domingo, fevereiro 17, 2013

Entretanto na Síria



Entretanto na Síria, os morteiros continuam a semear a morte. Volvidos dois anos de revolução morreram cerca de 70 000 pessoas de ambos os lados, noticia a BBC. Quantas mortes poderiam ter sido evitadas se o ditador tivesse resignado a tempo de evitar o recrudescimento do conflito? A violência contra os primeiros manifestantes fez as suas primeiras vítimas, e a partir daí cresceu como uma bola de neve. Eis a prova mil vezes repetida de que a violência gera violência. O ciclo só pode ser parado com a cedência de uma das partes ou a derrota militar de uma delas, o que não se adivinha para breve.

Curiosamente parecemos estar a assistir ao tipo de guerras quentes comuns no tempo da Guerra Fria, quando as superpotências se furtavam ao conflito directo entre si. O Bashar tem atrás de si o apoio da Rússia, da China, do Irão, etc. e os rebeldes, o apoio do Ocidente e da Turquia.

Quem sofre? O povo sírio.

sábado, fevereiro 16, 2013

Delichon urbicum


Este ano chegaram cedo. Ontem avistámos as primeiras andorinhas-dos-beirais do ano, vindas de África. Hoje vimo-las atarefadas em Cabanas de Tavira, na construção dos ninhos. 

Anunciam a aproximação da Primavera. Ficarão até ao fim do Verão.

sexta-feira, fevereiro 15, 2013

Talvez o maior saque da história, a seguir ao resgate de Atahualpa


David Landes na sua magnífica obra, A Riqueza e a Pobreza das Nações, narra o destino do Madre de Deus, um navio português do tempo em que a Ibéria era hiperpotência:


«Os Romanos tinham um aforismo, Pecunia non olet – “O dinheiro não cheira”. As pessoas podem não gostar do modo como ele é arranjado ou da pessoa que o conseguiu, mas gostam do dinheiro e irão aceitá-lo.
Num outro sentido, porém, o dinheiro cheira fortemente e o seu odor atrairá gente de toda a parte.

Em 1592, a Inglaterra estava em guerra contra a Espanha e Portugal, que, como já vimos, fora unido à coroa espanhola pelo jogo do casamento e da herança. Cerca de quatro anos antes, os Ingleses tinham repelido uma invasão espanhola e puseram a pique as embarcações inimigas (a pretensa Armada Invencível). Agora, uma esquadra inglesa estava a postos ao largo dos Açores para interceptar e capturar navios espanhóis provenientes do Novo Mundo, talvez carregados com tesouros do México e do Peru, quando lhe surgiu uma carraca portuguesa. Era a Madre de Deus, de regresso da Índia e que rumava para Lisboa.
Era maior do que qualquer navio em que os Ingleses já tivessem posto os olhos: 165 pés de comprimento, 57 pés de boca, 1600 toneladas, três vezes o tamanho da maior embarcação existente na Inglaterra; sete cobertas, 32 canhões e outras armas, superstrutura em talha dourada; e porões repletos de tesouros.
Ali estava a matéria-prima dos seus sonhos - arcas abarrotadas de jóias e pérolas, moedas de ouro e de prata, âmbar mais velho do que a Inglaterra, peças do mais fino tecido, tapetes dignos de um palácio, 425 toneladas de pimenta, 45 de cravo-da-índia, 35 de canela, 3 de macis, 3 de noz-moscada, 2,5 de benjoim (resina balsâmica, altamente aromática, usada como base para perfumes e preparados farmacêuticos), 25 de cochinilha (corante feito dos corpos secos das fêmeas de um insecto encontrado em climas semitropicais), 15 de ébano. Mesmo antes que o comandante da esquadra inglesa pudesse tomar a presa a seu cargo, a sua alvoroçada tripulação já tinha atulhado os bolsos com tudo o que era possível.
Quando o navio apresado entrou no porto de Dartmouth, destacou-se muito para além dos outros navios e dos telhados das pequenas casas ao longo do cais. Comerciantes, correctores, vigaristas, batedores de carteiras e ladrões surgiram de muitos quilómetros em redor, vindos até de Londres e de mais longe, atraídos como abelhas para o mel - para visitar o barco (os pescadores locais trafegaram incessantemente, e por alto preço, entre o barco e a margem) e procurar marinheiros bêbados nas tabernas e espeluncas, com a intenção de comprar, roubar, furtar e saquear a presa. Pela lei Inglesa, uma grande parcela dos bens apreendidos era devida à rainha e, quando Elizabeth soube o que estava a acontecer, mandou Sir Walter Raleigh até lá para resgatar o seu dinheiro e punir os saqueadores. «Tenciono deixá-los tão nus como estavam ao nascer», prometeu o valente Sir Walter, «pois Sua Majestade foi roubada e das mais raras e valiosas coisas».
Quando Sir Walter ficou senhor da situação, um carregamento avaliado em meio milhão de libras - quase metade de todo o dinheiro do erário - tinha sido reduzido a 140 000 libras. Mesmo assim, foram necessários dez cargueiros para transportar o tesouro, contornando a costa e subindo o Tamisa até Londres. Depois do resgate de Atahualpa, este foi talvez o maior saque da história. Esse naco de fortuna, essa prelibação das riquezas do Oriente, galvanizaram o interesse inglês por essas terras distantes e colocaram o país (e o mundo) num novo rumo.
Os Ingleses aprenderam outra lição com o Madre de Deus. Quando, alguns anos depois, um rico navio apresado foi conduzido ao Tamisa para ser descarregado, os homens que executaram a tarefa receberam como roupa de trabalho “gibões de tela sem bolsos”».

