Os ocupantes que têm logo à partida o objectivo de dominar e explorar criam inevitavelmente um inferno à superfície da Terra.
Norman Davies, A Europa em Guerra, 1939 - 1945, Edições 70, pág. 323
Rentes cometeu um sacrilégio. Esse, o de juntar numa só
frase, as palavras “refugiado” e “terrorismo”. O sacrilégio de pensar pela sua própria cabeça. O sacrilégio de considerar o “politicamente correcto” uma obnubilação aos que ousam exprimir livremente um pensamento claro e limpo, livre de
conspurcações ideológicas e modas correntes.
Ontem, 18/11/2016, António Guerreiro escreveu
no Público uma das suas interessantes
opiniões, agora contra os que usam o discurso da crítica das “elites”, sem que
precisem com rigor de que elites se tratam. “Que elites são essas tão vagamente nomeadas?”, questiona ele, e refere que “Não é possível saber [que elites são essas], nem há nada a saber, porque este discurso [o da crítica das elites] tem o objectivo de uma palavra de ordem, um refrão, que nada diz de substancial, mas chama a atenção sobre quem o profere.”
Mais adiante esclarece-nos que “a palavra “elite” de origem francesa, incorpora a originária raiz do verbo latino eligere, escolher”.
Tudo começou quando se cantava uma
Nova Ordem Mundial no rescaldo da antiga (com a derrota da URSS no Afeganistão e
o seu fim, surpreendente, na época). Seguiu-se, breve, uma nova ordem unipolar dominada
pela hiperpotência americana. A América era grande outra vez. Essa nova ordem foi
uma ordem de novas guerras e rebeliões em países aparentemente distantes da
Europa, mas não tão distantes quanto isso. Durante os conflitos, potentes meios
de comunicação globais não deixavam de mostrar as imagens dos infernos
terrestres (tivemos bombardeamentos em directo comentados com todo o
profissionalismo) e imagens dos paraísos terrestres, chegando tais imagens aos
quintos dos infernos terrestres. E os que viviam no inferno dos conflitos, e os
que podiam, rapidamente de lá queriam sair, legitimamente ou ilegitimamente. E
saíam. E para onde rumar, mesmo com risco de vida, se não para os paraísos
terrestres mais próximos.
Eis que o Imperador Trump tomará
o ceptro e irá sentar-se no trono da América. Será que desta vez a América irá
deixar o mundo em paz? E será que o mundo irá deixar a América em paz? Afinal são
muitos os que acusam de inacção a América quando alguns conflitos despontam. Depois, mais tarde, vêm acusar a América de querer
ser o polícia do mundo e de se querer substituir ao papel da ONU com a qual rivaliza
no intervencionismo “salvador” do mundo.
A vida urbana já começou. Lefebvre
acusa o velho Humanismo burguês e aponta para um novo, ironicamente ainda mais aburguesado
(não é afinal um humanismo de burgo aquilo que ele nos propõe?). Trata-se no
entanto de uma fuga para a frente. Ora o novo humanismo que ele nos propõe ainda é
pior. Sabemo-lo agora. Trata-se de um humanismo urbano que descarrila na
desumanidade das cidades sem fim. É o humanismo das ruas nocturnas, frias e
vazias que produziu os sem-abrigo deambulantes e envergonhados que povoam as
grandes cidades, verdadeiras sepulturas do espírito humano. À festa rural circunscrita
opôs-se o frenesim festivo e consumista, urbano e omnipresente. À contenção da
sociedade da não-abundância, sobrepôs-se o desperdício da sociedade da
abundância, incontida, desregrada, infrene e insustentável. Se a dominante
rural era “natural” e idílica, a urbana é artificial, insana e doentia.
Trata-se de uma dominante mecânica. Um irónico humanismo de máquina.