sábado, dezembro 07, 2013
sexta-feira, dezembro 06, 2013
domingo, dezembro 01, 2013
Do curtíssimo prazo
Ao gerirem os nossos destinos por
curtíssimos horizontes temporais, os “governantes” abdicaram do sonho utópico,
para eles sempre utópico, sem lugar neste mundo, de um dia as comunidades que “regem”
se libertarem dos fardos quotidianos que as oprimem – essa era a busca pela verdadeira
liberdade e civilização! Movem-se agora por curtos ciclos eleitorais e
curtíssimos ciclos financeiros – as cotações nos mercados internacionais, os ratings, e, entre outras, as taxas de
juro da dívida pública a 10 anos, mais precisamente, e agora em inglês técnico,
“The Portuguese Government Bonds 10YR Note”, que pode ser vista aqui (e que no momento se encontram em tendência decrescente, em torno dos 6%, daí a
temporária euforia de alguns), oscilando diariamente, ora para cima, ora para
baixo, como uma espada de Dâmocles sobre as nossas cabeças, e é só isto que lhes
interessa, porque ironicamente, no longo prazo, estaremos todos mortos. Para
cúmulo, é para eles agora o curtíssimo prazo que importa, e por isso não admira
que alguns destes iluminados tenham querido difundir a ideia de que a história não
importa e pouco influi na progressão das sociedades pós-modernas e nos nossos
destinos. Assim, uma nação com mais de 800 anos de história é vendida a retalho
no mercado internacional por meia pataca. Os traidores estão entre nós, sempre
estiveram, que gente a defenestrar sempre houve.
Meus caros, eles já não nos
representam. Qual democracia representativa, qual quê? Eles representam os credores
internacionais e outros interesses que não os nossos. Nós só lhes interessamos
na medida em que, estamos convocados para lhes pagar as dívidas e os juros usurários.
O melhor, meus amigos, é votar com os pés, partir, e ir contribuir para outra
freguesia (contribuir, na verdadeira acepção da palavra: como contribuinte!). E
diga-se de passagem, muitos já o fizeram.
Tenho dito.
Epílogo
«Hoje, a classe
política vive atascada nos problemas e nas soluções de curto prazo, segundo a
temporalidade própria dos ciclos eleitorais, nos países centrais, ou dos golpes
e contra-golpes, nos países periféricos. Por outro lado, uma parte
significativa da população nos países centrais vive dominada pela temporalidade
cada vez mais curta e obsolescente do consumo, enquanto uma grande maioria da população
dos países periféricos vive dominada pelo prazo imediato e pela urgência da
sobrevivência diária.»
Boaventura de Sousa Santos, Pela Mão de Alice, 9ª
ed., Almedina, 2013, Pág. 277
Hoje existe ainda outra
temporalidade que Boaventura de Sousa Santos não aborda, talvez porque no momento
em que realizou a sua análise essa tendência ainda não se tinha materializado
claramente aos seus olhos prescientes - é a temporalidade do curtíssimo prazo que agora determina as decisões dos governos: o tempo dos mercados financeiros, o tempo
dos credores.
Etiquetas:
Boaventura de Sousa Santos,
História,
Política,
Portugal
sábado, novembro 30, 2013
O mar português
Soares acabou com a Marinha Mercante, Cavaco acabou com
grande parte da frota de pesca nacional, Passos acaba com os estaleiros de Viana
do Castelo e agora a Marinha de Guerra está sem Chefe de Estado-Maior da Armada (CEMA).
Isto no país dos Descobrimentos, pioneiro da globalização, que
possui a 3ª maior Zona Económica Exclusiva da União Europeia e a 11ª do mundo.
Há algo de extremamente errado aqui.
Portugal sem o mar não é Portugal. Será que quem nos diz governar não compreende isto.
Mas que IIIª República é esta?
***
Ó mar salgado, quanto
do teu sal
São lágrimas de
Portugal!
Fernando pessoa
Portugal chora, já não os seus náufragos perdidos no mar, mas o fim do seu mar. E o
fim do seu mar é o seu fim.
É Portugal que naufraga.
É Portugal que naufraga.
segunda-feira, novembro 25, 2013
Adeus, clara visão do mundo!
Só aos poetas e aos
filósofos compete a visão prática do mundo, porque só a esses é dado não ter
ilusões. Ver claro é não agir.
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, Assírio &
Alvim, 6ª ed., 2013, pág. 240
Ver claro é não agir?!
