domingo, setembro 07, 2014
sexta-feira, setembro 05, 2014
E aí, onde aparece, começa a noite escura
No «projéctil capaz de pensar», chegámos ao ponto extremo da moderna dissimulação
do sujeito, pois o que se chama sujeito
na época moderna é na verdade esse eu da autoconservação que se está a retirar
passo a passo da vida até ao auge paranóico.
(…)
A próxima grande guerra já só verá como combatentes pessoas
esquizofrénicas e máquinas. Homunculi,
representantes do Estado, gerentes-lémures desdobrados das forças destrutivas,
premirão, quando «for preciso», os botões decisivos, e robots heróicos assim como máquinas infernais
«capazes de pensar» saltarão uns sobre os outros – o experimentum mundum estará terminado: o ser humano era um
falhanço. O Iluminismo só pode extrair a seguinte conclusão: não se pode
iluminar, esclarecer [al. aufklären]
o ser humano, pois este era já em si a falsa premissa do Iluminismo. O ser
humano não basta. Encerra em si o princípio obscurecente da dissimulação, e aí
onde aparece o seu eu não pode luzir o que foi prometido por todos os Iluminismos:
a luz da Razão.
Peter Sloterdijk, Crítica da Razão Cínica, Relógio D’Água,
2011, pp. 446-447.
***
Estamos perante outra versão do
dito heideggeriano segundo o qual só um deus poderá salvar-nos. Para Sloterdijk, nem a Ciência nem a Razão
podem salvar-nos. Para ele o Homem é uma experiência falhada: “o ser humano era
um falhanço”. O ser humano é a “falsa premissa do Iluminismo”. “O ser humano
não basta”, diz ele, nem se basta a si mesmo, para se salvar: só um deus, caso
exista, o poderá salvar.
Até lá a loucura prossegue,
enredada no mais profundo desespero.
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Peter Sloterdijk
A coisa-para-ti.
Aquilo que destinámos ao inimigo – a sua aniquilação numa grande
superfície por consumpção, contaminação, atomização -, temos de começar por o
fazer sofrer à própria arma. No fundo, mais não é do que a nossa mensagem para
o nosso adversário, transmite as nossas intenções a seu respeito. Por esta
razão, as armas são os representantes do inimigo no nosso próprio arsenal. Quem
forja uma arma dá a perceber ao seu
inimigo que será tão impiedoso a seu respeito como a respeito da moca, do bloco
de ferro, do obus e da ogiva. A arma é já o adversário maltratado; ela é a coisa-para-ti. Quem
se arma está sempre já em guerra. De facto, esta opera continuamente
segundo alternâncias de quente e de frio e chamamos abusivamente paz à fase
fria. Na óptica do ciclo polémico, a paz significa tempo do armamento, quer dizer, transferência das hostilidades para os metais; a guerra é, por conseguinte, a utilização e consumo dos produtos de armamento; a actualização das armas contra o adversário.
Peter Sloterdijk, Crítica da Razão Cínica, Relógio D’Água,
2011, p. 445.
(escrito em 1983, destaques nossos)
A paz é mais do que um estado em
que se ganha fôlego e músculo para a guerra seguinte. A paz é já a fase fria da guerra
incessante. De acordo com esta acepção vivemos sempre num estado de guerra.
Guerra contra a Natureza, guerra contra os outros, guerra contra nós próprios.
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Peter Sloterdijk
sábado, agosto 23, 2014
A Criação e a Expulsão do Paraíso
Giovanni di Paolo, A Criação e a Expulsão do Paraíso (detalhe), c. 1445
Metropolitan Museum of Art, Nova Iorque
quinta-feira, agosto 21, 2014
Notícias da queda
De George Steiner, sobre o pensamento de Claude Levy-Strauss:
A queda do homem não apagou de uma penada todos os vestígios do Jardim do Éden. Os viajantes do século XVIII sucumbiram a uma espécie de ilusão
premeditada quando pensaram ter encontrado raças humanas inocentes no paraíso
dos Mares do Sul ou nas florestas do Novo Mundo. Mas as suas idealizações
tinham uma certa validade. Os homens primitivos, que existiam, por assim dizer,
fora da história, seguindo usos sociais e mentais dos primórdios e possuindo
uma certa intimidade com as plantas e os animais, encarnavam efectivamente uma condição mais natural. O seu divórcio
cultural com a natureza ocorrera evidentemente centenas, milhares de anos
atrás, mas fora menos drástico que o do homem branco: em termos mais precisos,
os seus usos culturais, os seus rituais, mitos, tabus, técnicas de recolha de
alimentos eram calculados para aplacar a natureza, para confortá-la, para viver
com ela, para tornar a divisão entre natureza e cultura em algo menos violento,
menos dominante.
