domingo, julho 01, 2012
sábado, junho 30, 2012
O medo
Uma vez investido sobre o mundo humano, o medo adquire um ímpeto e uma
lógica de desenvolvimento próprios e precisa de poucos cuidados e praticamente
nenhum investimento adicional para crescer e se espalhar – irrefreavelmente.
Zygmunt Bauman (2007). Tempos Líquidos. Zahar, Rio de Janeiro. Pág. 15.
O medo é reconhecidamente o mais sinistro dos demónios que se aninham
nas sociedades abertas da nossa época. Mas é a insegurança do presente e a
incerteza do futuro que produzem e alimentam o medo mais apavorante e menos
tolerável.
Zygmunt Bauman (2007). Tempos Líquidos. Zahar, Rio de Janeiro. Pág. 32
O medo?! Conhecemo-lo bem e não é
de agora, ao contrário do que diz Bauman, que o associa às "sociedades abertas
da nossa época". Como se o medo não nos tivesse acompanhado desde sempre,
associado a essa incerteza do futuro e à imprevista aparição da morte. É um
demónio intemporal. Recuemos. Após a IIª Grande Guerra, as sociedades ocidentais
não estavam mais resguardadas do medo do que “as sociedades abertas da nossa época”.
Dos céus, a qualquer momento, poderia abater-se sobre elas, uma intensa chuva
de mísseis nucleares. Alguém teria carregado no botão, do outro lado, e restariam
alguns segundos para o adeus. A ilusória “segurança” dos trinta gloriosos anos
estava assombrada por uma ténue cortina de medo. Vivia-se então o equilíbrio do
terror nuclear, o que gerava um nervoso miudinho, quase imperceptível entre
os viventes conscientes.
Mas se recuarmos ainda mais, até
à Idade Média, encontraremos o medo em cada cidade, em cada castelo, em cada
aldeia, em cada caminho. Fomes, pestes, guerras, assomavam-se com frequência no
horizonte, quando não investiam implacavelmente sobre os mortais. Cada castelo,
cada muralha, cada catedral são monumentos ao medo. Nas catedrais procurava-se
o amparo divino do mundo celestial contra as ameaças do mundo terreno. Buscava-se
a salvação, acima de tudo, e os ricos compravam indulgências. Foi uma Era de
terror profundo e reduzida esperança média de vida.
Nos Descobrimentos, o medo
embarcava em cada navio – adamastores e pesadelos de escorbuto…O medo
despertava a imaginação dos homens e navegar para o tórrido sul poderia
significar rumar para o Inferno. Quantos dos que partiram à descoberta jamais
regressaram? Navegava-se para o desconhecido, e o desconhecido é a casa do medo.
Mas Bauman, um dos mais lúcidos
pensadores do mundo actual, não deixa de ter razão quando afirma que “a insegurança do presente e a incerteza do
futuro produzem e alimentam o medo mais apavorante e menos tolerável”. Era
suposto vivermos já com maior segurança, mas a doutrina económica e política dominante
no planeta tem tornado a vida da larga maioria dos seres humanos cada vez mais
precária. Injustamente.
***
PS - Há uma canção de Zeca Afonso
em que o cantor trata o medo por amigo. Um amigo que nos alerta e nos faz escapar
mais depressa à aproximação dos que pela madrugada, ameaçadoramente, nos querem prender, torturar e matar.
sexta-feira, junho 29, 2012
segunda-feira, junho 25, 2012
Cornelius Castoriadis, outro grande pensador falecido no final do século XX, que anteviu onde tudo isto iria parar
Dizia ele:
“Desde há quinze anos que a profunda regressão mental das classes
dirigentes e dos quadros políticos que conduziu à «liberalização» a todo
o custo da economia (da qual em França os «socialistas» foram os heróicos
protagonistas) e à globalização cada vez mais efectiva da produção e das trocas
comerciais, tiveram como consequência a perda do controle por parte dos Estados
das suas próprias economias. Como era de esperar, foram acompanhadas por
uma expansão da especulação que, a cada dia que passa, transforma ainda mais
a economia capitalista num casino.”
Cornelius Castoriadis, A Ascensão da Insignificância. Bizâncio,2012.
Pág. 30
(Os sublinhados são nossos).
O trecho acima foi escrito em
1995 (dois anos antes da sua morte) e constitui um post-scriptum a um texto de 1982. Acerta em tudo. Mas não foi só em
França - sabemos agora - que os «socialistas» de “terceira via” abriram o caminho
à «liberalização» da economia, com as consequências nefastas que hoje nos
afectam. Foi uma orientação seguida em toda a Europa onde os ditos
desgovernaram. Resultado: os Estados estão hoje reféns dos mercados financeiros,
quais casinos da economia capitalista.
