quinta-feira, janeiro 28, 2016

Ainda Bauman, sobre o adeus à soberania

Se os ministros da Fazenda, do Tesouro ou das Finanças ainda são um “mal necessário”, os ministros da Economia são cada vez mais coisas do passado — ou meramente uma devoção hipócrita à nostalgia de uma soberania estatal outrora firme e hoje em rápida extinção.

Zygmunt Bauman, Em Busca da Política, Zahar Editores, 2000

Delicioso!

quarta-feira, janeiro 27, 2016

Quando a normalidade democrática é uma anormalidade.

A arte da política, se for democrática, é a arte de desmontar os limites à liberdade dos cidadãos; mas é também a arte da autolimitação: a de libertar os indivíduos para capacitá-los a traçar, individual e coletivamente, seus próprios limites individuais e coletivos. Esta segunda característica foi praticamente perdida. Todos os limites estão fora dos limites.

(…)

Os poderes mais poderosos fluem ou flutuam e as decisões mais decisivas são tomadas num espaço distante da ágora ou mesmo fora do espaço público politicamente institucionalizado; para as instituições políticas do dia elas estão realmente fora dos limites e fora de controle.

Zygmunt Bauman, Em busca da Política, Zahar Editores, 2000, (na Introdução)

Lamenta-se Pacheco, no Abrupto, da perda da independência, da perda da soberania, da perda da democracia (não se lamenta, curiosamente, da perda da política). Parece ter tido um rebate, apercebendo-se, só agora, da nova realidade em que vivemos mergulhados e para a qual já alguns cientistas sociais, como Zygmunt Bauman, já nos tinham alertado. Os tempos são efectivamente novos. Os tempos são pós-democráticos e o poder já não mora aqui. Os portugueses, na sua generalidade, não se aperceberam ainda – continuam a votar no passado (ainda e sempre presos nos “labirintos da saudade”, quem sabe?). Foi assim nestas eleições presidenciais: o candidato vencedor tem raízes num Estado que de Novo, só o nome tem. É uma coisa de antanho, que nos tem acompanhado quase quotidianamente, na rádio e na TV.

Ontem Guterres acabou, sem querer, por emitir um paradoxo, ao desejar que "o país, agora que todos os actos eleitorais estão concluídos, entre em plena normalidade democrática." Mas, perguntamos nós, há algo mais normal numa democracia do que a ocorrência de eleições? Pelo contrário, actualmente o acto eleitoral parece ser o único momento de normalidade democrática nesta nova realidade pós-democrática e pós-política em que vivemos. Com efeito, a única situação em que a democracia se manifesta com toda a sua normalidade é durante os actos eleitorais. Depois das eleições, a dita “normalidade democrática” desaparece, pois como refere Bauman, os poderes decisórios encontram-se num “espaço distante da ágora ou mesmo fora do espaço público politicamente institucionalizado”, muito para além, portanto, do alcance dos eleitores e dos seus legítimos representantes.

Em suma, vivemos uma fachada democrática. O tempo da “normalidade democrática” a que Guterres se refere, é um faz de conta.

sábado, janeiro 23, 2016

domingo, janeiro 17, 2016

Na taberna


Jan Steen, Revelry at an Inn,1674

Quando estamos na taberna

Bebem dama e cavalheiro,
bebe o clérigo e a senhora
bebe este e bebe aquela
bebe o servo com a criada,
bebe o lesto e bebe o madraço,
bebe o branco e bebe o negro,
bebe o pronto e o hesitante,
bebe o douto e o ignorante,
bebe o pobre e o doente,
bebe o desterrado e o ingrato,
bebe o jovem e o ancião,
bebem bispo e deão,
bebem a freira com o frade
bebe avó e bebe mãe
bebe esta e bebe este,
bebem cem, mil e o resto.
Duram pouco seis moedas,
quando bebes sem igual
bebem todos sem meta
bebe só a alma alegre.
Sendo assim és amaldiçoado
E não te oferecem uma gotinha.
Quem não nos ama maldito seja
E não seja recordado.


Carmina Burana (Séc. XIII),

in Umberto Eco, A Vertigem das Listas, Difel, 2009, pág. 140


José Malhoa, Festejando o São Martinho, 1907

sexta-feira, janeiro 15, 2016

Dias de tempestade

Aivazovsky, Navio no Mar Tempestuoso, 1887

Um furacão varre os mares dos Açores. Raro fenómeno em Janeiro. Os homens encerram-se nos seus lares. Neptuno está zangado. O mar espumoso eriça-se aos terríveis rugidos do vento e a chuva dança uma dança do Diabo. Rodopia, cai, tomba em todas as direcções.

quarta-feira, janeiro 13, 2016

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† 10/01/2016

Daqui

segunda-feira, janeiro 11, 2016

Conrad

Joseph Conrad (1857-1924)

O mar veio ao nosso encontro, o mar imenso, sem caminhos e sem voz.

