terça-feira, abril 16, 2019
sábado, março 23, 2019
A poesia visita as mentes com o fulgor de um raio
Heinrich Heine e a Musa da Poesia, 1894–1894
Georges Moreau de Tours
O poeta (como o homem
moral na sua acção, que nunca é isenta de alguma impureza) sofre com as manchas
que percebe na sua obra e gostaria de as remover a todas, até ao mais ínfimo
vestígio […] Mas a poesia visita as mentes com o fulgor de um raio e o trabalho
humano tenta segui-la, atraído, fascinado por ela e dela colhe o que pode e, em
vão, pede que fique e se deixe remirar em todos os traços do rosto, mas ela já
vai longe.
Croce, A Poesia (1936), citado por Umberto Eco, Aos Ombros de Gigantes, Gradiva, 2018,
p. 298.
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Umberto Eco
terça-feira, março 19, 2019
O “fascismo nunca mais”
Tivesse Madeleine
Albright escrito o seu livro um pouco mais tarde e haveria outro fascista a acrescentar
ao rol*. Por certo um capítulo sobre aquele que preside ao país com maior número de
falantes de língua portuguesa (cerca de 209 milhões de pessoas): Jair
Bolsonaro. Sucede que escreveu Fascismo:
Um Alerta, antes da eleição de Bolsonaro.
Paradoxalmente as democracias
continuam a eleger fascistas.
O “fascismo nunca mais” era um
sonho de Abril.
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Madeleine Albright
domingo, fevereiro 17, 2019
A essência da Escola
A escola foi inventada no tempo dos antigos Gregos como uma relação
entre mestre e discípulos, tendo como horizonte o conhecimento, e, apesar de
essa relação ter sofrido muitas mudanças, a escola continua a ser na sua
essência, essa relação.
Carlos Fiolhais, David
Marçal, A Ciência e os Seus Inimigos,
Gradiva, 2017, pág. 225.
***
É isto a Escola. O resto é
política, ideologia e “Ciência” da Educação. Sempre houve muita gente a querer
meter o bedelho na Educação por motivos ideológicos e políticos, em particular
a gente dos partidos políticos. Querem pôr a mão no futuro, para tentar
moldá-lo a seu contento. Querem, de forma sub-reptícia, colocar a juventude nos
seus próprios carris ideológicos. E a verdade é que a ideologia tem conseguido
imiscuir-se nos programas escolares. Os professores, por sua vez, vão
paulatinamente sendo convertidos em meros aplicadores de “conteúdos”, que se
querem bem controladinhos, muito bem controladinhos… Hoje é a essência da
escola que está a ser posta em causa.
A escola é demasiado importante para ser deixada a
outros que não os professores.
Infelizmente os professores têm ido na cantiga daqueles que
dizem que a escola é demasiado importante para ser deixada apenas aos
professores.
sábado, janeiro 12, 2019
O novo mantra político do ano
O novo mantra político do ano – vamos
ouvi-lo muitas vezes, porque é preciso repeti-lo até à exaustão para que se
inculque no comum dos mortais a necessidade de privatizar tudo: “O Estado
falhou”.
Os privados nunca falham.
Onde estão aqueles que determinaram a privatização dos CTT, em 2014? O que terão agora a dizer às populações que
residem em concelhos onde se anuncia o encerramento do único balcão de
correios, passando para as juntas de freguesia – para o Estado, portanto – os
serviços e funções que são atributo das estações de correio?
Uns amigalhaços!
A lógica do lucro assim o
determina, não é verdade?
Fantástico Mike!
Foto: daqui.
segunda-feira, dezembro 31, 2018
Livros do Ano, lidos no ano
Ian Bremmer
Portfolio/Penguin
2018
The Way We Live Now
from The Age of
American Unreason in a Culture of Lies
Susan Jacoby
Vintage Books
2018
Ainda em leitura:
Enlightenment Now: The
Case for Reason, Science, Humanism, and Progress
Steve Pinker
Viking
2018
Nunca será o meu livro do ano, por muitas e múltiplas razões. Por exemplo,
o autor contorna habilmente a sexta extinção de espécies que está a ocorrer
e dá voz aos que questionam a injustiça das desigualdades sociais, chegando a
considerar a desigualdade virtuosa. Está errado.
