segunda-feira, agosto 16, 2021

Ulisses devolve Criseida ao pai


 Claude Lorrain, Ulisses devolve Criseida ao pai, 1648

Para aplacar a ira do deus, Agamémnon, rei de Argos e de Micenas, contrariado e após acesa discussão, aceita devolver Criseida, que tinha por refém e escrava para todo o serviço. 


Ulisses, o mais astucioso e sensato dos aqueus, foi incumbido de a entregar ao pai:

 

Quando entraram no porto de águas fundas,

dobraram a vela e guardaram-na na nau escura;

rapidamente desceram o mastro com os cabos dianteiros

e com os remos remaram até ao ancoradouro.

Lançaram as âncoras e ataram as amarras.

Eles próprios saíram e caminharam pela orla do mar,

levando a hecatombe para Apolo que acerta ao longe.

Da nau preparada para o alto mar trouxera a filha de Crises.

Levou-a até ao altar Ulisses de mil ardis;

pô-la nos braços do pai, e assim lhe dirigiu a palavra:

“Manda-me, ó Crises, Agamémnon soberano dos homens

restituir-te a tua filha e oferecer a Febo uma sagrada hecatombe

em nome dos Dânaos, para que propiciemos o soberano,

que contra os Argivos muitos sofrimentos lançou.”

 

  Homero, Ilíada, Canto I

sexta-feira, agosto 06, 2021

Livros lidos: Civilizações


 Laurent Binet, Civilizações, Quetzal, 2021

⭐⭐⭐⭐⭐
(Excelente!)

Um conto de 417 páginas lido em seis dias.

Delicioso!

quinta-feira, agosto 05, 2021

E outra vez: Pichardo d'Ouro

 


Pedro Pichardo: ouro olímpico no triplo salto.

Glorioso!

terça-feira, agosto 03, 2021

E uma vez mais: agora a vez do remador de Ponte de Lima

 

Bronze olímpico para Fernando Pimenta. 

Excelente!


domingo, agosto 01, 2021

sábado, julho 31, 2021

Livros lidos: Uma Vida no Nosso Planeta


David Attenborough, Uma Vida no Nosso Planeta, Temas e Debates, 2020

⭐⭐⭐⭐⭐
(Excelente!)

A nossa utilização negligente dos combustíveis fósseis colocou-nos o maior e mais urgente desafio que já enfrentámos. Se conseguirmos fazer a transição para as renováveis à velocidade da luz que é exigida, a Humanidade recordará sempre esta geração com gratidão, pois somos efetivamente a primeira a compreender verdadeiramente o problema - e a última a ter a oportunidade de fazer algo.

David Attenborough, op. cit., pág. 156

Falamos muitas vezes de salvar o Planeta, mas a verdade é que temos de fazer tudo isto para nos salvarmos a nós mesmos. Connosco ou sem nós, a natureza regressará.

David Attenborough, op. cit., pág. 246


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Ante o maior desafio com que a Humanidade se defronta, ainda há quem hesite, ainda há quem duvide, ainda há quem o negue.

 

Ainda há quem apelide os ambientalistas de uns meninos urbanos com sonhos idílicos e bucólicos (uma Helena Matos que escreve no Blasfémias e no Observador, por exemplo). Que a imagem que fazem da natureza nunca existiu, só na cabeça deles. Que a natureza e o campo não é nada do que imaginam. Que é antes uma via para o lucro, com as suas monoculturas de eucaliptos e palmeirais, a sua agricultura e pecuária. Isso sim é que é o campo.

 

Pois bem, Sir David Attenborough que tinha 94 anos quando escreveu este livro, passou grande parte da sua vida a observar, a estudar e a transmitir aos outros a beleza do mundo natural (em oposição ao artificial), dos animais e das plantas e da forma como se relacionam entre si e com o ambiente. A mensagem que nos transmite neste livro é bem clara e cristalina: ou esta geração muda a forma de se relacionar com o mundo natural ou é o fim da Humanidade. Não é o fim do mundo, é o fim da Humanidade.

 

A Natureza, essa, encontra sempre o seu caminho.

 

O livro é pedagógico e é excelente.

quinta-feira, julho 29, 2021

Ora, aí está!