Joseph Conrad

Conrad navegou, decisivamente, nos mares do sul. Naqueles mares e latitudes das calmarias desesperantes. Dos doldrums da alma. Naqueles mares onde vagueiam perdidas as tempestades tropicais e os tufões, como criaturas que os varrem em busca de navios igualmente perdidos. Foi um dos raros escritores marinheiros. Um desbravador de horizontes, de povos, de homens e de mentes. Um homem de espírito aberto e olhar perscrutador, como todos os marinheiros que já navegaram sob diversos céus e testemunharam as várias intensidades da luz, em todas as latitudes. Com certeza vivenciou muito daquilo que nos conta. E para o distante Sul consegue transportar-nos. Para lá dos limites da sombra, para lá do equador. Mesmo que estejamos numa sala abrigada ou na solidão de um quarto fechado.

Conrad é um pintor de paisagens e de almas – do pânico à quietude, dos tétricos suores frios às sezões das terras quentes. Mas os seus quadros exigem um certo afastamento físico para que se tenha toda a percepção da cena pintada, como certos quadros impressionistas.

Na tripulação de uma escuna ancorada frente a uma baía, numa ilha tropical, alguém tange uma guitarra que soa no ar parado, quente e húmido dos trópicos. Alguém tange uma guitarra, atente-se, não a toca, tange-a (um escritor medíocre não possui este domínio da palavra nem do verbo. Um escritor medíocre diria, “toca guitarra”). E Karain, o rajá psicótico, surge no tombadilho ladeado pela sua escolta de guerreiros malaios e pelo velho portador do amuleto, afugentador de espíritos, que o acompanha sempre, para onde quer que vá, cabisbaixo e de olhos postos no chão.

Inesperadamente, o céu turva-se. Então cai uma chuva plúmbea, copiosa, quente e tropical.

A detonação isolada de um trovão ribombou no vazio com uma violência que parecia capaz de abalar o círculo das colinas e um dilúvio quente desprendeu-se dos céus. O vento amainou. Dentro da cabina fechada, suávamos; as nossas faces escorriam; lá fora, a baía espumava como se fervesse; a chuva caía na perpendicular, pesada como chumbo; varria o tombadilho, vazava do massame, golfava, soluçava, esparrinhava, murmurava na noite cega. O candeeiro ardia com dificuldade. Hollis, de tronco nu, jazia escondido sobre o albóio de acesso ao paiol inferior, de olhos fechados e imóvel como um cadáver despojado; à sua cabeça, Jackson tangia a guitarra e arfava uma endecha de amores sem esperança e olhos como estrelas.

Joseph Conrad, “Karain: uma recordação” in Histórias Inquietas, Assírio & Alvim, 2010, pág. 28


domingo, janeiro 10, 2016

Deus fantástico

Deus, inventado gradualmente, é talvez a maior obra de literatura fantástica.

Harold Bloom

Harold Bloom, O Cânone Ocidental, 5ª ed., Círculo de Leitores, 2013, pág.464.

quinta-feira, janeiro 07, 2016

sábado, janeiro 02, 2016

O "pragmatismo"

No Conselho da Diáspora Portuguesa, Cavaco Silva sublinhou que o pragmatismo tem dominado as decisões dos governos da União Europeia face a uma realidade que se impõe às governações ideológicas. Na verdade trata-se de uma realidade que se impõe à própria democracia. O “pragmatismo” de que fala o presidente faz lembrar o do presidente Benes que, em 1938, para poupar o seu povo à guerra e ao sofrimento, foi forçado a ser pragmático ao ter de abrir as fronteiras da Checoslováquia à invasão dos nazis.

O “pragmatismo” de que fala Cavaco Silva é a única escolha que resta aos governos da União Europeia face ao poder avassalador dos mercados. E ai do governo que rejeite esse “pragmatismo”. Será forçado a ser "pragmático". Até os mais rebeldes, como o governo grego liderado por Tsipras, tiveram de atalhar caminho, aprendendo rapidamente a serem “pragmáticos”. Hoje a democracia na Europa está ferida. Às democracias europeias e aos povos da Europa resta apenas o “pragmatismo” da ideologia do mercado, o único caminho, a única via, a única alternativa. Outros poderes se erguem já, na determinação do destino dos povos, que não obedecem à sua livre escolha democrática. Poderes que alguns divinizam, mas que estão longe de ser divinos.

terça-feira, dezembro 29, 2015

As cidades são os cidadãos

Escrevo da invicta cidade do Porto acerca da defunta cidade de Ramadi, no Iraque.

Os ecrãs de televisão mostram-nos soldados vitoriosos a festejar a conquista da outrora cidade. Restam agora apenas os escombros. Nenhum cidadão ficou para acolher de braços abertos os libertadores. Nem mulheres, crianças ou flores. As cidades são os cidadãos.

Ali existiu uma cidade.

sábado, dezembro 26, 2015

O pesadelo do Natal

Tornou-se uma orgia consumista.

Um pesadelo.

sexta-feira, dezembro 25, 2015

Boas Festas

Rafael, Nossa Senhora com o Livro, 1504

terça-feira, dezembro 22, 2015

Para mal dos nossos pecados

«A ciência pode explicar o que existe no mundo, como funcionam as coisas e o que o futuro poderá reservar-nos. Por definição, não tem pretensões a saber como deverá ser o futuro. Apenas as religiões e as ideologias procuram responder a essas perguntas.»

