domingo, novembro 06, 2016

A natureza das coisas

Todas as coisas acabam mal, no fim. Mas acabar é a natureza das coisas.

Gore Vidal, Criação, Publicações Dom Quixote, 1981, pág. 68.

sábado, novembro 05, 2016

O velho humanismo: uma mistura para vomitar. Mas será o novo melhor?

O velho humanismo afasta-se e desaparece. A nostalgia atenua-se e é cada vez mais raro que nos voltemos para rever a sua forma estendida no caminho. Era esta a ideologia da burguesia liberal. Inclinava-se sobre o povo, sobre os sofrimentos humanos. Cobria, sustentava a retórica das almas belas, dos grandes sentimentos, das boas consciências. Compunha-se de citações greco-latinas polvilhadas de judaico-cristianismo. Um cocktail assombroso, uma mistura para vomitar. Só alguns intelectuais (de “esquerda” – mas ainda haverá intelectuais de direita?) mantêm ainda o gosto por esta bebida triste, nem revolucionários, nem abertamente reaccionários, nem dionisíacos, nem apolíneos.  

É, assim, para um novo humanismo que devemos tender e esforçar-nos, isto é, para uma nova praxis e um outro homem, o da sociedade urbana. Escapando aos mitos que ameaçam esta vontade, destruindo as ideologias que desviam este projecto e as estratégias que afastam este percurso. A vida urbana ainda não começou. Nós realizamos hoje o inventário dos despojos de uma sociedade milenar na qual o campo dominou a cidade, cujas ideias e “valores”, os tabus e as prescrições eram, em grande parte, de origem agrária, marcados por uma dominante rural e “natural”. Do oceano campesino emergiam custosamente esporádicas cidades. A sociedade rural era (ainda é) a sociedade da não-abundância, da provação aceite e rejeitada, dos interditos que ordenam a regulamentam as privações. Esta também foi, todavia, a sociedade da Festa, mas esse aspecto, o seu melhor, não foi retido, e era ele que seria necessário ressuscitar e não os mitos e os limites!

Henri Lefebvre, O Direito à Cidade, Letra Livre, 2012, pág. 110.

A vida urbana já começou. Lefebvre acusa o velho Humanismo burguês e aponta para um novo, ironicamente ainda mais aburguesado (não é afinal um humanismo de burgo aquilo que ele nos propõe?). Trata-se no entanto de uma fuga para a frente. Ora o novo humanismo que ele nos propõe ainda é pior. Sabemo-lo agora. Trata-se de um humanismo urbano que descarrila na desumanidade das cidades sem fim. É o humanismo das ruas nocturnas, frias e vazias que produziu os sem-abrigo deambulantes e envergonhados que povoam as grandes cidades, verdadeiras sepulturas do espírito humano. À festa rural circunscrita opôs-se o frenesim festivo e consumista, urbano e omnipresente. À contenção da sociedade da não-abundância, sobrepôs-se o desperdício da sociedade da abundância, incontida, desregrada, infrene e insustentável. Se a dominante rural era “natural” e idílica, a urbana é artificial, insana e doentia. Trata-se de uma dominante mecânica. Um irónico humanismo de máquina.

Somos hoje prisioneiros de um quotidiano sistematicamente medido e controlado pelas máquinas do tempo, essa marca do novo humanismo. Vivemos o totalitarismo do tempo maquinal, em sociedades-máquina (e em cidades-máquina), onde os vizinhos não se conhecem. Nas sociedades humanistas urbanas defendidas por Lefebvre marchamos todos a toque de caixa. Alguns de olhos sonâmbulos ainda entoam loas a esse novo humanismo, nas novas manhãs urbanas que agora cantam. Um canto desafinado.

Profundo

Caminho durante horas a fio, desviando-me esporadicamente de um borrão de merda de cão.

Don Delillo, Zero K, Sextante, 2016, pág. 264

Delillo caminha pelas cidades, de mãos nos bolsos, ensimesmado, de olhos postos no passeio onde grassa a merda de cão. Leio noutro lugar que os animais domésticos superam já os animais selvagens (*), em número e em massa (omite o narrador, por certo, os insectos, nessa assumpção desesperante). Triste humanidade, rendida a uma natureza artificial que ela mesma criou. Homo Deus nos tornámos! Um pesadelo! Há seres humanos em excesso à superfície da Terra e animais domésticos também. O próprio Homem é já um animal doméstico. E ainda há quem defenda a paródia do Humanismo - esse ser prodigioso que é o Homem - mesmo depois de constatar todo mal que o homem (sim, com letra pequena!) faz a si mesmo e toda a destruição que inflige no jardim que lhe foi legado. Sim, venham de lá agora dizer que este discurso apoia a acção de genocidas que se entretêm a erradicar seres humanos da face Terra. Não se trata disso. Para melhorar o mundo, não tenhamos dúvidas, o primeiro passo é erradicar os genocidas.
_______________________________________________________