 












A alegria de Jorge Fonseca é contagiante.

Bronze olímpico no judo.


Keep dancing Jorge.

quarta-feira, julho 28, 2021


 

Livros lidos: O Messias de Duna


Frank Herbert, O Messias de Duna, Relógio D'Água, 2021

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O autor dá excessivo crédito a drogas alucinogénias.

É demais!


Salvam-se os momentos de acção. As crenças e opiniões do autor plasmadas na história são maçadoras.

domingo, julho 18, 2021

Quietude e desejo

 

É a paz que, dando os vagares da imaginação, causa as impaciências do desejo.

Eça de Queiroz, Contos

sexta-feira, julho 09, 2021

O meu fim não será o fim do mundo

 Não serei daqueles que, vendo aproximar-se o seu fim, dizem que é o fim do mundo que se aproxima, que tudo decai, interiorizando que depois deles será o caos.


Vêem então decadência em todo o lado, apocalipses em aproximação, quando são eles que decaem.

Não, o meu fim não será o fim do mundo.

O Olhar do Outro

 


Maria Filomena Mónica, O Olhar do Outro, Relógio D'Água, 2020

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Olhar jocoso e sobranceiro, o dos ingleses anglicanos e protestantes. Excessivamente ousados no diagnóstico do atraso deste país, quando o deles avançava a todo o vapor, nos séculos XVIII e XIX. Entre eles há, contudo, excepções.

Gostei mais do olhar metódico e quase científico, certeiro até, dos alemães e do dinamarquês. É mais fácil gostar de quem gosta de nós ou até nos considera bem.

A escrita fluída permite uma leitura fluída.

Não existe um grande equilíbrio na dimensão dos vários relatos, isto é, alguns são breves outros longos, embora sejam todos bem enquadrados por notas biográficas que ajudam a contextualizar os olhares.

 

Ainda assim, de MFM, gostei mais do seu Bilhete de Identidade.

quarta-feira, julho 07, 2021

terça-feira, julho 06, 2021

Vacinação e transmissão: a corrida.

 Ouvimos na TV que estamos numa luta contra o tempo, entre a vacinação e a transmissão. Pasmo.

 

Então não estávamos numa luta contra o tempo aquando dos festejos da vitória do Sporting no campeonato de futebol? Não estávamos numa luta contra o tempo aquando da final da Liga dos Campeões, no Porto? Não estávamos numa luta contra o tempo, nos festejos do São João?

 

Agora estamos numa luta contra o tempo!

 

Há para aí uns comentadores neoliberais que falam grosso quando os números da pandemia estão em baixo e piam fino (nem os ouvimos), quando os números estão altos ou crescem. Nota-se que o tom e a intensidade não são os mesmos, ou será impressão minha?

Duna

 


Frank Herbert, Duna, Relógio D'Água, 2020


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- Os homens e as suas obras têm sido até agora uma doença à superfície dos seus mundos - disse o pai. - A natureza tende a compensar as doenças, removendo-as ou isolando-as, incorporando-as no sistema à sua maneira.  


Frank Herbert, Duna, Relógio D'Água, 2020, pág. 361

sexta-feira, julho 02, 2021

Religião, escuridão, ciência, ilusão

 


Hervé Le Tellier, A Anomalia, Editorial Presença, 2021

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A religião é um peixe carnívoro das profundezas. Emite uma ínfima luz e, para atrair a sua presa, precisa de muita escuridão.

Hervé Le Tellier, A Anomalia, pág. 251

 

Mas todos o sabem: o universo, virtual ou não, é todo ele regido por leis, cada vez mais conhecidas a fundo.

Hervé Le Tellier, A Anomalia, pág. 255

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Se a escuridão é ignorância, ainda vivemos nela, com a ilusão de que conhecemos cada vez mais a fundo as leis que regem o universo.

 

E contra Heidegger, que dizia que só um deus poderia salvar-nos:

 

Não haverá um salvador supremo. Temos de ser nós próprios a salvar-nos.

Hervé Le Tellier, A Anomalia, pág. 260

 

Estamos perdidos.