Yuval Harari

Para mal dos nossos pecados. 

segunda-feira, dezembro 21, 2015

E ninguém vai preso?


É realmente, maravilhoso. Um maravilhoso novo mundo, este o dos buracos em que vivemos. Outro buraco para o contribuinte, esse irresponsável, pagar.

Cada vez apetece mais pagar impostos. Que maravilha! Em vez das receitas fiscais servirem para construir escolas, hospitais, tribunais, enfim, para desenvolverem o país; em vez das receitas fiscais servirem para apoiar cidadãos em tempos de infortúnio e doença, pobreza ou desemprego, em vez disso, servem para resgatar bancos ou para pagar os desvarios do capital financeiro. Estão de parabéns os que nos governam e governaram. E o sr. governador do Banco de Portugal também. Se o PSD ainda não percebeu por que razão a sua vitória foi uma derrota, então ainda não percebeu nada. E o PS parece não ter percebido também a débâcle do "socialismo" por toda a Europa, e por que razão caiu, e vai continuar a cair.

Mais de 2 000 milhões para o contribuinte pagar. Prepara-se já o teatrinho  circo das comissões  (devo dizer comichões?) parlamentares. Procuram-se responsáveis políticos quando as responsabilidades são criminais e criminosas. Há gente à solta que merecia estar atrás das grades.

Que nojo! Que asco isto me dá!

domingo, dezembro 13, 2015

Os ismos

«Nas ciências naturais o objectivo, é encontrar a verdade objectiva, e não espalhar visões do mundo subjectivas (ideologias), que são, na sua maioria, de natureza religiosa ou política. Por conseguinte, em ciência deveriam evitar-se, tanto como possível, termos findos no sufixo – ismo.»

Ulrich Kutschera, Biologia Evolutiva, Fundação Calouste Gulbenkian, 2013, pág. 127.
(a propósito do darwinismo)

Ideologias religiosas e políticas, essa trampa. Cristianismo, islamismo, fascismo, comunismo, capitalismo, cada qual com a sua verdade. Verdade contra verdade, visão contra visão, credo contra credo. Nada foi mais mortífero ao longo da história da Humanidade do que as ideologias. Unem, é certo, mas dividem também, e violentamente. Cada uma quer impor as suas visões do mundo às demais. Travam batalhas pelas consciências.

Pois o mundo seria provavelmente um lugar bem melhor se não existissem as ideologias.

sábado, dezembro 12, 2015

Títulos espertalhões

O Fim da História o Último Homem (1992), de Francis Fukuyama
O Choque de Civilizações (1996), de Samuel Huntington
O Mundo é Plano (2005), de Thomas Friedman

Os títulos podem chocar e causar perplexidade. Podem cativar a atenção, suscitar a interrogação e atrair o olhar. Os títulos podem desafiar-nos. O Fim da História?! Que ridículo, pensamos nós. Afinal como pode a História ter um fim, a não ser que o Homem acabe ou que deixe de haver amanhã. A Terra é Plana?! Que ridículo. Como se pode chegar a uma conclusão dessas, tantos anos após Pitágoras e Aristóteles (*)? O Choque de Civilizações?! Como pode isso estar a acontecer se as civilizações estão em paz? Que se saiba não há guerra entre hindus e chineses ou entre ocidentais e japoneses, só para dar dois exemplos.

Mas por fim lá acabamos por ser levados a dar uma vista de olhos às referidas obras, para descobrir aquilo que os títulos escondem. E assim se construíram bestsellers

Os autores e os editores perceberam que os títulos bombásticos ou interpeladores podem ser utilizados como uma estratégia de marketing eficaz, e a moda pegou. Inicialmente pegou, depois banalizou-se e toda a gente percebeu.
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(*) Thomas Friedman parece ter captado inteligentemente a sonoridade do título do livro do Fukuyama que interpelava as nossas certezas relativas ao tempo, e tratou de fazer o mesmo relativamente ao espaço. Se a História tem um fim, então por que não um título que desafie as nossas certeza acerca da esfericidade da Terra? Por que não o fim da Geografia?

terça-feira, dezembro 08, 2015

A Europa e os males do mundo

Pelos males do mundo já ouvi acusarem a Europa, ora por acção, ora por inacção.

Se age é porque age, se não age é porque não age.

É ridículo!

segunda-feira, dezembro 07, 2015

Outro menir



Mais alto do que as serras de Sintra e da Arrábida. Mais alto do que a serra do Caldeirão.

Cu-cu


Pois é. Aí está a extrema-direita a fazer a sua aparição no horizonte. Já se esperava.

Os principais responsáveis por esta situação são os partidos que governaram e ainda governam a França e as políticas que adoptaram para lidar com o inimigo dentro de portas. A responsabilidade é de François Hollande, um líder frouxo, uma caricatura, e também do seu partido. Quanto ao terrorismo, não o preveniu, tendo agido após os factos consumados e com os resultados que se conhecem. Há terroristas à solta,  a monte e aos montes.