Ainda que se concorde com a defesa
da Ciência, e do Iluminismo e até do Progresso e do Humanismo, não se pode concordar com as cedências que faz ao neoliberalismo.
Palavras do ano
Não constam nos dicionários.
“Uberização” e “bugar”.
A primeira é um processo que se está a impor e a alterar o funcionamento das sociedades e suas instituições. As redes sociais, as aplicações informáticas e as plataformas digitais têm conduzido à uberização de tudo. Não são só os táxis, é também, por exemplo, a forma de dar notícias ou as novas formas de organizar e apoiar as greves, que agora podem ser patrocinadas anonimamente nas redes sociais, quer por amigos da causa, quer por amigos doutras causas. Dúvidas? Perguntem aos enfermeiros. Até a política está a ser uberizada, que o diga Bolsonaro.
“Bugar” é um verbo que quase todo o jovem conhece. Antes tinham brancas, bloqueavam nos exames. Agora, bugam. “Então menina, porque demora tanto tempo a responder?” “Oh professor, desculpe. Buguei!”. LOL
Bom Ano!
Bom Ano!
terça-feira, outubro 16, 2018
terça-feira, outubro 02, 2018
Outono

Luigi Garzi, Alegoria de Outono, c.1680
«Já, o outono! – Mas porque
desejar um sol eterno, se partimos à descoberta da claridade divina – longe daqueles
que florescem e morrem com as estações.
O outono. A
barca ascendida à imobilidade das brumas regressa agora ao porto da miséria,
cidade imensa, imenso céu traçado de fogo e de lama. Ah! os farrapos podres, o
pão encharcado de chuva, a bebedeira, os mil amores que me crucificaram! Então
não findará jamais este vampiro, este tirano de milhões de almas e de corpos
mortos que serão julgados! Revejo-me:
a pele roída pela peste e pela lama, a cabeça e os sovacos repletos de piolhos,
não tão gordos, não tantos como os que me roíam o coração, deitado entre desconhecidos
de idade incerta, de sentimentos incertos…Podia ter ficado ali…Pavorosa evocação!
Detesto a miséria.
E temo o inverno
por ser a estação do conforto!»
Rimbaud (1873), Une Saison en Enfer
(tradução Mário
Cesariny de Vasconcelos)
in Jean Arthur Rimbaud, Uma Época no Inferno, Portugália
Editora, 1960.
segunda-feira, outubro 01, 2018
Vertigens
«Ao princípio, era apenas um exercício. Escrevia silêncios, noites,
anotava o inexprimível. Captava vertigens.
Alugando pássaros, pedaços de pele,
povoados,
Que busco eu, alheio ao sossego e à esteira?
Em ondas de ternura bebo afogados
Séculos de murmúrio, ajoelhado na areia.
Que piolho eu beberia noutro rio marata?
- Copo
de oiro sem voz, flores de gás, céu alvar! –
Beber por calabaças, fora da minha cubata?
Só se for o licor que a terra faz ao mar.
Ergui minha choupana em foz daninha.
- Rosa de areia! Sangue! Jubileus! –
A água do rio levou-me oiro e vinha,
(Nos lameiros, passava a mão de Deus)
E eu chorava, eu via – oiros! – nunca sereis
meus!»
Descansa do amor entre brandas avenas.
Na nudez de Bocácio Eva escreve
Uma noite de veias serenas.
Lasso, baço, num vasto coral
De rugas e olhos e sóis improfícuos
Sobe o rio o clamor matinal
Dos carros Oblíquos.
Para o festim de chocolate, ébrios de claridade,
*
Às quatro horas o mastro de neveDescansa do amor entre brandas avenas.
