quinta-feira, janeiro 31, 2013
terça-feira, janeiro 29, 2013
A estrada e a estalagem
"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que
chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada.
Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar
nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com
outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se
fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que
fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas
até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da
paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto
espero.
Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que
me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se
o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros,
entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem,
será bem também."
Bernardo Soares, O Livro do Desassossego in Obras de Fernando Pessoa, Vol. II, Lello
& Irmão, Porto, 1986. Pág. 550-551
“A estrada é sempre melhor do que a estalagem.”
Cervantes
***
A vida sempre pode ser concebida
como uma estalagem ou como uma estrada. Quixote fez-se à estrada e, por vezes,
parava nas estalagens que confundia com castelos. Bernardo Soares aguardava na
estalagem, sem pressa, a chegada da diligência do abismo do qual nada se sabe.
Sabemos apenas que quando o olhamos ele
nos devolve o olhar, mais penetrante ainda, e nos indaga. Estremecemos então.
Persignamo-nos. Oramos: “Mesmo que
atravesse os vales sombrios, nenhum mal temerei, porque estais comigo” Sl.
23… Além está o vazio e aqui mora o horror ao vazio.
Ora, parece que finalmente estamos de acordo
Campos e Cunha, cujas palavras noutra ocasião já
foram aqui alvo de crítica, afirma agora que “o documento do Fundo Monetário
Internacional faz um diagnóstico distorcido e avisa que a redução da despesa
não pode ser feita através de cortes cegos.” Aqui, na Antena 1. Ora, parece que finalmente estamos
de acordo, embora tal conclusão seja já consensual no país, excepto entre os que nos governam, que classificam o relatório de "bom".
E diz ainda que “sem reforma do
sistema político, vejo com muito cepticismo a possibilidade de fazermos uma
reforma da administração pública". Aqui. De acordo, uma vez mais.
Na verdade, é maior o escrutínio
que se faz para contratar um condutor de ambulâncias do INEM do que o que se
realiza para escolher um político para um cargo na governação do país ou de um
partido político maioritário. O resultado está à vista, o espaço político
institucional foi invadido por incompetentes, vigaristas, gente sem ética,
cínicos e canalhas.
Gente que utiliza os partidos (em
particular os do famoso “arco do poder” ou “da governação”) para ascender e chegar-se
ao poder (ao “pote”, dizem alguns deles), pensando em primeiro lugar em
servir-se a si, em servir os seus amigos e clientelas, os lobbies que representam, e só depois, muito depois, os cidadãos
comuns.
É óbvio que o sistema político
deve ser reformado em primeiro lugar. Os partidos deveriam ser “imunizados”
contra estes elementos, que se servem deles como cavalos e Tróia para
alcançarem os seus intentos e satisfazerem as suas ambições pessoais, sem
olharem a meios. Os candidatos a lugares de topo nos partidos e no país
deveriam ser muito bem escrutinados – o seu passado, o seu presente -, antes de
assumirem tais posições.
Não seria o fim dos vigaristas na
política, mas cremos que a qualidade da democracia melhoraria bastante.
Afinal, ninguém gosta de ser governado por vigaristas e incompetentes, muitos dos quais lhes basta aguardar que o poder lhes caia no colo, que é uma questão de tempo, dizem eles.
segunda-feira, janeiro 28, 2013
Este país não é para portugueses.
Noticia o Expresso, aqui:
Decididamente, este país não é para portugueses.
domingo, janeiro 27, 2013
Uma boa notícia da semana passada, que não nos passou despercebida
De acordo com uma notícia do
Público, a taxa Tobin “pode entrar em vigor para 11 países da U.E.”, um dos quais Portugal. Lamenta-se porém que
nos encontremos ainda no campo das possibilidades, como bem evidencia a notícia
(aqui os destaques a negrito são nossos). É também evidente a falta de coragem, que se
manifesta através de adiamentos, hesitações e descoordenações – “o comissário europeu da Fiscalidade afirmou já que não espera que o imposto entre em vigor ao nível dos 11 países da cooperação reforçada antes de 2014”. Ora, quando se trata de taxar o capital
financeiro, parece que todas as cautelas são poucas, já quando se trata de
taxar o trabalho, é fartar vilanagem.