Epílogo: a extrema-direita venceu a primeira volta das eleições regionais em França. E estamos só no princípio. Esta ainda é, e será sempre, a velha Europa.

segunda-feira, novembro 30, 2015

Da desconfiança, do excesso de zelo e do desmazelo

A confiança é boa. O controlo é melhor.
Ditado alemão e pelos vistos também suíço.

Dizem que é um ditado alemão. Ouvi-o pela primeira vez em solo suíço e segundo me informaram, como pude depois constatar, os helvéticos regem-se por ele. O dito remete para o totalitarismo em que toda a gente controla toda a gente e o vizinho denuncia o vizinho ao menor deslize, como por exemplo, o não cumprimento de uma simples regra comunal como a separação dos lixos e a sua colocação em contentores adequados e compartimentados, ou o disparo de um autoclismo fora de horas. Então “Aqui d’El Rei” que está ali um prevaricador. Impoluta Suíça! Imaculada!


O ditado bem podia ser “A confiança é boa, mas a desconfiança ainda é melhor”, que o seguro morreu de velho e não vá o Diabo tecê-las. A Suíça é o país dos relógios e das torres sineiras e não é por acaso. O tempo tinha de ser atestado pelo relógio na urbe suíça, logo que fosse possível construir relógios em torres altaneiras para que toda a gente pudesse ver. O sol até nos pode dizer que é meio-dia, mas pelo sim e pelo não, para o suíço, é melhor erguer o olhar para o alto, para a torre sineira.

Já nos países latinos, bem no sul mediterrânico da Europa, onde as gentes gostam de rir e de folgar, e acima de tudo neste Portugal, o ditado bem podia ser outro: “O controlo é bom, mas a confiança ainda é melhor.” Outras mentalidades.

sexta-feira, novembro 27, 2015

Chegado o novo governo e…

Já se perfilam as corporações: sindicalistas e patrões, taxistas e empresários (pequenos, médios e grandes), banqueiros e bancários, professores e enfermeiros, juízes e guardas prisionais, polícia de segurança pública e forças armadas, médicos e maquinistas, proprietários e senhorios e etc., etc. etc., e assim sucessivamente. Eis o país onde tudo falta e tudo se pede, cada um de acordo com os seus interesses, cada um sem olhar às possibilidades. O país onde todos ganham mal, desde o trolha ao presidente (o mesmo o disse). Ingovernáveis estes lusitanos, já diziam os romanos.

Que Costa não caia no erro de querer dar tudo a todos. Guterres nisso deu-se mal. Tanto ouviu que partiu, para escapar ao pântano lodoso da governação em que se meteu.

Mas Costa abre já com um ar de festa: cria mais ministérios e secretarias de estado, que há muita gente a sentar. Bem podia ser como a Holanda, como insinua aqui o Rentes. Sempre seria mais comedido e precavido. Mas não. Tempos festivos estes.

Ao Costa e aos seus, votos de um bom trabalho. É difícil fazer pior do que o governo anterior. Que saiba dizer não e que prove que sabe governar, ao largo de todas as banca rotas e corporações.

domingo, novembro 22, 2015

O Islão e as provocações

As palavras realçadas no último post, que não são as minhas, são evidentemente uma provocação que convocam a uma reflexão. Ainda assim, como disse, gostei de as ler.

Onde está a provocação?

No paternalismo implícito na expressão “civilizar o Islão”. O que significa isso? Poder-se-á civilizar uma civilização? O Islão não é apenas uma religião, é uma civilização; um espaço civilizacional que se estende desde a costa da Mauritânia aos confins das ilhas da Indonésia. Quererá dizer “civilizar o Islão” o mesmo que “ocidentalizar o Islão”? Ora nem o Islão quer ser ocidentalizado, da mesma forma que o Ocidente não quer ser islamizado.

Outra provocação: comparar o Alcorão ao “Mein Kampf”. Esta consideração leva-nos a associar o islamismo ao nazismo. Ora nem o islamismo é o nazismo, nem o Alcorão é o Mein Kampf. O “Mein Kampf” escrito por Hitler, como se sabe, é um livro maldito e proibido em muitos países e o nazismo foi, nos espaços onde vingou, alvo de um processo de desnazificação. Defenderão os que comparam o Alcorão ao “Mein Kampf” uma desislamização do mundo?

Contudo, e dito isto, constatamos ainda assim que algo “cheira mal, muito mal, neste Reino da Dinamarca”.

quarta-feira, novembro 18, 2015

Liberdade versus Segurança

Liberdade versus segurança, eis uma falsa questão.

Não há liberdade sem segurança.

Lamentamos.

domingo, novembro 15, 2015

A barbárie jamais vencerá.



Hoje as multidões encheram a praça frente à catedral Notre-Dame, depois da missa, e entoaram-se cânticos na place de la Republique. Aguarda-se uma resposta mais musculada contra os clusters do activismo islâmico na Europa e mais além. A barbárie não se pode sobrepor ao mundo civilizado, diz Obama frente ao presidente turco. O activismo islâmico não pode ser consentido na Europa e em nenhum outro lugar do mundo civilizado.