David Landes, A Riqueza e a Pobreza das Nações, Por que são algumas tão ricas e outras tão pobres, 6ª ed. Gradiva, 2002, pp. 165-167

***

Curiosamente o subtítulo da obra “Por que são algumas [nações] tão ricas e outras tão pobres” acaba por ser muito bem elucidado no trecho acima. Tudo se baseia na guerra, no comércio, no roubo, no furto e no saque. E assim se fez a glória dos impérios.

O saque prossegue entretanto, assumindo novas formas, mantendo porém a sua velha essência.

E assim se constroem as riquezas e as pobrezas do mundo.

Mas no que nos toca, tem a palavra Fernando Pessoa n’Os Colombos:

Os Colombos


Outros haverão de ter
O que houvermos de perder.
Outros poderão achar
O que, no nosso encontrar,
Foi achado, ou não achado,
Segundo o destino dado.

Mas o que a eles não toca
É a Magia que evoca
O Longe e faz dele história.
E por isso a sua glória
É justa auréola dada
Por uma luz emprestada.

Fernando Pessoa, Mensagem

quinta-feira, fevereiro 14, 2013

É o Governo, estúpido!


Há quem se refira ao Estado quando se deveria referir ao Governo e vice-versa. Será que nos querem confundir ou estão confundidos? Isto chega a acontecer até com ex-governantes (refiro-me a F.J.Viegas, aqui), que apontam o dedo ao Estado, quando consideram absurdas certas medidas legislativas com origem no Governo.

Diabolizam assim o Estado quando deveria ser o Governo o visado. Parecem ignorar que existe uma diferença entre Estado e Governo.

Vem isto a propósito de uma medida legislativa, considerada absurda por muito boa gente, que obriga os consumidores à solicitação de factura no acto de qualquer compra, correndo o risco de serem multados se, no caso de interpelação por um "senhor da Autoridade Tributária e Aduaneira", os consumidores não fizerem prova do pedido da factura.

Parece que a polémica tem origem nas alterações ao Código de IVA decretadas pelo Governo no Decreto-Lei n.º 197/2012. Ora é um Decreto-Lei, e como tal, trata-se de um acto legislativo com força de lei, elaborado pelo Governo (quem tiver dúvidas consulte aqui o Priberam). Pelo Governo, entenderam bem?!