(*) Yuval Harari, Homo Deus: A Brief History of Tomorrow, Harper Collins Publishers, 2016

domingo, setembro 25, 2016

Nicolaes Ruts

Rembradt, Retrato de Nicolaes Ruts, 1631

Sopa quente e bebidas frescas

Uma contradição mata o seu contrário; as inconsistências [no carácter] existem lado a lado, em resposta a diferentes situações. Como poderia um indivíduo rígido sobreviver num mundo variável? No Inverno, sopa quente; no Verão, bebidas frescas.

Jacques Barzun, Da Alvorada à Decadência, Gradiva, 2003, p. 149.


O Eu é indissociável da sua circunstância. Assim se explicam as inconsistências que preenchem o carácter. Há, no entanto, quem as confunda com contradições, em particular quando ajuíza sem atender às circunstâncias que rodeiam as acções.

Pelas acções se conhece o carácter, contudo as circunstâncias que nelas influem não são despiciendas e devem também pesar numa avaliação do carácter.

sábado, setembro 24, 2016

Em alta


Em Dortmund mora um prodígio: Raphael Guerreiro. Está em alta. 

O defesa joga agora ao ataque e insufla de alma a equipa do Dortmund quando entra em jogo ou quando joga de início. Não é o único, diga-se de passagem, mas quando joga tudo se agita.

Eis a sequência dos últimos resultados do Borussia de Dortmund:

14/09/16       Legia Warszawa     0 - 6   Borussia Dortmund
17/09/16  Borussia Dortmund     6 - 0   Darmstadt
20/09/16                 Wolfsburg     1 - 5   Borussia Dortmund
23/09/16  Borussia Dortmund     3 - 1   Freiburg

Vinte golos marcados em quatro jogos (!), e não estamos a falar de hóquei em patins. Apenas dois golos sofridos.

Neste quatro jogos, Raphael Guerreiro marcou 3 golos e deu outros 3 a marcar (assistências), tendo jogado 262 minutos (apenas em dois dos últimos quatro esteve os 90 minutos em campo). 

No jogo contra o Dalmstadt, o treinador Tuchel deu-se ao luxo de o retirar conjuntamente com Dembelé, aos 63 minutos, para os preservar para o jogo seguinte e para que recebessem o aplauso merecido pela magnífica partida que estavam a realizar (então o Dormund já vencia por 3-0).

No jogo contra o Freiburg, entrou apenas aos 71 minutos: marcou golo aos 90'+1.

Uma verdadeira arma secreta do Dortmund.

É o melhor português emigrante a jogar futebol no momento.
----------

PS - Honra seja feita aos outros magníficos jogadores do Dortmund, muito jovens, que constituem uma verdadeira equipa multinacional: Aubameyang (Gabão), Pulisic (EUA), Piszczek (Polónia), Dembelé (França), Götze (Alemanha), o guarda-redes Bürki (Suíça) entre outros.

sexta-feira, setembro 23, 2016

O Presidente emplastro


Palavra de honra, que foi o que me veio à cabeça quando o vi, esta terça-feira, entre o casal Obama.

O frenético Marcelo está em todas.

De segunda a sexta-feira, ora nos noticiários da rádio (e logo pela manhã!), ora na TV, lá está ele, no boneco. É incontornável.

sexta-feira, setembro 16, 2016

Colher nos campos do saber

Cícero inventou o conceito de «cultura», ainda hoje válido, ao comparar o cultivo da alma com o cultivo dos campos e, para ele, era óbvio que a literatura era a melhor maneira de cultivar o campo da alma.

Em ambos os campos, o cultivo faz-se porque há a perspectiva de crescimento. Por consequência, ler é como colher nos campos do saber.


Peter Sloterdijk, Morte Aparente no Pensamento, Relógio D’Água, 2014 , pág. 72.

