sexta-feira, agosto 05, 2022

Eras cerebrais

 Na Era da Máquina o cérebro maquinava. Na Era do Computador o cérebro computa, processa. O que fará o cérebro nas futuras eras? Teremos de esperar. Ou morrer.

A melancolia deu lugar à depressão. Compressões e descompressões da Era Industrial. Descompensações. Hoje o cérebro esturrica – burnout – como um computador sobreaquecido pelo excesso de processamento. Excesso de informação processada, pois não estamos nós na Era da Informação? Ou da desinformação? A ter em atenção: informação ≠ saber.

O cérebro nem é uma máquina nem um computador, felizmente. O que ele é ainda nos transcende. Felizmente.

quinta-feira, agosto 04, 2022

Das leis da Física

A reacção é sempre uma resposta à acção. Os activismos delirantes (enquadrados pelo movimento woke) e a teologia de mercado (neoliberalismo) motivaram a emergência de movimentos reactivos igualmente delirantes. Agora queixam-se da ascensão da extrema-direita reaccionária. Pois ela aí está, purulenta, brotando por todos os poros do corpo social.

terça-feira, agosto 02, 2022

A importância das coisas

 As coisas só são importantes para quem lhes dá importância.

Mas há quem não dê às coisas a devida importância.

sexta-feira, julho 29, 2022

O futuro da civilização não parece muito risonho

Kenneth Clark [1969], Civilização, O Contributo da Europa para a Civilização Universal, Gradiva, 2ª ed., 2022

⭐⭐⭐⭐


«A incompreensibilidade do nosso novo cosmo parece-me, em última análise, a razão para o caos da arte moderna. Sei pouco mais do que nada sobre ciência, mas passei a minha vida a estudar a arte, e estou completamente perplexo com o que se passa hoje. Às vezes gosto do que vejo, mas quando leio os críticos modernos percebo que as minhas preferências são puramente acidentais.

Contudo, no mundo da acção algumas coisas são óbvias - tão óbvias que hesito em repeti-las. Uma delas é a nossa dependência cada vez maior das máquinas. Deixaram de ser ferramentas e passaram a dar-nos instruções. Da metralhadora Maxim ao computador, são, na sua maior parte, meios através dos quais uma minoria consegue subjugar os homens livres.

Outra das nossas especialidades é a nossa ânsia de destruição. Com a ajuda das máquinas, demos o nosso melhor para nos destruirmos em duas guerras, e ao fazê-lo libertámos uma enxurrada de maldade, que as pessoas inteligentes tentaram justificar com o elogio da violência, «teatros de crueldade» e por aí adiante. Juntemos a isto a memória dessa companheira sombria que está sempre connosco, como o reverso do anjo da guarda, silencioso, invisível, quase irreal – e, no entanto, inquestionavelmente presente e pronta a afirmar-se ao toque de um botão, e teremos de reconhecer que o futuro da civilização não parece muito risonho.»

Kenneth Clark, op. cit., pp. 409-411.

*****

Se procura o cubismo, o dadaísmo, o surrealismo, enfim, a arte moderna e pós-moderna, não os encontrará por aqui. Esses movimentos artísticos não se contam entre as grandes contribuições da Europa para a Civilização. A arte moderna está num caos. As palavras de Kenneth Clark sobre a actual situação da arte ressoam a decadência de uma civilização e até da Civilização. Estaremos já a viver uma Era crepuscular? Muitas são as vozes a anunciá-lo. A de Kenneth Clark é uma delas. São demasiadas vozes para que fiquemos impávidos e serenos, sem partir para a acção. 

Mas talvez já seja tarde. Os novos bárbaros já estão na cidade. E não, não são os imigrantes, nem os refugiados.


Joseph-Noël Sylvestre, O Saque de Roma pelos Bárbaros, em 410 d.C., 1890

domingo, julho 24, 2022

Sempre o problema que temos connosco mesmos


Como quase todos os Portugueses, eu quase me orgulho de ser português e quase amo Portugal. No «quase» vai a distância bastante para não enlouquecer, entre o que se quer e o que se vê.

Miguel Esteves Cardoso


 “A Causa das Coisas” in A Causa das Coisas, Círculo de Leitores, 1987, p. 412


sexta-feira, julho 22, 2022

Do insulto: a propósito de perguntas insultuosas

 Sentir-se ofendido e vítima continua a ser uma estratégia bastante rentável perante quem nos confronta.

