sábado, outubro 29, 2011

Epitáfio de Cláudia (Roma, Séc. II a.C.)

Estrangeiro, pouco tenho para dizer; pára e lê.

Este é o sepulcro não pulcro de uma pulcra mulher.

Cláudia foi o nome que lhe puseram seus pais.

Ao marido amou de todo o seu coração.

Filhos, criou dois. Destes, a um,

Deixou sobre a terra, o outro sob ela.

Aprazível a sua fala, gracioso era o seu andar.

Cuidou da sua casa, fiou lã. Disse. Podes ir-te.

Roma, Séc. II a.C.

Traduzido do original por Maria Helena da Rocha Pereira, Romana – Antologia da Cultura Latina, 6.ª ed, Guimarães, pág. 23

Imperatrix Europa


Os alemães rejubilam. O seu poder nunca foi tão grande desde a II.ª Guerra Mundial.

sexta-feira, outubro 28, 2011

O que se passa na Islândia?

O Prémio Nobel da Economia, Paul Krugman, diz-nos aqui: "The Path Not Taken"

Não há só uma alternativa. Isso é uma treta tatcheriana que os fundamentalistas de mercado, para não dizer pior, nos querem impor. A austeridade que estamos a atravessar é uma opção política, acima de tudo, e está longe de ser uma fatalidade.

A alternativa não é a Irlanda! É a Islândia!

domingo, outubro 23, 2011

O grande desígnio nacional

Voltar aos mercados o mais brevemente possível. Para os que agora nos governam, esse é o grande desígnio nacional. Se o conseguirmos, acreditam, poderemos continuar alegremente na senda do endividamento. Voltar aos mercados para que passe a haver dinheiro no “pote”! Pobre desígnio. Mal vai um povo quando o suor do seu rosto, do seu trabalho, não lhe basta. Passa então a viver de mão estendida. Perdeu a liberdade.

Só líderes fracos podem acalentar tal desígnio.

Já dizia o Poeta: “Que um fraco Rei faz fraca a forte gente.” (Camões)

Morte

Em determinadas circunstâncias de grande esforço vêm-me à cabeça essas primeiras palavras do poema de Lorca: “Que esforço! Que esforço do cavalo para ser cão!” (É que não está na natureza do cavalo ser um cão. Não se pode ensinar um cavalo a ser um cão. Só a morte os transforma, ou pode transformar um no outro. Porque na verdade, nada se perde, tudo se transforma e por isso nada morre. )

Dizem que o cavalo é o mais poderoso símbolo onírico da morte. É, curiosamente, por aí que o poeta começa.


Morte

Que esforço!

Que esforço do cavalo

para ser cão!

Que esforço do cão para ser andorinha!

Que esforço da andorinha para ser abelha!

Que esforço da abelha para ser cavalo!

E o cavalo,

que flecha aguda exprime da rosa!,

que rosa de cinza seu bafo levanta!

E a rosa,

que rebanho de alaridos e de luzes

ata ao vivo açúcar da sua haste!

E o açúcar

que punhais vai sonhando em vigília!

E os punhais,

que lua sem estábulos, que nudez,

pele eterna e rubor andam buscando!

E eu, pelos beirais,

Que serafim de chamas busco e sou!

Porém o arco de gesso,

que grande, e invisível, e diminuto,

sem nenhum esforço!

Garcia Lorca

(traduzido por Eugénio de Andrade, Poesia e Prosa [1940 – 1986], II Volume, 3ª edição aumentada, Circulo de Leitores.

***


Os poemas de Lorca são como os quadros do Dali. Os seus versos, por vezes, parecem sucessões de imagens surreais. Lorca é o surrealismo na poesia.

sexta-feira, outubro 21, 2011

O Cavalo de Tróia para o assalto à Constituição


Gomes Canotilho, constitucionalista e Professor jubilado esta semana em Coimbra
(citação extraída do blogue Almocreve das Petas)

Havia na Roma Antiga uma designação legal para uma situação de excepção, à qual não se aplicava a Lei geral – o homo sacer. Tratava-se de uma pessoa que podia ser morta ou assassinada por qualquer outra, sem que a sua morte fosse reconhecida, em qualquer sentido legal, como sendo um homicídio ou sacrifício religioso. Tratava-se de uma pessoa à qual não se aplicavam os direitos civis porque se encontrava num estado de excepção mediante o qual a lei era preservada através da sua suspensão autorizada (Barkan, 2011). Por outras palavras, para se poder contrariar a lei geral, criava-se uma situação de excepção, para justificar todo o tipo de violações dessa mesma lei.