***

Dos distantes campos romanos brotou a palavra “cultura”. Marcus Tullius Cícero (106 a.C. – 43 a.C.) foi quem lhe deu nome. O nome que ainda lhe damos.

quinta-feira, setembro 01, 2016

Fim das férias, início dos queixumes

Acabam as férias e começa Setembro. Começam os queixumes. Faltam magistrados, faltam oficiais de justiça, faltam médicos, faltam enfermeiros, faltam auxiliares de acção educativa, faltam meios, falta isto e falta aquilo…falta dinheiro… Falta tudo! Cada responsável corporativo tem uma visão parcelar do seu sector, ignorando as necessidades dos demais. Nem quer saber disso, não é com ele. Só lhe diz respeito o seu sector. Assim, reivindica sem visão e conhecimento das necessidades de todo o conjunto. Atender positivamente a todas as reivindicações seria o pântano. O governante tem de ter a coragem de dizer não, uma vez que não pode dizer sim a todos. Caso contrário, a sociedade torna-se ingovernável.  

Os queixumes tinham ido de férias, os queixumes regressaram. Quando os oiço, vindos de férias, apetece mandá-los de férias outra vez. Para bem longe.

terça-feira, agosto 23, 2016

Euforia e alucinação

E o país mais poderoso do mundo vai ser governado ou por esta senhora ou pelo outro senhor do chinó?!

Deus nos acuda!

sábado, agosto 20, 2016

quinta-feira, agosto 18, 2016

Dias Olímpicos


















Equipa de Ginástica Feminina dos EUA

domingo, julho 31, 2016

Tudo isso e muito mais




















Peter Severin Krøyer, Bathing Children, 1892

sábado, julho 30, 2016

Uma velha prática

Em meados do século IX, o Islão instituíra já uma política de recrutamento militar sem igual: a aquisição de jovens não muçulmanos que, com o estatuto de escravos, eram educados segundo a fé islâmica e treinados para serem soldados.


John Keegan, Uma História da Guerra, Tinta da China, 2009, pág. 60



quarta-feira, julho 27, 2016

Animais culturais

Somos animais culturais e é a riqueza da nossa cultura que nos permite aceitar o nosso inegável potencial para a violência e acreditar, ainda assim, que a sua expressão é uma aberração cultural.  


John Keegan, Uma História da Guerra, Tinta da China, 2009, pág. 22

terça-feira, julho 26, 2016

Esses senhores sérios


É na rambóia estudantil, nas liberdades e manigâncias estudantis que pensarão mais tarde esses senhores sérios ao afirmarem que também já foram jovens.

Peter Sloterdijk, Crítica da Razão Cínica, Relógio D'Água, 2011, pág. 165

domingo, julho 24, 2016

Mais ouro


Irmãos Pedro e Diogo Costa: Campeões Mundiais da Classe 420, vela.

domingo, julho 17, 2016

A tragédia turca

A tragédia turca é a tragédia da democracia nos países islâmicos. A Turquia é hoje um país presidido por um radical islâmico democraticamente eleito. Vencidos os golpistas a criatura não perdeu tempo para trazer Alá à liça. Não um deus justo, mas um deus vingador. Atentar contra Erdogan foi atentar contra Alá, que agora se vingará daqueles que ousaram tentar derrubá-lo através de um golpe de Estado quixotesco.

É simbólico o canto dos muezins, apelando à população para vir para a rua na noite do golpe de Estado, a pedido de Erdogan. Alá estava com Erdogan.

Atatürk deve estar a dar voltas na tumba.

quarta-feira, julho 13, 2016

O abismo da história, uma vez mais

A velha Europa, em vez de saltar em frente, por cima do abismo da história, deixa-se resvalar uma vez mais para esse abismo, presa a um destino que ninguém deseja.

terça-feira, julho 12, 2016

O arreigado empenho da Europa na desunião

A habitual unidade da China e a perpétua desunião da Europa têm ambas uma longa história. As áreas mais produtivas da China moderna foram politicamente unidas pela primeira vez em 221 a.C. e assim permaneceram pela maior parte do tempo desde então. A China teve um só sistema de escrita desde os inícios da literacia, uma única língua dominante por muito tempo e unidade cultural substancial durante dois mil anos. Pelo contrário, a Europa nunca esteve, nem de longe, perto da unificação política: ainda estava repartida por 1000 pequenos estados independentes no século XIV, em 500 estados em 1500 d.C., reduziu-se a um mínimo de 25 estados na década de 80 e, no momento em que escrevo esta frase, já é de novo constituída por cerca de 40. A Europa ainda tem 45 línguas, cada uma delas com o seu alfabeto modificado, e uma diversidade ainda maior. Os desacordos que ainda hoje continuam a frustrar até as mais modestas tentativas de unificação europeia através da Comunidade Económica Europeia (CEE) são sintomáticos do arreigado empenho da Europa na desunião.