João Maurício Brás, Os Novos Bárbaros, Opera Omnia, 2021, p.22

 

Se alguém ou alguma coisa nos ofende – isto é, nos insulta de uma forma ou de outra – somos, sem dúvida, cúmplices do insulto. Porquê? Porque nos deixámos ofender pelo insulto.

Lou Marinoff, Mais Platão, Menos Prozac!, Editorial Presença, 2002, p. 59

 

Se quiserem, as pessoas encontram sempre um motivo para se ofenderem, mas, nesse caso, o problema é delas. O seu problema é que têm necessidade de sentirem que estão a ser ofendidas.

Lou Marinoff, Mais Platão, Menos Prozac!, Editorial Presença, 2002, p. 60

quinta-feira, julho 21, 2022

Livros lidos: O Atraso Português, Modo de Ser ou Modo de Estar

 

João Maurício Brás, O Atraso Português, Modo de Ser ou Modo de Estar, Guerra & Paz, 2022


µµµµµ


Um livro que todos os adultos portugueses, sejam jovens, maduros ou velhos (sim, há jovens que são adultos e adultos que são jovens, embora a infantilização dos adultos prolifere nos nossos tempos, na civilização ocidental: adultos infantilizados, para não dizer imbecilizados, é, aliás, coisa que não falta) deviam ler para saberem em que país estão metidos, em que povo estão metidos e por que pensam como pensam. E por isso mesmo, um livro que os responsáveis (e irresponsáveis) políticos deviam ler, os que nos governam e os que nos desgovernam.

Desde a Causa das Coisas (um o melhor livro de Miguel Esteves Cardoso) que não liamos com tanto gosto um livro sobre o nosso país e sobre nós, os portugueses, embora Miguel Esteves Cardoso tenha optado pelo humor para nos retratar. João Maurício Brás segue outros caminhos, da Filosofia à História, passando pela Política, Economia, Sociologia, Literatura, e por aí fora, apoiando-se em autores gigantes (entre os quais, os nossos gigantes), com destaque para Antero de Quental. E a sua escrita é clara e acessível ao comum dos mortais.

Um livro que responde à questão: por que temos a mentalidade que temos? Porque é uma questão mental, aquela que temos connosco mesmos. João Maurício Brás, descansa-nos logo à partida: o atraso português não é ôntico, é estrutural, é mental (mentalidade herdada de séculos e ainda por nós alimentada, sem quase nos apercebermos). Estamos efectivamente presos a uma teia mental da qual é muito difícil libertar-nos, principalmente se não o reconhecermos. Difícil, mas não impossível. As mentalidades também mudam, mas demoram tempo a mudar.

Voltaremos a este livro.

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Do livro:

 

Não há um modo de ser português, identificado num antes, num agora e para sempre.

Brás, op. cit., pág. 80

 

O atraso como resultado de características ônticas que explicariam a identidade de alguns povos teve o seu tempo áureo.

Brás, op. cit., pág. 81

 

O destino de cada povo é, em muito, o que ele quer e consente que seja, a identidade de um país também é a ideia de futuro que dele se tem e o que cada um está disposto a fazer.

Brás, op. cit., pág. 16

A intransigência para com os políticos e os média, mas também para connosco, é outro passo incontornável para invertermos essa tendência de persistirmos em aprofundar a nossa miséria.

Brás, op. cit., pág. 16

sábado, julho 16, 2022

Pó e estrelas


Nebulosa de Eta Carinae

quarta-feira, maio 18, 2022

Tempos interessantes

 «Viveis tempos interessantes», disse Paul Valéry a uma plateia de universitários de Paris, no dia 13 de Julho de 1932. «Os tempos interessantes são sempre tempos enigmáticos que não prometem descanso, nem prosperidade, continuidade nem segurança», e acrescentou: «Nunca a humanidade juntou tanto poder e tanta desordem, tanta apreensão e tantas diversões, tanto conhecimento e tanta incerteza.»