Ao longo das últimas semanas foram numerosos os atentados, a começar pela queda do avião comercial russo na península do Sinai. Depois no Líbano e na Turquia e agora em França. Serão os últimos estertores do Daesh, agora que o martelo russo cai na Síria e que infantaria iraniana entra no terreno? E temos ainda a intervenção das forças aéreas americana, francesa entre outras, em apoio dos peshmergas no solo. Como pode o Daesh resistir a tudo isto? E eis então que os ratos do Daesh fogem em todas as direções. É a debandada. Alguns dirigem-se para a Europa. Pois a Europa que acorde. Aqui há trabalho que não pode deixar de ser feito, sob pena de se repetirem os atentados de Paris.

sábado, novembro 14, 2015

Os terroristas vencem

Em vez de uma resposta destemida, que seria Paris a funcionar normalmente este sábado, com gente nas ruas - uma Paris desafiadora e confiante – a cidade acordou com medo, com os seus cidadãos escondidos atrás de portas, como cordeiros, com receio de lobos armados nas ruas. E tudo a conselho de uma fraca liderança. Os atentados são um acto de guerra, pois claro, mas não uma declaração de guerra, porque essa há muito foi declarada. Não é a Síria sobrevoada e bombardeada por aviões franceses?

Se fosse oposição em França, deixaria passar os dias de luto e a seguir cairia com força sobre o governo francês e o presidente. As falhas de segurança que permitiram estes atentados são inadmissíveis e a senhora Le Pen já está a tentar tirar proveito desta situação, com o seu populismo fácil.

A velha “solução” europeia para todos os problemas do mundo.

Despejar dinheiro em cima dos problemas. É o que a União Europeia faz quando se depara com problemas aparentemente insolúveis ou trabalhosos e de difícil resolução. Não faz, mas paga a quem faça. Assim inunda a Turquia com dinheiro para que contenha os refugiados. Inunda com dinheiro a Faixa de Gaza para a pacificar. E lança dinheiro sobre África para conter os incómodos migrantes lá na terra deles. Como se isso resolvesse o problema.


Na União Europeia as incompetências dos políticos e dos tecnocratas sempre se podem ocultar sob uma larga e opaca camada de dinheiro. Na União Europeia o dinheiro fala sempre mais alto.

Uma acordo, pois.

Uma coisa é uma coligação pós-eleitoral e pontual, outra é um acordo.

Uma coisa é um governo coligado PS/BE/CDU outra é um governo do PS com o apoio acordado da CDU e do BE. Os acordos, tal como nos casamentos, têm o seu estado de graça e os estados de graça na política são breves. Até o Syriza para governar na Grécia teve de se coligar com um partido fora da sua área política para que houvesse alguma legitimidade na governação.

Num acordo, a responsabilidade é menor do que seria caso os partidos se coligassem pontualmente para governar e existissem ministros ou secretários de estado de todos os partidos que o assinaram. É até estranho que a CDU e o Bloco não impusessem nas negociações a condição de participarem num governo, com ministros ou secretários de estado. Afinal todos os partidos têm como objectivo alcançar o governo do país.

CDU e BE dão assim razão àqueles que os remetem para as bancadas opositoras do hemiciclo, para todo o sempre. Os mesmos que dizem que o BE e a CDU não têm vocação de governo e que não são partidos do “arco da governação”.

quarta-feira, outubro 28, 2015

Sampaio da Nóvoa em entrevista

Num ápice Sampaio da Nóvoa arrumou a questão do espantalho comunista e extremista erguido por Cavaco Silva, logo a seguir às eleições e mais recentemente (o da saída da NATO, na Zona Euro, da União Europeia, do incumprimento dos compromissos internacionais, e dos dos tratados e do não pagamento da dívida externa, etc.). Cavaco deu o mote aos políticos do PSD e do CDS/PP para uma argumentação do tipo “cuidado vem aí o papão, tenham medo, muito medo”.

Disse Sampaio da Nóvoa em entrevista que os programas dos partidos não têm de ser confundidos com o programa de Governo. E deu o exemplo do Partido Popular Monárquico (PPM) que integrava a AD que governou Portugal, nos idos anos 80. Que se saiba a República não se converteu numa Monarquia só por o PPM ter integrado o governo da altura.

Caros senhores arrumem lá a viola no saco ou cantem outra canção, que esse argumento do espantalho comunista ou extremista não serve.

Entrevista AQUI

sábado, outubro 24, 2015

70 years keeping the peace


Setenta anos a manter a paz e a tentar unir todos os seres humanos em torno de causas comuns, é obra! A criação das Nações Unidas é uma das maiores obras de sempre do ser humano.

Oxalá dure. Quando a malograda Sociedade das Nações caiu, o mal varreu o mundo. Foi a tragédia da IIª Grande Guerra. Mas das cinzas da Sociedade das Nações surgiu, qual fénix renascida, a ONU.

Hoje é caso para dizer:


Congratulations UN!

70 years keeping the peace.