Estado a que chegámos



Fonte: DGS, Relatório da Situação nº 486 | 01/07/2021 


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Entretanto nos E.U.A., o país que mais testou no mundo, a vacinação reflecte-se na transmissão. Assim parece, com os novos casos diários a reduzirem-se exponencialmente com o aumento exponencial dos vacinados.

A tese de que a vacinação não se reflecte na transmissão deve ser questionada, ou serão assim os americanos tão bem-comportados e de elevado nível cívico?



 Fonte: https://www.worldometers.info/coronavirus/country/us/ (consultado a 02/07/2021)

quinta-feira, junho 10, 2021

Portugal

 «Obedientes e sem mais delongas, num mergulho de alcatrazes, atirámo-nos então daquela rocha branca ao abismo azul. E descobrimo-nos. Encontrámo-nos universais em toda a parte do globo, mas, sobretudo, dentro da nossa própria perplexidade. (…)

E a História celebra com justiça os melhores dessa superação mental. Chamam-se Pedro Nunes, Duarte Pacheco Pereira, D. João de Castro, Garcia da Orta, João de Barros, Diogo de Couto, Pêro Vaz de Caminha, Fernão Mendes Pinto, Luís de Camões. Sem falar doutros menos dotados que, modestamente, se desmediram. (…)

Enquanto os vizinhos da Europa, sem descanso, continuaram a ser pioneiros nas empresas que a vida lhes confiava, nós, enxutos da grande maratona oceânica, ficámos em cima da penedia a ver passar ao longe, a fumegar, as embarcações alheias, e a cantar, ao som de uma guitarra, loas à fatalidade.»

 Miguel Torga, Portugal, D. Quixote, 3ª ed., 2010, págs. 98-99

segunda-feira, junho 07, 2021

Prisioneiros da Geografia, de Tim Marshall


Tim Marshall, Prisioneiros da Geografia, Desassossego/Saída de Emergência, 2017


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A Geografia continua a contar, por muito virtual que seja o espaço onde muitos passem já os dias, alheios à materialidade da vida.

Duas citações:

Pensa-se que cerca de 25 por cento dos brasileiros vivam nos infames bairros de lata chamados favelas. Quando uma pessoa em cada quatro na população de um estado vive na mais abjecta pobreza, é difícil que esse estado enriqueça.

Tim Marshall, Prisioneiros da Geografia, 2017, pág. 215

 

A palavra «árctico» vem do grego artikos, que significa «perto do urso», e é uma referência à constelação da Ursa Maior, cujas últimas duas estrelas apontam para a Estrela Polar.

Tim Marshall, Prisioneiros da Geografia, 2017, pág. 224

 

Cinco estrelas para esta magnífico livro de Geografia e, dentro dela, Geopolítica.

sábado, junho 05, 2021

Desconfinamento bêbado

O Reino Unido retirou Portugal da lista “verde” de destinos para viajar. Que espanto! Que admiração?! Que injustiça?! Que irrazoabilidade?! Já se queixa, mais uma vez, o Silva dos Negócios Estrangeiros.

Onde é que já vimos este filme?

Tirar lições para quê?

Não aprendem nem aprenderam nada.

Vamos então dar os parabéns ao Medina, ao Costa, ao Cabrita, ao Moreira, ao Sousa e ao Silva da Federação, pela magnífica gestão do desconfinamento e pela ajuda que estão a dar ao sector do turismo deste país, pelos eventos que promoveram e apadrinharam.

Não conseguiam fazer um desconfinamento sóbrio, sem espavento? Não. Era preciso um desconfinamento bêbado.


Parabéns!


Entretanto no aeroporto de Faro já se iniciou nova debandada.

sábado, maio 29, 2021

Super spreaders


 Por umas libras, vende-se o país. Que venham os super spreaders, com o beneplácito dos que nos governam.


Um jogo, que deveria ser realizado em Inglaterra, será cá realizado, que os ingleses não querem bombas biológicas em terras de sua majestade, mesmo que as equipas oponentes sejam de Manchester e de Londres.


Cá na república, é o meu reino por uma libra.


António Costa ainda teve a lata de dizer que não há provas da correlação entre estes eventos (referia-se aos festejos sportinguistas) e o aumento das contaminações, contra todas as evidências espaciais e temporais.

