sábado, julho 29, 2023

Uma religião pop, uma religião kitsch, um Papa pop e cardeais muito pops

 

De facto, é impossível fugir ao kitsch, procurando refúgio na religião, quando a própria religião é kitsch. A «modernização» da Missa católica e do Livro de Oração anglicano foi, na verdade, um processo de kitschificação; e as intenções da arte litúrgica estão, hoje em dia, contaminadas pela mesma efemeridade. As cerimónias litúrgicas comuns das igrejas constituem um testemunho confrangedor de que a religião está a perder a sua orientação puramente divina, e a converter-se ao mundo da produção em massa.

Roger Scruton (1998)

A Cultura Moderna, Edições 70, 2021 pág. 125 (destaques nossos)

***

 

Hoje temos uma religião pop, missas pop, Papa pop, bispos pop, cardeais pop, os portugueses, burgueses até ao tutano, tolentinos & aguiares. A aparição do Papa, em qualquer lugar, é celebrada como uma efemeridade, um grande evento de marketing religioso. Esta é a Era do Mercado, que tomou conta de tudo.  


terça-feira, julho 11, 2023

O país dos bufos


A Inquisição oficializada principalmente a partir da Contra-Reforma prolonga-se até ao século XIX em Portugal. O Pombalismo terá também essa faceta inquisitorial bem patente na sua polícia específica, assim como as décadas de vigilância fascista no século XX, ou, embora com aspectos bem distintos, o Estado democrático exerce também o controlo quase absoluto da sociedade nos últimos 50 anos.

A Inquisição transformou-se num modelo mental e estruturou de modo profundo o nosso plano de comportamentos, as dimensões morais e até judiciais.

João Maurício Brás, O Atraso Português, Guerra e Paz, pág. 140

 

Cumpre-se por obediência e medo, na maior parte das vezes irracional, não por respeito ou por se considerar que seguir determinado caminho é o mais correcto e eficaz. Mexericos e bisbilhotices, a má-língua no trabalho e na vizinhança, a pequena calúnia, são vestígios de uma cultura de resquícios inquisitoriais.

João Maurício Brás, O Atraso Português, Guerra e Paz, pág. 129

 

Continuamos a construir os nossos panópticos sociais sob a égide da governação do Partido Socialista.

Temos agora um Portal da Delação, digo, Portal da Denúncia (procedimento muito socialista e até nacional-socialista ou estalinista).


Maravilhoso mundo novo. Aos poucos a liberdade e a privacidade vão perdendo território para o controlo social. Que ideia maravilhosa essa a de os cidadãos controlarem os cidadãos.

Suspeito que alguns de nós têm no seu DNA um gene mais desenvolvido: o gene inquisitorial. Em Portugal a Santa Inquisição durou até ao século XIX. Um período tão prolongado de controlo das ideias não poderia deixar de marcar a genética social e a de muitos portugueses.

Com o Portal da Denúncia, far-se-á da pequena calúnia grande. Como a imagem sugere, o pequeno caluniador tem agora um altifalante para se fazer ouvir.  Para nosso bem e com cobertura governamental.

domingo, julho 09, 2023

Tordesilhas

 


Daqui.

A soberba desta gente. Nem se dão conta. Na sua cabeça o mundo pode perfeitamente ser dividido em dois, qual novo Tordesilhas. “O mundo é suficientemente grande para os EUA e a China”. É traçar um meridiano para que não se atropelem na sua hegemonia sobre os demais. Que grandes que eles são.

domingo, maio 28, 2023

sábado, abril 29, 2023

Balada para os poetas andaluzes de hoje

 «Me marché con el puño cerrado… Vuelvo con la mano abierta.»

RA


«Balada para los poetas Andaluces de hoy»


¿Qué cantan los poetas andaluces de ahora?

¿Qué miran los poetas andaluces de ahora?

¿Qué sienten los poetas andaluces de ahora?

Cantan con voz de hombre, ¿pero dónde los hombres?

Con ojos de hombre miran, ¿pero dónde los hombres?

Con pecho de hombre sienten, ¿pero dónde los hombres?

Cantan, y cuando cantan parece que están solos.

Miran, y cuando miran parece que están solos.