Portanto meus senhores (ex-governantes incluídos), se não vos agradam as medidas legislativas emanadas do Governo, não culpem o Estado por isso. Estão a falhar o alvo. Ou será que é de propósito?

Alguns liberais da nossa praça são tão lestos a atacar o Estado que até se esquecem, talvez convenientemente para eles,  que a responsabilidade é do Governo, no que se refere à idiotia das decisões tomadas.

Parece ser caso para dizer: é o Governo, estúpido!
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P.S. - Peço desculpa por utilizar tantas vezes e de forma redundante a palavra "Governo", mas talvez dessa forma a dúvida fique esclarecida de uma vez por todas.

quarta-feira, fevereiro 13, 2013

Estou a gostar de ler...


E de o cruzar com este aqui:


Dois pequenos grandes livros que nos ajudam a compreender a crise da Europa dos nossos dias. Tony Judt escreveu em 1996. O ensaio de Ulrich Beck é mais actual (2012). Entre os dois livros existem áreas de intersecção que apontam no mesmo sentido: o domínio da Europa pela Alemanha.

E a Europa que se prepare:

"A Europa e a sua juventude estão unidas na raiva por causa de uma política que salva bancos com quantidades de dinheiro inimagináveis, mas desperdiça o futuro da geração jovem."

Ulrich Beck (2012), A Europa Alemã, Edições 70. pp. 20 

"A crise, diz Gramsci, é o momento em que a velha ordem mundial morre e em que é necessário lutar por um mundo novo, contra resistências e contradições."

Ulrich Beck (2012), A Europa Alemã, Edições 70. pp. 26

A leitura continua.

Os velhos partidos prosseguem alheios à mudança que se adivinha e ao meio em rápida mutação que os envolve. Ainda jogam no tabuleiro da velha ordem. Continuam a actuar como se a sociedade que os enquadra tivesse os mesmos problemas, interesses e contradições de há dois ou mais anos atrás. Talvez quando acordarem, seja tarde demais*. 

Os velhos partidos já não dão resposta às aspirações da juventude, vítima das políticas que a conduziram até aqui. E "aqui" é o desemprego. A democracia representativa carece de democracia, está ferida, e não se dá conta. Os partidos do "arco da desgovernação" estão a cavar a sua própria sepultura e a da democracia também.

Entretanto, os políticos governantes, tudo fazem para que se "regresse aos mercados", não querendo reparar que dessa forma prosseguem a mesma lógica que nos lançou na dependência dos especuladores. E cada vez que "vão ao mercado", asseguram aos jovens um futuro ainda mais sombrio, de austeridade e dependência, um futuro sem futuro, um futuro colonizado, porque serão eles os convocados a pagar a dívida e os juros contraídos pela actual geração governante.

É por isso que é cada vez mais "necessário lutar por um mundo novo, contra resistências e contradições".
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(*) Como encarar, por exemplo, o ensimesmamento do PS, os seus conflitozinhos internos, enquanto o país se afunda na crise? Parecem actuar com a inconsciência daqueles que discutem a cor do bote salva-vidas a lançar ao mar, enquanto o navio se vai afundando.

Mas alguém pode esperar alguma coisa desta gente? Afinal não estão eles também entre os que nos conduziram até aqui? A esperança, se é que ainda há esperança, reside noutro lado. Tem de residir noutro lado.

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

Notícia do dia: Papa resigna.


Hoje fez-se história. Non habemus papam.