Bom, às vezes esfregamos os olhos, estremunhados, para ver melhor ao longe, pra
enxergar o que vem lá. E quando constatamos que é um touro furibundo vindo em nossa
direcção, então ver claro é agir. Caso contrário, adeus clara visão do mundo!
***
Consta que muitos filósofos e poetas
da Antiga Grécia - à excepção do poeta Arquíloco, diga-se de passagem - na sua
juventude tinham sido soldados notáveis. Homens de acção, portanto.
De que serve a contemplação, se
não for para melhor agir? Para mero deleite dos sentidos? Mas nem sempre os
sentidos se deleitam com o que contemplam. É preciso agir então, transformando
o mundo para depois o contemplarmos melhor e é preciso contemplar o mundo, para
depois agirmos melhor. Como um escultor que vai criando a sua obra – esculpindo
e contemplando, avançando e recuando, frente à sua obra, como Rodin.
Etiquetas:
Fernando Pessoa,
Filosofia
domingo, novembro 24, 2013
E agora, o mercado interno chinês: consumir é glorioso!
«O que parece ser novo neste domínio [da globalização da economia] é o aumento exponencial da exportação da cultura de massas produzida no
centro para a periferia e com ela das “estruturas de preferências” pelos
objectos de consumo ocidental. Está-se a criar assim uma ideologia global consumista que se propaga com relativa
independência em relação às práticas concretas de consumo de que continuam
arredadas as grandes massas populacionais da periferia. Estas estão duplamente
vitimizadas por este dispositivo ideológico: pela privação do consumo efectivo e pelo aprisionamento do desejo de o ter. Pior do que reduzir o
desejo ao consumo é reduzir o consumo ao desejo do consumo.
Esta dupla vitimização é também uma dupla
armadilha. Por um lado, nem o desenvolvimento desigual do capitalismo, nem os
limites do eco-sistema planetário permitem a generalização a toda a população
mundial dos padrões de consumo que são típicos dos países centrais.»
Boaventura de Sousa Santos, Pela Mão de Alice, 9ª
ed., Almedina, 2013, Pág. 269
(os sublinhados são nossos)
Dizia bem Boaventura de Sousa Santos, que “as grandes massas populacionais da periferia” estavam “arredadas”
das práticas de consumo vigentes no centro, mas não da publicidade suscitadora
de novos desejos e de insuspeitas "necessidades", individuais e colectivas. Pois
bem, essa realidade, que já muda, irá alterar-se rápida e profundamente.
A China ao decidir aprofundar mais a sua política económica no sentido de “mais
mercado e menos Estado”, alargando-a ao seu mercado interno, abraça definitivamente a biopolítica. Mais mercado,
mais consumo interno, mais população (a China vai relaxar a sua política demográfica antinatalista), mais consumidores, mais contribuintes -
esses novos escravos a formar… Mas também, mais poluição, mais consumo de
energia, mais consumo de recursos naturais, mais ameaça à biodiversidade, mais,
mais, mais… Se enriquecer era glorioso, é agora o consumo que passa a sê-lo. E
assim se vai imiscuindo o deus mercado, insidiosamente, em todas as esferas da
vida (e da Vida).
O mercado é o fetiche da China,
esse país mutante. Comunista e capitalista, neoliberal e consumista.
Etiquetas:
Boaventura de Sousa Santos,
China,
Neoliberalismo
terça-feira, novembro 12, 2013
O sonho português
O desprezo a que é votado o
mercado interno é evidenciado pela orientação política e económica destes que
nos dizem governar, ao privilegiarem exclusivamente as exportações e o turismo
como os motores do crescimento económico nacional (coisa que, curiosamente, mal se vê, ainda que andem já por aí a falar em milagres). Para esta gente, os
consumidores estão lá fora. Os de dentro que se resignem ao trabalho mal pago, à
exploração, aos baixos salários, que o consumo, esse, não é para cafres. Os da “piolheira”,
se quiserem, que emigrem, ou então, que aguardem o crescimento do investimento
directo estrangeiro, pois nem Governo,
nem empresas nacionais exportadoras, estão preocupados com as suas aflições. Neste
país, paradoxo dos paradoxos, empobrece-se a trabalhar. É o sonho português, no
seu melhor. Arbeit macht frei.