Sienten, y cuando sienten parece que están solos.


¿Es que ya Andalucía se ha quedado sin nadie?

¿Es que acaso en los montes andaluces no hay nadie?

¿Que en los mares y campos andaluces no hay nadie?

¿No habrá ya quien responda a la voz del poeta?

¿Quien mire al corazón sin muros del poeta?

¿Tantas cosas han muerto que no hay más que el poeta?


Cantad alto. Oiréis que oyen otros oídos.

Mirad alto. Veréis que miran otros ojos.

Latid alto. Sabréis que palpita otra sangre.

No es más hondo el poeta en su oscuro subsuelo

encerrado. Su canto asciende a más profundo

cuando, abierto en el aire, ya es de todos los hombres.


Rafael Alberti.


De: «Ora marítima» –  1953


***


Balada para os poetas andaluzes de hoje

 

Que cantam os poetas andaluzes da agora?

Que olham os poetas andaluzes da agora?

Que sentem os poetas andaluzes da agora?

 

Cantam com voz de homem, - mas onde estão os homens?

Com olhos de homem olham, - mas onde estão os homens?

Com peito de homem sentem, - mas onde estão os homens?

 

Cantam e quando cantam parece que estão sós.

Olham e quando olham parece que estão sós.

Sentem e quando sentem parece que estão sós.

 

Será que a Andaluzia está já sem ninguém?

Nos montes andaluzes não haverá ninguém?

Nos mares e campos andaluzes não haverá ninguém?

 

Não haverá já quem responda à voz do poeta?

Quem olhe o coração sem muros do poeta?

Tantas coisas morreram que não há mais que o poeta?

 

Catai alto. Ouvireis que ouvem mais ouvidos.

Olhais alto. Vereis que olham outros olhos.

Pulsai alto. Sabereis que palpita um outro sangue.

 

Não é mais fundo o poeta em seu subsolo escuro

encerrado. Seu canto ascende mais profundo

quando, aberto, no ar, é de todos os homens.

 

Rafael Alberti (trad. por José Bento)

Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea, Assírio e Alvim, 1985


***

Nunca

Ken Follet, Nunca, Editorial Presença, 2021

ᴪ ᴪ ᴪ ᴪ ᴪ


O fim é certo como o destino.

(E nada mais me apraz dizer. Apenas que é uma boa leitura e que entretém)

sexta-feira, abril 28, 2023

O Douro


      Porto, Dezembro de 2022                © AMCD

***

        O Douro

 

        Não é a tristeza que encontro

        Quando caminho pela margem

        Do Douro, no Porto.


        O seu vinho, as suas gentes e os verdes olhos das minhotas,

        Aquecem-me o coração.


        Nem o céu plúmbeo

        Me pesa.


        Ali consigo esquecer a dor.

        Como um ópio que me invade o corpo,

        Uma aguardente.

        Esqueço tudo,

        Até a solidão.

quinta-feira, abril 27, 2023

Píncaro adiado

 

      Serra da Estrela, Abril de 2023                                                          © AMCD


No píncaro do território de Portugal Continental jazem duas torres degradadas e uma promessa recente: “Investimento de €30 milhões cria um observatório, residências científicas, áreas comerciais e um teleférico para ligar três aldeias do maciço central”. Assim reza o subtítulo da notícia do semanário Expresso. Reparai no tempo do verbo criar. Deveria ler-se “criará” ou “irá criar”. Não! A coisa já está feita!

Eis o expoente máximo de um país, num dos seus lugares mais simbólicos: degradação e promessas. 

Amanhã é que é.

quarta-feira, abril 26, 2023

Medvedev‎ no epicentro

  

O futebol é a zombaria da guerra, campal ou política.

(Ortega y Gasset)

 

Medvedev‎ arenga no hangar:

5 000º Kelvin, calor nuclear,

350 m/s, a deslocação do ar

(e tudo o vento levou, no epicentro nuclear)


Radiação penetrante, radiação ionizante

Impulso electromagnético, explosão nuclear.

Arenga o Medvedev, que nos quer intimidar.

 

Tenham medo, muito medo.

Ui, ui, que medo, Medvedev.