Um rombo na muralha do Império

Todos os impérios têm um fim. Por vezes tudo ocorre muito rapidamente e a agonia é breve. Outras vezes, começam por surgir sinais quase imperceptíveis de decadência. Rombos nas longínquas muralhas que não são reparados nem notados no coração do império. Mas para lá das muralhas, bárbaros atentos perscrutam  Procuram linhas de fraqueza e brechas. É então por aí que decidem invadir o território abandonado e descuidado pelos seus antigos ocupantes. Aí, no limiar do império, os bárbaros apercebem-se da fraqueza que invadiu o coração império. Apercebem-se que o tempo começou a correr a seu favor. Pressentem que mais tarde ou mais cedo atingirão as imediações da capital imperial onde irão erguer as suas tendas. E a partir daí darão a última estocada no touro moribundo.

Hoje, as muralhas que cingem os impérios já não são feitas de pedra. São feitas de presenças e projecções de forças - vasos de guerra, bases militares, territórios ocupados, etc. - nos lugares mais distantes do planeta. A retirada dessas forças é um sinal de fraqueza e decadência imperial.

domingo, fevereiro 10, 2013

Ainda no meio da ponte

Stiglitz vem lembrar-nos, na sua crónica do Expresso (9-02-2013), que os países da Zona Euro ainda não ultrapassaram o impasse em que estão metidos quanto à sobrevivência da moeda única a longo prazo. Que a “jogada de Draghi” foi isso mesmo, uma jogada, mas nada a isenta que seja um bluff. Pelo menos permitiu criar uma ilusão de segurança entre os investidores, suspensos que ficaram nas suas palavras, e entre os países intervencionados, cujos governantes já vislumbravam luzes ao fundo do túnel. Mas na actual conjuntura a confiança é coisa que não dura, principalmente quando a garantia são apenas palavras, mesmo sendo as de Draghi. É óbvio que, mais tarde ou mais cedo, Draghi e o BCE vão ser postos à prova. Os investidores, ou os mercados, vão querer saber até que ponto Draghi e o BCE vão efectivamente cobrir a parada.

Eis o excerto da crónica de Stiglitz (os realces são nossos):

«Mas a maior parte dos que estiveram em Davos puseram estes problemas de parte [os ganhos de produção industrial na China, devido à automatização de processos que destroem postos de trabalho e o desemprego jovem prolongado], para celebrar a sobrevivência do euro. A nota dominante foi de complacência — ou mesmo de otimismo. A “jogada de Draghi” — a noção de que o Banco Central Europeu, com a sua disponibilidade financeira, poderia fazer e faria o que fosse necessário para salvar o euro e cada um dos países em crise — parece ter funcionado, pelo menos por uns tempos. A calma temporária forneceu algum apoio aos que afirmavam que o que era necessário, acima de tudo, era uma restauração da confiança. A esperança era de que as promessas de Draghi fossem um modo sem custos de fornecer essa confiança, porque nunca teriam de ser cumpridas.

Os críticos salientaram repetidamente que as contradições fundamentais não tinham sido resolvidas, e que se era suposto que o euro sobrevivesse no longo prazo, deveria ser criada uma união fiscal e bancária, o que obrigaria a um nível de unificação política superior ao que a maioria dos europeus está disposta a aceitar.»

Joseph Stiglitz, “Pensamento não Convencional”, Expresso, 9 de Fevereiro de 2013

Em suma: continuamos a meio da ponte – à nossa frente está essa “unificação política” para a qual não queremos avançar; atrás de nós temos o regresso às moedas nacionais o que implicaria a desintegração do Euro, projecto que para já, não queremos abandonar.

Com mais confiança ou com menos confiança, permanecemos ainda no meio da ponte. Estacados, sem dar um passo, com medo do futuro e do passado, num presente precário e paralisado.

sexta-feira, fevereiro 01, 2013

Onde está a galinha?


Se neste guia procurar a galinha-sultana (Porphyrio porphyrio), desiluda-se. Aqui não a encontrará. 

Mas como é possível?! A emblemática ave do Parque Natural da Ria Formosa, ausente desta obra que diz ser o guia de campo mais completo das aves de Portugal e da Europa. Será que não consideraram o Reino dos Algarves? 

