De
facto, é impossível fugir ao kitsch,
procurando refúgio na religião, quando a própria religião é kitsch. A
«modernização» da Missa católica e do Livro de Oração anglicano foi, na verdade, um processo de kitschificação; e as intenções da arte litúrgica estão,
hoje em dia, contaminadas pela mesma efemeridade. As cerimónias litúrgicas
comuns das igrejas constituem um testemunho confrangedor de que a religião está
a perder a sua orientação puramente divina, e a converter-se ao mundo da
produção em massa.
Roger Scruton (1998)
A Cultura Moderna, Edições
70, 2021 pág. 125 (destaques nossos)
***
Hoje
temos uma religião pop, missas pop, Papa pop, bispos pop,
cardeais pop, os portugueses, burgueses até ao tutano, tolentinos &
aguiares. A aparição do Papa, em qualquer lugar, é celebrada como uma
efemeridade, um grande evento de marketing religioso. Esta é a Era do
Mercado, que tomou conta de tudo.
A Inquisição oficializada principalmente a partir da Contra-Reforma
prolonga-se até ao século XIX em Portugal. O Pombalismo terá também essa faceta
inquisitorial bem patente na sua polícia específica, assim como as décadas de
vigilância fascista no século XX, ou, embora com aspectos bem distintos, o Estado
democrático exerce também o controlo quase absoluto da sociedade nos últimos 50
anos.
A Inquisição transformou-se num modelo mental e estruturou de
modo profundo o nosso plano de comportamentos, as dimensões morais e até
judiciais.
João Maurício Brás, O Atraso Português,
Guerra e Paz, pág. 140
Cumpre-se por obediência e medo, na maior parte das vezes
irracional, não por respeito ou por se considerar que seguir determinado
caminho é o mais correcto e eficaz. Mexericos e bisbilhotices, a má-língua no
trabalho e na vizinhança, a pequena calúnia, são vestígios de uma cultura de
resquícios inquisitoriais.
João Maurício Brás, O Atraso Português,
Guerra e Paz, pág. 129
Continuamos a construir
os nossos panópticos sociais sob a égide da governação do Partido Socialista.
Temos agora um Portal da Delação, digo, Portal da Denúncia (procedimento muito socialista e até nacional-socialista ou estalinista).
Maravilhoso mundo
novo. Aos poucos a liberdade e a privacidade vão perdendo território para o
controlo social. Que ideia maravilhosa essa a de os cidadãos controlarem os cidadãos.
Suspeito que
alguns de nós têm no seu DNA um gene mais desenvolvido: o gene inquisitorial.
Em Portugal a Santa Inquisição durou até ao século XIX. Um período tão
prolongado de controlo das ideias não poderia deixar de marcar a genética social e a de muitos portugueses.
Com o Portal da Denúncia, far-se-á da pequena calúnia grande. Como a imagem sugere, o pequeno caluniador tem agora um altifalante para se fazer ouvir. Para nosso bem e com cobertura governamental.
A soberba desta gente. Nem se dão conta. Na sua cabeça o
mundo pode perfeitamente ser dividido em dois, qual novo Tordesilhas. “O mundo
é suficientemente grande para os EUA e a China”. É traçar um meridiano para que
não se atropelem na sua hegemonia sobre os demais. Que grandes que eles são.
«Num artigo publicado em Fevereiro, investigadores chilenos mostram
que os seres humanos e os animais domésticos e pecuários superam em muito os animais
selvagens, que representam 6% da biomassa de mamíferos da Terra.»