E o Presidente, com a sua voz melíflua, chegou a sugerir um possível relaxamento dos limites traçados na matriz de risco, antes da reunião no Infarmed.


É bom saber que, chegada a reunião do Infarmed, os especialistas não foram em cantigas: "Grupo de peritos recomenda manter actual matriz de risco" (Público, 28 de Maio)


Entretanto aumenta o índice de transmissão no Reino Unido (Expresso, 28 de Maio).


Em países próximos do nosso, as vítimas mortais continuam a ser mais do que uma centena como é o caso da Alemanha (195, ontem), Itália (126), França (107) [dados da Worldometer] Tudo países muito menos desenvolvidos do que o nosso, como é bom de ver. Nós somos especiais.


Não. Não seremos todos responsáveis se as contaminações aumentarem na sequência destes eventos autorizados por políticos, edis incluídos. Os responsáveis têm nome e cargo político.

domingo, maio 16, 2021

Meu país, meu penico

Meu país, meu penico.

Penico à beira-mar plantado.

E viva a Inglaterra!




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Lido o livro em tempo record, Maria Filomena Mónica não se cansa de nos lembrar o quanto somos pequenos e tacanhos, mas com sonhos de grandeza. Para ela, grandes são os ingleses e a Universidade de Oxford onde estudou.

Dá muito crédito ao historiador Rui Ramos: “Ao contrário do que muitos defendem, Salazar nunca foi fascista” (pág. 157). No entanto, “O Estado Novo ajudou – de forma modesta, é certo – as tropas de Franco” (pág. 162), um fascista “ideologicamente próximo” de Salazar, acaba por referir.

O Meu País, Notas Sobre o Nacionalismo é a visão de uma burguesa liberal da “classe alta”, de um país onde, nas suas palavras, o amor à liberdade não medrou: “O que me dói é o facto de o amor à liberdade não ter encontrado, em Portugal, um solo onde pudesse medrar” (pág. 204), ao contrário da grande Inglaterra, por certo. E ainda assim, é no “pequeno” Portugal onde encontra, agora que lhe “foge a curta vida”, a oportunidade de “pensar, falar e escrever livremente” (pág. 209).

terça-feira, maio 11, 2021

Caminhada

Como sopra o vento alheio

À solidão das areias,
dos mares e das teias.

(A vila ao longe é Monte Gordo)

Caminho só à beira do mar,
Incansável e perplexo
Pela pandemia dos dias.

Que importa a fúria do mar
Se estou com o vento
E a solidão pela mão.

sábado, maio 01, 2021

domingo, abril 25, 2021

25 de Abril

Sempre!

Democracia.

Desenvolvimento.

Liberdade.




sábado, abril 17, 2021

3 000 000

 A vez da Índia.


233 943 casos num só dia!



Fonte: India COVID: 14,521,683 Cases and 175,673 Deaths - Worldometer (worldometers.info)

(consultado a 16/04/2021)

sexta-feira, abril 16, 2021

Pior do que o Apocalipse de São João

 


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«Mas nem será necessário o pior cenário do aquecimento global para provocar devastações suficientemente graves que sacudam a sensação habitual de que, à medida que o tempo avança a vida melhora de uma forma inelutável. Essas devastações, muito provavelmente, vão chegar depressa: novas linhas costeiras recuadas, com cidades afundadas à sua frente; sociedades desestabilizadas a atirarem com milhões de refugiados para sociedades vizinhas que já sentem o estrangulamento dos recursos a esgotarem-se; as últimas várias centenas de anos, que muitos no Ocidente viram como uma linha simples de progresso e prosperidade crescente, transformadas no prelúdio de um sofrimento climático massivo.»

 David Wallace-Wells, A Terra Inabitável, Lua de Papel, 2019. p. 255


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O que nos aguarda é pior do que o Apocalipse de São João e já aí está. Mas está só no começo.

Êxodos bíblicos - Honduras ruma ao norte

Veneza sob a água

Califórnia em fogo

A peste



Entretanto, aguardamos o Verão escondidos atrás de uma máscara sempre que saímos à rua.

Mais uma máscara.

domingo, abril 11, 2021

A antiga e a nova liberdade

 


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No que me toca, prefiro, de longe, a antiga liberdade.