(Faz isso não)

 

(Enquanto isso, a Europa vira o cu a Medvedev

E abanca no estádio, que é dia de futebol.)

 

Vá falando Medvedev, vá falando.

Arengando, não faz mal.

Cova da Beira ao alvorecer

 

          Alvorada em Abril, na Cova da Beira                 AMCD ©

            

          Quando tiver de zarpar, fá-lo-ei pela alvorada. Rumarei a Oriente, pela terra imaculada.                          

terça-feira, abril 25, 2023

“Investir no nosso planeta”

 


Lido no Público de 21 de Abril:

 

«Num artigo publicado em Fevereiro, investigadores chilenos mostram que os seres humanos e os animais domésticos e pecuários superam em muito os animais selvagens, que representam 6% da biomassa de mamíferos da Terra.»

 

Maria Amélia Martins-Loução, “Investir no nosso planeta”, Público 21/04/2023, pág. 27


***

Tem-se investido no planeta, que consideramos nosso, contudo nem o planeta é nosso (quem somos nós para nos apropriarmos dele? E, no entanto, é isso que fazemos, vezes sem conta, sem nos apercebermos que nós é que somos do planeta), nem se tem investido pelo planeta. Mas muito se investe no planeta: em ranchos e unidades industriais, unidades agro-pecuárias, criação de cães e gatos, vacas e porcos, construção de minas e unidades de extracção de combustíveis fósseis. Eucaliptais, palmeirais, extensos campos de soja, modernas frotas de pesca. O planeta está cheio de investidores, gestores, empreendedores, visionários do potencial ganho a retirar do “capital natural” e ecossistémico, neoliberais e “homens do futuro”, para parafrasear Sloterdijk, aqui.

 

As palavras “investir”, “gerir” remetem para o léxico científico económico e empresarial. O “património natural”, como bem diz a professora, é delapidado, porque os investidores acima referidos não o veem como tal. Para eles, o “património natural” é “capital natural”. Um filão a explorar.

 

Talvez precisemos de uma revolução no pensamento: deixar de considerar nosso o planeta – a vida que nele habita, entre a qual nos contamos, e a que estamos a destruir, pertence ao planeta. Talvez não se trate de gerir o planeta, mas de zelar por ele, impor vastos espaços onde os cobiçosos gestores não ponham a pata (perdoem-me a expressão plebeia). Dirão que a determinação desses espaços, livres da acção e do olhar cobiçoso do capitalista, também passa por uma gestão do espaço. Sim, mas talvez seja necessário algo mais do que uma simples gestão.

25 de Abril em 2023


Como uma vela que se acende num templo antigo, num ritual eternamente repetido, celebramos a memória da Liberdade. A Liberdade. Celebramos o dia em que a Liberdade saiu à rua.

Hoje discursam amigos e inimigos da Liberdade. Ouço-os na assembleia. A Liberdade e a Democracia assim o permitem.

segunda-feira, abril 24, 2023

Para quem não sabe o que o neoliberalismo é

 


Detalhe da capa do semanário Expresso, 14 de Abril de 2023 

(excepto o balão amarelo e o rectângulo vermelho, que são destaques nossos )

***

E é escusado argumentar com esta gente. Para eles o neoliberalismo é um credo, e, portanto, são surdos a qualquer contra-argumento racional ou científico.

Como uma erva daninha, o credo neoliberal defendido pelos lacaios das elites dominantes em jornais mui burgueses e liberais como o Expresso - burguesitos à espera das migalhas caídas da mesa do patrão e de um afago na sua fiel e canina cabeça – teima em medrar, ainda que denunciado vezes sem conta na sua injustiça.