Diz ainda a notícia que “Apesar de não existirem ainda valores definidos, a Comissão Europeia propõe um mínimo de 0,1% de taxa sobre a transacção de obrigações e acções e de 0,01% para o comércio de derivados” e
refere ainda que “o Governo [português] pode implementar o imposto sobre as transacções financeiras sem que seja necessária aprovação da Assembleia da República, desde que as taxas não ultrapassem a barreira dos 0,3% nas transacções de derivados e de 0,1% no caso das transacções de obrigações e acções”.
Vamos então estar atentos à
coragem do governo português, e ver se faz aquilo que pode. Mas não sejamos
ingénuos: neste caso, e com esta gente, é ver para crer, como dizia São Tomé.
Não deixa contudo de ser uma boa
notícia, uma vez que “a chanceler alemã, Angela Merkel, sugeriu em Outubro que as receitas sejam usadas para financiar países em dificuldade.” E Portugal é um deles.
quarta-feira, janeiro 23, 2013
Voltámos aos mercados. Rejubilemos!
Portugal foi aos mercados.
Aleluia! Que bom é para Portugal e para todos nós, portugueses. Agora é que vai ser: o
número de pobres reduzir-se-á, os desempregados tornar-se-ão residuais, as desigualdades sociais esbater-se-ão, e cessará a emigração por razões económicas. Finalmente as obras
iniciadas serão terminadas: túneis (o do Marão, por exemplo), auto-estradas, (o IP8, por exemplo), linhas de caminho-de-ferro (o ramal da Lousã, por exemplo),
as escolas inacabadas (as do Parque Escolar, por exemplo) pontes (a terceira travessia do Tejo, por exemplo), o novo aeroporto de Lisboa, a linha do T.G.V. e mais o T.G.V. e etc., etc., etc. Finalmente, agora sim, é que vão retirar as medievais
portagens das auto-estradas, essas taxas que sufocam a competitividade das
nossas empresas, e que tornam todos os lugares do país mais distantes, se considerarmos a distância-custo. Enfim, agora é que o país vai crescer, mas a taxas superiores
a 3% ao ano, porque, como é sabido, taxas de crescimento positivas inferiores a 1% não criam necessariamente
emprego. Agora é que é: o desemprego e o empobrecimento vão desaparecer dos
nossos horizontes. Vão devolver-nos tudo o que nos roubaram em taxas e
impostos, para não falar em direitos a que muitos chamaram, maldosamente, regalias.
Portugal voltou aos mercados. Rejubilemos! Aleluia! Aleluia! Aleluia!
terça-feira, janeiro 22, 2013
O Verbo
Ninguém lê o que escrevemos. E
depois? Fica escrito! E quando partirmos, ficou escrito! E quando o vento
varrer o que escrevemos e as palavras se perderem para sempre nas areias do
tempo, o que importa é termos escrito. O que importa é termos passado das
palavras aos actos e dos actos às palavras. E esse acto, o de termos escrito, ninguém poderá apagar. E sempre poderemos dizer: ousámos lançar
palavras ao vento e lançámo-las. As palavras não morrem. O Verbo já cá andava. No princípio já existia o Verbo. E o
Verbo ficará, mesmo que tudo se suma num
longo silêncio.