Viva a ONU!

sexta-feira, outubro 23, 2015

Lamentável

Poderia ter-se limitado a indigitar o primeiro-ministro e fundamentar a sua decisão com base no primeiro argumento que enunciou: cumpria com uma tradição de 40 anos de Democracia e com a Constituição – a de convidar o líder do partido ou coligação mais votado, e que constitui o grupo de deputados mais numeroso (mas não em maioria), para formar governo. Essa decisão seria legítima. Aliás, não é aí que está a questão.

Cavaco Silva foi mais longe. Foi longe demais. Transformou a sua comunicação ao país numa espécie de "Conversas em Família", com muitas mensagens e prescrições. Contradizendo um dos princípios que disse mais valorizar – o da estabilidade. O paladino da estabilidade, afinal manifestou a intenção de lançar o país na instabilidade política ao dar a entender que iria manter um governo de gestão se uma moção de rejeição impedisse a constituição de um novo governo do PAF. 

Cavaco Silva, tem medo. Medo dos mercados, das agências de rating, dos credores, dos comunistas e do Bloco de Esquerda. Para ele o interesse nacional é o interesse dos mercados, das agências de rating, dos credores e da Comissão Europeia. Para ele o interesse nacional não é o interesse dos portugueses (como economista valoriza mais as questões económicas e financeiras em detrimento dos imperativos sociais).

Logo após as eleições teve um comportamento incendiário, desestabilizador e intelectualmente desonesto, lançando o medo, a incerteza e a insegurança, quando deu entender que um governo liderado por socialistas e com o apoio do Bloco de Esquerda e da CDU colocariam em perigo a presença de Portugal na NATO, na Zona Euro e na União Europeia. Além disso estaria em perigo o cumprimento das obrigações do País para com os credores e os mercados. Só faltou dizer que as criancinhas estariam em perigo porque os comunistas vinha aí para as comer. Como se ainda estivéssemos nos tempos da Guerra Fria ou no PREC. Um governo liderado por socialistas, sublinho. Como se um governo liderado por socialistas fosse um governo de comunistas ou de trotskistas. Enfim, confundiu e agitou. Deu o mote e os partidos do PAF aproveitaram logo para cantar a mesma ladainha e lançarem areia aos olhos dos portugueses. Como se o PS nunca tivesse governado o país. Lamentável.

Finalmente, e diga-se de passagem, uma solução de governo alternativa ao atual, com o PS, o Bloco de Esquerda e a CDU só seria estável se integrasse ministros dos três partidos. Ninguém puxa um tapete se estiver em cima do tapete. Caso contrário, se se constituísse governo apenas com ministros do PS, com base num acordo parlamentar que viabilizasse a sua formação, então a qualquer momento os partidos apoiantes desse governo, que não o PS, poderiam puxar o tapete, fazendo cair o governo que inicialmente apoiaram. Nessa circunstância o PS estaria sempre nas mãos desses partidos.

domingo, outubro 11, 2015

Plutão Azul

Assim o veria o olho humano, caso nos aproximássemos o suficiente.


quarta-feira, outubro 07, 2015

Hotel

The Promenade at the Dorchester, where high sofas and faux-marble pillars make it hard to see who is talking to who.

segunda-feira, outubro 05, 2015

E viva Portugal! Viva a República!

Fonte: Comissão Nacional de Eleições. Daqui.

Parece que até agora apenas 1 979 132 dos nossos conterrâneos votantes estão contentes com o estado a que isto chegou. E os restantes?

Enfim. Amanhã é dia de trabalho. Siga para bingo.

sábado, outubro 03, 2015

A Duquesa de Alba

Goya, Retrato da Duquesa de Alba, 1797, National Gallery

A Duquesa de Alba, alva e negra, aponta para os pontiagudos sapatos de tacão alto olé. Olha-nos nos olhos mas rebaixa-nos o olhar. Autoritária, de punho fechado na anca, em pose erguida e frontal, parece dizer-nos, altiva: é ali o lugar ao qual retornarás, tu aí que ousas olhar-me em desafio.

domingo, setembro 27, 2015

Quatro anos a furtar


Quatro anos a transformar direitos em mercadorias, em nome de uma doutrina política radical que conduz ao empobrecimento e à servidão a larga maioria da população. Foram quatro anos de uma certa revolução e os extremistas, os radicais, esses sim, estiveram no Governo.

Quatro anos de privatizações, de vendas ao desbarato das mais rentáveis empresas públicas, ou da sua parte rentável, em troca de uma receita qualquer, fugaz. Quatro anos de servilismo, de quem nos governou, perante o poder financeiro e estrangeiro, alemães e chineses.

Quatro anos a tratar-nos como se todos fossemos responsáveis pela gestão danosa de bancos privados. Como se todos fossemos responsáveis por igual, e em igual medida, pela situação a que isto chegou.

Quatro anos de buracos, para o contribuinte pagar e tapar. Buracos que não foram abertos por ele, o contribuinte. E ao fim de quatro anos, pasme-se, deixam-nos um buraco ainda maior, e uma dívida pública monumental para os nossos filhos pagarem. Foram quatro anos de cortes, e mais quatro anos de empobrecimento se avizinham. Não é preciso ser profeta para o adivinhar.