Maria Amélia Martins-Loução,
“Investir no nosso planeta”, Público 21/04/2023, pág. 27
***
Tem-se investido no planeta, que
consideramos nosso, contudo nem o planeta é nosso (quem somos nós para
nos apropriarmos dele? E, no entanto, é isso que fazemos, vezes sem conta, sem
nos apercebermos que nós é que somos do planeta), nem se tem investido peloplaneta. Mas muito se investe no planeta: em ranchos e unidades industriais,
unidades agro-pecuárias, criação de cães e gatos, vacas e porcos, construção de
minas e unidades de extracção de combustíveis fósseis. Eucaliptais, palmeirais,
extensos campos de soja, modernas frotas de pesca. O planeta está cheio de
investidores, gestores, empreendedores, visionários do potencial ganho a retirar
do “capital natural” e ecossistémico, neoliberais e “homens do futuro”, para
parafrasear Sloterdijk, aqui.
As palavras “investir”, “gerir”
remetem para o léxico científico económico e empresarial. O “património
natural”, como bem diz a professora, é delapidado, porque os investidores acima
referidos não o veem como tal. Para eles, o “património natural” é “capital
natural”. Um filão a explorar.
Talvez precisemos de uma revolução
no pensamento: deixar de considerar nosso o planeta – a vida que nele habita,
entre a qual nos contamos, e a que estamos a destruir, pertence ao planeta. Talvez
não se trate de gerir o planeta, mas de zelar por ele, impor vastos
espaços onde os cobiçosos gestores não ponham a pata (perdoem-me a expressão
plebeia). Dirão que a determinação desses espaços, livres da acção e do olhar
cobiçoso do capitalista, também passa por uma gestão do espaço. Sim, mas talvez
seja necessário algo mais do que uma simples gestão.
Como uma vela que se acende num templo antigo, num ritual eternamente repetido, celebramos a memória da Liberdade. A Liberdade. Celebramos o dia em que a Liberdade saiu à rua.
Hoje discursam amigos e inimigos da Liberdade. Ouço-os na assembleia. A Liberdade e a Democracia assim o permitem.
Detalhe da capa do semanário Expresso, 14 de Abril de 2023
(excepto o balão amarelo e o rectângulo vermelho, que são destaques nossos )
***
E é escusado argumentar com esta
gente. Para eles o neoliberalismo é um credo, e, portanto, são surdos a
qualquer contra-argumento racional ou científico.
Como uma erva daninha, o credo
neoliberal defendido pelos lacaios das elites dominantes em jornais mui burgueses e liberais como o Expresso - burguesitos à espera das migalhas caídas da mesa
do patrão e de um afago na sua fiel e canina cabeça – teima em medrar, ainda
que denunciado vezes sem conta na sua injustiça.
Diga-se de passagem, que não são todos
os que lá escrevem, mas nós sabemos quem são esses “alegres papagaios” e eles também
sabem quem são. Os de servil escrita.
O Inverno retira-se uma vez mais,
até um dia deixar de regressar. Tanto aqui como nas estâncias alpinas e noutras
montanhas das latitudes médias, assistimos ao crepúsculo das estâncias invernais.
A paisagem sempre mudou inevitavelmente, e agora, aceleradamente. Os helvéticos já se
debatem com o retrocesso dos glaciares. Preciosos glaciares. Recursos
turísticos perdidos para todo o sempre. E nós, nesta serra, que não se alça
aos 2 000 metros de altitude, ansiamos pela neve, mas a neve já não vem.
Lá em cima, na serra, há um urso contemplativo e melancólico,
principalmente se for observado a partir de um certo ângulo. Mas atenção à
aproximação, não vá o animal espantar-se e sair por ali a correr espavorido,
acabando por rebolar pelas encostas.
Ferdinand Addis, Roma, História da Cidade Eterna, Crítica, 2022.
⭐⭐⭐⭐⭐
Eis-nos
lançados nas ruas de uma cidade antiga. Tão antiga que se diz eterna. Ali nos
cruzamos com personagens de todas as eras. Assistimos às assembleias entre a
plebe, frente ao templo de Júpiter, no topo do monte Capitolino. Vimos passar César
na sua biga triunfal e o escravo que, atrás dele, de vez em quando se lhe assoma ao ouvido para lhe murmurar que é apenas um homem, à passagem entre a multidão que o aclama como se fosse um deus.