***
Para esclarecimento, remetemos
para o poema de Alfonso Canales, O Discurso de César às Legiões, que termina assim:
quando
tudo se suma num longo silêncio, e não haja um só
sinal para decifrar, TEREI VIVIDO.
domingo, janeiro 20, 2013
Os professores, no rol dos sacrificados
Fala-se muito do recuo
espectacular da taxa de mortalidade infantil em Portugal, tendo o nosso Sistema
Nacional de Saúde conseguido fazê-la regredir para valores situados entre os
mais baixos do mundo – no período de 2007-2011, foi de 3,2‰, segundo o INE – mas
esquece-se o esforço realizado pelo Sistema Educativo português, que em poucas décadas
conseguiu debelar as elevadas taxas de analfabetismo, tendo funcionado como um
motor de ascensão social para muitos portugueses. Maria Filomena Mónica, no
Expresso desta semana (19-01-2013), honra lhe seja feita, não esquece esse
facto. Afirma ela:
Alguém
deveria ter recordado a estes cérebros [os técnicos do FMI que redigiram o
relatório do Governo que propõe o despedimento de 50 000 docentes do Ensino
Básico e Secundário e a entrega das escolas à iniciativa privada] que a
evolução da taxa de analfabetismo em Portugal não tem paralelo na Europa. Em
vésperas da Revolução de 1974, a percentagem de analfabetos ainda era de 26%. É
difícil imaginar um país onde o número de factores adversos à escolarização
fosse tão elevado. O resultado está à vista. Muitos dos alunos contemporâneos
têm avós analfabetos e pais que não passaram da 4ª classe.
Sei do que Maria Filomena Mónica fala. Sou um dos muitos portugueses
que tem avós analfabetos e pais que não frequentaram o Ensino Superior e sinto
que muito devo ao Sistema Educativo português, à Escola Pública, às
Universidades públicas e ao Instituto também público, que frequentei. Muito
devo aos meus professores, pagos com “dinheiros públicos” e por isso aos contribuintes
e ao Estado social português. Foram os professores que me deram a conhecer
a existência de universos que desconhecia, como o da Filosofia, da Ciência, da
Arte e da Cultura, da Literatura, da Educação Física, entre outros. A minha
dívida para com eles não tem preço.
Custa-me por isso ver agora esses profissionais serem apontados,
conjuntamente com os profissionais da saúde, como uma espécie de bodes
expiatórios da crise que atravessamos. É bom não esquecer, no entanto, que foi José
Sócrates quem iniciou o processo de tentativa de estigmatização social dos
professores e preparou o terreno para o que agora este governo se prepara para
fazer. No momento de realizar “cortes” na Função Pública, são esses os
profissionais que estão entre os primeiros, no rol dos sacrificados. Há muito
que o primeiro-ministro os vinha visando (bastava atentar nas suas entrevistas,
ora sugerindo que emigrassem para países lusófonos, ora afirmando que na
Educação ainda tinha margem para “cortar”). Tudo para agrado dos mercados,
ávidos por novas áreas de negócio, como o da Educação que querem ver
privatizada, e contentamento deste governo lacaio.
Ao atacar-se o Sistema Educativo ataca-se o elevador social que
permitiu a ascensão, no espaço de uma geração, dos portugueses ao mundo da
Cultura*, para não falar de outros mundos. Foi também através desse elevador
que os portugueses foram levantados do chão, para utilizar a realista fórmula
de José Saramago. E é para o chão que este governo os quer novamente lançar.
Que os portugueses não tenham espírito crítico, que sejam dóceis, submissos e
facilmente exploráveis, que regressem à incultura, de onde nunca deveriam ter
saído, é o que secretamente parecem desejar as reaccionárias “elites” políticas que nos
governam. E o pior de tudo isto é que, ao atacar-se o Sistema Educativo público,
é a própria democracia que é atacada nas suas fundações.
__________________________________________
(*) Em relação à importância da Cultura é sempre bom lembrar o
matemático e grande professor, Bento de Jesus Caraça, nascido em Vila Viçosa e
filho de trabalhadores rurais que, em 1933, na conferência “A cultura integral do indivíduo – problema
central no nosso tempo”, responde à questão, “o que é um homem culto?” da
seguinte forma:
«É aquele que: 1.º - Tem
consciência da sua posição no cosmos e, em particular na sociedade a que
pertence. 2.º - Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é
inerente à existência como ser humano. 3.º - Faz do aperfeiçoamento do seu
interior a preocupação máxima e fim último da vida». Ver AQUI.
É isto um homem culto. É também por isto que nos temos de bater. Não podemos perder a nossa dignidade.