A qualidade das classes dirigentes
e dos quadros políticos, essa, continua pelas ruas da amargura (dirijamos o
nosso olhar para Merkel, por exemplo, e oiçamos as suas “brilhantes”
intervenções). Outros já nem políticos são, na verdadeira acepção
da palavra: são técnicos e homens de palha ao serviço de interesses outros que
não os de quem os elegeu. Como dizia Castoriadis, “vivemos a sociedade dos hobbies e dos lobbies”. Ongoings, estão
a ver?!
domingo, junho 24, 2012
Helena de Tróia
Antonio Canova, Helena de Tróia, 1807, Museu de Copenhaga
Deste modo pois se sentavam na muralha os regentes dos Troianos.
Assim que viram Helena a avançar em direcção à muralha,
sussurram uns aos outros palavras apetrechadas de asas:
“Não é ignomínia que Troianos e Aqueus de belas cnémides
Assim que viram Helena a avançar em direcção à muralha,
sussurram uns aos outros palavras apetrechadas de asas:
“Não é ignomínia que Troianos e Aqueus de belas cnémides
sofram durante tanto tempo dores
por causa de uma mulher destas!
Maravilhosamente se assemelha ela
às deusas imortais.
Mas apesar de ela ser quem é, que
regresse nas naus;
que aqui não fique como flagelo
para nós e nossos filhos!”
Assim falaram. Mas Príamo com sua
voz chamou Helena.
“Chega aqui querida filha, e
senta-te a meu lado,
para veres o teu primeiro marido,
teus parentes e teu povo –
pois no meu entender não tens
culpa, mas têm-na os deuses,
que lançaram contra mim a guerra
cheia de lágrimas dos Aqueus
Homero, Ilíada, III, vv. 153 - 165
Etiquetas:
Escultura,
Grécia Antiga,
Homero,
Ilíada,
Música,
Rachmaninov
Primeiro vem a estrada
Auto-estrada Federal BR 222 que atravessa a Amazónia no estado do Pará
Primeiro vem a estrada com todas as suas promessas de progresso e civilização: um prenúncio de desflorestação e morte.
sábado, junho 23, 2012
“Passos Coelho diz que é cedo para falar em medidas de austeridade”
.
Não pensa ele noutra coisa. Ao dizê-lo, já está, na verdade, a acenar com mais austeridade. E
di-lo no dia em que aos funcionários públicos foi subtraído (usemos um eufemismo)
o subsídio de férias. Raia o cinismo. Já pondera mais austeridade. Só
faltam as medidas, mas ainda é cedo para falar delas. Aguardemos pois, que ele
e o governo que nos desgoverna ponderem o melhor momento para
desferirem a "boa nova". Talvez quando os portugueses estiverem na praia com a
família, quem sabe?
Não pensa ele noutra coisa. Ao dizê-lo, já está, na verdade, a acenar com mais austeridade. E
di-lo no dia em que aos funcionários públicos foi subtraído (usemos um eufemismo)
o subsídio de férias. Raia o cinismo. Já pondera mais austeridade. Só
faltam as medidas, mas ainda é cedo para falar delas. Aguardemos pois, que ele
e o governo que nos desgoverna ponderem o melhor momento para
desferirem a "boa nova". Talvez quando os portugueses estiverem na praia com a
família, quem sabe?
Mas afinal, quem
não sabia que esta austeridade acabaria por conduzir a mais austeridade? Pelos
vistos só o Ministro Gaspar. Diz ele que as receitas do IRC "registaram uma evolução menos favorável do que se esperava em resultado dos menores lucros das empresas neste contexto de recessão prolongada”. (os sublinhados são nossos)
Caramba! Outra surpresa? Outro lapso? Outro equívoco? Mas
como é possível? Andaram todo o tempo entretidos a semear recessão e agora
dizem-se surpreendidos com os efeitos da recessão que semearam?
Primeiro foi a taxa de desemprego que se tornou
surpreendentemente maior do que a esperada, e agora as receitas dos
impostos, que foram menores do que as esperadas. Ó céus! Ó mundo cruel! Ó abrenúncio!
Gaspar avança de surpresa em surpresa e Portugal, dizem eles, está no bom
caminho.