Diga-se de passagem, que não são todos os que lá escrevem, mas nós sabemos quem são esses “alegres papagaios” e eles também sabem quem são. Os de servil escrita.


sábado, abril 22, 2023

O crepúsculo das estâncias invernais

 

           Serra da Estrela, Abril de 2023                                                          © AMCD    

O Inverno retira-se uma vez mais, até um dia deixar de regressar. Tanto aqui como nas estâncias alpinas e noutras montanhas das latitudes médias, assistimos ao crepúsculo das estâncias invernais. A paisagem sempre mudou inevitavelmente, e agora, aceleradamente. Os helvéticos já se debatem com o retrocesso dos glaciares. Preciosos glaciares. Recursos turísticos perdidos para todo o sempre. E nós, nesta serra, que não se alça aos 2 000 metros de altitude, ansiamos pela neve, mas a neve já não vem.

sexta-feira, abril 21, 2023

O urso da serra

     Serra da Estrela, Abril de 2023                                                          © AMCD           

Lá em cima, na serra, há um urso contemplativo e melancólico, principalmente se for observado a partir de um certo ângulo. Mas atenção à aproximação, não vá o animal espantar-se e sair por ali a correr espavorido, acabando por rebolar pelas encostas.

sábado, fevereiro 25, 2023

Roma

 

Ferdinand Addis, Roma, História da Cidade Eterna, Crítica, 2022.

⭐⭐⭐⭐

Eis-nos lançados nas ruas de uma cidade antiga. Tão antiga que se diz eterna. Ali nos cruzamos com personagens de todas as eras. Assistimos às assembleias entre a plebe, frente ao templo de Júpiter, no topo do monte Capitolino. Vimos passar César na sua biga triunfal e o escravo que, atrás dele, de vez em quando se lhe assoma ao ouvido para lhe murmurar que é apenas um homem, à passagem entre a multidão que o aclama como se fosse um deus.

 

Ali nos cruzámos com Marco Aurélio, Séneca, Ovídio e Nero e muitos mais. Mas não ficámos apenas naquele tempo romano. Acabamos por atravessar os tempos, naquela cidade. Chegámos a combater entre os camaradas de Garibaldi. Também ali deparámos com Mussolini, já no século XX, uma besta sexual com o QI de um sapo. Ele e a sua última amante, executados e dependurados. E Fellini e a sua Dolce Vita.

 

A história de Roma é também a história da civilização Ocidental. Está embrenhada nela. Vindos da recém-descoberta América, os marinheiros de Colombo inauguram a propagação da sífilis pela cidade das prostitutas. Isto para dizer que também as longínquas descobertas ecoaram nas ruas e nas vidas dos cidadãos de Roma.

 

Muito haveria para contar dos ilustres personagens que desfilaram na história da cidade.

 

Ferdinand Addis consegue colocar-nos lá, no espaço e no tempo. Viajamos por Roma desde a sua origem até ao século XX e com os romanos. Somos espectadores, somos participantes.

 

Um livro excelente, repleto de acção e movimento, dinâmico, que se lê como um romance.

 

*****

Uma passagem:

«Enquanto os godos recuavam, as balistas nas muralhas entraram em acção. Estas eram uma espécie de bestas gigantescas: máquinas de arremesso de flechas com dois braços equipados com molas de torsão, capazes de disparar virotes curtos e grossos a distâncias além do que a vista alcançava. Estas máquinas aterrorizavam os godos. Na Porta Salária, por onde a velha estrada do sal saía da cidade, um nobre godo que se afastou demasiado das suas linhas foi atingido por um virote disparado por uma equipa de balista com a pontaria afinada. O virote trespassou-lhe a couraça e pregou-o a uma árvore, deixando-o a baloiçar-se e a contorcer-se, enquanto os godos mais próximos, demasiado assustados para o ajudarem, tropeçaram uns nos outros com a pressa de ficarem fora do alcance.»

 

Ferdinand Addis, Roma, História da Cidade Eterna, Crítica, 2022, pp. 244-245

terça-feira, fevereiro 21, 2023

Os dias do fim

Canção

O último pássaro

canta nos álamos.

A luz fatigada

 tropeça nos ramos.

A terra é apenas

 memória de lábios.

Ah, canta, canta,

rouxinol da água.

 

                                   Eugénio de Andrade (1961)

 

***

Um dos poemas para estes dias é a canção do último pássaro. É difícil discernir o espírito do tempo em que vivemos quando vivemos neste tempo. O que virá? O precipício sobre o mar rumorejante ou a luz dos prados verdejantes? Já cantarão os últimos pássaros neste planeta fatigado, de solo ressequido? Um último rouxinol canta antes da longa noite escura? 


O que virá?

 

O silêncio.

 

A Terra nem memória será.