No melhor pano cai a nódoa.

Mas sempre pode ser vista e ouvida (ou "ouvista", nas palavras do ministro Relvas) neste excelente site, aqui.

A consciência da inconsciência

«A consciência da inconsciência da vida é o mais antigo imposto à inteligência.»

Fernando Pessoa

«Há quem viva sem dar por nada, há quem morra sem tal saber

José Afonso

quinta-feira, janeiro 31, 2013

A euforia dos insensatos


Leio o Expresso do último sábado aos pingos ao longo da semana, que os trabalhos e os dias não permitem leituras mais demoradas e, quase surpreso, deparo a páginas tantas, lá mais para o fundo do jornal, com a euforia mal contida de alguns opinion makers de serviço. Parece que o regresso antecipado aos mercados deixou as suas marcas nesta gente. Um dos escribas – o Martim Figueiredo - tece agora loas ao Chile, imaginem só. Que aquilo é que é um país onde brota o leite e o mel por todo o lado, uma autêntica terra prometida onde todos adoram viver. Fosse Portugal o Chile, e os nossos dirigentes clones de José Piñera, nada mais, nada menos, do que o Ministro do Trabalho do ditador Pinochet e Portugal seria “um dos países mais competitivos do mundo”. Mas, para mal dos pecados do escriba, ninguém tem a “têmpera” de um tal ministro neste país. O opinion maker lá refere no entanto que no Chile “os mais favorecidos são ainda 14 vezes mais ricos do que os menos favorecidos”. Não sei onde foi buscar este número, mas se consultarmos o Relatório de Desenvolvimento Humano de 2011 disponível no portal do PNUD, podemos verificar na tabela 3, página 155 que o Chile detém um dos mais elevados valores do Índice de Gini do mundo – um indicador que mede a desigualdade de rendimentos entre ricos e pobres – que é, nesse país, de 52,1 (a título de exemplo mencione-se que o mais elevado valor registado ocorre no Haiti, 59,5 e o mais baixo na Suécia, 25; em Angola é só 58,6). É justo, pensará o escriba. É o preço da “liberdade para escolher”. Uns têm e outros não, ora essa. E viva o neoliberalismo, que regressámos aos mercados! E viva o Chile! E viva o Haiti! E viva Angola! Mas quando é que Portugal se torna um destes paraísos? Muito tempo não há de faltar.

Mais adiante, encontro outro escriba habitual, lá nos fundos da revista – o Henrique Monteiro, na sua crónica do Comendador Marques Correia – num tom jocoso, irónico e de regozijo, a gozar com o discurso anti-neoliberal, anti-mercados, anti-capitalista. Afinal o euro agora está forte frente ao dólar e a taxa de juro da dívida pública a 10 anos a descer para a casa dos 5% e por isso estamos safos, julgará ele pela forma como escreve. O capitalismo está salvo! E viva o neoliberalismo uma vez mais, que agora regressámos aos mercados. Agora é que é, e lá está a luz ao fundo do túnel. Será um comboio?

Como se a taxa de juro da dívida pública a 10 anos descesse para todo o sempre e o euro se reforçasse em relação ao dólar para todo o sempre.

Onde está a insensatez nestas posições?

Se alguma coisa aprendi neste jogo, é que os mercados financeiros são volúveis. Governar países com a preocupação de agradar aos mercados significa governar para o curto prazo, significa o sacrifício do futuro, porque a ambição de quem especula nos mercados é ver ganhos imediatos, custe o que custar.

Mas enfim, as cotações estão em alta! Está tudo “no verde”! Eia! Vivam os mercados! Viva o Chile! Viva o Piñera do Pinochet! E, ui ui o neoliberalismo, que mau que ele é, gozam jocosamente.

Amanhã, quando as tendências se inverterem, quando as cotações estiverem “no vermelho” e os juros da dívida tornarem a subir, cá estarei para os ouvir cantar.