Mas que gente é esta?
sexta-feira, junho 22, 2012
A Grécia perdeu. Viva a Grécia!
A Grécia perdeu com a Alemanha (e o nosso Fernando Santos também).
Mas o grito será ainda o mesmo:
Viva a Grécia!
domingo, junho 17, 2012
O salto em frente da Europa, por cima do abismo da história
Não se trata já de enformar as potências neoeuropeias por
reivindicações dos modelos da velha Europa (como implicava outrora a simbólica
carolíngia enganadora de Estrasburgo e de Aix-la-Chapelle), mas de substituir o
próprio princípio do Império pela união dos Estados, num acto de criação da forma política que se inserirá na história do mundo.
Na qualidade de federação multinacional,
a Europa tem de afinar um primeiro modelo conseguido por essa entidade
intermédia que falta entre os Estados-nação e as organizações do complexo United
Nations. Tal é o tema incontornável de
uma filosofia política europeia do futuro. Dela se pode dizer desde já que só
pode realizar-se pelo modo de uma filosofia-de-processo do pós –imperialismo.»
Peter Sloterdijk (2008), Se a Europa Acordar. Relógio D’Água.
Pág. 48-49
«O poder que se exerce a partir de Bruxelas sobre a grande Europa
encontra-se agora perante uma escolha. Ou quer passar para um imperialismo mais
ou menos aberto, nomeadamente sob influência de cenários sugestivos que
profetizam uma guerra económica entre os Estados Unidos, o Japão e a Europa,
bem como uma guerra mundial por infiltração do Sul contra o Norte. Ou
compreende que a sua oportunidade reside
na translação do Império para um não-império, uma nova
união de entidades políticas. Se se decidir por um novo Império, perde o
resto da sua alma e provoca o seu próprio desaparecimento por depravação das
três gerações futuras. Apenas com a aliança da ambição e do cinismo, nenhuma
cultura moderna percorrerá nem que sejam cem anos suplementares.»
Peter Sloterdijk
(2008), Se a Europa Acordar. Relógio
D’Água. Pág. 60
***
Passaram alguns anos desde 1994,
data em que foi escrito o texto acima, e a Europa parece querer recuar agora
para um cenário impossível. A constituição de uma federação multinacional parece
não se encontrar na mesa das opções políticas. A falta de arrojo e de liderança
política, a mediocridade e a inépcia política dos líderes europeus, com
destaque para a chanceler Angela Merkel, parecem estar a lançar a Europa para a
desagregação, para a Velha Europa dos Estados-nação rivais. Mas esse tempo já
não existe mais. Estamos a querer voltar a um lugar que não existe. Ao
procurarmos refúgio nessa ideia e nesse tempo, nem ao passado regressamos.
Provocaremos o nosso próprio desaparecimento, como diz o filósofo. Por que
aguardam os líderes para darem esse salto para a federação multinacional?
Aguardarão a voz reivindicativa dos povos? Terão de ser os povos a exigi-lo?
Por agora, a Europa ainda dorme.
Zona Euro ao fundo
A Zona Euro está organizada (ou deveremos dizer, desorganizada?) como uma espécie de condomínio vertical com
dezassete condóminos e, pasme-se, com dezassete administradores. Ora assim não
há condomínio que funcione. Para que funcione, tem de haver um só
administrador, como é óbvio, ou seja, um só Governo. Caso contrário, a Zona
Euro continuará a oferecer o flanco à especulação financeira, que vai
explorando as fraquezas deste disfuncionamento.
Neste edifício onde as potências económicas ocupam os
andares cimeiros e os países periféricos os andares de baixo, ninguém está a
salvo do fogo que vai consumindo já o rés-do-chão. Mais tarde ou mais cedo, os
países do topo acabarão por ser atingidos, como peças de dominó que tombam em
cadeia.
Até agora não houve um só líder político que confrontasse com seriedade os demais relativamente à opção que tem de ser tomada: ou se desfaz a Zona Euro e voltamos à velha Europa babilónica das nações rivais, ou se avança para uma Federação multinacional, aprofundando-se ainda mais a integração política na União. Assim como estamos, os problemas vão-se avolumando: apaga-se um fogo aqui, surge outro acolá. E disto não saímos.
Embora a crise não se restrinja à Zona Euro, esta, neste contexto, encontra-se bastante fragilizada e por isso é um alvo apetecível para os ataques especulativos (há gente que está a ganhar muito dinheiro com isto, e nós, cidadãos e contribuintes europeus, estamos todos a perder e a pagar, cada vez mais).