Ali
nos cruzámos com Marco Aurélio, Séneca, Ovídio e Nero e muitos mais. Mas não
ficámos apenas naquele tempo romano. Acabamos por atravessar os tempos,
naquela cidade. Chegámos a combater entre os camaradas de Garibaldi. Também ali deparámos
com Mussolini, já no século XX, uma besta sexual com o QI de um sapo. Ele e a
sua última amante, executados e dependurados. E Fellini e a sua Dolce Vita.
A
história de Roma é também a história da civilização Ocidental. Está embrenhada
nela. Vindos da recém-descoberta América, os marinheiros de Colombo inauguram a
propagação da sífilis pela cidade das prostitutas. Isto para dizer que também
as longínquas descobertas ecoaram nas ruas e nas vidas dos cidadãos de Roma.
Muito
haveria para contar dos ilustres personagens que desfilaram na história da
cidade.
Ferdinand
Addis consegue colocar-nos lá, no espaço e no tempo. Viajamos por Roma desde a sua origem até ao século XX e com os romanos. Somos espectadores, somos participantes.
Um
livro excelente, repleto de acção e movimento, dinâmico, que se lê como um
romance.
*****
Uma
passagem:
«Enquanto
os godos recuavam, as balistas nas muralhas entraram em acção. Estas eram uma
espécie de bestas gigantescas: máquinas de arremesso de flechas com dois braços
equipados com molas de torsão, capazes de disparar virotes curtos e grossos a
distâncias além do que a vista alcançava. Estas máquinas aterrorizavam os godos.
Na Porta Salária, por onde a velha estrada do sal saía da cidade, um nobre godo
que se afastou demasiado das suas linhas foi atingido por um virote disparado
por uma equipa de balista com a pontaria afinada. O virote trespassou-lhe a
couraça e pregou-o a uma árvore, deixando-o a baloiçar-se e a contorcer-se,
enquanto os godos mais próximos, demasiado assustados para o ajudarem,
tropeçaram uns nos outros com a pressa de ficarem fora do alcance.»
Ferdinand Addis, Roma, História da
Cidade Eterna, Crítica, 2022, pp. 244-245
Um dos poemas para estes dias é a canção do
último pássaro. É difícil discernir o espírito do tempo em que vivemos quando
vivemos neste tempo. O que virá? O precipício sobre o mar rumorejante ou a luz
dos prados verdejantes? Já cantarão os últimos pássaros neste planeta fatigado, de
solo ressequido? Um último rouxinol canta antes da longa noite escura?
O que
virá?
O silêncio.
A Terra nem memória será.
Epílogo
Devastámos a Terra, conspurcámos o mar, poluímos o céu. Nem
as profundezas e os abismos escaparam ao fluxo e refluxo das nossas cloacas.
Nem as mais altas montanhas.
A Terra devastada. O mar conspurcado. O céu poluído. A vida à
beira da extinção.
Depois do canto do último pássaro, sabemos que advirá o
silêncio. Daremos entrada no reino sombrio das criaturas da noite, enquanto remanescerem
criaturas. Uma longa noite, repleta de horrores. Os últimos seres, almas,
espíritos e medos. Mutantes sem memória. E por fim, nem a memória restará.
Partiu o melhor jogador de futebol de todos os tempos e um ser humano formidável.
Campeão do mundo três vezes, a primeira das quais aos 17 anos. É obra!
Numa série televisiva sobre futebol apresentada por ele, ensinou, num dos episódios, que o guarda-redes é o pilar de toda a equipa: se o pilar treme, toda a equipa treme, disse.
Dia livre em Moscovo. A minha partida para Erevan
(pronunciar «Iérévanne») é no dia seguinte. A multidão moscovita fascina-me.
Erro muito tempo no meio dessas pessoas todas. A variedade de indumentárias e
de rostos lembra-me a imensidão do território da URSS, que vai da Ucrânia ao Kamchatka,
do mar de Barents ao Cáspio.
