quarta-feira, fevereiro 27, 2013

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Cristiano Ronaldo e Sérgio Ramos em corrida triunfal, após mais uma estocada no touro catalão.

Barcelona: 1  - Real Madrid: 3 (Taça do Rei)

Curiosas as expressões dos rostos.

Ao fundo, um adversário (Puyol) contempla a bola dentro da baliza, incrédulo, enquanto outro (Busquets) chega já tarde.

Já nada podem fazer. CR afasta-se rapidamente, eufórico, triunfante, terrível...

Um herói dos nossos tempos.

Um Aquiles dos relvados.

sábado, fevereiro 23, 2013

Poupanças!


Talvez tenha passado despercebida a mudança quase imperceptível e delicada no discurso, habitualmente cínico, do Ministro das Finanças: agora já não são cortes, são poupanças. As poupanças das finanças. As nossas gastanças.

Disse agora Gaspar que, face à inesperada derrapagem no PIB (mais uma), está considerar a aplicação de medidas para controlo da execução orçamental. Segundo o ministro “a composição destas medidas será uma combinação de poupanças em execução orçamental ao longo de 2013 com os efeitos das poupanças orçamentais estruturais e permanentes decorrentes do processo de reforma do Estado".

Pois está claro! Não são cortes, são poupanças! Mais de 800 milhões de poupanças! Poupanças que não seriam realizadas se estas derrapagens (outro eufemismo) não tivessem ocorrido. Benditas derrapagens que permitem tão gordas poupanças.

Venham mais derrapagens que queremos poupanças.

Grande Gaspar! Tanta competência até já aborrece.

P.S. – No Expresso de hoje, já se anuncia que a “Recessão engoliu o plano B de Vítor Gaspar”, na página 8 do primeiro caderno. Aguardam-nos mais poupanças, portanto.

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E será que Manuela Ferreira Leite já deu com a "espiral recessiva"? Mas o que é a “espiral recessiva”? E a Ongoing? O que é a Ongoing?

E a retoma? Para quanto a retoma? Não era em 2013?

quinta-feira, fevereiro 21, 2013

Já não é o povo quem mais ordena, mas há ainda quem o cante.

Por vezes invade-nos uma sensação de déja vu. Parece que voltámos ao marcelismo, quando os estudantes se agitavam nas universidades e na rua se formavam pequenas manifestações espontâneas contra um regime que tendia para o autismo. Mais além cantava-se já o Grândola Vila Morena. Prelúdios de uma revolução. Vivia-se uma paz podre e o regime acabou por cair surpreendido (meses antes, consta, houvera um sinal - falso, sabemo-lo agora - de largo apoio popular). Mas os capitães de Abril tiveram de dar-lhe o último empurrão. E tudo se desfez em escombros. Sem este último abalo não teria havido revolução.

Mas é apenas uma sensação de déja vu. Hoje os tempos são outros e novos. O Governo tende para o autismo e a democracia dá sinais de enfraquecimento com o reforço do poder de elementos antidemocráticos no seu seio. O país perde soberania, o que significa que é o povo que perde soberania.

Por outras palavras, já não é o povo quem mais ordena. Mas há ainda quem o cante.

Quem mais ordena nos dias de hoje? O Governo? Merkel? Os mercados? O que escondem os mercados? Que rostos se escondem por detrás dos mercados? Que poderes e poderosos? Quem são os global players que determinaram o teu desemprego, ó Zé? Muito provavelmente os mesmos que vão determinar o meu.

E o que vamos fazer quanto a isso?

terça-feira, fevereiro 19, 2013

Yerevan e Ararat

Photograph: Maxim Shipenkov/EPA

domingo, fevereiro 17, 2013

Terá o Papa abandonado a cruz?

REUTERS/ANSA/ALESSANDRO DI MEO

Agora que a poeira assentou, a excepcional situação criada pela resignação do Papa levanta um conjunto de questões sensíveis, em particular, aos católicos. Logo após a resignação do Papa pelos motivos que se conhecem, ouviram-se vozes enaltecendo o acto, como sendo um feito corajoso e perfeitamente aceitável, dadas as circunstâncias pessoais (físicas) em que o Santo Padre se encontra. Poderíamos dizer contudo, que coragem seria o Papa ficar no seu lugar até à morte, não obstante o seu sofrimento. A verdade é que nunca, nos últimos 598 anos, um Papa abandonou a sua cruz. A verdade é que a Paixão de Cristo encerra a mensagem de que cada um tem a sua cruz para carregar, que o Salvador carregou a dele (nas palavras do filósofo Miguel de Unamuno, na sua obra Do Sentimento Trágico da Vida). Que viver também é sofrer*. Assim, esta abdicação não deixa de ser um sinal de grande fraqueza e crise no seio do catolicismo. Por isso se compreende a pressa dos sacerdotes em normalizarem uma situação irregular e que só enfraquece a Igreja.
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(*) Consta que, num suposto certame, Homero foi questionado relativamente à melhor coisa que poderia acontecer aos mortais, ao que o Poeta respondeu que “o melhor para os mortais que habitam sobre a terra é não nascer; mas tendo nascido, ultrapassar sem demora os portões do Hades.” (Já aqui fizemos referência a esta questão). O que queria dizer Homero com tão desgraçada resposta, que não o favoreceu no referido certame? Que viver implica sofrer e depois morrer, e que, quanto menor for a duração da vida, menor será o sofrimento. É um ponto de vista difícil de aceitar nos nossos hedónicos tempos, mas assim é. Viver implica carregar com essa cruz do sofrimento. Ora o Papa não morreu, mas alijou a sua carga ao descer da cruz. Porém, do ponto de vista de um católico, não se pode descer da cruz. Ou por outras palavras, não é lá muito católico descer da cruz.