Jared Diamond, Armas, Germes e Aço, Relógio d’Água Editores, 2002, página 447.
(destaques nossos)

E ainda hoje, em 2016, como se comprova pelo actual contexto político europeu, a Europa se empenha na desunião.

“União Europeia” soa, portanto, a ironia da história. Jamais resultará. É uma ideia peregrina. São utópicos os que defendem um aprofundamento da união política da Europa, uma comum federação. Afinal poderá um cão ser cavalo? Poderá uma Europa que sempre prosseguiu a desunião política – é essa a sua essência, desde que o Ocidente é Ocidente, desde o fim do Império Romano – converter-se em união política? Nada mais há de contranatura. Se algum dia a Europa se tornasse politicamente unida, então anular-se-ia enquanto tal. Deixaria de ser Europa para passar a ser outra coisa qualquer. Os que propugnam um aprofundamento político da União Europeia estão a opor-se a um movimento longo, com mais de um milénio. São Quixotes que investem contra moinhos de vento ou tentam parar o vento com as mãos.

Poderá haver união na diversidade? Paradoxalmente, essa parece ser a fórmula. Mas para isso, é preciso abandonar a ideia de uma união política da União Europeia, como se de um império sediado em Bruxelas se tratasse. Não há povo que o deseje, apenas os líderes de um eixo que ambiciona exercer a sua dominação sobre os demais.

domingo, julho 10, 2016

Ora aí está

Portugal, Campeão da Europa!

Parabéns!

Isto é demais para um só dia





Parabéns!

Agora só faltam estes rapazes aqui em baixo.

Força rapazes!


Independentemente do desfecho, obrigado por terem trazido o nome de Portugal até aqui e pela esperança.

Hoje é o vosso dia.

Divirtam-se.

sábado, julho 09, 2016

A farsa

Hegel says somewhere that all great historic facts and personages recur twice. He forgot to add: “Once as tragedy, and again as farce.”

Karl Marx (1852) , The Eighteenth Brumaire of Louis Napoleon, Dodo Press, 2009.

Na ausência de um líder desejado que os comande nestes tempos conturbados – os putativos debandaram – os britânicos, na sua demanda por um líder novo, voltam-se agora para as suas referências de líderes fortes em tempos difíceis. E o exemplo mais próximo que parecem ter é o de Margaret Thatcher, a “Dama de Ferro”, que ganhou guerras distantes e próximas, contra a Argentina e contra os sindicatos dos mineiros do carvão, respectivamente. E vai daí, o Partido Conservador apurou agora duas tories que parecem ser a encarnação da Dama de Ferro, pelo menos na sua postura, determinação e expressão. Theresa May mais do que Andrea Leadsom. Mas esta, aparentemente mais dócil, não deixa de ser uma mulher forte e determinada. A comprovar este zeitgeist sebastiânico, os jornais britânicos colocam na primeira página parangonas que associam as duas candidatas tory à Dama de Ferro.



Mas os britânicos podem estar a cair num erro histórico muito comum. Como salientou Marx, os factos e os grandes personagens da história ocorrem primeiro enquanto tragédia e depois enquanto farsa. Margaret Thatcher só houve uma e já morreu, tal como Dom Sebastião. O que vier a seguir de mais parecido não passará de uma cópia ou de uma imitação barata. Em suma: uma farsa.

quarta-feira, julho 06, 2016

Félix

É um estado de espírito.

Viva Félix!

terça-feira, julho 05, 2016

Unanimismos e rebanhismos

O facto de não pôr uma bandeirinha à janela ou uma velinha quando há um atentado, ou um "je suis... qualquer coisa" no blogue, não significa que seja indiferente às glórias e às desgraças do mundo.

Mas há gente muito atenta a isto. Quando se põe é porque se põe, quando não se põe é porque não se põe. Ora vivam e deixem viver.

sábado, julho 02, 2016

É a geografia, estúpido

Do dia 23 para o dia 24 de Junho o mundo mudou, e a tal ponto mudou que os livros de Geografia terão de ser reescritos e os mapas políticos redesenhados. A União Europeia perdeu um país, mas poderão surgir outros na Europa, e o Reino Unido enfrenta forças centrífugas e forças externas  - as da globalização - que o poderão levar à desagregação.