Ao encontrar estas sombras de vestígio do Éden, o homem ocidental
dispôs-se a destruí-las. Massacrou inúmeros povos inocentes. Derrubou as
florestas e queimou as savanas. Então, a sua fúria de destruição virou-se para
as espécies animais. Uma após outra, foram perseguidas até à extinção ou à
sobrevivência factícia dos jardins zoológicos. Esta devastação foi muitas vezes
deliberada: era o resultado directo da conquista militar, da exploração
económica, da imposição de tecnologias uniformes aos modos de vida autóctones.
Milhões pereceram ou perderam a sua identidade e património étnicos. Alguns
observadores calculam que, só no Congo, tenham morrido vinte milhões de vítimas
desde o início da colonização belga. Linguagens, cada uma das quais codificava
uma única visão do mundo, foram cilindradas e lançadas no esquecimento. A
garça-real e a baleia foram caçadas quase até à extinção. Muitas vezes, a
destruição era acidental ou mesmo devido a benevolência. As dádivas trazidas
pelo homem branco – dádivas médicas, materiais, institucionais – mostraram-se
fatais para os seus receptores. Como conquistador, explorador ou médico, o
homem ocidental trazia sempre a destruição. Aparentemente possuídos por alguma
ira arquetípica pela nossa exclusão do Jardim do Paraíso, por alguma recordação
torturante dessa desgraça, revirámos a Terra em busca de vestígios do Éden e
arrasámo-los sempre que os encontrámos.
George Steiner, Nostalgia do Absoluto, Relógio D’Água,
2003, pp 45-47
***
Post scriptum:
O texto supracitado, da autoria de George
Steiner, faz parte de um conjunto de palestras que ele proferiu na rádio em
1974. Então não se falava de países emergentes. Hoje, o homem ocidental, o
branco de que ele fala, está longe de ser o único a causar a devastação
planetária (*). Chineses, hindus, malaios, africanos, enfim, brancos, pretos,
amarelos, homens de todas as cores, muito para além do homem branco, caucasiano,
devastam alegremente os últimos vestígios edénicos do planeta.
Deixemo-nos de lirismos.
Virámo-nos contra esses vestígios
do Éden primordial e contra nós mesmos. No fim, não irá restar pedra sobre pedra.
Nesta visão apocalíptica compreendemos
Heidegger que disse um dia numa entrevista que só um deus poderia salvar-nos. O
ser humano entregue a si mesmo está perdido, é a ilação que se tira de tudo
isto. Trata-se de um voto de desconfiança cruel no ser humano.
Não subscrevemos essa ideia
porque não a queremos subscrever. Só a Ciência pode salvar-nos, só o Homem pode salvar-se. É preciso acreditar ainda na Ciência e no Homem.
Contra todas as evidências.
_______________________________________
(*) Hoje, o homem ocidental já
não é apenas o homem branco caucasiano. Entre as sociedades dos países
ocidentais convivem homens de todas as cores.
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quarta-feira, agosto 20, 2014
Novo mundo
Na segunda metade do século XX
foi criado um novo universo, um novo mundo que se amplia, para além do universo
exterior e do universo interior: o universo cibernético.
Os autistas, perdidos ou aprisionados
no universo interior, aparentemente, estabelecem ténues relações com o universo exterior
e nenhuma com o universo cibernético. Por outro lado, certos seres humanos,
vivem sem saber conscientemente que
vivem, e estabelecem ténues relações com o universo interior. Aparentemente
fazem pouco uso da consciência, como certos animais não humanos. Agem
instintiva e irreflectidamente. Como rezava a canção do Zeca Afonso: “Há quem viva sem dar por nada. Há quem morra
sem tal saber”. Tal não significa que estejam doentes. São mais seres de
acção do que de reflexão. Mas hoje, o universo cibernético em expansão pode
levar-nos cada vez mais à alienação do mundo exterior e do mundo interior. Ao
extremo, um indivíduo pode encontrar-se de tal forma alienado pela “vida” nesse
mundo cibernético, que não repara na existência desse outro mundo, lá fora. Ao extremo,
pode até o edifício que o abriga ruir, que ele não repara.
terça-feira, agosto 12, 2014
Memórias e danças
O Meridiano de Sangue, de Cormac McCarthy, é uma obra-prima do género western. E a tradução, de Paulo Faria, se
não enriquece a obra, está à altura dela. (*)
Ficam duas citações do juiz Holden e as respectivas reflexões
sobre as mesmas.