Quanto à cruz da Igreja, outro a carregará, pois em breve teremos Papa, mas fica sempre a questão relativa ao exemplo do Papa que abandonou a cruz  antes do momento habitualmente determinado por Deus – o momento da morte. Terá o Papa contrariado os desígnios de Deus ao resignar por decisão pessoal e portanto, por decisão humana? Ter-se-á o Homem antecipado a Deus?

Consta que já relampejou na alta cúpula da basílica de São Pedro. Estará Deus zangado?

Entretanto na Síria



Entretanto na Síria, os morteiros continuam a semear a morte. Volvidos dois anos de revolução morreram cerca de 70 000 pessoas de ambos os lados, noticia a BBC. Quantas mortes poderiam ter sido evitadas se o ditador tivesse resignado a tempo de evitar o recrudescimento do conflito? A violência contra os primeiros manifestantes fez as suas primeiras vítimas, e a partir daí cresceu como uma bola de neve. Eis a prova mil vezes repetida de que a violência gera violência. O ciclo só pode ser parado com a cedência de uma das partes ou a derrota militar de uma delas, o que não se adivinha para breve.

Curiosamente parecemos estar a assistir ao tipo de guerras quentes comuns no tempo da Guerra Fria, quando as superpotências se furtavam ao conflito directo entre si. O Bashar tem atrás de si o apoio da Rússia, da China, do Irão, etc. e os rebeldes, o apoio do Ocidente e da Turquia.

Quem sofre? O povo sírio.

sábado, fevereiro 16, 2013

Delichon urbicum


Este ano chegaram cedo. Ontem avistámos as primeiras andorinhas-dos-beirais do ano, vindas de África. Hoje vimo-las atarefadas em Cabanas de Tavira, na construção dos ninhos. 

Anunciam a aproximação da Primavera. Ficarão até ao fim do Verão.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Talvez o maior saque da história, a seguir ao resgate de Atahualpa


David Landes na sua magnífica obra, A Riqueza e a Pobreza das Nações, narra o destino do Madre de Deus, um navio português do tempo em que a Ibéria era hiperpotência:


«Os Romanos tinham um aforismo, Pecunia non olet – “O dinheiro não cheira”. As pessoas podem não gostar do modo como ele é arranjado ou da pessoa que o conseguiu, mas gostam do dinheiro e irão aceitá-lo.
Num outro sentido, porém, o dinheiro cheira fortemente e o seu odor atrairá gente de toda a parte.