segunda-feira, novembro 11, 2013
Delinquentes
Após visionar uma reportagem na RTP 1 sobre o estado de degradação a que a Escola Secundária da Anadia chegou (e esta escola não é a única escola pública nesta situação degradada - há muitas Anadias por aí), uma
palavra ecoou na minha cabeça: “delinquentes!” (isso mesmo, a proferida por Soares). Tem razão Soares: somos governados por um bando de delinquentes e
presididos pelo chefe da quadrilha. Soares esquece porém que o caminho para a
chegada desta gente à governação do país foi preparado por aquela “terceira via” "socialista" e socrática, comprometida com o neoliberalismo, pioneira na
organização das escolas por agrupamentos, o que virá a facilitar o posterior passo
no sentido da privatização das escolas; a mesma via que precarizou o vínculo dos funcionários
públicos ao Estado, tornando-os, a maioria, em “contratados de trabalho por tempo indeterminado”, rebaixando
o estatuto social dos professores, a meros “ocupadores” de alunos – passavam a tratar
da famosa ocupação plena dos tempos livres, quando o seu papel não é,
meramente, ocupar alunos, mas sim ensinar saberes relevantes, divulgar cultura, ciência, arte e
desporto; congelou-lhes as carreiras; deixou de lhes pagar pela correção de exames, ao contrário do que se faz nos outros países; transferiu custos para muitos professores ao fazer com que tivessem de circular entre várias escolas de um mesmo agrupamento. Em curtas palavras, o ministério educativo de Sócrates tentou
arrastar os professores para a lama. Tentou, debalde, rebaixá-los socialmente.
Não conseguiu porque eles lutaram, e bem, e a maioria dos portugueses os tem em
grande consideração.
Mas no ministério educativo de
Sócrates nem tudo foi mau: distribuiu computadores pelos alunos e professores
- os famosos Magalhães, entre outros -, inclusive a alguns que nunca tinham
utilizado um, e equipou escolas. Diminuiu o número máximo de alunos por turma e
abriu a escola aos adultos – os famosos Cursos de Educação e Formação e os cursos
de Educação e Formação de Adultos, enquadrados pelo programa Novas Oportunidades. Introduziu o ensino
do Inglês no Primeiro Ciclo, alargou a rede pública de educação Pré-escolar. Além disso, investiu nalgumas escolas
reparando-as, modernizando-as, dotando-as de novos equipamentos, …Pelo menos era
essa a intenção, até chegarem os delinquentes.
Os delinquentes chegaram e
pararam tudo – não havia dinheiro, diziam – e ao invés de investirem na Escola Pública, desinvestiram. Agravaram as condições de trabalho nas escolas públicas, aumentaram o número de tempos lectivos nos horários dos
docentes, aumentaram o número máximo de alunos por turma (quando o Governo
anterior, o tinha diminuído). E, contrariando as orientações do memorando da troika (porque aqui lhes convinha), aumentaram a transferência de dinheiros públicos para os colégios privados –
para isto já havia dinheiro.
São delinquentes, pois claro,
porque a sua intenção evidente é a de favorecer negócios privados, que envolvem empresas
de amigos, conhecidos, influentes e grupos de interesse dos colégios privados. Para estes
delinquentes é preciso que a Escola Pública e a Universidade Pública se degradem, para que a Privada se torne mais apelativa, apetecível e lucrativa. Para estes
delinquentes, o ensino e a educação escolar são ainda um rico filão à espera de
ser explorado. Há que prepará-lo para a rapina.
domingo, novembro 10, 2013
A comercialização da estética e a prostituição publicitária
A comercialização da
estética, a sua redução a kitsh,
contam-se entre os traços marcantes das culturas capitalistas. Shakespeare e
Kant servem para vender sabonetes. Um tema de Haydn é convertido em refrão que
acompanha o lançamento de um novo modelo de peúgas. Os textos, a música em
causa, prestar-se-iam, em certo sentido, a uma tal prostituição? As ironias
aqui são profundas.
George Steiner, Gramáticas da Criação
Muito antes desta constatação de
Steiner, Fernando Pessoa tinha sido alertado por um amigo para o possível destino
que a sua obra – Mensagem – teria, caso
lhe desse o nome inicialmente pensado, “Portugal”. É que nem “Portugal”, nem a
sua maior Dinastia, escapavam já à prostituição publicitária da cultura
capitalista da época e ao kitsh (curiosamente,
tal como Steiner, também Pessoa relaciona esse uso publicitário, por ser mais
do que abusivo e empobrecedor, à prostituição).
Fernando Pessoa, AQUI
Em suma, a relação entre o
capitalismo e a cultura equipara-se à relação entre o proxeneta e a prostituta,
“em certo sentido”. A cultura só ao capitalismo interessa na medida em que ele pode
ganhar dinheiro com a sua comercialização. Fernando Pessoa não queria que a sua
“Mensagem” se prestasse a tal tratamento.