Sonho ou realidade?
As memórias dos homens
são incertas e o que aconteceu no passado pouco difere do passado que não
aconteceu.
Cormac McCarthy, Meridiano de Sangue, Biblioteca Sábado,
2008, pág. 273
***
Por vezes as recordações
misturam-se com os sonhos e, em certas circunstâncias, quando recordamos o
passado, ficamos na dúvida se aquilo que sentimos como tendo sido um
acontecimento vivido não se trata afinal de um sonho tido sobre esse mesmo acontecimento.
Dança ritual da guerra
Uma coisa te digo. À medida que a guerra vai sendo aviltada e a sua
nobreza posta em causa, os homens honrados que reconhecem a santidade do sangue
vêem-se excluídos da dança, que é um direito dos guerreiros, e deste modo a
dança converte-se numa falsa dança e os dançarinos em falsos dançarinos. E
todavia, haverá sempre um dançarino que fará jus a esse título, e consegues
adivinhar quem será?
Cormac McCarthy, Meridiano de Sangue, Biblioteca Sábado,
2008, pág. 273
***
É caso para dizer, que quem dança
por último dança melhor.
Desconfiamos que as danças
primevas começaram por ser danças rituais. A dança é uma forma de expressão universal e
desenvolveu-se em todas as civilizações e culturas do planeta, civilizações e
culturas que evoluíram até certo momento, em total desconhecimento da
existência das demais. A universalidade da dança não parece por isso ter resultado
de uma difusão por contágio, mas o seu aparecimento parece relacionado com um
determinado estádio da evolução humana. Não se conhecem sociedades não humanas
que dancem, muito menos ritualmente, embora alguns pássaros pareçam dançar em rituais de acasalamento.
Ainda hoje se dança nos
casamentos, na nossa sociedade. Em certas culturas, a passagem à idade adulta é
marcada por danças rituais e celebratórias. E existem ainda as belicosas danças
da vitória. Danças guerreiras.
E até os demónios mais belicosos dançam uma estranha dança, como Hitler, em 1940, ao saber da queda de Paris. Mas por último não foi ele quem dançou.
_____________________________________
(*) - George Steiner diz que
certas traduções chegam até a ser enriquecedoras. É o caso, a nosso ver.
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sábado, agosto 09, 2014
Dmitry Shostakovich
E Nagasaki é lá tão longe…
É longe, mas transportamo-la no coração. Quando a bomba caiu tudo caiu, mas as paredes dos
velhos edifícios construídos pelos nossos antepassados ficaram de pé ao
contrário das construções de madeira japonesas, que arderam facilmente. Consta
que num qualquer ano da Graça, lá para meados do século XVI, os mercadores e
padres portugueses desembarcaram nas praias do Japão e fundaram a cidade.
Levaram as armas de fogo, a Fé e a tempura, para além de tudo o resto que
levaram. Levaram Portugal.
Hoje lembramos esse dia de 1945
em que se cometeu um dos mais horrendos e hediondos crimes de guerra contra os
japoneses e, de certa forma, contra nós. Os americanos podiam ter-se limitado a
mostrar os dentes, ou a realizar uma manifestação de força no mar, ao largo da
costa do Japão, ou apenas a esperar, pois já tinham lançado uma bomba atómica a
6 de Agosto em Hiroxima. Mas não. Preferiram morder outra vez. No dia 9 de
Agosto de 1945 foram assassinadas, a sangue frio, entre 60 000 a 80 000 pessoas
– não é conhecido o número exacto - na cidade portuária de Nagasaki. A nossa
cidade portuária de Nagasaki.
quarta-feira, agosto 06, 2014
Crimes de guerra e colheitas futuras
Os crimes de guerra podem ser definidos como violações das convenções
de Genebra e de Haia relativamente às práticas proibidas em situação de guerra.
As referidas convenções cobrem um vasto leque de categorias, incluindo os maus
tratos infligidos a prisioneiros de guerra, refugiados e não combatentes, o uso da força excessiva e de armas proibidas
(tais como gás venenoso); a violação de hospitais e equipas médicas, a tomada
de reféns, o bombardeamento de alvos
civis; episódios recorrentes de saque, violação, espancamento e assassínio
praticados por militares indisciplinados.