«No mundo antigo – na Antiguidade pré-cristã, em particular na Grécia antiga, ou durante o longo reinado da cristandade -, a definição dominante da liberdade envolvia o reconhecimento de que necessitava de uma forma apropriada de autonomia. (…)

A liberdade, assim compreendida, não era fazer o que se quisesse, mas sim escolher o caminho certo e virtuoso. Ser livre era, acima de tudo, estar livre da submissão aos nossos desejos básicos, que nunca poderiam ser satisfeitos e cuja perseguição só podia criar mais desejos e descontentamento. Assim, a liberdade era a condição alcançada pelo autodomínio, pelo controlo dos nossos apetites e do desejo de domínio político.

A característica definidora do pensamento moderno foi a rejeição desta definição de liberdade em proveito de uma definição que nos é hoje mais familiar. A liberdade, definida pelos criadores do liberalismo moderno, era a condição na qual os seres humanos estavam completamente livres para perseguir tudo o que desejavam».

Patrick J. Deneen, Porque Está a Falhar o Liberalismo? Gradiva, 2019. pág.99

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sexta-feira, abril 09, 2021

Voltar a estar no mundo


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«Perfila-se uma nova sabedoria, uma nova aprendizagem da liberdade. A fractura digital ainda existe claro. No entanto, a desigualdade que emerge é completamente diferente: tratar-se-á de ter acesso, já não à conexão, mas à desconexão. Acesso, não à música, mas ao silêncio; não ao diálogo, mas à meditação; não à informação imediata, mas à reflexão aturada. Os seminários de desintoxicação tecnológica multiplicam-se. Os retiros espirituais nos mosteiros já não têm a mesma natureza: antes era preciso fugir do mundo para encontrar Deus; agora, é preciso fugir dos estímulos eletrónicos para, finalmente, voltar a estar no mundo.» 

Bruno Patino, A Civilização do Peixe-Vermelho, Gradiva, 2019, pág. 112.

sábado, março 20, 2021

Primavera ou Calíope?


Cosmé Tura, Primavera, 1463, Londres, National Gallery


 

 

Eis que se apresenta a Primavera nesta nova Era.

O mundo em convulsão espera o silêncio do Verão.

domingo, fevereiro 28, 2021

Um fogo sempre vivo

 Esta ordem do mundo [a mesma de todos] não a criou nenhum dos deuses, nem dos homens, mas sempre existiu e existe e há-de existir: um fogo sempre vivo, que se acende com medida e com medida se extingue.

Heraclito

in, Kirk, G.; Raven, J.; Schofield, M., Os Filósofos Pré-Socráticos, 6ª ed. Fundação Calouste Gulbenkian, 2008, p. 205

 

O fogo está na origem de todas as coisas. Não somos nós feitos do pó das estrelas? O fogo estará no fim de todas as coisas. Mas há quem anuncie um universo vazio e infinito em resultado de uma expansão incessante, em que as estrelas se perderão de vista e o céu dos mundos se tornará negro, sem pontos de luz. Um universo frio, uma solidão infinita.

 

Talvez nessa altura se construa uma abóbada virtual, a envolver o mundo, como num planetário, para que não nos sintamos sós. Um simulacro de céu estrelado.

***

Ontem no Japão foi empossado o Ministro da Solidão. Justamente no país do sol nascente. O país que ostenta o fogo da manhã na sua bandeira. A pátria dos hikikomori. Decerto muitos japoneses, nas suas cidades luminosas, perderam a capacidade de ver o céu estrelado. Vivem sós num mundo cada vez mais artificial, nas estruturas e nas relações.

 

É-se só em Tóquio. Uma cidade (área metropolitana incluída) de 30 milhões de habitantes. A maior cidade do mundo. Não deixa de ser uma ironia. É exactamente na multidão que se encontra a solidão.

É exactamente no Japão que se encontra a solidão.





domingo, fevereiro 21, 2021

Tempo suspenso


Tempo suspenso

Cavalo suspenso

Terreiro suspenso


Vivemos num tempo suspenso, 

à espera de outro tempo.

segunda-feira, fevereiro 15, 2021

Consenso

Numa urgência, tudo o que soa a demora exaspera.

Esperar por um consenso num mar de divergências para, por fim, tomar uma decisão, pode revelar-se, em certas circunstâncias, fatal.