Etiquetas:
Capitalismo,
Fernando Pessoa,
George Steiner
domingo, novembro 03, 2013
Desarmadilhar o futuro
Diz o caro Rogério, do blogue Conversa Avinagrada, em comentário
ao post anterior, que o futuro virá
atrás de um punho cerrado, se cerrarmos os punhos.
O futuro virá atrás de um murro de revolta se não for
desarmadilhado, ou de um ruidoso murro dado numa mesa, por algum Sebastião
iluminado, populista, que gritará “Basta!”, um ditador... Estaremos ainda a
tempo de o evitar?
O futuro, longe de ser uma pomba,
parece ser uma bomba. Uma bomba nuclear, demográfica, ambiental, económica,
social...São essas as ameaças que pairam sobre as nossas cabeças e que se têm
acumulado. O futuro já vai explodindo por aí, por esse mundo fora e por aqui,
por Portugal. Que futuro mora no Bairro do Lagarteiro, ou noutros bairros como
esse, só para dar um exemplo? O futuro poderia ser uma pomba, mas armadilharam-no
como uma bomba.
sábado, novembro 02, 2013
O futuro
Nunca esteve tanto nas nossas mãos, mas as nossas mãos nunca foram tão ignorantes sobre se afagam uma pomba ou uma bomba.
Boaventura de Sousa Santos, Pela Mão de Alice, 9ª ed. Afrontamento, 2013, p.54
Etiquetas:
Boaventura de Sousa Santos,
Citações
quarta-feira, outubro 16, 2013
Enquanto isso, na América
Enquanto isso, na América
trava-se uma batalha épica, uma espécie de contra-ofensiva desesperada, uma “Batalha
das Ardenas” contra a vaga neoliberal que tudo invade. Obama, contra a corrente
principal que se faz sentir no mundo, e também em Portugal, que visa a desagregação
do Estado Providência, tenta impor o ObamaCare,
e, dessa forma, democratizar o sistema de saúde Norte-americano, abrindo a
prestação de cuidados de saúde aos que no actual sistema se veem privados
desses cuidados, em suma, aos mais pobres e classes médias endividadas, aos que não têm dinheiro
para pagar às poderosas seguradoras pelos tratamentos necessários.
Esta gente contra a qual Obama
actualmente se bate – os do Tea Party
do Partido Republicano - não brinca em serviço na defesa das classes mais ricas
(move-os na verdade uma visão de classe). Recentemente votaram uma lei que
implica a retirada das senhas de alimentação do programa Federal a mais de 3,4
milhões de pobres em 2014. Outro insulto aos pobres noticiava o editorial do New York Times de 20 de Setembro.
O desfecho deste braço-de-ferro é
de extrema importância, pois não é só o ObamaCare
que está em causa. É a própria sobrevivência da democracia, na verdadeira
acepção da palavra.
Etiquetas:
EUA,
Internacional,
Obama,
Política
terça-feira, outubro 15, 2013
O novo colonizador
Sonhais ainda com guerras coloniais, José Eduardo?
Eram outros portugais, José Eduardo.
Por muito que secretamente o desejes, já não nos encontrarás
nesse mister de matar e morrer. Estamos curados disso e muito tempo passou.
Aí
já não nos encontrarás.
Agora tu, José Eduardo,
Numa irónica reviravolta do destino,
tornaste-te o vil colonizador do teu próprio povo,
que jamais medrará
sob a tua cleptocrática sombra.
segunda-feira, outubro 14, 2013
Ainda por cumprir e já noutro filme
«Assim, como atrás referi, as duas mais importantes promessas da
modernidade ainda por cumprir são, por um lado, a resolução dos problemas da
distribuição (ou seja, das desigualdades que deixam largos estratos da
população aquém da possibilidade de uma vida decente ou sequer da
sobrevivência); por outro lado, a democratização política do sistema político
democrático (ou seja, a incorporação tanto quanto possível autónoma das classes
populares no sistema político, o que implica a erradicação do clientelismo, do
personalismo, da corrupção e, em geral, da apropriação privatística da actuação
do Estado por parte de grupos sociais ou até por parte dos próprios
funcionários do Estado).»
Boaventura de Sousa
Santos, Pela Mão de Alice, O Social e o Político na Pós-Modernidade,
8ª ed., Edições Afrontamento, 2002, (na página 88).