Quatro anos de vergastadas nos funcionários públicos, nos trabalhadores do sector privado, nos pensionistas, nos jovens, nos desempregados e nos pobres. Os jovens foram convidados a emigrar, na sexta nação mais velha do mundo. É obra!

Quatro anos de cortes salariais, de cortes nos feriados, nos dias de férias, nas prestações sociais, e em tudo, através de um IVA abusivo que atinge nalguns produtos necessários, quase um quarto do seu valor. 

Quatro anos a furtar.

Quatro anos a pontapear a Constituição e a apoquentar o Tribunal Constitucional e os portugueses (bom, diga-se de passagem, e em abono da verdade, que neste ano da Graça o primeiro-ministro disse que nada iria fazer quanto a propostas de duvidosa constitucionalidade, como aquelas a que nos habituou em anos precedentes. É ano de eleições, não é verdade?)

Lançaram e aumentaram a dívida sobre gerações futuras, sobre os ainda não nascidos. E findos estes quatro anos, não há família que não tenha um desempregado ou um emigrado ou um vizinho nessas condições. 

Nestes últimos quatro anos, gerações foram lançadas contra gerações, velhos contra novos, trabalhadores do sector privado contra trabalhadores do sector público, ricos contra pobres, e as desigualdades sociais não pararam de aumentar. Foi dividir para reinar, nestes quatro anos. Quatro anos a furtar.



Epílogo


Ouvi-os gritar na rua – gritos de descontentamento. Vi-os invadir as escadarias da Assembleia e arremessar paralelepípedos às barreiras policiais. Ouvi-os cantar o “Acordai!” frente ao Palácio de Belém e o “Grândola Vila Morena” no Parlamento e noutros lugares. Vi-os subir e descer largas avenidas e ruas estreitas em manifestação e também por lá caminhei e me manifestei. Vejo-os ainda, todos os dias, revoltados, manifestando-se frente a um banco assaltante – coisa que nunca vi na Grécia, nem com o Siryza, mesmo quando os bancos gregos estavam fechados.

Pois bem, é agora a hora! A hora de acordar. Porque se não for agora, nestas eleições… se voltarem a eleger os que lá estiveram, não me venham pedir outra vez para ir para a rua gritar ou cantar o “Acordai”. Não irei!

Farei como o Saramago. À primeira, retirar-me-ei para uma Lanzarote qualquer, para bem longe. Será o cada um por si e o salve-se quem puder. E, definitivamente, Portugal passará a ser um problema que terei comigo mesmo.

domingo, setembro 13, 2015

Quando se é jovem

Os idosos vivem de passado, escrevem memórias. Os jovens vivem de futuro, sonham vitórias.

A linha de sombra avista-se a partir de uma determinada idade. Quando se é jovem, demasiado jovem, essa linha não se vislumbra. É como se não existisse tal horizonte. Plena liberdade. Quando se é jovem é-se imortal.

sexta-feira, setembro 11, 2015

Praia Verde em Agosto


© AMCD
É uma praia burguesa, com certeza. Com certeza é uma praia burguesa.

quinta-feira, setembro 10, 2015

Alforrecas


© AMCD

Ontem, nas praias a sul da Costa da Caparica, não se podia mergulhar no mar sem dar uma cabeçada numa alforreca. Milhas e milhas a perder de vista: alforrecas por todo o lado.

Virámos as costas ao mar e mergulhámos no bar.

terça-feira, setembro 08, 2015

A praia


Refugiados sírios à deriva no mar Egeu.
(Yannis Behrakis / Reuters)

Paraíso de náufragos. Inferno de náufragos. Na praia se salvam, na praia se perdem. Ali, desagua todo o desespero. Ali reside toda a esperança.

Mar de náufragos.

domingo, setembro 06, 2015

So


Um dia, num ano distante do longínquo século XX, numa aula de Transformações Sócio-culturais, disse ao professor que África não deixaria de ser África e que se no passado as guerras tribais se faziam com azagaias, no futuro prosseguiriam com metralhadoras. O homem não gostou, não comentou e prosseguiu. Diabo de comentário fatalista, o meu. Mas o que é certo certo é que a AK-47 lá está.

E agora, de quem é a responsabilidade? Da arma, da mão que a empunha ou da mão que a fabricou? O mundo é realmente um lugar complicado.

quinta-feira, setembro 03, 2015

Nem um deus


Só um deus pode salvar-nos. 

Heidegger.


Será que não aprendemos nada com Aristides de Sousa Mendes? Estamos com medo?

Não seremos capazes de nos salvar? Será que é mesmo verdade? Que só um deus poderá salvar-nos? Será que é mesmo assim?

De que temos medo?

É hora de abrir portas e janelas. Que entre uma lufada de ar fresco.

Que venham. Podemos acolhê-los. Já chega deste horrível cheiro a morte.

Se isso não nos salvar, então nada nos salvará.

Nem um deus.