Estamos em Março. Neva com abundância, caem flocos
espessos na cidade. Os passeios largos da avenida estão repletos de gente. Sigo
a multidão molhada, que progride cada vez mais devagar. Durante longos minutos
permanecemos parados. Estou preso num engarrafamento de peões! O que se passa?
Tento imaginar o que bloqueia a este ponto o nosso
avanço. Em seguida tudo se explica: vejo subitamente três matronas que varrem
vigorosamente a neve suja e molhada do passeio para a sargeta, sem a mínima
consideração pelos transeuntes. Tentando não ser salpicados, eles esperam o
momento propício para atravessar a correr o sítio perigoso, formando assim um
engarrafamento de peões!
O que mais me desorienta é a total ausência de protestos.
Em Paris ou Montréal ter-se-ia chegado a um motim. A resignação é muda.
Compreendo então o sentido profundo da palavra Nietchevo tantas vezes
associada à população russa: «Não faz mal».
Hubert Reeves (1)
Hubert Reeves, Já Não Terei Tempo – Memórias,
Gradiva, 2010
TTTT
O povo russo ainda não realizou o seu 25 de Abril. Tal como
o nosso, é um povo resignado. Falta-lhe o ímpeto. Talvez lhe falte, como nos
faltava, o impulso militar de alguns capitães e o apoio de alguns generais.
O que mais me desorienta é a total ausência de liberdade.
Não há outra forma de derrubar o regime totalitário e
extorsionário que os priva da paz, em todas as acepções da palavra: apenas
a revolução.
_______________________________
(1) Hubert Reeves, Já Não Terei Tempo – Memórias, Gradiva, 2010, pág. 191.
Um homem culto, sem dúvida, cosmopolita e burguês, com tempo para viajar, escrever e contemplar, depois de ter assumido altas responsabilidades e de ter cumprido com as exigências.
Da sua obra li Mais que mil imagens, Sextante Editora, 2020. Uma visita guiada à arte que Mega Ferreira apreciava. Foi uma aprendizagem.
Partiu ontem.
****
António Mega Ferreira, Mais Que Mil Imagens, Sextante Editora, 2020
Uma final espectacular. Pela terceira vez vence a Argentina.
Vi pela TV todas as finais que a Argentina venceu. A dos confetes e dos guedelhudos, em 1978, o primeiro Mundial de que tenho memória; a de 1986, com o genial Maradona e a "mão de Deus" e agora a do Messi e do Di María, este último um verdadeiro "carregador de piano" que muito deu à Argentina, começado pelo Campeonato Olímpico que venceu quando era jovem. Infelizmente foi sub-aproveitado no Benfica, pelo Quique Flores. Para o Messi, foi a cereja no topo da carreira.
Andrew Knoll, Uma Breve História da Terra, Desassossego, 2021
⭐⭐⭐⭐
Um bom livro. Uma excelente síntese. Quatro mil milhões de anos em oito capítulos.
Mas lido com desconfiança a partir do momento em que chocamos, na página 43, com um erro grosseiro. Lá se diz: "O monte Evereste, com fósseis marinhos a mais de oito mil quilómetros acima do mar; ..." Sus! Oito mil quilómetros é para lá da termosfera. É já no espaço cósmico. Confundiram quilómetros com metros. Passou à revisora ou à tradutora. Nem o Monte Olimpo, o maior vulcão do sistema solar, em Marte, chega a tanto.
Esperemos que o erro seja corrigido nas próximas edições. O livro merece.
***
«No Ocidente desenvolvido, podemos diminuir a nossa pegada ambiental fazendo escolhas sensatas relativamente a alimentação, habitação e transporte, e podemos apoiar alternativas sustentáveis para aqueles que noutras partes do mundo aspiram a melhores condições de vida.»