 

Epílogo

 

Devastámos a Terra, conspurcámos o mar, poluímos o céu. Nem as profundezas e os abismos escaparam ao fluxo e refluxo das nossas cloacas. Nem as mais altas montanhas.

 

A Terra devastada. O mar conspurcado. O céu poluído. A vida à beira da extinção.

 

Depois do canto do último pássaro, sabemos que advirá o silêncio. Daremos entrada no reino sombrio das criaturas da noite, enquanto remanescerem criaturas. Uma longa noite, repleta de horrores. Os últimos seres, almas, espíritos e medos. Mutantes sem memória. E por fim, nem a memória restará.


Soprará o vento nas ruínas das cidades.

sexta-feira, dezembro 30, 2022

Adeus, Pelé

Pelé (1940-2022)


Partiu o melhor jogador de futebol de todos os tempos e um ser humano formidável.

Campeão do mundo três vezes, a primeira das quais aos 17 anos. É obra!


Numa série televisiva sobre futebol apresentada por ele, ensinou, num dos episódios, que o guarda-redes é o pilar de toda a equipa: se o pilar treme, toda a equipa treme, disse.


Esteve glorioso na Fuga para a Vitória. 


Até sempre, Rei Pelé.

terça-feira, dezembro 27, 2022

Nietchevo?!

 

Hubert Reeves em Moscovo, 1964:

 

Dia livre em Moscovo. A minha partida para Erevan (pronunciar «Iérévanne») é no dia seguinte. A multidão moscovita fascina-me. Erro muito tempo no meio dessas pessoas todas. A variedade de indumentárias e de rostos lembra-me a imensidão do território da URSS, que vai da Ucrânia ao Kamchatka, do mar de Barents ao Cáspio.

Estamos em Março. Neva com abundância, caem flocos espessos na cidade. Os passeios largos da avenida estão repletos de gente. Sigo a multidão molhada, que progride cada vez mais devagar. Durante longos minutos permanecemos parados. Estou preso num engarrafamento de peões! O que se passa?

Tento imaginar o que bloqueia a este ponto o nosso avanço. Em seguida tudo se explica: vejo subitamente três matronas que varrem vigorosamente a neve suja e molhada do passeio para a sargeta, sem a mínima consideração pelos transeuntes. Tentando não ser salpicados, eles esperam o momento propício para atravessar a correr o sítio perigoso, formando assim um engarrafamento de peões!

O que mais me desorienta é a total ausência de protestos. Em Paris ou Montréal ter-se-ia chegado a um motim. A resignação é muda. Compreendo então o sentido profundo da palavra Nietchevo tantas vezes associada à população russa: «Não faz mal».

Hubert Reeves (1)

 


 
Hubert Reeves, Já Não Terei Tempo – Memórias, Gradiva, 2010

TTTT

O povo russo ainda não realizou o seu 25 de Abril. Tal como o nosso, é um povo resignado. Falta-lhe o ímpeto. Talvez lhe falte, como nos faltava, o impulso militar de alguns capitães e o apoio de alguns generais.

 

O que mais me desorienta é a total ausência de liberdade.

 

Não há outra forma de derrubar o regime totalitário e extorsionário que os priva da paz, em todas as acepções da palavra: apenas a revolução.

_______________________________

(1) Hubert Reeves, Já Não Terei Tempo – Memórias, Gradiva, 2010, pág. 191.

António Mega Ferreira

Um homem culto, sem dúvida, cosmopolita e burguês, com tempo para viajar, escrever e contemplar, depois de ter assumido altas responsabilidades e de ter cumprido com as exigências.

Da sua obra li Mais que mil imagens, Sextante Editora, 2020. Uma visita guiada à arte que Mega Ferreira apreciava. Foi uma aprendizagem. 

Partiu ontem.

****


António Mega Ferreira, Mais Que Mil Imagens, Sextante Editora, 2020

segunda-feira, dezembro 19, 2022

Argentina, Campeã Mundial de Futebol, 2022

 


Uma final espectacular. Pela terceira vez vence a Argentina.