Na nudez de Bocácio Eva escreve
Uma noite de veias serenas.
Lasso, baço, num vasto coral
De rugas e olhos e sóis improfícuos
Sobe o rio o clamor matinal
Dos carros Oblíquos.
Eles vestem antecipadamente lambris pré-celestes
Cidade
De pão, bandeiras, declives,
homens.
Para estes operários, veículo de tantos
Rios interiores a um rei da Babilónia,
Ó Vénus, deixa por momentos as almas
Estagnadas como pântanos no coração do
Ródano.
Ó Guia dos pastores
Dá aos trabalhadores a ode viva.
Que a sua força seja como seda pacífica
- Um acto no caminho do amargo banho ao meio-dia.»
Rimbaud (1873), Une Saison en Enfer
(tradução Mário
Cesariny de Vasconcelos)
in Jean Arthur Rimbaud, Uma Época no Inferno, Portugália Editora,
1960.
sábado, setembro 29, 2018
Hegel
Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770–1831)
Pintura de Jakob Schlesinger, 1831
Nationalgalerie, Staatliche Museen zu Berlin
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domingo, setembro 23, 2018
Steven Pinker: só o Iluminismo pode salvar-nos
Quando as predições sobre a apocalíptica escassez de recursos fracassam
reiteradamente, temos de concluir que a humanidade escapou milagrosamente
sucessivas vezes de uma morte certa, como um herói de um filme de acção de
Hollywood, ou que há alguma falha no pensamento que predisse a apocalíptica
escassez de recursos. A falha foi apontada em múltiplas ocasiões. A humanidade
não sorve os recursos do planeta como uma palhinha num batido até que um
borbulhar lhe diga que o recipiente está vazio. Em vez disso, quando as
reservas de um recurso que se extrai facilmente começam a escassear, o seu
preço sobe, levando mais gente a querer conservá-lo, a chegar a depósitos menos
acessíveis ou a encontrar substitutos mais baratos e mais abundantes.
De facto, para começar, é uma falácia pensar que as pessoas «necessitam
de recursos». Do que necessitam são formas de produzir alimentos, deslocar-se,
iluminar as suas casas, exibir informações e outras fontes de bem -estar.
Satisfazem estas necessidades com ideias: com receitas, fórmulas, técnicas,
projectos e algoritmos para manipular o mundo físico a fim de que este lhes
ofereça o que desejam. A mente humana, com a sua capacidade combinatória
recursiva, pode explorar um espaço infinito de ideias e não se encontra
limitada por nenhuma classe de material terrestre. Quando uma ideia deixa de
funcionar, outra pode ocupar o seu lugar. Isto não desafia as leis da
probabilidade, apenas lhe obedece.
É certo que esta maneira de pensar não encaixa bem com a ética da
“sustentabilidade”. (…) A doutrina da sustentabilidade assume que o ritmo
actual de utilização de um recurso pode ser extrapolado para o futuro até se
atingir um tecto. A consequência que implica a dita assunção é que temos de
trocar para um recurso renovável capaz de repor-se indefinidamente à medida que
o vamos usando. Na realidade, as sociedades sempre abandonaram um recurso por
outro melhor, muito antes que o velho se esgotasse. Com frequência se disse que a
Idade da Pedra não terminou porque o mundo ficou sem pedras, e outro tanto cabe
dizer da energia.
Steven Pinker (2018), Enlightenment, now!