Mas afinal o que se passou?

Um referendo cujo resultado, claríssimo, determina a saída do Reino Unido da União Europeia. O problema não se encontra, portanto, no resultado do referendo. O problema reside na distribuição geográfica dos resultados. Se o número de votos tivesse sido exactamente o mesmo, mas com uma distribuição geográfica diferente, e revelasse idênticas divisões em todas as nações do Reino Unido, tal como a que se verifica em Inglaterra, então não se colocaria o embaraço que agora se coloca.

O embaraço reside na geografia dos votos, na distribuição dos resultados. Estes mostram uma Inglaterra dividida e uma Escócia unida (o mesmo se poderá afirmar em relação à Irlanda do Norte, também ela unida). 

Fonte: The Guardian 

Um país dividido é um país enfraquecido (virtus unita fortius agit) e o Reino Unido, enquanto tal, encontra-se dividido, enfraquecido e com lideranças contestadas ou em debandada. O país navega agora em águas desconhecidas sem um capitão que o possa comandar, procurando desesperadamente, entre os seus tripulantes amotinados, alguém que possa assumir esse papel. Ora qualquer país nestas condições, quando sujeito a um choque, interno ou externo, corre sempre o risco de se esboroar.

terça-feira, junho 28, 2016

Brexit: qual é a pressa?

O Reino Unido protela a activação do artigo 50.º do Tratado de Lisboa. Seria bom que o fizesse depressa. Mas afinal, qual é a pressa?

A pressa chama-se “juros da dívida” ou dito de outra forma, “government bonds”. Quanto mais tempo a incerteza pairar, maior será a tendência para que os juros das dívidas soberanas subam, com destaque para os países do Sul da U.E. entre os quais o nosso. Se assim for, adivinhe quem vai pagar?

A City foi o primeiro district da Grande Londres, e um dos primeiros do Reino Unido, na noite de 23 de Junho, a declarar “remain”. A City perdeu. Os mercados responderam à afronta, descendo o “rating” da dívida soberana do reino, afundando a libra, baixando as cotações dos bancos ingleses (e não só) e subindo os juros da dívida soberana (do Reino Unido e não só), mas a procissão ainda vai no adro. 

domingo, junho 26, 2016

Sobre o brexit

Os cidadãos britânicos decidiram mal. A democracia directa tem destas coisas. Com o brexit poderão ter desencadeado o princípio do fim de um reino que encerra quatro nações e quiçá o princípio da desunião europeia. O júbilo dos xenófobos, dos populistas, dos separatistas, dos racistas e dos fascistas é a prova simples de que se tratou de uma má decisão. Rejubila Farage, rejubila Trump, rejubila Le Pen, rejubila Wilders, rejubila Erdogan, e até  Jirinóvsky rejubila, lá do alto do assento que tem na Duma. Também já se agitam os separatistas ou independentistas, da Escócia à Catalunha, do País Basco à Lombardia, e em muitos outros lugares, na mira da criação de novos Estados que pretendem governar. É a balcanização da Europa Ocidental que se prenuncia.


Afinal, a globalização que defendiam começa e termina na livre circulação do capital e das mercadorias. A livre circulação do trabalho e dos trabalhadores já lhes causa comichão. Pretendem agora erguer muralhas, muros, barreiras e vedações para travar os que pretendem circular na demanda de uma nova vida, longe da guerra e da fome.

Voltamos ao tempo do proteccionismo, ao tempo em que os países se fecham sobre si mesmos, ao tempo dos bárbaros às nossas portas, ao tempo dos pequenos países que ameaçam surgir por todo o lado como pequenos reinos medievais, ao tempo do medo. Tudo isto cheira, na verdade, a início de Idade Média ou ao fim do Império. Àquele tempo em que os cidadãos abandonaram em debandada as cidades e se encerraram atrás de muralhas, porque tudo mudou inesperadamente. Os bárbaros vinham aí.

sexta-feira, junho 10, 2016


sábado, maio 28, 2016

O Triunfo da Morte


Bruegel, o Velho, O Triunfo da Morte, c. 1562, Museu do Prado

Duas obras, em particular, viriam a possuí-lo [a Elias Canetti], embora com efeitos contrários. O Triunfo da Morte, de Bruegel, parecia confirmar a mensagem de Gilgamesh. A energia da resistência à morte que pulsa nas numerosas figuras da composição invadiu a consciência de Canetti. Embora a morte triunfe, a luta representada dos que a combatem mantém uma dignidade eminente, e é ela que liga todos os homens uns aos outros.
George Steiner
 ____________________

Fonte: George Steiner, in Robert Boyers (org.) George Steiner em The New Yorker, Gradiva, 2010, pág. 338.   

quinta-feira, maio 19, 2016

Odiosa vingança

Levadas ao excesso, as vinganças dos homens tornam-se odiosas aos deuses.