Norman Davies, A Europa em Guerra, 1939-1945, Edições
70, 2008, pág. 83.
(realces nossos)
***
Quando um pirralho dá uma canelada num adulto este tem o dever moral de não lhe responder da mesma
forma, ou de forma pior, dando-lhe um murro ou um pontapé, por exemplo. O
adulto tem a razão e a força que o pirralho não tem e o uso da força numa
situação destas, pela sua parte, redunda no uso de força excessiva e na perda da
razão.
O governo de Israel porta-se como o adulto irresponsável e o Hamas como o pirralho malcriado. Ambos
têm cometido crimes de guerra e os seus líderes deviam ser severamente punidos
pela justiça internacional.
Neste conflito não há bons de um
lado e maus do outro. Ambos os lados são maus e cada bomba ou rocket lançado por cada uma das partes,
cada tiro disparado, é uma semente de ódio e violência que no futuro irá despontar.
Tristes colheitas se adivinham.
***
Sobre este assunto, é
interessante a entrevista de Zygmunt Bauman, divulgada pelo Diário do Centro do Mundo. Aqui.
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terça-feira, agosto 05, 2014
No mundo disfuncional onde nos é dado viver
Ele [o mundo disfuncional onde nos é dado viver] é caracterizado por um processo, iniciado
de modo mais sistemático no dealbar os anos de 1980, e que se traduz numa
enorme expansão do capital financeiro (suplantando em muito a produção de bens
e serviços da chamada «economia real»). Por outro lado, regista-se um enorme
aumento da concentração de riqueza, a nível global, facilitado pela quase
irresponsabilização da circulação de capitais, com a correspondente perda de peso da componente de rendimentos
do trabalho nas economias nacionais. A globalização permitiu a criação de
uma elite mundial, transnacional, capaz de influenciar ou mesmo determinar as
agendas políticas nacionais e internacionais.
(…)
O «sistema
bancário sombra» (que efectua operações bancárias sem ser submetido à
disciplina do bancos oficiais) movimentou 67 biliões de dólares
norte-americanos em 2011 (111% do PIB mundial).
Viriato
Soromenho-Marques, Portugal na Queda da
Europa, Temas & Debates/Círculo de Leitores, pág. 109
***
O crescimento exponencial da
componente dos rendimentos do capital financeiro no rendimento global
planetário ditou uma desvalorização relativa dos rendimentos do trabalho.
Paradoxalmente, no “mundo
disfuncional onde nos é dado viver”, a acumulação de riqueza é, cada vez mais, independente do trabalho, daí que se assista hoje, mais do que nunca, à
destruição inescrupulosa de estruturas económicas nacionais e à precarização do
trabalho, com as inevitáveis consequências na vida do trabalhador, que,
ironicamente, já empobrece a trabalhar. O trabalhador, no “mundo disfuncional
onde nos é dado viver”, é cada vez mais prescindível. Neste mundo, o
especulador vence em toda a linha. O capitalismo financeiro é mais sedutor do
que o capitalismo industrial e industrioso. O dinheiro enquanto mercadoria é já
a principal variável da equação. Dinheiro gera dinheiro, riqueza gera riqueza.
O trabalho é deixado para trás, enquanto prossegue o processo de concentração
do rendimento e da riqueza.
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Viriato Soromenho-Marques
segunda-feira, agosto 04, 2014
Ainda no Meridiano
![]() |
| Cormac McCarthy |
A violência gratuita e explícita,
afinal, não está apenas reservada aos filmes mais brutais e hediondos de Hollywood.
Surpreendentemente vim encontrá-la num livro - o Meridiano de Sangue - escrito por Cormac McCarthy, onde ainda me encontro,
esperando concluir a leitura em breve. Pensava eu que não seria possível plasmar tal violência numa obra literária. Ou que a literatura estaria sempre aquém do cinema quando se trata de impressionar pela exposição brutal da violência. É impressionante. É certo que na Ilíada, a obra fundadora da literatura europeia,
a violência já nos era mostrada de forma explícita, mas estava longe de ser
gratuita. Tratava-se de uma violência enquadrada e, de certo modo, justificada.
Já os personagens de McCarthy no Meridiano,
matam por matar, esfolam por esfolar e deambulam em atribulado e aleatório percurso,
ora a aterrorizar os aldeões e os índios do norte do México, ora perdidos pelo
deserto de Sonora, mas ainda assim, sempre ávidos por escalpes. Um bando de patifes onde se integra um enigmático personagem, sábio e cientista, mas que também é
um implacável assassino: o juiz Holden.