Desconheço se Sousa Santos já o
teria escrito aquando da primeira edição, em 1994. Se o fez, passaram então
dezanove anos. Neste ínterim o mundo mudou, para pior, e, em vez de nos
aproximarmos progressivamente do cumprimento das promessas por cumprir da modernidade,
afastámo-nos delas à velocidade da luz. Volvidos estes anos, em Portugal,
semiperiferia (sempre semiperiferia!) cada vez mais periférica, a conversão das
elites governantes e dos seus partidos à doutrina neoliberal pós-moderna, agravou
os problemas da distribuição e afastou-nos da democratização política do sistema
político democrático, ao ponto de se voltarem a ouvir por aí as famosas
grandoladas (inclusive na Assembleia da República, a Casa da Democracia).
A modernidade ficou por cumprir
neste país e a modernização é uma gargalhada.
A pós-modernidade abalroou as
promessas incumpridas da modernidade como uma locomotiva abalroa um camião.
Etiquetas:
Boaventura de Sousa Santos,
Modernidade,
Neoliberalismo,
Pós-modernidade
domingo, outubro 06, 2013
Tangerinas de Tânger, laranjas de Portugal
Quanta história se
cruza nas ruas de Tânger – até a fruta que recebeu nome da cidade fala de
séculos de intercâmbios comerciais e choques culturais. E por causa das frutas,
e da geografia cultural que representam, vem-me à memória uma conversa uma vez
num mercado do Irão. Eu que explicava que era de Portugal. O vendedor de fruta
mostrou-me uma laranja e sorriu: “Ah, portugália”. O nome para “laranja” em
persa era “portugália”.
Tangerinas de Tânger,
laranjas de Portugal – e pelo meio um estreito de mar com a largura de um
milénio de desconfianças, preconceitos, ódios e guerras. Que estúpidos que são
os homens e as coisas em que acreditam.
Gonçalo Cadilhe, África Acima, Oficina do Livro, 2007,
pp. 197-198
***
O livro de Gonçalo Cadilhe é para
ler com o auxílio de um bom atlas ou mapa e de uma lupa, para podermos acompanhá-lo no
seu percurso e localizarmos as cidades que atravessa. Li-o num ápice. Consegue
transportar-nos para África, é divertido e faz pensar. Agradeço ao autor.
***
Curiosamente acabei de ler o
livro numa semana marcada pela tragédia (mais uma) que se abateu sobre centenas
de africanos que tentavam alcançar a ilha de Lampedusa num barco que ardeu e se
afundou. Morreram centenas de imigrantes, incluindo mulheres grávidas.
Prenhes de África, esperançosas de Europa. Que problema este. Que tragédia.
Estamos pois, muito longe desse
tão apregoado mundo plano, aplanado pela globalização, onde supostamente
existiria igualdade de oportunidades para todos. A globalização capitalista não
é solução porque gera enormes desigualdades socio-económico-espaciais –
polarizações, chamam-lhe os sociólogos - e são estes diferenciais que estão na
origem de todos fluxos, no caso, fluxos de desesperados que pagam muitas vezes
com a vida, a ousadia de sonharem com outra existência, mais promissora do que
a que lhes é oferecida nos poeirentos campos de África.
Etiquetas:
África,
Gonçalo Cadilhe,
Livros
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Etiquetas
- . (3)
- 25 de Abril (14)
- Acordo Ortográfico (1)
- Açores (2)
- Adelino Maltez (2)
- Adriano Moreira (8)
- Afeganistão (7)
- Afonso de Albuquerque (1)
- África (10)
- Agamben (2)