Quando chega, finalmente, o momento da decisão, uma vez obtido o consenso, já as circunstâncias mudaram, já o barco afundou, já a floresta ardeu...O momento em que a decisão devia ter sido tomada ficou lá atrás.

A obtenção de consensos obriga muitas vezes a demoradas negociações na procura de cedências de parte a parte.

O líder, muitas vezes, decide só. É a ele que cabe a decisão. É a sua responsabilidade. E isto passa-se, principalmente, quando tem de decidir rapidamente. 

Nem sempre as decisões procedem de negociações.

Num momento de urgência não há pior do que um líder hesitante entre divergências, um líder que procura a negociação.

Num momento de urgência a acção impõe-se. Exige-se ao líder que assuma as suas responsabilidades nas horas difíceis, nas horas mais sombrias e decida. 

Que oiça e que decida, mas não perca tempo a negociar em busca de um consenso.

domingo, fevereiro 07, 2021

O Inverno do nosso descontentamento

 


Primeiro foi a Primavera do nosso descontentamento, depois o Verão do nosso descontentamento, ao qual se seguiu o Outono do nosso descontentamento.

 

O cinzento e frio Inverno do nosso descontentamento apresenta-se agora, no Terreiro do Paço, vazio no na sexta-feira sábado passado, cerca das 14:00.

 

Estamos quase a concluir um ano de descontentamento. Seria bom que concluíssemos mesmo. 


Já basta de descontentamento.


domingo, janeiro 31, 2021

O Rabo de Peixe da Europa

Ironia das ironias. Agora somos nós o Rabo de Peixe da Europa. Até uma missão alemã veio cá ver este estranho e triste fenómeno.


E cá estamos nós em quarentena, confinados, de voos cortados e fronteiras fechadas, não vá esta peçonha safar-se daqui.


Ó Portugal, Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo. Meu remorso, meu remorso de todos nós...


Estou como o O´Neill. Venha o poema dele:


Portugal


Ó Portugal, se fosses só três sílabas,
linda vista para o mar,
Minho verde, Algarve de cal,
jerico rapando o espinhaço da terra,
surdo e miudinho,
moinho a braços com um vento
testarudo, mas embolado e, afinal, amigo,
se fosses só o sal, o sol, o sul,
o ladino pardal,
o manso boi coloquial,

a rechinante sardinha,
a desancada varina,
o plumitivo ladrilhado de lindos adjectivos,
a muda queixa amendoada
duns olhos pestanítidos,
se fosses só a cegarrega do estio, dos estilos,
o ferrugento cão asmático das praias,
o grilo engaiolado, a grila no lábio,
o calendário na parede, o emblema na lapela,
ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!

*

Doceiras de Amarante, barristas de Barcelos,
rendeiras de Viana, toureiros da Golegã,
não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço,
galo que cante a cores na minha prateleira,
alvura arrendada para o meu devaneio,
bandarilha que possa enfeitar-me o cachaço.
Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo,
golpe até ao osso, fome sem entretém,
perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes,
rocim engraxado,
feira cabisbaixa,
meu remorso,
meu remorso de todos nós...

Alexandre O'Neill, in 'Feira Cabisbaixa'

sábado, janeiro 30, 2021

Quantas pessoas foram vacinadas contra o COVID-19 em Portugal, neste dia?

Todos os dias se afadigam em transmitir-nos o número de óbitos e de infectados. Todos os dias os pivots dos telejornais parecem comprazer-se no sensacionalismo dos números catastróficos, pois juntam à fria notícia dos números a sua cuidada, ajardinada, trágica narrativa. Muito bem cuidada ela é, para consumo dos demais, acompanhada com o devido moralismo benfazejo: tenham medo, muito medo, não vão à praia.

 

O que dizer mais?

 

Não há ninguém que pense fora da caixa neste país?!

 

Quantas pessoas foram vacinadas contra o COVID-19 em Portugal, neste dia?

 

Falta esse dado estatístico ao lado do número de óbitos e de infectados. E não é só em Portugal que ele falta.

 

Ousem! Sejam originais!

Quantas pessoas foram vacinadas contra o COVID-19 em Portugal, neste dia?