Hoje li estas palavras proferidas
por esse estranho personagem:
O universo não é uma coisa limitada e a ordem que o rege não tem peias
que, tolhendo-lhe os desígnios, a forcem a repetir noutro lugar qualquer o que
já existe num dado lugar. Mesmo neste
mundo, existem mais coisas que escapam ao nosso conhecimento do que aquelas que
conhecemos e a ordem que os nossos olhos vêem na criação é a ordem que nós
lá pusemos, qual fio num labirinto, para não nos perdermos.
Cormac McCarthy, Meridiano de Sangue, Biblioteca Sábado,
2008, pág. 204
Ora, curiosamente, já tinha lido
qualquer coisa parecida, do filósofo Karl Popper:
Seria desejável que por vezes nos lembrássemos que é precisamente no
pouco que sabemos que somos diferentes, já que somos todos iguais na nossa
ilimitada ignorância.
Karl Popper, Em Busca de um Mundo Melhor, Editorial
Fragmentos, 1989, pág. 59
Um pouco mais adiante, pela boca
do mesmo personagem, surgem-me Nietzsche e o niilismo. Diz o juiz Holden, na página 208:
As leis da moral são uma invenção da humanidade para privar dos seus
direitos os mais poderosos em favor dos fracos. As leis da história subvertem as
leis da moral a cada passo. A validade de uma perspectiva moral nunca pode ser
confirmada ou infirmada por um qualquer exame definitivo.
Cormac McCarthy, Meridiano de Sangue, Biblioteca Sábado,
2008, pág. 208
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sábado, agosto 02, 2014
Como é que a entidade reguladora não percebeu a existência do “buracão” no BES?
Perguntava hoje a pivot da SIC, Maria João Ruela, ao comentador
Marques Mendes: como é que ninguém percebeu que a dívida do banco tenha chegado
a este valor? E acrescentamos nós: como é que os auditores não deram por ela?
Como é que as entidades reguladoras não viram? Como é que o líder do suposto principal
partido da oposição confiou e não desconfiou? Não sabiam eles já de uma prática
comum por parte das empresas de auditoria aos bancos auditados?
Ainda que se trate de um livro
cheio de hinos laudatórios ao credo mercantil, tendo a verdade sido deixada
para notas de rodapé, O Declínio do
Ocidente, de Niall Ferguson, lá explica, na transição da página 84 para a
85, fazendo uso parcial de uma metáfora:
Espera-se
da regulação que reduza o número e grandeza de incêndios florestais. E, no
entanto, ela pode, como já vimos, ter exactamente o efeito contrário. Acontece
assim porque o próprio processo político é, em si, também bastante complexo. As entidades reguladoras podem ficar reféns
daqueles que deveriam regular, não menos pela expectativa de empregos bem
pagos, no caso de o guarda-florestal decidir transformar-se num caçador
furtivo. Há outras formas de se tornarem reféns. Por exemplo, quando dependem das organizações que tutelam para obter os
próprios dados de que necessitam para o seu trabalho.
Niall Ferguson, O Declínio do Ocidente, Como as Instituições se Degradam e a Economia
Morre, D. Quixote. 2014, pp. 84-85 (ênfase nossa).
Seremos todos anjinhos?
A “linha da troika”
Recorrer à “linha da troika” para recapitalizar um banco é
recorrer ao dinheiro do Estado Português. Dinheiro que foi emprestado ao Estado
português e cujos juros têm de ser pagos pelo Estado português. Pelos
contribuintes. Na verdade, os contribuintes já estão a pagar pelos empréstimos
contraídos e que constituem um fundo para salvar bancos em aflição devido à
gestão danosa dos seus gestores, que, esses sim, quiseram dar passos maiores do
que as suas próprias pernas – por outras palavras, quiseram viver acima das
suas possibilidades.
Os contribuintes serão no futuro chamados
à pedra? A ver vamos. Já se apronta o argumentário do risco sistémico. E o “buraco”
está aí para justificar futuros cortes no rendimento disponível dos contribuintes
portugueses.
sexta-feira, agosto 01, 2014
Do neoliberalismo furtivo
"O neoliberalismo não se manifesta somente na privatização de tudo o que é público e, em particular, no esvaziamento do Estado social. É também um desígnio compulsivo de enfraquecimento do Estado e da Administração."
Sub-repticiamente e às claras, o neoliberalismo vai-se imiscuindo, e nós por cá andamos, todos a dormir.
Vital Moreira, Causa Nossa
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