Heródoto
________________________________

Fonte: Heródoto, Histórias – Livro 4º, Edições 70. 2000. Pág. 154.

domingo, maio 15, 2016

Vitória

Vitória da Samotrácia
A Vitória é sempre alada.

Venceu o Benfica.

sexta-feira, maio 13, 2016

Liberdade para escolher

Escolham, escolham livremente. Mas não façam os outros pagar pelas vossas escolhas.

Como contribuinte não estou disposto a engordar os bolsos dos patrões dos colégios privados. Que as minhas parcas contribuições se dirijam à escola pública, onde há gente que precisa de ser apoiada, e que, sem a escola pública, nunca iria à escola.

Se optarem pelo ensino privado (e aqui ninguém vos priva dessa liberdade, ó liberais de pacotilha), então que paguem do vosso bolso. Deixem o bolso dos contribuintes e os escassos recursos financeiros do Estado em paz.

E de uma vez por todas, deixem-se de tretas e de birras, que aqui ninguém vos priva da liberdade para escolher.

quinta-feira, maio 12, 2016

Shit happens!

O livro de Nassim Taleb, O Cisne Negro, volvidas 196 páginas, está a tornar-se maçador. Trata-se de uma repetição ad nauseam do mesmo argumento, com exemplos e mais exemplos. E o que argumenta ele?

Que os cisnes negros existem. Que não se pode prever o imprevisível. Que os improváveis acontecem quando menos se espera. Que há “cisnes negros” por todo o lado. Que algo de improvável pode até estar já em andamento, contudo ainda não adquiriu uma dimensão que lhe dê visibilidade e impacto. Que o que desconhecemos ultrapassa infinitamente o que conhecemos (o velho argumento de Popper, de que nos assemelhamos mais uns aos outros pela infinidade de coisas que desconhecemos do que nos diferenciamos uns dos outros pelo pouco que cada um conhece). Que muitas explicações e certezas relativas à causa dos fenómenos só surgem a ex post facto, e por vezes erroneamente. Que estamos longe, muito longe, de conhecer todas as causas dos fenómenos. Que há causas que nos escapam e sempre escaparão.

Enfim, é a velha história.

Shit happens!

segunda-feira, abril 25, 2016

Democracia hoje

Nada é garantido. Quantas vezes as democracias caíram, exactamente no preciso momento em que menos se esperava? Muitas ameaças pairam hoje no ar, como abutres de olhos postos num moribundo cambaleante. Estranhas ditaduras espreitam – a visão mercantil sobre o mundo e sobre a vida, os lacaios das elites plutocráticas, burocratas em organismos supranacionais não democráticos, que ditam as regras em desfavor do povo chão, a acção de multinacionais neocoloniais nos países do Sul, o sentido de classe e de “guerra de classes” por parte de um todo poderoso 1% contra os restantes 99%, novos feudos e feudalismos, novos fascismos. As democracias dão ténues sinais de padecimento, como pequenas brechas num dique prestes a rebentar. Festejamos hoje a democracia, mas é bom estar alerta. Nada é garantido.

sábado, abril 23, 2016

Classificação de sistemas caóticos

Existem duas formas de sistemas caóticos. O caos de nível um é o que não reage às previsões acerca de si mesmo. O clima, por exemplo, é um sistema caótico de nível um. Apesar de ser influenciado por uma miríade de factores, podemos programar modelos informáticos que tomam em consideração esses factores e produzem previsões cada vez melhores.


O caos de nível dois é o que reage às previsões acerca de si próprio e, por isso, nunca pode ser previsto com exactidão. Os mercados, por exemplo, são um sistema caótico de nível dois. O que acontecerá se desenvolvermos um programa informático que faça previsões com cem por cento de exatidão sobre o preço de amanhã do petróleo? O preço do petróleo reagirá imediatamente à previsão, que, como tal, acabará por não se concretizar.