 

Se há luz ao fundo do túnel, porque não lembrá-lo todos os dias? É aí que reside a esperança.

Ou acredita-se que por este andar a imunidade de grupo chegará primeiro?

 

Quantas pessoas foram vacinadas contra o COVID-19 em Portugal, neste dia?

 

Gostaríamos que Direcção-Geral de Saúde, nos seus relatórios diários de situação, divulgassem também esse número. 

terça-feira, janeiro 26, 2021

Terreiro do Paço em manhã de pandemia e confinamento. Meditações.

 

Terreiro do Paço em manhã de pandemia e - essa palavra fascista (Bernard-Henri Lévy) - confinamento.

Que não se pense que fui passear para o Terreiro, em dia de confinamento. Há sempre razões que o coração desconhece. E o coração tem razões que a própria razão desconhece (Blaise Pascal). E há razões que a razão desconhece.

Fiquem-se com o desconhecimento das razões da minha presença ali, se é que ali estive presente.

Talvez tenha passado por ali ausente. Só El-Rei Dom José I é que sabe, e quem sabe, talvez o cavalo.

sábado, janeiro 23, 2021

O silêncio e a paz

 

Deixemos a amargura, o ressentimento.

Libertemo-nos do tormento.

Que pare o sofrimento.

 

As razões que acalento?!


O silêncio e a paz.

Tenham vergonha!

Não se entende como há pessoas que, em caso de dúvida, e tratando-se de vidas humanas, ainda assim defendam avançar em vez de esperar, como manda a precaução.

 

Certos liberalóides que nem sabem o que uma escola é, opinaram com toda a ligeireza, que deveriam permanecer abertas, na dúvida em relação ao mal que tal decisão pudesse causar a quem nela trabalha, estuda, aos seus familiares e à sociedade inteira. Como se na escola não laborasse um dos grupos profissionais mais envelhecidos de todos, constituído por muitos e velhos professores, para não falar dos excelentes auxiliares de acção educativa, afadigados a toda a hora, a limpar tampos de mesas, cadeiras, teclados de computadores, baldes do lixo e retretes e a lembrar aos alunos que cubram o rosto com a máscara, ou a desinfectar-lhes as mãos à entrada da escola. Como se os novos professores vivessem como monges, em missão e em mosteiros, isolados das suas famílias e dos seus velhos. Como se as escolas fossem só constituídas por grupos de alunos e crianças. E como se esses alunos estivessem sempre sentados a dois metros uns dos outros. Não, não estão. Estão de ombro com ombro, lado a lado, na mesma carteira, que a lei permite, muitas vezes numa sala abarracada e apinhada, numa escola não intervencionada, e não no colégio de elite frequentado pelos filhos deles, que forma elites e não ralés.

 

Liberalóides que se baseiam nas “sérias dúvidas sobre a vantagem de tal decisão”, dizem eles, para sustentarem a defesa de uma escola aberta, que assim é que o mundo avança. Nem que seja para o abismo, dizemos nós, ou em direcção à doença.

 

 Vantagem!?

 

A dúvida aqui era se a decisão de manter as escolas abertas poderia levar ou não, facilmente, à contaminação e morte de mais alguns. O resto são balelas.

 

Uma dúvida destas não é para brincadeiras. O que manda o princípio da precaução? Se há dúvidas relativas ao passo que se vai dar quanto aos elevados danos que o mesmo possa causar, então mais vale estacar e aguardar.

 

Houve quem sugerisse atempadamente que se prolongasse a interrupção das actividades lectivas do Natal por mais uma ou duas semanas. Não lhe deram ouvidos. Havia que causar uma boa impressão, afinal éramos nós os que iriamos presidir, vaidosamente, ao Conselho da União Europeia. Inchados e impantes anfitriões. Havia que dar uma boa imagem aos dignatários estrangeiros que nos viriam visitar na inauguração – um país de sucesso. Alguns saíram de cá contaminados e apoquentados. Lá foram para o isolamento profiláctico nos seus países natais, acabrunhados.

 

A casa dos vizinhos (Reino Unido, França, Alemanha, Espanha entre outros) já ardia e nós nem mangueira nem extintor. Não nos preparámos atempadamente.