***

Please don't you ever forget to treat others the way you want to be treated
Remember your days are full in number. (Benjamin Clementine, Nemesis)

sexta-feira, agosto 21, 2015

Os roubados do BES

Ah, país de eufemismos... Lesados do BES, dizem eles, os repórteres, os pivots, os jornalistas. Quais lesados?!

Receiam proferir palavras duras? Porque não dizem “os roubados do BES”? É verdade que alguns, provavelmente poucos desses roubados, se tenham perdido pela cobiça, pois sabiam que estavam a comprar dívida e a arriscar capital na mira de uma remuneração mais elevada. (Esses agora juntam-se à maioria dos roubados e vigarizados, nos coros de indignação, fazendo-se ingénuos). Mas não tenhamos ilusões: a maioria foi roubada.

O roubo aos nossos compatriotas emigrados é um crime de lesa pátria. Algo que nos envergonha a nós, que cá ficámos e nunca tivemos de partir.

Muitos dos que partiram tiveram de o fazer porque neste país lhes foi vedada a ascensão social e um papel a desempenhar condicente com as suas capacidades e méritos. Muitos dos melhores de entre nós estiveram e estão entre os que partiram. Não nos esqueçamos, Portugal é um país que desbarata e desaproveita os seus recursos, principalmente os recursos humanos. Há uma elite terratenente e apaniguados que se conserva, ocupando os lugares de topo, impedindo que os melhores de entre nós possam assumir o papel que lhes caberia por mérito e direito. Escusado será dizer que tais elites se fazem valer dos seus jogos de influências e apadrinhamentos. Muitos dos “subalternos” neste país são mais sábios e mais cultos do que os que mandam. Já é assim há muito tempo. Uma velha tradição. Por isso nos admiramos do trabalho e dos feitos dos nossos conterrâneos nas sociedades estrangeiras que os acolhem. Pois bem, muitos desses que partiram, ainda assim, continuaram a amar Portugal. Enviavam para cá as suas remessas. Colocavam as suas poupanças em bancos portugueses, muitos com sacrifício de uma vida que poderia ter sido um pouco mais confortável, pois pensavam num regresso e no futuro de filhos e netos. Contribuíam dessa forma para o desenvolvimento do nosso país e das regiões, cidades, vilas e aldeias de onde eram originários.

Por isso, o roubo das poupanças dos emigrantes é um crime de lesa pátria e uma vergonha. Vergonha que se adensa mais ainda quando pensamos nos culpados, nos responsáveis e nos facilitadores do embuste, estes últimos os mais altos responsáveis da Nação, pois tentaram sempre lavar as suas mãos como Pilatos, escudando-se nas declarações do Governador do Banco de Portugal e nas declarações uns dos outros. Facilitadores sim, porque confiaram em vez de desconfiar, dada a informação privilegiada de que dispunham, e porque induziram os outros, dessa forma, a confiar também. Enfim são estas as elites que nos guiam. Uns incompetentes!


Epílogo

Neste Verão, temos viajado muito pelo Minho. São muitos os emigrantes portugueses com os quais nos cruzamos. Muitos estão felizes por cá estar – afinal é o seu querido mês de Agosto. Oiço-os alegres com as suas famílias, na rua, nos restaurantes, nas praças e nos arraiais. Mas muitos não estão alegres. São numerosas as casas à venda em Terras de Bouro, por exemplo. Casas de emigrantes. E hoje no Porto, cidade onde escrevemos, percorremos a Avenida dos Aliados e passámos frente ao Novo Banco, mas não muito perto pois não nos era permitido. Fitas de plástico limitando o passeio frente à entrada e a presença de polícias em grande número obrigaram-nos a passar ao largo. Alguns trabalhadores do banco conversavam no exterior enquanto nas paredes ainda pingavam amarelas, as gemas de ovos recentemente lançados pelos roubados do BES.

***

Post scriptum -  Também nós somos roubados do BES, ainda que não tenhamos lá depositado um cêntimo. Como portugueses e como contribuintes. Como contribuintes portugueses. E já estamos a pagar. Estranho país este em que são as vítimas e não os criminosos a espiar pelos crimes.

quarta-feira, agosto 05, 2015

Retrato

Tigre adormecido,
coração do dia.
Rosto semeado
de melancolia.

Noite transparente,
Primavera escura.
Sombra rodeada
de mar e brancura.

Tigre adormecido,
coração do dia.
Puro e violento
incêndio de alegria.

                          Eugénio de Andrade, Até Amanhã, 1956


E este Sal da Língua. Uma homenagem de Raquel Agra. Uma Ode a Eugénio.

terça-feira, julho 28, 2015

O mural da história

O desgraçado do lorde barão deixou-se filmar com prostitutas e cocaína. Dizem que era o presidente do Comité de Conduta e Privilégios da Câmara dos Lordes e que por vezes arengava para que os seus pares se pautassem por um bom comportamento e pelos bons costumes, não fosse tão nobre instituição ser desonrada.

Lembrei-me de uma frase escrita num mural algures, num grafiti bem grosseiro, informando que “O Morais foi às putas”, tout court.

É o mural da história.

***

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