Yuval Harari, De Animais a Deuses, História Breve da Humanidade, Vogais, 2013, pág.288-289

segunda-feira, abril 18, 2016

A antibiblioteca

Os livros lidos possuem um valor largamente inferior aos não lidos. A biblioteca deve conter tanto daquilo que não sabemos quanto os nossos meios financeiros, as taxas de juro do crédito à habitação e o mercado imobiliário, com as dificuldades que actualmente nos coloca, nos permitirem. Acumulamos mais conhecimento e mais livros à medida que envelhecemos e o crescente número de livros não lidos nas prateleiras observar-nos-à de forma ameaçadora. Na verdade, quanto mais sabemos, mais extensas são as filas de livros por ler. Chamemos a esta colecção de livros não lidos antibiblioteca.    

Nicholas Taleb, O Cisne Negro, Dom Quixote, 2008, pág. 29

***

O livro de Nicholas Taleb encontra-se agora em processo de desvalorização. Acabou de abandonar a antibiblioteca e será integrado em breve na biblioteca.

A acumulação de livros não lidos nas prateleiras é proporcional ao tempo que passa,  à curiosidade, à insaciável sede de saber, e, pior do que tudo, ao consumismo infrene.

sexta-feira, abril 15, 2016

Miliciana empunhando uma pistola

Gerda Taro, Miliciana Empunhando Uma Pistola, 1936 
(Guerra Civil de Espanha) 

***

Gerda Taro (1910-1937)

Gerda Taro e Endre Friedmann (Robert Capa)

segunda-feira, abril 04, 2016

Mona Lisa (La Gioconda)

Leonardo da Vinci, Mona Lisa, c. 1503-1505

domingo, abril 03, 2016

O seguro de vida de Assad

Sabemos agora que Assad, o criminoso de guerra contra a Humanidade, só ainda se sustém porque existe uma base russa no território sírio. É o seu seguro de vida. Caso essa base não existisse, o seu destino teria sido o mesmo que o de Sadam ou o de Kadafi, ou ainda o de Mubarak, esses déspotas orientais. O problema é que a Síria, nessa circunstância, estaria hoje transformada numa Líbia, onde reina a anarquia, ou num Iraque. A entrada em campo dos terroristas do Daesh, outros criminosos contra a Humanidade, entre outros, conduziu ao descrédito toda e qualquer oposição séria a Assad, para mal dos sírios. E há já quem pense que, mal por mal, que fique por lá o Assad. Também para mal dos sírios, que saem sempre mal nesta história, e saem da Síria. E há já também entre nós quem lastime a queda de Kadafi e de Sadam, pois a anarquia que se seguiu está à vista de todos.

Há uma importante lição a tirar de toda esta história: tentar impor a democracia à bomba, ou até de outras formas menos agressivas, nos estados do Médio e do Próximo Oriente, não resulta. Trata-se de um erro crasso só atribuível a quem despreza a história longa, pois antes até dos tempos de Heródoto, têm sido os reinos despóticos ou as monarquias que sempre por ali vingaram, e estas reagem continuamente contra toda e qualquer tentativa de imposição da democracia.

Ali a democracia não funciona, nem quer funcionar.

sábado, abril 02, 2016

O diabo da submissão

No dia seguinte, Seutes deitou fogo às aldeias; não ficou uma casa intacta. O seu objectivo era, semeando o terror, fazer sentir aos habitantes a sorte que os esperava se não se apressassem a fazer acto de submissão.

Xenofonte, A Retirada dos Dez Mil, Bertrand Editora, Lisboa, 2014, na página 238.
(Anábase, traduzida por Aquilino Ribeiro, que também escreveu o prefácio )


Uma metáfora!
Eis o terrorismo, oriental e ancestral, visando a submissão de aldeões. Sempre a submissão. O diabo da submissão.

***

sexta-feira, abril 01, 2016

Imagem do dia: Costa Vicentina, com horizonte curvo



© AMCD

Agora que a Primavera arribou

Dedicada a Torquato da Luz

Agora que a Primavera arribou à tua cidade, lembro-te poeta.
Sim, ela veio numa embarcação e subiu o Tejo. A sua nau deu duas voltas ao estuário e atracou. Exactamente no Cais das Colunas.
Ela desembarcou poeta.
Procurou-te e estranhou a tua ausência. A tua ausência, poeta.

A Primavera é uma esteta, poeta. Já não consegue imaginar outra cidade mais bela.


quinta-feira, março 31, 2016

Eles querem lá saber de teorias

Na verdade, fazer é aprender.

Aristóteles, Ética a Nicómaco, Quetzal Editores, Lisboa, 2004, p. 43.

