Fernando Pessoa
«Há quem viva sem dar por nada, há quem morra sem tal saber.»
José Afonso
Leio o Expresso do último sábado aos pingos ao longo da semana, que os
trabalhos e os dias não permitem leituras mais demoradas e, quase surpreso,
deparo a páginas tantas, lá mais para o fundo do jornal, com a euforia mal
contida de alguns opinion makers de
serviço. Parece que o regresso antecipado aos mercados deixou as suas marcas
nesta gente. Um dos escribas – o Martim Figueiredo - tece agora loas ao Chile,
imaginem só. Que aquilo é que é um país onde brota o leite e o mel por todo o
lado, uma autêntica terra prometida onde todos adoram viver. Fosse Portugal o
Chile, e os nossos dirigentes clones de José Piñera, nada mais, nada menos, do
que o Ministro do Trabalho do ditador Pinochet e Portugal seria “um dos países
mais competitivos do mundo”. Mas, para mal dos pecados do escriba, ninguém tem
a “têmpera” de um tal ministro neste país. O opinion
maker lá refere no entanto que no Chile “os mais favorecidos são ainda 14
vezes mais ricos do que os menos favorecidos”. Não sei onde foi buscar este
número, mas se consultarmos o Relatório de Desenvolvimento Humano de 2011
disponível no portal do PNUD, podemos verificar na tabela 3, página 155 que o
Chile detém um dos mais elevados valores do Índice de Gini do mundo – um indicador
que mede a desigualdade de rendimentos entre ricos e pobres – que é, nesse país, de 52,1 (a
título de exemplo mencione-se que o mais elevado valor registado ocorre no
Haiti, 59,5 e o mais baixo na Suécia, 25; em Angola é só 58,6). É justo,
pensará o escriba. É o preço da “liberdade para escolher”. Uns têm e outros
não, ora essa. E viva o neoliberalismo, que regressámos aos mercados! E viva o
Chile! E viva o Haiti! E viva Angola! Mas quando é que Portugal se torna um
destes paraísos? Muito tempo não há de faltar.
"Considero a vida uma estalagem onde tenho que me demorar até que
chegue a diligência do abismo. Não sei onde me levará, porque não sei nada.
Poderia considerar esta estalagem uma prisão, porque estou compelido a aguardar
nela; poderia considerá-la um lugar de sociáveis, porque aqui me encontro com
outros. Não sou, porém, nem impaciente nem comum. Deixo ao que são os que se
fecham no quarto, deitados moles na cama onde esperam sem sono; deixo ao que
fazem os que conversam nas salas, de onde as músicas e as vozes chegam cómodas
até mim. Sento-me à porta e embebo meus olhos e ouvidos nas cores e nos sons da
paisagem, e canto lento, para mim só, vagos cantos que componho enquanto
espero.
Campos e Cunha, cujas palavras noutra ocasião já
foram aqui alvo de crítica, afirma agora que “o documento do Fundo Monetário
Internacional faz um diagnóstico distorcido e avisa que a redução da despesa
não pode ser feita através de cortes cegos.” Aqui, na Antena 1. Ora, parece que finalmente estamos
de acordo, embora tal conclusão seja já consensual no país, excepto entre os que nos governam, que classificam o relatório de "bom".
«Neste momento
eu julgo que a confusão ideológica é muito grande, porque o futuro é muito
incerto, em relação ao mundo Ocidental, sobretudo, e adivinhar o que é que vai
ser o futuro é absolutamente impossível. Ninguém pode fazer juízos de
probabilidade. Fazer juízos de possibilidade é uma audácia, portanto, temos
sempre de estar preparados para que aconteça a outra coisa. E, a impressão que eu tenho, neste momento,
é que nós estamos, sobretudo em relação a esse partido [PSD],
num momento em que, tendo ele tido sempre uma pluralidade de orientações,
porque foi um partido sempre bastante plural… a impressão que me dá, é que neste
momento é que, o acento tónico é neoliberal. É um neoliberalismo que é implacável,
nas circunstâncias em que nós estamos, e que por isso mesmo está a acontecer-nos
que essa ideologia liberal, que me parece evidente, é acompanhada de uma
atitude repressiva que como que redefine o liberalismo que está a ser aplicado.
[Repressiva] no sentido em que muitas
concessões de autoridade não são propriamente aquelas que são previstas na
racionalidade constitucional, designadamente na área fiscal, que está a
acontecer, e também o facto da proeminência das sanções económicas para
corresponder a uma questão que parece ser a questão estratégica mais evidente
do governo, que é o orçamento.