- Agostinho da Silva (9)
- Água (1)
- Agustina Bessa-Luís (1)
- Alcácer do Sal (2)
- Alcochete (1)
- Alentejo (1)
- Alepo (1)
- Alexandre Farto (1)
- Alfonso Canales (1)
- Algarve (15)
- Alienação (1)
- Allan Bloom (1)
- Almada (1)
- Alterações Climáticas (1)
- Álvaro Domingues (1)
- Ambiente (68)
- América (2)
- Amy Winehouse (1)
- Anaximandro (1)
- Âncoras e Nefelibatas (1)
- Andaluzia (7)
- Andrew Knoll (1)
- Angola (2)
- Ann Druyan (1)
- Ano Novo (2)
- António Barreto (1)
- António Guerreiro (3)
- Antropoceno (5)
- Antropologia (3)
- Apocalípticas (1)
- Arafat (1)
- Arcimboldo (1)
- Aretha Franklin (1)
- Aristides de Sousa Mendes (1)
- Aristóteles (4)
- Arqueologia (1)
- Arquíloco (1)
- Arquitectura (1)
- Arrábida (2)
- Arte (12)
- Arte Etrusca (1)
- Astronomia (11)
- Atletismo (5)
- Azenhas do Mar (1)
- Babel (3)
- Banda Desenhada (1)
- Banksy (2)
- Baudelaire (1)
- Bauman (25)
- Benfica (3)
- Bento de Jesus Caraça (3)
- Bernard-Henri Lévy (1)
- Bernini (1)
- Bertrand Russel (1)
- Biden (1)
- Bill Gates (1)
- Biodiversidade (1)
- Biogeografia (1)
- Bismarck (1)
- Blogosfera (11)
- Blogues (3)
- Boas-Festas (1)
- Boaventura de Sousa Santos (6)
- Bob Dylan (2)
- Brasil (4)
- Brexit (5)
- Bruegel (1)
- Bruno Patino (1)
- Cão d' Água (1)
- Capitalismo (5)
- Caravaggio (2)
- Carl Orff (1)
- Carlo Bordoni (1)
- Céline (1)
- Censura (1)
- Cervantes (2)
- Charles Darwin (1)
- Charles Trenet (1)
- Chesterton (1)
- Chico Buarque (1)
- China (4)
- Chris Jordan (2)
- Cícero (3)
- Cidade (1)
- Ciência (14)
- Ciência e Tecnologia (5)
- Ciência Política (2)
- Cinema (1)
- Citações (118)
- Civilizações (9)
- Clara Ferreira Alves (4)
- Claude Lévy-Strauss (3)
- Claude Lorrain (1)
- Coleridge (1)
- Colonialismo (1)
- Colum McCann (1)
- Comunismo (1)
- Conceitos (1)
- Conquista (1)
- Cormac McCarthy (4)
- Cornelius Castoriadis (4)
- Coronavírus (7)
- Cosmé Tura (1)
- COVID-19 (3)
- Crise (2)
- Crise financeira (1)
- Cristiano Ronaldo (4)
- Cristo (1)
- Crítica literária (1)
- Croce (1)
- Cultura (5)
- Curzio Malaparte (2)
- Daniel Bessa (1)
- Daniel Boorstin (1)
- David Attenborough (3)
- David Bowie (1)
- David Harvey (8)
- David Landes (1)
- David Wallace-Wells (1)
- Dedos famosos que apontam (5)
- Democracia (7)
- Demografia (1)
- Desabafos (3)
- Descartes (1)
- Desemprego (1)
- Desenvolvimento (2)
- Desmond Tutu (1)
- Desporto (15)
- Direitos Humanos (1)
- Diversão (1)
- Don Delillo (1)
- Dudley Seers (1)
- Dulce Félix (1)
- Dürer (3)
- E.O. Wilson (3)
- E.U.A. (1)
- Eça de Queirós (2)
- Economia (69)
- Eduardo Lourenço (3)
- Educação (35)
- Edward Soja (2)
- Einstein (1)
- Elias Canetti (1)
- Elites (1)
- Embirrações (4)
- Emerson (1)
- Emmanuel Todd (1)
- Empédocles (1)
- Ennio Morricone (2)
- Ensino (8)
- Ericeira (1)
- Escultura (6)
- Espanha (2)
- Espinosa (1)
- Espuma dos dias (5)
- Ésquilo (1)
- Estado Islâmico (1)
- Estoicismo (2)
- Estranhos dias os nossos (2)
- Ética (10)
- EUA (19)
- Eugénio de Andrade (3)
- Europa (18)
- Famosos Barbudos (1)
- Fascismo (2)
- Fauna (40)
- Feira do Livro (2)
- Ferdinand Addis (1)
- Férias (2)
- Fernando Grade (1)
- Fernando Pessoa (17)
- Ficção (1)
- Ficção Científica (2)
- Fidel Castro (3)
- Figueiras (1)
- Filosofia (67)
- Finanças (1)