A criação da Zona Euro, há que assumi-lo, foi um erro. Mas parece ser um
erro que ninguém quer assumir. E agora, o que fazer? Ou se bate em retirada, ou
se avança a todo o vapor. Aqui é que não podemos ficar. Parece que só falta a
coragem, ou a liderança política que nos tire deste atoleiro. Mas se assim é,
nesse caso teremos de ser nós a sair disto. Teremos de ser nós, europeus, a sair pra a
rua.
sexta-feira, maio 25, 2012
D. Sebastião libertado
D. SEBASTIÃO
Esperai! Caí no areal e na hora adversa
Que Deus concede aos seus
Para o intervalo em que esteja a alma imersa
Em sonhos que são Deus.
Que importa o areal e a morte e a desventura
Se com Deus me guardei?
É O que eu me sonhei que eterno dura,
É Esse que regressarei.
Fernando Pessoa, Mensagem
***
Ou esperamos, como nos pediu, e aguardamos que regresse para todo o sempre
(nem outra coisa tem feito o povo que adormece, sonhando o
sonho, como num encanto).
Ou esquecemos o episódio e encaramos o futuro.
***
D. Sebastião
libertado
Acordai! Há muito que sucumbi na hora adversa
Que Deus concedia aos seus,
E finda a alma imersa
Nos eternos sonhos de Deus.
Decidi ficar neste outro mundo,
Agora que Deus morreu.
Jamais regressarei.
Sois livres!
quinta-feira, maio 24, 2012
Nós os novos, construamos uma anarquia portuguesa. Que esperamos?
«Somos incapazes de revolta e de
agitação. Quando fizemos uma “revolução” foi para implantar uma coisa igual ao
que já estava. Manchámos essa revolução com a brandura com que tratámos os
vencidos. E não nos resultou uma guerra civil, que nos despertasse; não nos
resultou uma anarquia, uma perturbação das consciências. Ficámos miserandamente
os mesmos disciplinados que éramos. Foi um gesto infantil, de superfície e
fingimento. Portugal precisa dum indisciplinador. Todos os indisciplinadores
que temos tido, ou que temos querido ter, nos têm falhado. Como não acontecer
assim, se é da nossa raça que eles saem? As poucas figuras que de vez em quando
têm surgido na nossa vida política com aproveitáveis qualidades de
perturbadores fracassam logo, traem logo a sua missão. Qual é a primeira coisa
que fazem? Organizam um partido... Caem na disciplina por uma fatalidade
ancestral.
Trabalhemos ao menos — nós, os novos — por
perturbar as almas, por desorientar os espíritos. Cultivemos, em nós próprios,
a desintegração mental como uma flor de preço. Construamos uma anarquia
portuguesa.»
Fernando Pessoa, in “Crónica da
vida que passa”, O Jornal, n.º 6, 8 de Abril de 1915.
***
Fernando Pessoa continua actual.
Actualíssimo! Deposita nos novos a esperança. Que perturbem as almas! Que
desorientem os espíritos! Que agitem as águas paradas onde as consciências dos
velhos portugueses adormecem! Em vez de se lamentarem: “Que parva que eu sou! E
fico a pensar, que mundo tão parvo onde para ser escravo é preciso estudar.»
Que se ergam! É a sua hora! É hora!
Mas não. Partem... Viram as
costas... É mais fácil partir do que mudar... Desolação. Fatalidade. Portugal.
segunda-feira, maio 14, 2012
Sobre as declarações de Passos Coelho acerca do desemprego
Qual é a admiração? Ficaram indignados? Chocaram-se com o que ele disse?! Então ainda não sabiam? Passos é um
neoliberal e para um neoliberal, um
desempregado é apenas um trabalhador em trânsito entre dois empregos? É assim
que ele o vê. É assim que eles o consideram. Reduzem o homem a uma dimensão
apenas - o homo oeconomicus - quando
um homem é muito mais do que isso. Enfim, tudo reduzem à árida economia e às suas
leis do mercado.
Mas não somos nós que o dizemos. É
Foucault:
«Em particular, a política neoliberal a respeito do desemprego é
perfeitamente clara. Numa situação de desemprego, seja qual for a taxa de desemprego,
não se deve nele intervir directamente, como se o pleno emprego tivesse de ser
um ideal político e um princípio económico a salvar de qualquer maneira. O que
se deve salvar, e salvar antes de tudo o mais, é a estabilidade dos preços. (…)
Como diz, penso eu, Röpke, o que é o
desempregado? Não é um deficiente económico. O desempregado não é uma vítima
social. O desempregado é um trabalhador em trânsito. É um trabalhador em trânsito
entre uma actividade não rentável e uma actividade mais rentável. E é tudo
sobre acções reguladoras.»