É isto um homem culto. É também por isto que nos temos de bater. Não podemos perder a nossa dignidade.
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domingo, janeiro 13, 2013
Portugal estagnado
IP8/A26 interrompido, junto a Santa Margarida do Sado, hoje, ao entardecer.
De Norte a Sul de Portugal o que se vê é isto: obras já iniciadas, paradas. Portugal é um imenso estaleiro de obras abandonado. Tudo interrompido, tudo por acabar, como se este país fosse uma casa abandonada em debandada pelos seus ocupantes: ele é viadutos, estradas, auto-estradas, escolas, túneis, pontes, barragens, aeroporto, caminhos-de-ferro, a linha do TGV, etc., etc., etc. Tudo inacabado, estagnado, desolado… Imagens de um apocalipse ao entardecer. Um país sem dinheiro, canalizado que foi para o pagamento dos juros de uma dívida que não se quer renegociar e para outros lados...Um país sem trabalho... Em suma, um país desgovernado.
De Norte a Sul de Portugal o que se vê é isto: obras já iniciadas, paradas. Portugal é um imenso estaleiro de obras abandonado. Tudo interrompido, tudo por acabar, como se este país fosse uma casa abandonada em debandada pelos seus ocupantes: ele é viadutos, estradas, auto-estradas, escolas, túneis, pontes, barragens, aeroporto, caminhos-de-ferro, a linha do TGV, etc., etc., etc. Tudo inacabado, estagnado, desolado… Imagens de um apocalipse ao entardecer. Um país sem dinheiro, canalizado que foi para o pagamento dos juros de uma dívida que não se quer renegociar e para outros lados...Um país sem trabalho... Em suma, um país desgovernado.
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Portugal é Paisagem e o Resto é Lisboa
sábado, janeiro 12, 2013
Sob protectorado. Estaremos preparados para o imprevisto na Era da incerteza?
«Neste momento
eu julgo que a confusão ideológica é muito grande, porque o futuro é muito
incerto, em relação ao mundo Ocidental, sobretudo, e adivinhar o que é que vai
ser o futuro é absolutamente impossível. Ninguém pode fazer juízos de
probabilidade. Fazer juízos de possibilidade é uma audácia, portanto, temos
sempre de estar preparados para que aconteça a outra coisa. E, a impressão que eu tenho, neste momento,
é que nós estamos, sobretudo em relação a esse partido [PSD],
num momento em que, tendo ele tido sempre uma pluralidade de orientações,
porque foi um partido sempre bastante plural… a impressão que me dá, é que neste
momento é que, o acento tónico é neoliberal. É um neoliberalismo que é implacável,
nas circunstâncias em que nós estamos, e que por isso mesmo está a acontecer-nos
que essa ideologia liberal, que me parece evidente, é acompanhada de uma
atitude repressiva que como que redefine o liberalismo que está a ser aplicado.
[Repressiva] no sentido em que muitas
concessões de autoridade não são propriamente aquelas que são previstas na
racionalidade constitucional, designadamente na área fiscal, que está a
acontecer, e também o facto da proeminência das sanções económicas para
corresponder a uma questão que parece ser a questão estratégica mais evidente
do governo, que é o orçamento.
Bom, e isto
ainda não é seguro que corresponda a uma tendência que se torna dominante.
Noutros partidos também é assim: o CDS também tinha tendências que variaram no
tempo, estou só a responder à pergunta, não estou a dizer que é específico. Mas
é numa circunstância em que eu julgo que o
país está em regime de protectorado. E quando o país está em regime de
protectorado as orientações estão muito subordinadas a orientações que não
domina, que são, mesmo que sejam compromissos – antigamente dizia-se, foi
forçado mas quis - e realmente há um condicionamento por a chamada troika que tem reflexos que a meu ver são
preocupantes, designadamente a tendência que há, nalguns lugares, intervenções
para tratar a Constituição como se fosse uma lei ordinária. Isso acontece nos
protectorados porque quem dá a
orientação é quem tem o poder da protecção, não é a Constituição do país.