Os povos que habitam os países
frios, especialmente os da Europa, são pessoas de coração, mas têm pouca
inteligência e poucos talentos. Mantêm-se melhor em liberdade, pouco
civilizados, de resto, e incapazes de governar os seus vizinhos.
Os Asiáticos são mais
inteligentes e mais dados às artes, mas nada corajosos, por isso mesmo quase todos
sujeitos e sempre sob o poder de algum senhor.
Aristóteles
Tratado da
Política, 2ª ed., Edições Europa-América, 2000, pág. 109-110.
Hoje, sorrimos ao lermos estas
considerações de Aristóteles, mas há tendências longas, que parecem impossíveis
de contrariar no espaço de um só século, e por muita agitação que ocorra, no
fim, os povos retornam sempre à linha que percorrem desde tempos imemoriais. Muitos são os povos da
Ásia que voltaram a acoitar-se à sombra do “poder de algum senhor”, sujeitando-se a um imperador, déspota ou ditador. São povos incapazes de tomar o destino nas suas
próprias mãos e de se revoltar. Em vez disso, fogem se a situação política se
tornar adversa. Tivemos, pois, debandadas em vez de revoltas, na Rússia, quando
o imperador Putin, o mafioso, decidiu mobilizar os seus concidadãos para uma guerra
numa terra estranha. Em relação a muitos povos da Ásia, passados todos estes anos
de experiências políticas ao longo do século XX, o que vemos? O regresso do
imperador Xi, do imperador Putin, do imperador Kim, do sultão Erdogan, já não
falando dos déspotas e reis que ainda ocupam o poder nos países do Médio
Oriente e do Golfo Pérsico, em conformidade com uma linha que remonta
à origem dos tempos.
«Homero e Hesíodo atribuíram aos deuses todas as coisas
que são vergonha e desgraça entre os mortais: roubos, adultérios, enganar o
próximo…Os mortais acreditam que os deuses são formados à sua imagem e
semelhança e usam roupas como as deles, e voz, e forma…sim, e se os bois, os
cavalos ou os leões tivessem mãos, e pudessem pintar com elas, e produzir obras
de arte como os homens, os cavalos pintavam deuses com forma de cavalos, e os
bois de bois e faziam-lhes os corpos segundo os da própria espécie…Os etíopes representam
os seus deuses pretos e de nariz achatado; os trácios dizem que os deuses têm olhos azuis e cabelo ruivo.»
Xenofonte
citado por Bertrand Russel, Pensamento e Comunicação, Correspondência
(1950-1968), Brasília Editora, 1971, p. 181.
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Terá sido o universo a criação de um deus que o programou
para que evoluísse de forma a que, a dada altura, estivessem reunidas as
condições para o surgimento do Homem? (o que designam por “princípio
antrópico”) Não creio. Já uma evolução
do universo programado para o surgimento de vida inteligente, ou seja, com capacidade
de se questionar sobre a sua própria origem, existência e de um
criador, é uma hipótese a considerar.
O “princípio antrópico” é uma vaidade, como atesta
Xenofonte.
Por alguns anos o céu aligeirou-se da ameaça de uma chuva nuclear,
tudo graças a Gorbachev, homem imune ao apelo da “grandeza” – a grandeza da
América, a grandeza da Rússia, a grandeza da França, a grandeza do Reino Unido,
a grandeza disto e a grandeza daquilo, com que certos políticos enchem a boca
para justificar determinadas opções de domínio do espaço, iludidos na vanglória
de mandar. Mereceu o Prémio Nobel da Paz.
Mas o alívio que trouxe aos céus durou pouco mais de uma
década. Putin encarregou-se de fazer regressar o terror nuclear,
justificando-se com as linhas vermelhas que a O.T.A.N. ultrapassou na sua aproximação
às fronteiras da Rússia.
Partiu Gorbachev, fica o equilíbrio do terror, agora mais periclitante.