À escala das nações e dos Estados, a criação ou existência de situações de excepção tem servido para justificar violações de Direitos Humanos entre outros direitos. É conhecida a situação da base Guantanamo e a tortura dos prisioneiros. Também sobre eles não recai a lei geral que os poderia proteger legalmente da tortura. Os prisioneiros são mantidos numa base distante do solo continental dos EUA: não convém violar os Direitos Humanos dentro de casa e à vista dos olhares do cidadão comum. As vergonhas têm de ser escondidas. Na verdade, aos prisioneiros de Guantanamo não se aplica a lei geral que vale para o comum dos cidadãos, porque a situação excepcional da Guerra ao Terror assim o determina. Homo sacer, portanto.

Tudo isto para dizer que a criação de cenários que envolvam situações de excepção, situações de crise, como a que vivemos actualmente, pode constituir uma estratégia política para se tomarem decisões que vão contra a lei geral, a Constituição ou os direitos sociais de que fala Canotilho.

Os cidadãos devem permanecer alerta pois a crise que atravessamos é muitas vezes referenciada, e não por acaso, como uma situação de emergência ou uma espécie de estado de guerra – situações de excepção, portanto. Os que alimentam este discurso, geralmente os políticos que nos governam e certos comentadores, tentam dessa forma, justificar as medidas de austeridade que estão a ser tomadas e que obrigam os cidadãos ao seu cumprimento, ainda que em violação da Constituição do País. O estado de crise ou de emergência enquadra medidas que violam a lei geral: cortam-se ou reduzem-se salários à revelia do diálogo social, da concertação entre Estado, sindicatos e entidades patronais, por exemplo, quando a Constituição determina que assim seja. Atropelam-se direitos laborais e outro tipo de direitos sociais. Tudo à nossa vista.

Não foi por acaso que, ao abrigo da situação excepcional em que vivemos, Manuela Ferreira Leite, sem qualquer pudor, vem propor, em alternativa aos cortes do subsídio de férias e do 13.º mês por dois anos na função pública, que os cidadãos passassem a pagar os serviços de saúde e de educação prestados pelo Estado durante igual período, quando a Constituição determina a sua gratuitidade ou a tendência para tal (é óbvio que nada é gratuito e que são os contribuintes que, mediante os seus impostos, asseguram os serviços do Estado, ainda que a Constituição se refira a gratuitidade). A gratuitidade da educação e da saúde é um direito que lhes assiste. Suspendia-se a Constituição portanto. Já antes Manuela Ferreira Leite tinha sugerido a suspensão da democracia durante uns meses, como se os males do país fossem a democracia ou a Constituição.

Vivemos tempos excepcionais dizem eles, para que possam fazer vingar a sua agenda política de leis excepcionais.

***

Referência

Barkan, Joshua (2011), "Law and the geographic analysis of economic globalization", Progress in Human Geography, 35(5), 589 - 607,

domingo, outubro 16, 2011

Então, somos ou não somos gregos?

Cartoon de José Bandeira, Diário de Notícias, 15 de Outubro de 2011

Já sabemos o que nos espera, portanto. Ou ainda alguém duvida?

O carácter primordial de uma cultura

Ao ampliar os seus horizontes físicos, o homem sente-se tentado a julgar-se preparado para o acontecimento da Cultura. Porém, conhecer mais nomes célebres e lugares estranhos não desperta o carácter primordial duma cultura, que é o de ser livre de orgulho e dispensado da inteligência de grupo.

Agustina Bessa-Luís


(lido no Público, 15 Outubro de 2011, pág. 8 do caderno P2) , no dia de aniversário dos 89 anos de Agustina.

sexta-feira, outubro 14, 2011

37 anos de Abril e 25 de CEE

Aos pobres e demais classe média.