A tempestade ainda não passou, nem vai passar tão cedo.

Pica pica

Pega (Pica pica)

terça-feira, janeiro 29, 2013

A estrada e a estalagem

"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada. Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto espero.

Para todos nós descerá a noite e chegará a diligência. Gozo a brisa que me dão e a alma que me deram para gozá-la, e não interrogo mais nem procuro. Se o que deixar escrito no livro dos viajantes puder, relido um dia por outros, entretê-los também na passagem, será bem. Se não o lerem, nem se entretiverem, será bem também."

Bernardo Soares, O Livro do Desassossego in Obras de Fernando Pessoa, Vol. II, Lello & Irmão, Porto, 1986. Pág. 550-551

“A estrada é sempre melhor do que a estalagem.”
Cervantes

***

A vida sempre pode ser concebida como uma estalagem ou como uma estrada. Quixote fez-se à estrada e, por vezes, parava nas estalagens que confundia com castelos. Bernardo Soares aguardava na estalagem, sem pressa, a chegada da diligência do abismo do qual nada se sabe.  Sabemos apenas que quando o olhamos ele nos devolve o olhar, mais penetrante ainda, e nos indaga. Estremecemos então. Persignamo-nos. Oramos: “Mesmo que atravesse os vales sombrios, nenhum mal temerei, porque estais comigo” Sl. 23… Além está o vazio e aqui mora o horror ao vazio.

Ora, parece que finalmente estamos de acordo

Campos e Cunha, cujas palavras noutra ocasião já foram aqui alvo de crítica, afirma agora que “o documento do Fundo Monetário Internacional faz um diagnóstico distorcido e avisa que a redução da despesa não pode ser feita através de cortes cegos.” Aqui, na Antena 1. Ora, parece que finalmente estamos de acordo, embora tal conclusão seja já consensual no país, excepto entre os que nos governam, que classificam o relatório de "bom".

E diz ainda que “sem reforma do sistema político, vejo com muito cepticismo a possibilidade de fazermos uma reforma da administração pública". Aqui. De acordo, uma vez mais.

Na verdade, é maior o escrutínio que se faz para contratar um condutor de ambulâncias do INEM do que o que se realiza para escolher um político para um cargo na governação do país ou de um partido político maioritário. O resultado está à vista, o espaço político institucional foi invadido por incompetentes, vigaristas, gente sem ética, cínicos e canalhas.

Gente que utiliza os partidos (em particular os do famoso “arco do poder” ou “da governação”) para ascender e chegar-se ao poder (ao “pote”, dizem alguns deles), pensando em primeiro lugar em servir-se a si, em servir os seus amigos e clientelas, os lobbies que representam, e só depois, muito depois, os cidadãos comuns.

É óbvio que o sistema político deve ser reformado em primeiro lugar. Os partidos deveriam ser “imunizados” contra estes elementos, que se servem deles como cavalos e Tróia para alcançarem os seus intentos e satisfazerem as suas ambições pessoais, sem olharem a meios. Os candidatos a lugares de topo nos partidos e no país deveriam ser muito bem escrutinados – o seu passado, o seu presente -, antes de assumirem tais posições.

Não seria o fim dos vigaristas na política, mas cremos que a qualidade da democracia melhoraria bastante.

Afinal, ninguém gosta de ser governado por vigaristas e incompetentes, muitos dos quais lhes basta aguardar que o poder lhes caia no colo, que é uma questão de tempo, dizem eles.

segunda-feira, janeiro 28, 2013

Este país não é para portugueses.

Noticia o Expresso, aqui:


Os portugueses sem dinheiro, os pobres e os desempregados, são convidados a emigrar. Os estrangeiros endinheirados - os da classe ociosa e super-rica - são convidados a residir em Portugal. Temos residências de luxo, campos de golfe e um céu quase sempre azul, mesmo no Inverno. Tudo no Allllllllgarve.

Decididamente, este país não é para portugueses.

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