Nós tivemos uma grande experiência de protectorados, não estou a dizer que o
modelo é o mesmo, do passado, mas temos que usar palavras que sejam
inteligíveis e a palavra inteligível para mim neste momento é esta, e essa orientação que vem desta dependência
internacional é evidentemente neoliberal acompanhada de uma atitude repressiva
nesse sentido que lhe estou a dizer.
(…)
A fome não é um
dever constitucional.
(…)
Nós
arriscamo-nos a passar o limite da paciência, sobretudo da devoção, porque todo
esse sacrifício da população é devoção cívica ao seu país, e há limites para
tudo.»
***
O Professor Adriano Moreira, muito mais que um homem
esclarecido é um homem esclarecedor. Uma voz sempre a escutar com atenção.
Venham agora dizer-nos que vivemos numa Era onde a ideologia se encontra ausente, ou que o neoliberalismo é um unicórnio. Nada mais falso. Se a nossa vida está hoje lançada na incerteza e na insegurança, a responsabilidade é em grande parte desses que se guiam por essa doutrina neoliberal e que nos governam guiados por ela. Os ordoliberais que dominam a Zona Euro, por seu lado, mais não fazem do que impor as suas políticas aos que se puseram a jeito, aos que imploraram, aos países que se tornaram seus protectorados pela acção de políticos governantes incompetentes e desprovidos de inteligência e visão.
Venham agora dizer-nos que vivemos numa Era onde a ideologia se encontra ausente, ou que o neoliberalismo é um unicórnio. Nada mais falso. Se a nossa vida está hoje lançada na incerteza e na insegurança, a responsabilidade é em grande parte desses que se guiam por essa doutrina neoliberal e que nos governam guiados por ela. Os ordoliberais que dominam a Zona Euro, por seu lado, mais não fazem do que impor as suas políticas aos que se puseram a jeito, aos que imploraram, aos países que se tornaram seus protectorados pela acção de políticos governantes incompetentes e desprovidos de inteligência e visão.
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quinta-feira, janeiro 10, 2013
Heraclito, por Séneca
«Os nossos corpos fluem rapidamente como a
corrente dos rios. Tudo quanto vês acompanha o veloz fluir do tempo; nada do
que vemos permanece idêntico; eu mesmo, enquanto falo na mudança das coisas, já
mudei.
É este o sentido da frase de Heraclito: “podemos
e não podemos mergulhar duas vezes no mesmo rio”. O nome do rio permanece o mesmo, a água essa já passou adiante. Num
rio o fenómeno é mais sensível aos olhos do que num homem, mas não é menos
rápido o curso do tempo em nós; por isso me espanta a loucura que nos leva a
tanto amarmos essa coisa fugidia que é o corpo, e a temer morrermos um dia
quando cada momento é a morte do estado imediatamente anterior. Dispõe-te,
portanto, a não recear que ocorra um dia aquilo que continuamente está
ocorrendo.»
Séneca, Cartas a Lucílio, Livro VI, Carta 58,
Fundação Calouste Gulbenkian, 2007, pág. 205.
***
Ler os
estóicos. O pensamento de Séneca atravessa o tempo e atinge-me quase dois mil anos
depois. Ecoa no meu pensamento. Intemporal, conforta-me no meio desta
tempestade contemporânea que atravessamos. Nasceu em Córdova, não muito longe
daqui, viveu e escreveu no tempo do Império, no meio da pax romana, mas o seu pensamento adequa-se a todas as tempestades.
Ajuda-nos a enfrentá-las, sem medo, de cabeça erguida e em paz connosco e com o
mundo, com estoicidade.
Depois da sua
breve explicação, alguém duvida ainda que todos
os dias nasce um sol novo, como dizia Heraclito? Aquela fornalha a oito
minutos-luz daqui, também muda, e não só todos os dias, mas a todos os
nanosegundos, e o hidrogénio que queima converte-se em hélio e amanhã, quando voltar
a raiar (como se alguma vez tivesse deixado de raiar), já não será por isso o
mesmo. Mudará sempre, porque tudo muda. Tudo flui.
quarta-feira, janeiro 09, 2013
Vamos ao que interessa
© AMCD
Aqui não entra o FMI.
domingo, janeiro 06, 2013
Um Estado a construir a sua própria destruição: um Estado paradoxal.