- Flora (11)
- Fogo (1)
- Fonte da Telha (1)
- Formosa (1)
- Fotografia (114)
- Foucault (5)
- França (5)
- Frank Herbert (2)
- Freitas do Amaral (1)
- Fukuyama (2)
- Futebol (23)
- Gabriel García Márquez (2)
- Galbraith (1)
- Garcia Lorca (3)
- Garzi (1)
- Geografia (29)
- Geologia (4)
- Geopolítica (16)
- George Steiner (14)
- Georges Moreau de Tours (1)
- Gerês (4)
- Globalização (15)
- Gonçalo Cadilhe (2)
- Gonçalo M. Tavares (1)
- Gonçalo Ribeiro Telles (1)
- Gore Vidal (3)
- Goya (1)
- Gramsci (1)
- Grandes Aberturas (8)
- Grécia (2)
- Grécia Antiga (10)
- Guadiana (5)
- Guerra (20)
- Guterres (2)
- Handel (1)
- Hannah Arendt (1)
- Harold Bloom (2)
- Hayek (1)
- Hegel (1)
- Henri Lefebvre (1)
- Henrique Raposo (1)
- Heraclito (7)
- Heródoto (5)
- Hervé Le Tellier (1)
- Hesíodo (7)
- Hillary Clinton (1)
- Hino (2)
- História (16)
- Hobsbawm (4)
- Homenagem (7)
- Homero (5)
- Horácio (4)
- Hubert Reeves (3)
- Hugo Chávez (3)
- Humanismo (2)
- Humor (1)
- Ian Bremmer (3)
- Ian Morris (1)
- Iconoclastia (2)
- Ideologia (8)
- Ignacio Ramonet (2)
- Ilíada (1)
- Iluminismo (2)
- Imigração (1)
- Immanuel Wallerstein (1)
- Imprensa (1)
- Índia (2)
- Internacional (31)
- Iraque (1)
- Islão (3)
- Israel (5)
- Jacques Barzun (1)
- Jakob Schlesinger (1)
- James Knight-Smith (1)
- Japão (5)
- Jared Diamond (2)
- Jean Fouquet (1)
- Jihadismo (1)
- Jim Morrison (1)
- Jô Soares (1)
- João Lourenço (1)
- João Luís Barreto Guimarães (1)
- João Maurício Brás (9)
- João Salgueiro (1)
- João Villaret (1)
- Jogos Olímpicos (14)
- John Keegan (1)
- John Locke (1)
- Jonathan Swift (1)
- Jorge Luis Borges (1)
- Jornalismo (3)
- José Gil (4)
- Joseph Conrad (3)
- Joseph-Noël Sylvestre (1)
- Juliette Gréco (1)
- Justiça (1)
- Kamala Harris (1)
- Karl Polanyi (3)
- Karl Popper (1)
- Kazuo Ishiguro (1)
- Ken Follett (1)
- Kenneth Clark (1)
- Kolakowski (1)
- Kropotkin (1)
- Krugman (1)
- Lana Del Rey (1)
- Langston Hughes (1)
- Laurent Binet (1)
- Lavoisier (1)
- Leituras (10)
- Leon Tolstói (1)
- Leonardo da Vinci (4)
- Li Wenliang (1)
- Liberalismo (5)
- Liberdade (5)
- Lipovetsky (4)
- Lisboa (2)
- Literatura (10)
- Literatura pós-modernista (1)
- Livros (77)
- Livros Lidos (35)
- Lorca (3)
- Lou Marinoff (1)
- Lugares de Portugal (4)
- Macaulay (1)
- Madeira (1)
- Madeleine Albright (2)
- Madredeus (2)
- Madrid (1)
- Mafalda (1)
- Málaga (1)
- Manuel António Pina (1)
- Máquinas (6)
- Maradona (1)
- Marc Augé (1)
- Marcelo Rebelo de Sousa (2)
- Marco Aurélio (1)
- Maria Filomena Mónica (4)
- Maria José Morgado (1)
- Maria José Roxo (1)
- Marilyn (1)
- Mário Soares (1)
- Marques Mendes (2)
- Marte (3)
- Martin Landau (1)
- Martin Page (2)
- Marx (8)
- Marxismo (1)
- Matemática (1)
- Máximas pessoais (3)
- Medeiros Ferreira (1)
- Media (4)
- Mega Ferreira (1)
- Melville (3)
- Memória Esquecida (6)
- Michel Houellebecq (2)
- Michel Serres (1)
- Migrações (1)
- Miguel Ângelo (1)
- Miguel de Unamuno (2)
- Miguel Esteves Cardoso (2)
- Miguel Torga (5)
- Mikhail Gorbachev (1)
- Minho (1)
- Mitologia (3)
- Moçambique (1)
- Modernidade (3)
- Montesquieu (1)
- Morin (1)
- Morrissey (1)
- Mozart (1)
- Música (20)
- Mussorgsky (1)
- Nagasaki (1)
- Naide Gomes (1)
- Nanni Moretti (1)
- Natal (4)