***

Mas evitai dar-lhe uma cana de pesca sem ao menos dizer-lhe para que serve ou como funciona, sob pena de a mesma ser arremessada ao mar sem qualquer préstimo. Ouviste, ó construtivista. A teoria não pode ser dispensada, por muito que isso te custe e ainda que os adolescentes tapem os ouvidos às teorias.

Eles querem lá saber de teorias, dizes. Querem fazer. Querem errar. Querem aprender. Eles querem lá saber de teorias. Aprendem por tentativa e erro.

E assim se enche o rio de canas de pesca arremessadas e mal empregadas, digo eu. 

Eles querem lá saber de teorias, de rios e de canas de pesca.

Aconteceu, aconteceu.

Nada do que já aconteceu poderá, contudo, ser ainda objecto de decisão. Ninguém pode ainda decidir se Tróia terá sido destruída. Assim, ninguém delibera acerca do que já aconteceu mas sobre o futuro e o que é possível. Ora já não é possível que o que sucedeu não tenha sucedido. Por esse motivo, diz Agatão correctamente: Apenas disto está até um Deus privado, desfazer o que tiver sido feito.  

Aristóteles, Ética a Nicómaco, Quetzal Editores, Lisboa, 2004, p. 135.

quarta-feira, março 30, 2016

A cacofonia das gerações e a mudança

Sucede que hoje, sobre o mesmo palco terrestre e nacional, “convivendo e interagindo dentro de um espaço social comum” (Bauman), existem mais gerações do que nunca. Sucede ainda que há uma rápida sucessão e acréscimo de gerações no tempo. Rapidamente deixamos de nos identificar geracionalmente com os que diferem poucos anos de idade em relação a nós. Essas diferenças manifestam-se nas diversas escalas de atitudes e valores que cada geração parece determinar como sendo as mais importantes e pelas quais, de uma forma geral, se guiam. A identificação com uma determinada geração encontra-se cada vez mais confinada ou limitada a períodos mais curtos. Assim verifica-se que os períodos geracionais já não se circunscrevem, por exemplo, às décadas – a “geração de 60”, a “de 70”, a “de 80”, etc., como era comummente dizer-se. Isso é coisa do passado. Agora na mesma década e no mesmo espaço social convivem várias gerações. E parece ser essa a causa da percepção da acelerada mudança em que vivemos mergulhados. A crise, parece portanto ser hoje mais profunda do que nunca. Mas que crise? “Crise da ordem mundial”, “crise de valores”, “crise da cultura”, “crise das artes e inúmeras outras crises descobertas diariamente em áreas sempre novas da vida humana.” (Baumman, 2000)

“Geração X”, “geração rasca”, “geração nem nem”, são, por exemplo, designações para gerações que partilham o mesmo espaço social (quando não competem entre si, pelo domínio do espaço e do tempo). São gerações contemporâneas que se interseccionam, mas muito pouco, e os elementos que as integram têm cada vez menos fundamentos para se identificarem entre si.

***

Excerto da obra, Em Busca da Política (1999), de Zygmunt Bauman, condutor desta reflexão:

«O que precisa ser explicado, em especial, é a intensidade incomumente alta da preocupação pública atual com a “crise da ordem mundial”, a “crise de valores”, a “crise da cultura”, a “crise das artes” e inúmeras outras crises descobertas diariamente em áreas sempre novas da vida humana.

Diz-se que, embora o mundo tenha estado sempre em mudança, nunca antes as mudanças foram tantas nem tão profundas e que o rápido aumento da quantidade e profundidade das mudanças torna muito mais difícil a permanente tarefa humana da auto-orientação.

Um pouco menos óbvia mas resposta também relativamente simples seria assinalar que nunca antes eventos e transformações fundamentais que marcam as gerações envelheceram e desapareceram tão rápido quanto hoje, sucedendo-se com enorme velocidade, e que consequentemente os períodos de tempo de gerações específicas são hoje mais curtos do que nunca — alguns anos e não algumas décadas. E portanto o número de gerações diferentes, cada uma preservando suas experiências e expectativas mas convivendo e interagindo dentro de um espaço social comum, aumentou enormemente. Esse fato explica em parte a impressionante polifonia (alguns diriam cacofonia) da cena pública e a consequente dificuldade de comunicação e de se chegar a um acordo apesar de todo o inegável progresso da tecnologia da tradução.»

Zygmunt Bauman, Em Busca da Política, Jorge Zahar Editora, Rio de Janeiro, 2000

(os negritos são nossos) 

Etiquetas