 

Estirpes inglesa, da África do Sul, do Brasil, anunciadas aos quatro ventos e nós aguardando que por cá chegasse a inglesa para tomarmos uma decisão. Que idiotas! Afinal a culpa é do Natal. Pois. Os portugueses portaram-se mal, dizem eles. Fracos os governantes que culpam os governados. Correm agora para as vacinas, os políticos.

 

Esta é a realidade: os decisores não foram prescientes, nem previdentes e o princípio da precaução veio tarde – o passo já tinha sido por eles dado. Agora deram o passo atrás, alegando exactamente, o princípio da precaução. Já fecharam os corredores aéreos com o Reino Unido? Parece que é hoje. O Reino Unido já fechou os corredores aéreos para Portugal há algum tempo. Prescientes. O nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros reclamou outra vez, como sempre, da pronta decisão inglesa. Fechámos os corredores aéreos para o Brasil? Fechámos????

Esta é a realidade: não foram proactivos. Foram sempre, sempre, reactivos. Reagiram sempre, sempre por arrasto. E desde Março que é assim.

Culpam agora portugueses, que se portaram mal. Que foram passear para a praia nos gélidos dias de Janeiro. Não gozem connosco.

E eis-nos agora aqui, no topo do mundo – “o país do mundo com mais mortes por milhão de habitantes (e continua o 1.º em novos casos)” anuncia o Expresso, a 22 de Janeiro. Aqui.

 

Tenham vergonha!

domingo, janeiro 17, 2021

Porque não se escreve mais por aqui? Um lamento.

Os trabalhos têm superado os dias. E não há dias para tantos trabalhos. Fardos pesados para carregar. Pouca liberdade sobra face a tantos constrangimentos. Viver é sofrer, já sabíamos. Viver é morrer.


Que soe o coro dos escravos hebreus. Esse do Verdi.

 

Há falta de tempo por aqui. Tempo livre. Demasiada preocupação. Demasiados “tenho de fazer isto e isto e isto e aquilo”, “tenho de fazer…” Não sobra tempo para escrever com a cabeça livre e leve.

 

É assim que nos calam.

 

Todos sabemos que o trabalho não liberta. Ou liberta? Claro que não liberta. Se for em excesso mata. Morrer a trabalhar é absurdo. Viver para trabalhar é absurdo. Já trabalhar para viver é uma necessidade do homem comum e de todo o bicho que vive sobre a Terra (não do esclavagista nem do burguês). Ou acreditam nessa dos pássaros: “Olhai os pássaros do céu: não semeiam, não colhem, nem guardam em celeiros.” Semeiam de outra forma, colhem de outra forma, guardam de outra forma – têm de alimentar-se, têm de caçar minhocas e insectos, têm de alimentar as crias, de zelar por elas, de as guardar, de as criar.

 

Enfim, há burgueses que trabalham o quanto baste e ainda lhes sobra tempo livre para escrevinharem. Há burgueses da escrita. Jornalistas que querem monopolizar esse privilégio de dar ideias ao mundo (por isso passam o dia a carpir das redes sociais - os Uber desses taxistas da escrita). E há escravos do trabalho, a quem é vedado por formas enviesadas a liberdade da escrita. Uma espécie de biopolítica. Coisas do poder, coisas de quem pode para oprimir quem não pode.

 

Já percebemos por que nos carregam de trabalho. É assim que nos calam. É assim que nos calcam. É assim que nos escravizam. Enfim, não durará muito.

 

Virá o dia da carta de alforria.

 

Então veremos.

terça-feira, janeiro 12, 2021

Today

 



A praia. Sempre a praia.


Fonte da Telha.

quinta-feira, dezembro 31, 2020

Tocar a reunir

 

Conto com todos os poetas e profetas anacoretas,

Atletas das palavras,

Lançadores de discos, riscos e asteriscos.

Retiram das aljavas flechas de palavras

E montam cercos às cidades.

E com as suas catapultas as suas palavras arremessadas e catapultadas,

Derrubam muralhas.

 

Conto com todos os poetas e profetas anacoretas,

Atletas das palavras,

Para erguer este muro

Incontornável, insondável muralha,

Com todas as palavras do mundo.

 

É profundo o mundo.

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