- NATO (1)
- Natureza (1)
- Natureza Humana (1)
- Navios (2)
- Nazismo (1)
- Nelson Évora (1)
- Neoliberalismo (70)
- Niall Ferguson (3)
- Nietzsche (9)
- Noam Chomsky (1)
- Norman Davies (2)
- Notícia (2)
- Notícias do milagre económico (2)
- Nova Iorque (1)
- Nuno Rogeiro (3)
- O Neoliberalismo no seu Estertor (19)
- O neoliberalismo no seu melhor (9)
- Obama (6)
- Opinião (3)
- Oppenheimer (1)
- OqueStrada (1)
- Orlando Ribeiro (3)
- Ortega y Gasset (10)
- Orwell (2)
- Os touros querem-se vivos (2)
- Paco de Lúcia (1)
- Padre António Vieira (2)
- Paidéia (1)
- Paisagem (28)
- Paleontologia (2)
- Palestina (3)
- Palmira (1)
- Pandemia (9)
- Papa Bento XVI (4)
- Paquistão (2)
- Para memória futura. Ambiente. (1)
- Paris (2)
- Partidas (53)
- Pascal (1)
- Patrick Deneen (1)
- Patti Smith (1)
- Paul Valéry (2)
- Pelé (1)
- Pensamentos (54)
- Peter Sloterdijk (33)
- Phil Hansen (1)
- Píndaro (1)
- Pino Daeni (1)
- Pintura (84)
- Platão (3)
- Plutarco (1)
- Poder (1)
- Poe (1)
- Poemas da minha vida (9)
- Poesia (105)
- Política (161)
- Política Internacional (2)
- Porto (18)
- Portugal (59)
- Portugal é Paisagem e o Resto é Lisboa (9)
- Portugueses (5)
- Pós-modernidade (2)
- Praia (20)
- Pré-socráticos (1)
- Presidente Cavaco (23)
- Putin (4)
- Quino (1)
- Raça (1)
- Rachmaninov (1)
- Racismo (2)
- Rafael (3)
- Rafael Alberti (1)
- Reflexões (4)
- Reflexões sobre Reflexões (1)
- Reino Unido (6)
- Relações Internacionais (4)
- Religião (28)
- Rembradt (1)
- Renoir (1)
- Rentes de Carvalho (4)
- Respeito (2)
- Revolução Industrial (1)
- Revoluções (5)
- Ricardo Reis (1)
- Richard Dawkins (4)
- Richard Rogers (1)
- Rimbaud (2)
- Robert Capa (2)
- Roberto Bolaño (1)
- Rocha Pereira (1)
- Rodin (2)
- Roger Scruton (1)
- Roma (9)
- Rússia (4)
- Safo (1)
- Sal da Língua (1)
- Salazar (2)
- Samuel Barber (1)
- Samuel Huntington (1)
- Santa Sofia (1)
- Sean Connery (1)
- Sebastião Salgado (1)
- Seca (1)
- Século XX (2)
- Séneca (4)
- Sesimbra (2)
- Sevilha (4)
- Sexta Extinção (3)
- Shostakovich (1)
- Simões Lopes (1)
- Sionismo (1)
- Síria (9)
- Socialismo (1)
- Sociedade (22)
- Sociologia (11)
- Sócrates (2)
- Sófocles (2)
- Solidão (1)
- Sólon (2)
- Sorolla (1)
- Steven Pinker (2)
- Stiglitz (1)
- Sublinhado (24)
- Suiça (1)
- Sun Tzu (1)
- Suzanne Collins (1)
- T.E.Lawrence (1)
- Tabucchi (1)
- Telavive (1)
- Telescópio James Webb (1)
- Televisão (1)
- Terreiro do Paço (2)
- Território (1)
- Terrorismo (11)
- Thomas Friedman (2)
- Thomas Kuhn (1)
- Tim Marshall (2)
- Titã (1)
- Tocqueville (1)
- Toledo (2)
- Tom Lea (1)
- Tony Judt (11)
- Transformações Sócio-Culturais (1)
- Triste País (1)
- Trump (15)
- Turquia (2)
- Ucrânia (9)
- Ulrich Beck (6)
- Umberto Eco (8)
- União Europeia (25)
- Universidade (1)
- Urbanismo (2)
- Ursula von der Leyen (1)
- Utopia (1)
- Vargas Llosa (3)
- Vasco da Gama (1)
- Vasco Graça Moura (1)
- Vasco Pulido Valente (5)
- Venezuela (1)
- Verão (9)
- Violência Policial (1)
- Virgílio (1)
- Viriato Soromenho-Marques (1)
- Vital Moreira (1)
- Vítor Gaspar (1)
- Viviane Forrester (1)
- Vulcões (3)
- walt whitman (5)
- Walter Mittelholzer (1)
- Winston Churchill (2)
- Xenofonte (2)
- Yuval Harari (3)
- Zelensky (1)
- Zizek (2)
- Zurique (1)
- Zweig (6)