[Tradução nossa]
Pinker é um optimista. Tem fé na
Razão, no Progresso, na Ciência e na Tecnologia. Tem fé nos valores do
Iluminismo. Tem fé no Homem. Ao contrário de Heidegger, que diz que só um deus nos
pode salvar, Pinker defende que o Homem pode salvar-se a si mesmo, caso se guie
pelos valores do Iluminismo. A Razão, o Progresso, a Ciência e a Tecnologia
poderão salvar-nos de qualquer apocalipse
previamente anunciado, assim o Homem se empenhe e disso sinta
necessidade, pois a necessidade aguça o engenho. O problema é que a Razão, o
Progresso, a Ciência e a Tecnologia são facas de dois gumes, em que um cortará
mais do que outro se forem perseguidos sem Ética. O Progresso pode ser a bomba
atómica e à sua sombra, em tempos, defendeu-se o eugenismo, só para dar dois
exemplos. Mas também é verdade que o Progresso evitou uma catástrofe malthusiana,
salvando milhões da fome, permitiu à Humanidade conciliar procedimentos para evitar a depleção da camada de ozono, contribuiu para aumentar a esperança
média de vida no mundo, para baixar a mortalidade infantil e para tratar e
curar doenças no passado incuráveis. O Progresso contribuiu para diminuir o
sofrimento humano. Pinker acredita em tudo isto, defendendo que hoje se
sobrevaloriza o que é negativo, desde as alterações climáticas ao esgotamento
dos recursos naturais e aos anúncios de extinção de espécies ou de uma sexta
extinção em massa…e que se está a subvalorizar a capacidade humana de superação
de problemas e obstáculos, mediante a Ciência e a Tecnologia, pelo Progresso.
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sábado, setembro 15, 2018
sexta-feira, setembro 14, 2018
Censura: a política contra a reflexão
A história da censura resume-se nesta fórmula. É a história da política
contra a reflexão. No momento em que alguns seres humanos amadurecem o suficiente
para conhecerem a verdade sobre si próprios e sobre a sua condição social, os
detentores de poder desde sempre tentaram partir os espelhos que revelavam aos
seres humanos quem eram e o que lhes acontecia.
Peter Sloterdijk (1983)
Peter Sloterdijk , Crítica
da Razão Cínica, Relógio D’Água, 2011, p. 116.
***
Quem detém informação detém poder. Esse poder é tanto mais efectivo quanto maior for o monopólio da
informação. Neste sentido partilhar informação significa partilhar poder. Para
manter a sua posição iluminada uma minoria acaba por sujeitar a maioria à escuridão.
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quarta-feira, setembro 05, 2018
Luminárias e alimárias
A propósito disto.


Entre luminárias e alimárias há certos deputados da República que encaixam que nem uma luva na segunda
categoria. Parece ser o caso.
Quando vejo e oiço políticos
deste jaez lembro-me sempre da advertência de John Tyler a Thomas Jefferson, em
1782, quando este queria renunciar ao cargo para o qual tinha sido eleito pelo
povo do condado de Albemarle, de delegado na Câmara, por estar cansado de
cargos públicos. Tyler advertiu Jefferson
de que «homens bons e capazes fazem melhor em governar do que em deixar-se
governar, uma vez que é possível, e na verdade altamente provável, que as
pessoas capazes e boas que se retirem da sociedade sejam substituídas por
outras venais e ignorantes». (Boorstin, 1997: 112)
Ora não tenho a mínima dúvida de
que em Portugal muita gente boa e capaz se furta a cargos públicos, que não
encara decerto como um dever cívico e não quer sujeitar-se àquilo. Só assim se
explica a abundância de gente venal sentada nas cadeiras da Assembleia.
Dito isto, diga-se no entanto que
na Venezuela se assiste a uma tragédia – a governação de Maduro e seus apaniguados.
A boa gente daquele país já vota com os pés e parte em demanda de outras paragens.
Fazem bem, pois se pegassem em armas seria um banho de sangue. Os ditadores,
tudo fazem para se manter no poder, nem que seja à custa da vida dos seus
concidadãos. Veja-se o que fez Assad na Síria. Na Venezuela só um golpe militar
à 25 de Abril poderia resolver a situação
trágica em que aquele Estado se encontra pois é muito improvável que Maduro se
afaste, abrindo as portas à democracia.
________________________________________________
Referência
Daniel Boorstin, Os Americanos: A Experiência Colonial, Gradiva, 1997.
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Monte Pilatos, Agosto, 2018 © AMCD