Esqueçam toda a ascensão social. Esqueçam a prosperidade. Esqueçam a emancipação. Esqueçam o desenvolvimento. Esqueçam a riqueza. Esqueçam a independência. Esqueçam o colectivo. Esqueçam a democracia. Esqueçam a liberdade. Isto é o retrocesso. Voltamos ao passado. Pão e vinho sobre a mesa. É uma casa portuguesa com certeza. Pobrezinhos e austeros. Humildes e pequeninos. Finalmente voltámos ao lugar onde, para alguns reaccionários, nunca deveríamos ter saído. Enfim, voltámos a uma espécie de Estado Novo, agora sob uma nova ditadura: a dos mercados. E pianinho! Sem barulho! Não vão os mercados importunar-se.

quinta-feira, outubro 13, 2011

De buraco em buraco até ao buraco final

Por que razão não estamos surpreendidos com estas políticas austeras, esta noite anunciadas pelo primeiro-ministro? Eles, os que agora nos governam, precisam sempre de arranjar mais buracos, buracos aos pinguinhos, para ir justificando o assalto persistente ao bolso de quem trabalha, mês após mês, ano após ano. Precisam criar uma situação de excepção para fazer leis de excepção, leis que vão contra as leis que, quotidianamente, têm enquadrado o funcionamento da nossa sociedade até aqui: suprimem o subsídio de férias e de Natal por dois anos, aumentam por decreto o horário de trabalho e baixam salários, tudo sem atender à concertação social, por exemplo. Uma paródia.

A situação de crise, que não foi criada por quem trabalha honestamente, mas sim por aqueles que especulam nos mercados bolsistas, serve agora para justificar tudo. E assim, escudados nos buracos que eles mesmos (governantes) criaram, através da gestão ruinosa da coisa pública, e nos ditames da troika, vão sendo mais troiquistas que a troika, e vão fazendo valer a sua agenda neoliberal, que nos vai conduzindo numa espiral de empobrecimento até ao horror económico e social.

Mas então, é agora, acreditam eles cegamente, agora é que a economia vai (qualquer caloiro de economia sabe aonde estas medidas governamentais nos irão conduzir). Mas enfim, preparemo-nos para o pior, aguardando que aconteça…o pior, porque é o pior que aí vem.

Esperem, oiço risos: parece que é Sócrates a rir, lá de Paris.

terça-feira, outubro 11, 2011

segunda-feira, outubro 10, 2011

A longa Primavera que afinal era um Inverno

Agora que a poeira está a assentar constatamos com surpresa que a Primavera Árabe afinal parece ser um Inverno, com o fundamentalismo muçulmano a ascender aos governos dos estados do Norte de África. A perseguição movida aos cristãos coptas do Egipto é uma prova disso. Não há democracia verdadeira sem liberdade de expressão, de manifestação ou de religião, entre outras liberdades. A democracia está adiada no Egipto e em todo o Norte de África.

“É preciso ganhar a confiança dos mercados”

Esta frase é hoje um clichê na boca dos políticos da maior parte dos governos na Europa Comunitária.

Governam em função da “confiança dos mercados” (ou seja, já não é o povo quem mais ordena, são os mercados!). As decisões que tomam visam sobretudo alcançar a “confiança dos mercados”. Nem que essas decisões sejam tomadas contra os anseios da população que governam. E quem são “os mercados”? Compradores e vendedores, especuladores financeiros unidos pela relação mercantil. Se dependemos agora, mais do que nunca, dos caprichosos humores dos mercados é porque os nossos governantes se puseram de cócoras face aos “mercados”: pensam que se os “mercados” confiarem em nós, então a felicidade está ao nosso alcance, e que, caso contrário, é a desgraça. Ora acontece que há dias em que os especuladores confiam que vão lucrar, e as cotações sobem, e dias em que os especuladores desconfiam, e as cotações descem. Face a isto, é racional e sustentável governar um Estado em função das cotações dos mercados? Contudo, este é o modelo defendido pelos nossos falsos sociais-democratas. Estão prontos a desmantelar o Estado social para agradar aos “mercados”. No modelo a que se submetem e a que nos submetem, porque nos governam, a sociedade passa a ser regulada pelo mercado e não o contrário. Ora isto tem um nome: neoliberalismo.

Para contrariar este estado a que chegámos é necessário que as sociedades regulem os mercados e não o contrário. Mas os governos parecem manietados e não dão passos nesse sentido, seja à escala nacional, seja à escala internacional. Vivemos por isso na Era da Ditadura dos Mercados. E face às ditaduras só há uma resposta a dar: a revolução.