Vi pela TV todas as finais que a Argentina venceu. A dos confetes e dos guedelhudos, em 1978, o primeiro Mundial de que tenho memória;  a de 1986, com o genial Maradona e a "mão de Deus" e agora a do Messi e do Di María, este último um verdadeiro "carregador de piano" que muito deu à Argentina, começado pelo Campeonato Olímpico que venceu quando era jovem. Infelizmente foi sub-aproveitado no Benfica, pelo Quique Flores. Para o Messi, foi a cereja no topo da carreira.

Parabéns Argentina. 

sexta-feira, dezembro 16, 2022

Dias do solstício de Inverno

Nestes dias

Em que as sombras se alongam,

Chove sempre a melancolia.

Uma chuva miudinha.


Ismael busca o navio no porto.

Na urgência de partir.


Regressará na Primavera,

Quando os dias explodirem.

Então far-se-á luz.

Então far-se-á cor.

domingo, dezembro 11, 2022

Cristiano é grande

 

You'll never walk alone

Força!

As alegrias que o Cristiano nos deu superam todas as tristezas.
(Ora carreguem aí na etiqueta "Cristiano Ronaldo" e vejam)

terça-feira, dezembro 06, 2022

domingo, novembro 20, 2022

quarta-feira, novembro 16, 2022

Livros lidos: Uma Breve História da Terra


 Andrew Knoll, Uma Breve História da Terra, Desassossego, 2021

⭐⭐⭐⭐

Um bom livro. Uma excelente síntese. Quatro mil milhões de anos em oito capítulos. 

Mas lido com desconfiança a partir do momento em que chocamos, na página 43, com um erro grosseiro. Lá se diz: "O monte Evereste, com fósseis marinhos a mais de oito mil quilómetros acima do mar; ..." Sus! Oito mil quilómetros é para lá da termosfera. É já no espaço cósmico. Confundiram quilómetros com metros. Passou à revisora ou à tradutora. Nem o Monte Olimpo, o maior vulcão do sistema solar, em Marte, chega a tanto. 

Esperemos que o erro seja corrigido nas próximas edições. O livro merece.

***

«No Ocidente desenvolvido, podemos diminuir a nossa pegada ambiental fazendo escolhas sensatas relativamente a alimentação, habitação e transporte, e podemos apoiar alternativas sustentáveis para aqueles que noutras partes do mundo aspiram a melhores condições de vida.»

Andrew Knoll, op. cit., pág. 187

terça-feira, novembro 15, 2022

Noam Chomsky, sobre a guerra na Ucrânia e o estado do mundo

Consegue ver com mais clareza e lucidez, aos 93 anos, do que muitos comentadores da nossa praça.

terça-feira, novembro 08, 2022

Tendências longas e eternos retornos

 

Os povos que habitam os países frios, especialmente os da Europa, são pessoas de coração, mas têm pouca inteligência e poucos talentos. Mantêm-se melhor em liberdade, pouco civilizados, de resto, e incapazes de governar os seus vizinhos.

Os Asiáticos são mais inteligentes e mais dados às artes, mas nada corajosos, por isso mesmo quase todos sujeitos e sempre sob o poder de algum senhor.

Aristóteles 

Tratado da Política, 2ª ed., Edições Europa-América, 2000, pág. 109-110.

 

Hoje, sorrimos ao lermos estas considerações de Aristóteles, mas há tendências longas, que parecem impossíveis de contrariar no espaço de um só século, e por muita agitação que ocorra, no fim, os povos retornam sempre à linha que percorrem desde tempos imemoriais. Muitos são os povos da Ásia que voltaram a acoitar-se à sombra do “poder de algum senhor”, sujeitando-se a um imperador, déspota ou ditador. São povos incapazes de tomar o destino nas suas próprias mãos e de se revoltar. Em vez disso, fogem se a situação política se tornar adversa. Tivemos, pois, debandadas em vez de revoltas, na Rússia, quando o imperador Putin, o mafioso, decidiu mobilizar os seus concidadãos para uma guerra numa terra estranha. Em relação a muitos povos da Ásia, passados todos estes anos de experiências políticas ao longo do século XX, o que vemos? O regresso do imperador Xi, do imperador Putin, do imperador Kim, do sultão Erdogan, já não falando dos déspotas e reis que ainda ocupam o poder nos países do Médio Oriente e do Golfo Pérsico, em conformidade com uma linha que remonta à origem dos tempos.