O terceiro rio mais extenso do planeta, o mais extenso da Ásia,
convertido num ribeiro seco. O que está a acontecer não é um fenómeno local ou
regional, frequente nas regiões desérticas ou mediterrânicas, no Verão. É um
fenómeno planetário. É preocupante. Mas estaremos verdadeiramente tão
preocupados como deveríamos estar?
Cinco estrelas. 1025 páginas em 20
dias. Não aconselhável a menores de 18 anos nem a pessoas hipersensíveis ou com
os nervos em franja. Bolinha vermelha no canto superior direito. Demasiado gráfico
e, por vezes, pornográfico, por vezes com uso recorrente do baixo calão. O horror
dos desaparecimentos, das moscas e dos cadáveres violados. Onírico, misterioso,
diabólico. Prende o leitor. A ler com muita cautela, ou a não ler.
Ali se encontram Poe, no suspense em que nos coloca, McCarthy no ambiente hostil do Meridiano de Sangue, Eco e o ambiente
misterioso do Nome da Rosa nos diabólicos episódios do Penitente,
profanador de igrejas, e David Lynch, que Bolaño refere, e muitos muitos outros
que escapam ao nosso alcance, ou não, e que seriam demasiados para aqui
enumerar.
***
Três dias depois da profanação da Igreja de Santa
Catalina, o Penitente introduziu-se a altas horas da noite na Igreja de Nuestro
Señor Jesuscristo, no bairro da Reforma, a igreja mais antiga da cidade,
construída em meados do século XVIII, e que durante algum tempo serviu de sede
episcopal de Santa Teresa. No edifício adjacente, situado na esquina das ruas
Soler e Ortiz Rubio, dormiam três padres e dois jovens seminaristas índios da
etnia papago que frequentavam os estudos de Antropologia e História na
Universidade de Santa Teresa. (…) De repente, um barulho de vidros
partidos acordou-o. Primeiro pensou, coisa estranha, que estava a chover, mas
logo se apercebeu de que o barulho provinha da igreja e não de fora,
levantou-se e foi investigar. Quando chegou à reitoria ouviu gemidos e pensou
que alguém tinha ficado fechado num dos confessionários, coisa totalmente
improvável pois as portas destes não fechavam. O estudante papago,
contrariamente ao que se dizia das pessoas da sua etnia, era medroso e não se
atreveu a entrar sozinho na igreja.
«A ideia de cultura contemporânea pouco tem a ver com
cultura. Esta ideia também veio camuflar um problema fundamental das sociedades
humanas: o falhanço da redistribuição da riqueza e a relevância da vida digna.
Esqueçamos as desigualdades económicas, a questão da distribuição
da riqueza, os trabalhadores, o povo, a luta de classes. Estas foram
substituídas pelas questões do sexo, da raça, da orientação sexual e de
qualquer ideia de eventual subalternidade.»
João Maurício Brás, Os Novos Bárbaros - A Moral de
Supermercado, Opera Omnia, 2021, p. 223.
***
Um marxista que se preze não
prescinde da divisão da sociedade em classes. A luta de classes para ele é
imorredoura e motivada por esse “problema fundamental das sociedades humanas”, problema também ele perene porque jamais haverá uma sociedade sem classes, sem pobres e
sem ricos. Isso é um ideal, para não lhe chamar uma utopia. Haverá, por essa
razão, sempre chão para a sua luta.
Um marxista que se preze não
confunde o fundamental com o acessório. Não confunde a luta de classes com
outras lutas, acessórias, fracturantes e rendidas ao capital. Para o marxista,
no centro estará sempre o trabalhador e o valor do seu trabalho apropriado pelo
capitalista, e nunca o consumidor. Daqui surge o grande desajustamento com a actual
sociedade de consumo, em que o trabalhador, camuflado pela novilíngua em
“colaborador”, é cada vez mais um consumidor e o capitalista um “empreendedor”.
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P.S. O marxismo cultural é uma contradição nos termos.