“Este Governo tem de ser mudado, tem de sair!” (aos 17’55’’)
“Durante o salazarismo, nós vivíamos abaixo das nossas possibilidades,
depois do 25 de Abril, vivemos acima das nossas possibilidades, agora o que
o Estado [o Governo] quer é que nós vivamos de acordo com as nossas
possibilidades. Mas como? Reduzindo ao máximo as possibilidades. Não é?
Portanto, isto vai ser uma sociedade esquisitíssima, porque nós não vamos ter
os meios para querer mais. Abaixam-nos as possibilidades e reduzem o Estado,
adaptam o Estado, às possibilidades que são mínimas. Vamos ter um Estado
minimal, realmente. Não é o que nós estamos a ter. Nós estamos a ter um Estado
que é paradoxal, contraditório, porque ele invade tudo e ao mesmo tempo está a
construir a sua própria… está a desmantelar a sua própria estrutura estadual.”
(aos 24’55’’)
(os destaques são nossos)
***
Ora bem, parece que o Governo
está, face ao Estado, a aplicar o velho conceito schumpeteriano de “destruição
criativa”. Já tínhamos percebido: arrasa o Estado para construir um novo à
sua medida, um estado neoliberal. Chamam-lhe reestruturação do Estado ou
reforma, quando na verdade o destroem e desmantelam. Das suas cinzas nascerão
novos amanhãs que cantam, julgarão eles, para usarmos um lugar-comum. São os
amanhãs deles. Estamos perante um governo de revolucionários portanto. Pois bem, contra esta revolução,
só uma rebelião. Uma rebelião pacífica e democrática. Seremos capazes disso, ou
voltaremos a votar nos mesmos de sempre? Esses, os do "arco da
governação".(*)
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Palavras de um insuspeito muito suspeito, para alguns...
Causam apreensão os focos de tensão e conflito causados por crescentes desigualdades
entre ricos e pobres, pelo predomínio duma mentalidade egoísta e individualista
que se exprime inclusivamente por um capitalismo financeiro desregrado. Além de
variadas formas de terrorismo e criminalidade internacional, põem em perigo a
paz aqueles fundamentalismos e fanatismos que distorcem a verdadeira natureza
da religião, chamada a favorecer a comunhão e a reconciliação entre os homens.
(…)
Por isso, é indispensável que as várias culturas de hoje superem
antropologias e éticas fundadas sobre motivos teorico-práticos meramente subjectivistas
e pragmáticos, em virtude dos quais as relações da convivência se inspiram em
critérios de poder ou de lucro, os meios tornam-se fins, e vice-versa, a
cultura e a educação concentram-se apenas nos instrumentos, na técnica e na
eficiência. Condição preliminar para a paz é o desmantelamento da ditadura do
relativismo e da apologia duma moral totalmente autónoma, que impede o
reconhecimento de quão imprescindível seja a lei moral natural inscrita por
Deus [quem for ateu que omita ou risque as palavras por Deus e continue lendo]
na consciência de cada homem.»
Mensagem de Sua Santidade Bento XVI para a Celebração do XLVI
Dia Mundial da Paz, 1 de Janeiro de 2013. AQUI.
*
E não é que estou de acordo.
O Papa consegue ser mais "radical" que o Cardeal Policarpo. E
esta.
E estou-me nas tintas para os sapatos que usa, se
são Prada ou outros, que me importa, seus anticlericais duma figa. Ele que
calce o que quiser e que lhe sirva nos seus santos pés.
**
Até na Antiga Grécia os mais sábios não deixavam de visitar, por
vezes, o Templo de Apolo, para ouvir a Pitonisa.
***
P.S. – E não, não sou o João César das Neves, nem por sombras.
quarta-feira, janeiro 02, 2013
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