando Portugal não era Portugal, era outra coisa qualquer, uma região dum vasto império onde o Sol nunca se punha. Vem agora o Sr. Primeiro-ministro traçar paralelos entre o nosso tempo e o tempo do Gama, quando o navegador começava a sentir os ventos favoráveis que impeliam paulatinamente as suas naus em direcção à Índia, mesmo contra a corrente dominante. Tenha juízo. Os ventos são mais do que desfavoráveis e sopram no mesmo sentido da corrente avassaladora da crise internacional do capitalismo. Empurram-nos para o abismo. Este Governo dá mostras de que não sabe bem para onde vai, e, como nos diz o grande Séneca, velho mestre estóico: não há ventos favoráveis para quem não sabe para onde vai. O fim de Portugal, enquanto país livre e independente, já foi. Mas muita gente ainda não se deu conta? Isto já não é Portugal, é outra coisa qualquer.

Agora precisamos, isso sim, de restaurá-lo, como tão bem sabemos fazer, mas para tal é preciso aguardar pelo tempo certo. Acabaremos também por ter os nossos defenestrados. É uma questão de tempo.

terça-feira, setembro 25, 2012

No lugar certo, na hora certa


Do ponto de vista do alligator, entenda-se.

domingo, setembro 23, 2012

Por favor, parem de nos lançar areia para os olhos!


Quando alguém propõe uma maior tributação fiscal do capital, por uma questão de maior justiça e equidade fiscal e social, aparecem logo os comentadores do costume, como o professor Marcelo Rebelo de Sousa hoje na TVI, sugerindo que, nesse caso, seriam abrangidas as contas a prazo do comum dos portugueses, como se essas contas fizessem parte do capital que se quer tributar. E, dessa forma, lançam areia para os olhos de muita gente.

É bom que se clarifique o que se entende por capital a taxar nas propostas que estão a ser colocadas em cima da mesa. Não são as contas a prazo. Não nos deixemos enganar. São as transacções financeiras e os dividendos dos accionistas.

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