Michel Foucault, Nascimento
da Biopolítica, Edições 70. Página 183.
(os destaques são nossos)
E é tudo. (É claro que quando
Michel Foucault proferiu esta aula no Collège de France, no dia 14 de Fevereiro
de 1979, Passos ainda era um mocinho.)
Etiquetas:
Economia,
Foucault,
Neoliberalismo,
Política
sábado, maio 12, 2012
A desagregação do cristianismo
«Enquanto o povo judeu foi vencido e disperso e entrou na amarga segunda
metade da sua história – em que o seu modelo poderia ter sido mais Ahasver do
que David -, o cristianismo prosseguiu a resistência judaica contra o império
romano a outro nível. O cristianismo
começou por se tornar uma grande escola de resistência, da coragem e da fé
encarnada; se o cristianismo fosse na época aquilo que é hoje na Europa, não
teria sobrevivido sequer cinquenta anos. Durante o império romano, os
cristãos tornaram-se a tropa de elite de uma resistência interior. Ser cristão
então significava não se deixar intimidar por nenhum poder no mundo, sobretudo
pelos imperadores-deuses romanos arrogantes, brutais e amorais cujas manobras
político-religiosas eram perfeitamente conspícuas.»
Peter Sloterdijk, Crítica da Razão Cínica, Relógio D’Água.
2011. Pág. 298
***
Naquele tempo a morte assomava-se
sempre no horizonte. Estava sempre presente e, muitas vezes, aproximava-se
sorrateira. A vida terrena era breve. Cristo apareceu então, proclamando a vitória
da vida sobre a morte. Essa crença funcionou entre os cristãos como uma espécie
de argamassa muito forte que os mantinha unidos: a Fé. Contra a morte e contra
o Império. Entravam no circo romano cantando, momentos antes de serem
chacinados. Mas não soçobravam. Por isso o Império ruiu.
Hoje a morte está mais distante.
Assoma-se na TV. A argamassa da Fé enfraqueceu e o cristianismo também.
A Fé do cristianismo está hoje
tão enfraquecida na Europa, que se fosse confrontada com o poder dos
imperadores, não sobreviveria sequer cinquenta anos, diz Sloterdijk. Na verdade,
o cristianismo já pouca oposição revela face aos novos impérios sem rosto que
dominam o nosso mundo.
Parece que ao alinhar tantas
vezes com os impérios, foi o cristianismo que enfraqueceu.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Etiquetas
- . (3)
- 25 de Abril (14)
- Acordo Ortográfico (1)
- Açores (2)
- Adelino Maltez (2)
- Adriano Moreira (8)
- Afeganistão (7)
- Afonso de Albuquerque (1)
- África (10)
- Agamben (2)
- Agostinho da Silva (9)
- Água (1)
- Agustina Bessa-Luís (1)
- Alcácer do Sal (2)
- Alcochete (1)
- Alentejo (1)
- Alepo (1)
- Alexandre Farto (1)
- Alfonso Canales (1)
- Algarve (15)
- Alienação (1)
- Allan Bloom (1)
- Almada (1)
- Alterações Climáticas (1)
- Álvaro Domingues (1)
- Ambiente (68)
- América (2)
- Amy Winehouse (1)
- Anaximandro (1)
- Âncoras e Nefelibatas (1)
- Andaluzia (7)
- Andrew Knoll (1)
- Angola (2)
- Ann Druyan (1)
- Ano Novo (2)
- António Barreto (1)
- António Guerreiro (3)
- Antropoceno (5)
- Antropologia (3)
- Apocalípticas (1)
- Arafat (1)
- Arcimboldo (1)
- Aretha Franklin (1)