A felicidade não está à venda no mercado.

domingo, outubro 09, 2011

Um livro: Da Utopia à Fronteira da Pobreza

O mais lúcido e experiente perscrutador português da realidade mundial no campo das relações internacionais, da geopolítica e da situação portuguesa no mundo, entre outras realidades, publicou agora um pequeno livro cuja leitura deveria ser incontornável para todos aqueles que se iniciam no estudo destas coisas e também para os que gostam de dar opiniões fundamentadas na blogosfera e nos media. Podemos não trilhar os mesmos caminhos ideológicos ou políticos, contudo há que reconhecer que Adriano Moreira, agora com a provecta idade de 89 anos, e tendo atravessado vários regimes (ditatorial, democrático) e vários contextos – guerra mundial e colonial, guerra fria, queda do bloco comunista a Leste, ascensão unilateral da hiperpotência americana, decadência da Europa, com os países ditos periféricos do sul a serem agora abrangidos pelo limite abarcador da pobreza do mundo, emergência de novas e velhas potências na primeira década do século XXI – possui um capital de experiência e saber que não se compadece com as leituras ligeiras e superficiais que alguns jovens realizam actualmente sobre Portugal, a Europa e o Mundo. Adriano não é um menino. O livro em causa, sendo uma colecção das mais recentes palestras (à excepção de um artigo de 1973), sintetiza de forma brilhante os conceitos e ideias dos quais o autor se serve para ler o mundo. E que bem ele o lê! Uma voz a ouvir com atenção portanto.

***

Um excerto:


O mundo habitual voltou a desaparecer, e ainda que os rituais do costume permaneçam, as balanças de poder – poder económico, poder financeiro, poder científico, poder militar – individualizam-se de maneira que dificilmente qualquer Estado os poderá ter todos à sua disposição.

(…)

Lembremos que a ciência deu as maiores contribuições para a mudança, a começar, infelizmente, pelo domínio do poder nuclear, mas essa mudança final tem corolários extremamente inquietantes: a população mundial cresce; a distância entre pobres e ricos aumenta; a fome e a má nutrição inquietam; a educação é uma fronteira entre o sul e o norte do mundo; as megapoles caminham para 25 com 7 a 25 milhões de habitantes; poucos países têm acesso aos resultados da investigação científica; a chamada «life industry» apodera-se do património genético da humanidade; mais de cinquenta milhões de refugiados vivem penosamente em refúgios sem condições; o poder da chamada cultura mundial afecta o singular e o universal, de tal modo que a queda do antigo domínio do mundo alimentou neste campo a tese do choque de civilizações; os ocidentais dividem-se sobre o tipo de ordem no mundo (europeísmo versus americanismo); a disseminação de armamentos, potenciada pela privatização da segurança e da guerra, cresce; as finanças e a economia, livres de poderes reguladores, conduziram ao desastre económico e financeiro que todo o globo enfrenta, sem responsáveis assumidos, invocando uma ciência que culpa o sistema, mas não a falta de ética, por esta espécie de caos mundial.

A natureza manifesta a inquietante ira dos Deuses que parecem vingar-se das agressões que o abuso da tecnologia, sem valores, produziu no globo; o nacionalismo defensivo cresce contra a sonhada democracia mundializada; a informação mundial produz opiniões públicas frequentemente sem relação com os factos, e provocando conflitos; as igrejas institucionalizadas vêem diminuir os que afirmaram pertencer-lhes, aumenta todavia um apelo descontrolado às transcendências; a confiança entre governantes e governados é atingida em número excessivo de países, e também atingida gravemente nas sociedades civis ocidentais.”

Adriano Moreira (2011), Da Utopia à Fronteira da Esperança, INCM, 2011. Pág. 75-76.

***

Não esquecemos aqui o facto de Adriano em tempos idos, salvo erro, nos anos 60 do século passado, se ter deslocado ao Brasil para condecorar Agostinho da Silva, que então ensinava na Universidade de Brasília, pela obra feita em terras de Vera Cruz. É que Agostinho da Silva andava, na altura, de candeias às avessas com o Regime, e Adriano era um homem do Regime e, no entanto, foi lá. Fica aqui a minha homenagem, portanto, a homenagem de um simples mortal, mas também com os olhos postos no mundo, a um dos maiores intelectuais vivos do nosso país.

sábado, outubro 08, 2011

A gargalhada universal

Os deuses parecem vingar-se sempre que o homem ousa tentar ser também um deus. E no fim proclamam: “Com que então era inafundável esse navio?” “E essas torres: eram as tais que riscavam o céu e tocavam o Olimpo?”