 

No Ocidente as coisas não se passaram assim.

segunda-feira, outubro 24, 2022

Partidas

 

Adriano Moreira (1922-2022)


Sem dúvida, é um dos nossos melhores que parte. Um venerando sábio.

segunda-feira, setembro 05, 2022

A imagem dos deuses e o “princípio antrópico”

 «Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses todas as coisas que são vergonha e desgraça entre os mortais: roubos, adultérios, enganar o próximo…Os mortais acreditam que os deuses são formados à sua imagem e semelhança e usam roupas como as deles, e voz, e forma…sim, e se os bois, os cavalos ou os leões tivessem mãos, e pudessem pintar com elas, e produzir obras de arte como os homens, os cavalos pintavam deuses com forma de cavalos, e os bois de bois e faziam-lhes os corpos segundo os da própria espécie…Os etíopes representam os seus deuses pretos e de nariz achatado; os trácios dizem que  os deuses têm olhos azuis e cabelo ruivo.»

 

Xenofonte

 

citado por Bertrand Russel, Pensamento e Comunicação, Correspondência (1950-1968), Brasília Editora, 1971, p. 181.

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Terá sido o universo a criação de um deus que o programou para que evoluísse de forma a que, a dada altura, estivessem reunidas as condições para o surgimento do Homem? (o que designam por “princípio antrópico”) Não creio.  Já uma evolução do universo programado para o surgimento de vida inteligente, ou seja, com capacidade de se questionar sobre a sua própria origem, existência e de um criador, é uma hipótese a considerar.

 

O “princípio antrópico” é uma vaidade, como atesta Xenofonte.

quarta-feira, agosto 31, 2022

Gorbachev

 

Mikhail Gorbachev (1931 – 2022)


Por alguns anos o céu aligeirou-se da ameaça de uma chuva nuclear, tudo graças a Gorbachev, homem imune ao apelo da “grandeza” – a grandeza da América, a grandeza da Rússia, a grandeza da França, a grandeza do Reino Unido, a grandeza disto e a grandeza daquilo, com que certos políticos enchem a boca para justificar determinadas opções de domínio do espaço, iludidos na vanglória de mandar. Mereceu o Prémio Nobel da Paz.

Mas o alívio que trouxe aos céus durou pouco mais de uma década. Putin encarregou-se de fazer regressar o terror nuclear, justificando-se com as linhas vermelhas que a O.T.A.N. ultrapassou na sua aproximação às fronteiras da Rússia.

Partiu Gorbachev, fica o equilíbrio do terror, agora mais periclitante.

domingo, agosto 28, 2022

Verde

 


       Praia Verde                                                                                   AMCD ©


quinta-feira, agosto 25, 2022

Assombro

 

Richard Powers, Assombro, Editorial Presença, 2022


Leitura interrompida e abandonada na página 174.

Foz do Lizandro

 


    AMCD ©


Lizandro, lizardo, lagarto. Cá pra mim é Foz do Lizardo.

quarta-feira, agosto 24, 2022

Rocha

 

    AMCD ©

terça-feira, agosto 23, 2022

O que aí vem não é nada bom

 

O terceiro rio mais extenso do planeta, o mais extenso da Ásia, convertido num ribeiro seco. O que está a acontecer não é um fenómeno local ou regional, frequente nas regiões desérticas ou mediterrânicas, no Verão. É um fenómeno planetário. É preocupante. Mas estaremos verdadeiramente tão preocupados como deveríamos estar? 

segunda-feira, agosto 22, 2022

Beliche


Barragem do Beliche, Algarve Oriental

AMCD ©

Livros lidos: 2666

 


Roberto Bolaño, 2666, Quetzal, 2009


⭐⭐⭐⭐

Cinco estrelas. 1025 páginas em 20 dias. Não aconselhável a menores de 18 anos nem a pessoas hipersensíveis ou com os nervos em franja. Bolinha vermelha no canto superior direito. Demasiado gráfico e, por vezes, pornográfico, por vezes com uso recorrente do baixo calão. O horror dos desaparecimentos, das moscas e dos cadáveres violados. Onírico, misterioso, diabólico. Prende o leitor. A ler com muita cautela, ou a não ler.