- Aristides de Sousa Mendes (1)
- Aristóteles (4)
- Arqueologia (1)
- Arquíloco (1)
- Arquitectura (1)
- Arrábida (2)
- Arte (12)
- Arte Etrusca (1)
- Astronomia (11)
- Atletismo (5)
- Azenhas do Mar (1)
- Babel (3)
- Banda Desenhada (1)
- Banksy (2)
- Baudelaire (1)
- Bauman (25)
- Benfica (3)
- Bento de Jesus Caraça (3)
- Bernard-Henri Lévy (1)
- Bernini (1)
- Bertrand Russel (1)
- Biden (1)
- Bill Gates (1)
- Biodiversidade (1)
- Biogeografia (1)
- Bismarck (1)
- Blogosfera (11)
- Blogues (3)
- Boas-Festas (1)
- Boaventura de Sousa Santos (6)
- Bob Dylan (2)
- Brasil (4)
- Brexit (5)
- Bruegel (1)
- Bruno Patino (1)
- Cão d' Água (1)
- Capitalismo (5)
- Caravaggio (2)
- Carl Orff (1)
- Carlo Bordoni (1)
- Céline (1)
- Censura (1)
- Cervantes (2)
- Charles Darwin (1)
- Charles Trenet (1)
- Chesterton (1)
- Chico Buarque (1)
- China (4)
- Chris Jordan (2)
- Cícero (3)
- Cidade (1)
- Ciência (14)
- Ciência e Tecnologia (5)
- Ciência Política (2)
- Cinema (1)
- Citações (118)
- Civilizações (9)
- Clara Ferreira Alves (4)
- Claude Lévy-Strauss (3)
- Claude Lorrain (1)
- Coleridge (1)
- Colonialismo (1)
- Colum McCann (1)
- Comunismo (1)
- Conceitos (1)
- Conquista (1)
- Cormac McCarthy (4)
- Cornelius Castoriadis (4)
- Coronavírus (7)
- Cosmé Tura (1)
- COVID-19 (3)
- Crise (2)
- Crise financeira (1)
- Cristiano Ronaldo (4)
- Cristo (1)
- Crítica literária (1)
- Croce (1)
- Cultura (5)
- Curzio Malaparte (2)
- Daniel Bessa (1)
- Daniel Boorstin (1)
- David Attenborough (3)
- David Bowie (1)
- David Harvey (8)
- David Landes (1)
- David Wallace-Wells (1)
- Dedos famosos que apontam (5)
- Democracia (7)
- Demografia (1)
- Desabafos (3)
- Descartes (1)
- Desemprego (1)
- Desenvolvimento (2)
- Desmond Tutu (1)
- Desporto (15)
- Direitos Humanos (1)
- Diversão (1)
- Don Delillo (1)
- Dudley Seers (1)
- Dulce Félix (1)
- Dürer (3)
- E.O. Wilson (3)
- E.U.A. (1)
- Eça de Queirós (2)
- Economia (69)
- Eduardo Lourenço (3)
- Educação (35)
- Edward Soja (2)
- Einstein (1)
- Elias Canetti (1)
- Elites (1)
- Embirrações (4)
- Emerson (1)
- Emmanuel Todd (1)
- Empédocles (1)
- Ennio Morricone (2)
- Ensino (8)
- Ericeira (1)
- Escultura (6)
- Espanha (2)
- Espinosa (1)
- Espuma dos dias (5)
- Ésquilo (1)
- Estado Islâmico (1)
- Estoicismo (2)
- Estranhos dias os nossos (2)
- Ética (10)
- EUA (19)
- Eugénio de Andrade (3)
- Europa (18)
- Famosos Barbudos (1)
- Fascismo (2)
- Fauna (40)
- Feira do Livro (2)
- Ferdinand Addis (1)
- Férias (2)
- Fernando Grade (1)
- Fernando Pessoa (17)
- Ficção (1)
- Ficção Científica (2)
- Fidel Castro (3)
- Figueiras (1)
- Filosofia (67)
- Finanças (1)
- Flora (11)
- Fogo (1)
- Fonte da Telha (1)
- Formosa (1)
- Fotografia (114)
- Foucault (5)
- França (5)
- Frank Herbert (2)
- Freitas do Amaral (1)
- Fukuyama (2)
- Futebol (23)
- Gabriel García Márquez (2)
- Galbraith (1)
- Garcia Lorca (3)
- Garzi (1)
- Geografia (29)
- Geologia (4)
- Geopolítica (16)
- George Steiner (14)
- Georges Moreau de Tours (1)
- Gerês (4)
- Globalização (15)
- Gonçalo Cadilhe (2)