Em 1592, a Inglaterra estava em guerra contra a Espanha e Portugal, que, como já vimos, fora unido à coroa espanhola pelo jogo do casamento e da herança. Cerca de quatro anos antes, os Ingleses tinham repelido uma invasão espanhola e puseram a pique as embarcações inimigas (a pretensa Armada Invencível). Agora, uma esquadra inglesa estava a postos ao largo dos Açores para interceptar e capturar navios espanhóis provenientes do Novo Mundo, talvez carregados com tesouros do México e do Peru, quando lhe surgiu uma carraca portuguesa. Era a Madre de Deus, de regresso da Índia e que rumava para Lisboa.
Era maior do que qualquer navio em que os Ingleses já tivessem posto os olhos: 165 pés de comprimento, 57 pés de boca, 1600 toneladas, três vezes o tamanho da maior embarcação existente na Inglaterra; sete cobertas, 32 canhões e outras armas, superstrutura em talha dourada; e porões repletos de tesouros.
Ali estava a matéria-prima dos seus sonhos - arcas abarrotadas de jóias e pérolas, moedas de ouro e de prata, âmbar mais velho do que a Inglaterra, peças do mais fino tecido, tapetes dignos de um palácio, 425 toneladas de pimenta, 45 de cravo-da-índia, 35 de canela, 3 de macis, 3 de noz-moscada, 2,5 de benjoim (resina balsâmica, altamente aromática, usada como base para perfumes e preparados farmacêuticos), 25 de cochinilha (corante feito dos corpos secos das fêmeas de um insecto encontrado em climas semitropicais), 15 de ébano. Mesmo antes que o comandante da esquadra inglesa pudesse tomar a presa a seu cargo, a sua alvoroçada tripulação já tinha atulhado os bolsos com tudo o que era possível.
Quando o navio apresado entrou no porto de Dartmouth, destacou-se muito para além dos outros navios e dos telhados das pequenas casas ao longo do cais. Comerciantes, correctores, vigaristas, batedores de carteiras e ladrões surgiram de muitos quilómetros em redor, vindos até de Londres e de mais longe, atraídos como abelhas para o mel - para visitar o barco (os pescadores locais trafegaram incessantemente, e por alto preço, entre o barco e a margem) e procurar marinheiros bêbados nas tabernas e espeluncas, com a intenção de comprar, roubar, furtar e saquear a presa. Pela lei Inglesa, uma grande parcela dos bens apreendidos era devida à rainha e, quando Elizabeth soube o que estava a acontecer, mandou Sir Walter Raleigh até lá para resgatar o seu dinheiro e punir os saqueadores. «Tenciono deixá-los tão nus como estavam ao nascer», prometeu o valente Sir Walter, «pois Sua Majestade foi roubada e das mais raras e valiosas coisas».
Quando Sir Walter ficou senhor da situação, um carregamento avaliado em meio milhão de libras - quase metade de todo o dinheiro do erário - tinha sido reduzido a 140 000 libras. Mesmo assim, foram necessários dez cargueiros para transportar o tesouro, contornando a costa e subindo o Tamisa até Londres. Depois do resgate de Atahualpa, este foi talvez o maior saque da história. Esse naco de fortuna, essa prelibação das riquezas do Oriente, galvanizaram o interesse inglês por essas terras distantes e colocaram o país (e o mundo) num novo rumo.
Os Ingleses aprenderam outra lição com o Madre de Deus. Quando, alguns anos depois, um rico navio apresado foi conduzido ao Tamisa para ser descarregado, os homens que executaram a tarefa receberam como roupa de trabalho “gibões de tela sem bolsos”».

David Landes, A Riqueza e a Pobreza das Nações, Por que são algumas tão ricas e outras tão pobres, 6ª ed. Gradiva, 2002, pp. 165-167

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Curiosamente o subtítulo da obra “Por que são algumas [nações] tão ricas e outras tão pobres” acaba por ser muito bem elucidado no trecho acima. Tudo se baseia na guerra, no comércio, no roubo, no furto e no saque. E assim se fez a glória dos impérios.

O saque prossegue entretanto, assumindo novas formas, mantendo porém a sua velha essência.

E assim se constroem as riquezas e as pobrezas do mundo.

Mas no que nos toca, tem a palavra Fernando Pessoa n’Os Colombos:

Os Colombos


Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.

Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.

Fernando Pessoa, Mensagem

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

É o Governo, estúpido!


Há quem se refira ao Estado quando se deveria referir ao Governo e vice-versa. Será que nos querem confundir ou estão confundidos? Isto chega a acontecer até com ex-governantes (refiro-me a F.J.Viegas, aqui), que apontam o dedo ao Estado, quando consideram absurdas certas medidas legislativas com origem no Governo.

Diabolizam assim o Estado quando deveria ser o Governo o visado. Parecem ignorar que existe uma diferença entre Estado e Governo.

Vem isto a propósito de uma medida legislativa, considerada absurda por muito boa gente, que obriga os consumidores à solicitação de factura no acto de qualquer compra, correndo o risco de serem multados se, no caso de interpelação por um "senhor da Autoridade Tributária e Aduaneira", os consumidores não fizerem prova do pedido da factura.

Parece que a polémica tem origem nas alterações ao Código de IVA decretadas pelo Governo no Decreto-Lei n.º 197/2012. Ora é um Decreto-Lei, e como tal, trata-se de um acto legislativo com força de lei, elaborado pelo Governo (quem tiver dúvidas consulte aqui o Priberam). Pelo Governo, entenderam bem?!

Portanto meus senhores (ex-governantes incluídos), se não vos agradam as medidas legislativas emanadas do Governo, não culpem o Estado por isso. Estão a falhar o alvo. Ou será que é de propósito?

Alguns liberais da nossa praça são tão lestos a atacar o Estado que até se esquecem, talvez convenientemente para eles,  que a responsabilidade é do Governo, no que se refere à idiotia das decisões tomadas.

Parece ser caso para dizer: é o Governo, estúpido!
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P.S. - Peço desculpa por utilizar tantas vezes e de forma redundante a palavra "Governo", mas talvez dessa forma a dúvida fique esclarecida de uma vez por todas.

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