 

Ali se encontram Poe, no suspense em que nos coloca, McCarthy no ambiente hostil do Meridiano de Sangue, Eco e o ambiente misterioso do Nome da Rosa nos diabólicos episódios do Penitente, profanador de igrejas, e David Lynch, que Bolaño refere, e muitos muitos outros que escapam ao nosso alcance, ou não, e que seriam demasiados para aqui enumerar.

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Três dias depois da profanação da Igreja de Santa Catalina, o Penitente introduziu-se a altas horas da noite na Igreja de Nuestro Señor Jesuscristo, no bairro da Reforma, a igreja mais antiga da cidade, construída em meados do século XVIII, e que durante algum tempo serviu de sede episcopal de Santa Teresa. No edifício adjacente, situado na esquina das ruas Soler e Ortiz Rubio, dormiam três padres e dois jovens seminaristas índios da etnia papago que frequentavam os estudos de Antropologia e História na Universidade de Santa Teresa. (…) De repente, um barulho de vidros partidos acordou-o. Primeiro pensou, coisa estranha, que estava a chover, mas logo se apercebeu de que o barulho provinha da igreja e não de fora, levantou-se e foi investigar. Quando chegou à reitoria ouviu gemidos e pensou que alguém tinha ficado fechado num dos confessionários, coisa totalmente improvável pois as portas destes não fechavam. O estudante papago, contrariamente ao que se dizia das pessoas da sua etnia, era medroso e não se atreveu a entrar sozinho na igreja.

 

Roberto Bolaño, op. cit., p. 426.

quinta-feira, agosto 11, 2022

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Fernando Chalana (1959 - 2022)

segunda-feira, agosto 08, 2022

O mestre Sun disse


A Conduta da Guerra é

 

Uma Conduta de Enganos.

 

Quando posicionares as tuas tropas,

Age como se não fosse o caso.

 

Quando perto,

Finge-te longe.

 

Quando longe,

Finge-te perto.

 

Lança o engodo;

 

Desfere um ataque pronto.

 

Sun Tzu (séc. IV a.C.), A Arte da Guerra

Edições Quasi, 2008, p. 10

 

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Foi o que os russos fizeram em Fevereiro, ou tentaram fazer. A conduta da guerra é uma conduta de enganos.

Manobras que não são manobras, mas o prelúdio de uma invasão.

Quando os chineses invadirem a Formosa, pouco antes, farão “manobras”.

sábado, agosto 06, 2022

Do não alinhamento marxista com os fundamentalismos pós-modernos

 «A ideia de cultura contemporânea pouco tem a ver com cultura. Esta ideia também veio camuflar um problema fundamental das sociedades humanas: o falhanço da redistribuição da riqueza e a relevância da vida digna.

Esqueçamos as desigualdades económicas, a questão da distribuição da riqueza, os trabalhadores, o povo, a luta de classes. Estas foram substituídas pelas questões do sexo, da raça, da orientação sexual e de qualquer ideia de eventual subalternidade.»

 

João Maurício Brás, Os Novos Bárbaros - A Moral de Supermercado, Opera Omnia, 2021, p. 223.

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Um marxista que se preze não prescinde da divisão da sociedade em classes. A luta de classes para ele é imorredoura e motivada por esse “problema fundamental das sociedades humanas”, problema também ele perene porque jamais haverá uma sociedade sem classes, sem pobres e sem ricos. Isso é um ideal, para não lhe chamar uma utopia. Haverá, por essa razão, sempre chão para a sua luta.

Um marxista que se preze não confunde o fundamental com o acessório. Não confunde a luta de classes com outras lutas, acessórias, fracturantes e rendidas ao capital. Para o marxista, no centro estará sempre o trabalhador e o valor do seu trabalho apropriado pelo capitalista, e nunca o consumidor. Daqui surge o grande desajustamento com a actual sociedade de consumo, em que o trabalhador, camuflado pela novilíngua em “colaborador”, é cada vez mais um consumidor e o capitalista um “empreendedor”.

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P.S. O marxismo cultural é uma contradição nos termos. 

sexta-feira, agosto 05, 2022

Sois Rei!






Jô Soares (1938 - 2022)

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