- Gonçalo M. Tavares (1)
- Gonçalo Ribeiro Telles (1)
- Gore Vidal (3)
- Goya (1)
- Gramsci (1)
- Grandes Aberturas (8)
- Grécia (2)
- Grécia Antiga (10)
- Guadiana (5)
- Guerra (20)
- Guterres (2)
- Handel (1)
- Hannah Arendt (1)
- Harold Bloom (2)
- Hayek (1)
- Hegel (1)
- Henri Lefebvre (1)
- Henrique Raposo (1)
- Heraclito (7)
- Heródoto (5)
- Hervé Le Tellier (1)
- Hesíodo (7)
- Hillary Clinton (1)
- Hino (2)
- História (16)
- Hobsbawm (4)
- Homenagem (7)
- Homero (5)
- Horácio (4)
- Hubert Reeves (3)
- Hugo Chávez (3)
- Humanismo (2)
- Humor (1)
- Ian Bremmer (3)
- Ian Morris (1)
- Iconoclastia (2)
- Ideologia (8)
- Ignacio Ramonet (2)
- Ilíada (1)
- Iluminismo (2)
- Imigração (1)
- Immanuel Wallerstein (1)
- Imprensa (1)
- Índia (2)
- Internacional (31)
- Iraque (1)
- Islão (3)
- Israel (5)
- Jacques Barzun (1)
- Jakob Schlesinger (1)
- James Knight-Smith (1)
- Japão (5)
- Jared Diamond (2)
- Jean Fouquet (1)
- Jihadismo (1)
- Jim Morrison (1)
- Jô Soares (1)
- João Lourenço (1)
- João Luís Barreto Guimarães (1)
- João Maurício Brás (9)
- João Salgueiro (1)
- João Villaret (1)
- Jogos Olímpicos (14)
- John Keegan (1)
- John Locke (1)
- Jonathan Swift (1)
- Jorge Luis Borges (1)
- Jornalismo (3)
- José Gil (4)
- Joseph Conrad (3)
- Joseph-Noël Sylvestre (1)
- Juliette Gréco (1)
- Justiça (1)
- Kamala Harris (1)
- Karl Polanyi (3)
- Karl Popper (1)
- Kazuo Ishiguro (1)
- Ken Follett (1)
- Kenneth Clark (1)
- Kolakowski (1)
- Kropotkin (1)
- Krugman (1)
- Lana Del Rey (1)
- Langston Hughes (1)
- Laurent Binet (1)
- Lavoisier (1)
- Leituras (10)
- Leon Tolstói (1)
- Leonardo da Vinci (4)
- Li Wenliang (1)
- Liberalismo (5)
- Liberdade (5)
- Lipovetsky (4)
- Lisboa (2)
- Literatura (10)
- Literatura pós-modernista (1)
- Livros (77)
- Livros Lidos (35)
- Lorca (3)
- Lou Marinoff (1)
- Lugares de Portugal (4)
- Macaulay (1)
- Madeira (1)
- Madeleine Albright (2)
- Madredeus (2)
- Madrid (1)
- Mafalda (1)
- Málaga (1)
- Manuel António Pina (1)
- Máquinas (6)
- Maradona (1)
- Marc Augé (1)
- Marcelo Rebelo de Sousa (2)
- Marco Aurélio (1)
- Maria Filomena Mónica (4)
- Maria José Morgado (1)
- Maria José Roxo (1)
- Marilyn (1)
- Mário Soares (1)
- Marques Mendes (2)
- Marte (3)
- Martin Landau (1)
- Martin Page (2)
- Marx (8)
- Marxismo (1)
- Matemática (1)
- Máximas pessoais (3)
- Medeiros Ferreira (1)
- Media (4)
- Mega Ferreira (1)
- Melville (3)
- Memória Esquecida (6)
- Michel Houellebecq (2)
- Michel Serres (1)
- Migrações (1)
- Miguel Ângelo (1)
- Miguel de Unamuno (2)
- Miguel Esteves Cardoso (2)
- Miguel Torga (5)
- Mikhail Gorbachev (1)
- Minho (1)
- Mitologia (3)
- Moçambique (1)
- Modernidade (3)
- Montesquieu (1)
- Morin (1)
- Morrissey (1)
- Mozart (1)
- Música (20)
- Mussorgsky (1)
- Nagasaki (1)
- Naide Gomes (1)
- Nanni Moretti (1)
- Natal (4)
- NATO (1)
- Natureza (1)
- Natureza Humana (1)
- Navios (2)
- Nazismo (1)
- Nelson Évora (1)
- Neoliberalismo (70)
- Niall Ferguson (3)
- Nietzsche (9)
- Noam Chomsky (1)
- Norman Davies (2)
- Notícia (2)