E para além das esferas soa a gargalhada universal.

sexta-feira, outubro 07, 2011

As sugestões do economista Campos e Cunha

Estou farto de economistas, em particular, de economistas como o senhor Doutor Campos e Cunha. Esses economistas que teimam em considerar o trabalho como um fim e não como um meio. Propõe o dito economista que se abulam alguns feriados, que se reduzam as férias e que se trabalhe mais umas horas semanais. Mas já não propõe que, nesse caso, se deva remunerar o trabalho na devida proporção. Propõe então o Sr. Doutor Campos e Cunha que se desvalorize o trabalho porque, de acordo com a sua sugestão, se passará a trabalhar mais tempo, recebendo o mesmo vencimento. Ora não me parece que o trabalho de hoje valha menos que o trabalho de ontem, mas o que o Sr. Doutor Campos e Cunha sugere é que se pague menos pelo mesmo trabalho (ou dito de outra forma, que se trabalhe mais, pela mesma remuneração). Ora para onde vai então o valor das horas adicionais de trabalho, se não for pago ao trabalhador na devida proporção no seu vencimento? Parece que aquilo que o Sr. economista, Doutor Campos e Cunha propõe, tem um nome: exploração!

Sugestões dessas, não muito obrigado.

Estará ele nessa disposição? Estará disposto a vender o seu trabalho por menos dinheiro? Porque não segue então as suas próprias sugestões, e se priva dos feriados, das férias e trabalha mais umas horas, pela mesma remuneração?

quarta-feira, outubro 05, 2011

Jovens, acordem!

Setecentos indignados, como esta jovem da fotografia, foram detidos no sábado passado quando protestavam em Wall Street, o olho do furacão financeiro que varre as economias mundiais. As novas gerações e as mulheres encontram-se entre as primeiras vítimas da actual crise económica. Se não se mobilizarem, se não lutarem, então o mundo em que terão de viver será mais adverso que o dos seus pais e avós. Serão mais pobres.

Segundo a revista Courrier Internacional do presente mês, “actualmente 20,4% dos europeus entre os 15 e os 24 anos continua sem emprego. É mais de um terço do que em 2008. Esta taxa, no entanto, é apenas a média europeia. Esconde números ainda mais preocupantes. Como os 42% de jovens desempregados em Espanha, 30% nos Países Bálticos, Grécia e Eslováquia e 20% na Polónia, Hungria, Itália e Suécia.” (Courrier Internacional, Outubro 2011, pág. 26). E em Portugal? Mais de 50% dos assalariados com menos de 25 anos trabalham com contratos prazo, de acordo com a mesma revista.

A vida nem sequer está fácil para os mais bem qualificados academicamente e cientificamente. Hoje pode ler-se no jornal Público que os dois jovens investigadores portugueses que participaram numa das equipas que ganhou o Prémio Nobel da Física (!), se encontram, um deles, a trabalhar fora do país, e a que resolveu ficar, trabalha numa área que não está relacionada com a ciência (Público, quarta-feira, 5 de Outubro, pág. 15). Em Portugal nem sequer existem oportunidades para os mais qualificados e os bolseiros dos estudos pós-graduados são atirados para uma situação precária. Ora isto tem de mudar.

É hora das novas gerações começarem a abrir os olhos, sob pena de, se não o fizerem e se não lutarem por outra organização social e económica, serem paulatinamente empurrados para as novas hordas de explorados, sem sequer se darem conta. E quando se derem conta poderá ser tarde demais. Os jovens americanos, esses, estão a acordar.

domingo, outubro 02, 2011

A Virgem Negra da Fome


(Pascal Maitre/Cosmos)

Esta jovem mulher chama-se Howa Ali e faz parte de um grupo de uma centena de famílias somalis recentemente chegadas a Mogadíscio após uma marcha de vinte dias que custou a vida a trinta dos seus filhos. Olhando para cima, ela claramente não espera nada dos homens, nem mesmo aqueles que vêm a este abrigo improvisado para distribuir alguns alimentos ou para dar testemunho da imensidão das suas angústias. Instalados nas ruínas da catedral - destruída por militantes islâmicos em 1990 após o assassinato do bispo - os refugiados dormem sobre os escombros, sem instalações sanitárias ou tecto, e muitos deles sofrem de sarampo.
Le Figaro (tradução minha)
***
Tanto sofrimento estampado nos rostos. Onde está o brilho irradiante, como nas aparições salvíficas? Ali, vislumbramos apenas a sombra da morte.
Pobres mulheres, pobres crianças.

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