- Notícias do milagre económico (2)
- Nova Iorque (1)
- Nuno Rogeiro (3)
- O Neoliberalismo no seu Estertor (19)
- O neoliberalismo no seu melhor (9)
- Obama (6)
- Opinião (3)
- Oppenheimer (1)
- OqueStrada (1)
- Orlando Ribeiro (3)
- Ortega y Gasset (10)
- Orwell (2)
- Os touros querem-se vivos (2)
- Paco de Lúcia (1)
- Padre António Vieira (2)
- Paidéia (1)
- Paisagem (28)
- Paleontologia (2)
- Palestina (3)
- Palmira (1)
- Pandemia (9)
- Papa Bento XVI (4)
- Paquistão (2)
- Para memória futura. Ambiente. (1)
- Paris (2)
- Partidas (53)
- Pascal (1)
- Patrick Deneen (1)
- Patti Smith (1)
- Paul Valéry (2)
- Pelé (1)
- Pensamentos (54)
- Peter Sloterdijk (33)
- Phil Hansen (1)
- Píndaro (1)
- Pino Daeni (1)
- Pintura (84)
- Platão (3)
- Plutarco (1)
- Poder (1)
- Poe (1)
- Poemas da minha vida (9)
- Poesia (105)
- Política (161)
- Política Internacional (2)
- Porto (18)
- Portugal (59)
- Portugal é Paisagem e o Resto é Lisboa (9)
- Portugueses (5)
- Pós-modernidade (2)
- Praia (20)
- Pré-socráticos (1)
- Presidente Cavaco (23)
- Putin (4)
- Quino (1)
- Raça (1)
- Rachmaninov (1)
- Racismo (2)
- Rafael (3)
- Rafael Alberti (1)
- Reflexões (4)
- Reflexões sobre Reflexões (1)
- Reino Unido (6)
- Relações Internacionais (4)
- Religião (28)
- Rembradt (1)
- Renoir (1)
- Rentes de Carvalho (4)
- Respeito (2)
- Revolução Industrial (1)
- Revoluções (5)
- Ricardo Reis (1)
- Richard Dawkins (4)
- Richard Rogers (1)
- Rimbaud (2)
- Robert Capa (2)
- Roberto Bolaño (1)
- Rocha Pereira (1)
- Rodin (2)
- Roger Scruton (1)
- Roma (9)
- Rússia (4)
- Safo (1)
- Sal da Língua (1)
- Salazar (2)
- Samuel Barber (1)
- Samuel Huntington (1)
- Santa Sofia (1)
- Sean Connery (1)
- Sebastião Salgado (1)
- Seca (1)
- Século XX (2)
- Séneca (4)
- Sesimbra (2)
- Sevilha (4)
- Sexta Extinção (3)
- Shostakovich (1)
- Simões Lopes (1)
- Sionismo (1)
- Síria (9)
- Socialismo (1)
- Sociedade (22)
- Sociologia (11)
- Sócrates (2)
- Sófocles (2)
- Solidão (1)
- Sólon (2)
- Sorolla (1)
- Steven Pinker (2)
- Stiglitz (1)
- Sublinhado (24)
- Suiça (1)
- Sun Tzu (1)
- Suzanne Collins (1)
- T.E.Lawrence (1)
- Tabucchi (1)
- Telavive (1)
- Telescópio James Webb (1)
- Televisão (1)
- Terreiro do Paço (2)
- Território (1)
- Terrorismo (11)
- Thomas Friedman (2)
- Thomas Kuhn (1)
- Tim Marshall (2)
- Titã (1)
- Tocqueville (1)
- Toledo (2)
- Tom Lea (1)
- Tony Judt (11)
- Transformações Sócio-Culturais (1)
- Triste País (1)
- Trump (15)
- Turquia (2)
- Ucrânia (9)
- Ulrich Beck (6)
- Umberto Eco (8)
- União Europeia (25)
- Universidade (1)
- Urbanismo (2)
- Ursula von der Leyen (1)
- Utopia (1)
- Vargas Llosa (3)
- Vasco da Gama (1)
- Vasco Graça Moura (1)
- Vasco Pulido Valente (5)
- Venezuela (1)
- Verão (9)
- Violência Policial (1)
- Virgílio (1)
- Viriato Soromenho-Marques (1)
- Vital Moreira (1)
- Vítor Gaspar (1)
- Viviane Forrester (1)
- Vulcões (3)
- walt whitman (5)
- Walter Mittelholzer (1)
- Winston Churchill (2)
- Xenofonte (2)
- Yuval Harari (3)
- Zelensky (1)
- Zizek (2)
- Zurique (1)
- Zweig (6)