Paul Valéry, citado por Martin Gilbert, História do Século XX, 2ª ed., Dom Quixote, 2011, pág. 206

***

Voltámos aos tempos interessantes, agora no século XXI. Talvez ainda mais interessantes, no sentido que Paul Valéry dá à palavra.

domingo, maio 15, 2022

O fogo ateado na Europa Oriental

Atearam um grande fogo na Europa Oriental, pensando que não se queimariam, longe que estavam, do outro lado do oceano (EUA), ou fora da Europa continental (Reino Unido). Os que estavam mais próximos ficariam com incumbência de o apagar, com prejuízo seu e ganho deles. E ateado o fogo, foram lançando mais lenha e mais gasolina. A Europa Ocidental e continental, iria provavelmente sentir algum calor. Talvez se queimasse, quem sabe? A Europa Oriental, arderia. E que conveniente seria para eles uma guerra na Europa e uma Europa a arder.

Findo o mercado do Afeganistão onde permaneceram 20 anos a usar quantidades massivas de armas e equipamento militar, a indústria do armamento tinha de arranjar outro mercado para escoar a sua imensa produção. Além disso, havia ainda que vender excedentes de gás natural. 

Globalização, como é sabido, é acima de tudo interdependência entre países e espaços económicos. Como não poderiam estar os países do centro e leste europeus numa relação de interdependência com a Rússia? Construíram gasodutos e oleodutos, pois então. Interdependência que, se continuasse a aprofundar-se, poderia ser um risco para outros espaços económicos rivais (e os EUA comportam-se como um espaço rival da U.E. no campo económico). Agora vendem quantidades massivas de armas a uma Europa que se rearma e, na verdade, que tem de se rearmar e faz bem em rearmar-se já. Uma Alemanha que se rearma, (compra F-35 aos EUA, e já pensa em encomendar o Domo de Ferro aos israelitas) e que porá a sua indústria e engenharia a produzir e a inventar mais armas. Rapidamente terá armas nucleares, se quiser. Rapidamente se converterá numa grande potência militar. Rezam as Crónicas da Segunda Guerra Mundial* que a Alemanha ao entrar na guerra tinha 57 submarinos, durante a guerra pôs ao serviço 1 111 e no final ainda lhe sobravam 785.

A Europa tem de rearmar-se porque nunca se sabe que tipo de putin se sentará no Kremlin, ou que tipo de trump ou de biden se sentará na Casa Branca. Porque se hoje é Putin, amanhã a ameaça, poderá vir de outro lado. Ou até, de vários lados.

E, além disso, continuamos todos muito "interdependentes" da mui democrática China, respeitadora zelosa dos Direitos Humanos. E que dizer da nossa interdependência com a mui democrática Turquia, um paraíso dos Direitos Humanos, que ocupa o Norte de um país da U.E. e pertence à NATO. Quando Portugal integrou a NATO, no início, estava longe de ser uma democracia. Não nos venham falar agora de um conflito pela liberdade e pela democracia. A Ucrânia tem de lutar pela sua autodeterminação e liberdade contra o opressor russo. Agora tem. Mas este conflito podia ter sido evitado, se tivesse havido mais astúcia, inteligência e vontade. Ainda recordamos uma entrevista de Zelensky, antes do início da invasão russa. Como ziguezagueou o líder ucraniano.

Dizem os brasileiros que as onças se cutucam com varas longas. Neste caso não houve esse cuidado com a onça russa.

Este conflito foi atiçado. Podia não ter sido. As cidades podiam estar de pé e os que morreram podiam estar vivos. A Ucrânia podia ter jogado com o tempo, mas foi colocada ante uma emergência. É uma tragédia, porque, por definição “uma tragédia é um desastre que podia ter sido evitado”**.

A U.E. não pode andar ao sabor dos interesses das grandes potências ou tornar-se um joguete dos Estados Unidos da América. A U.E. não pode ser uma extensão do Império Americano, que nos domina com o seu soft power, nem de nenhum outro. Macron já percebeu isso e os alemães também. E De Gaulle tinha uma certa razão. A França foi passada para trás pelos americanos e ingleses na venda de submarinos à Austrália antes desta guerra ter começado, tal o desespero da indústria de armamento americana, e o chanceler alemão foi humilhado por Biden, quando este, a seu lado, numa conferência de imprensa, respondeu por ele, que fecharia o gasoduto Nord Stream 2 alemão, como se fosse ele o Imperador e o chanceler um procônsul. O chanceler permaneceu sempre calado, mesmo quando antes lhe colocaram a questão.

É disto que a Europa tem de livrar-se: dos ditames dos Putins e dos Bidens (e dos Trumps) deste mundo. Chegou a hora da Europa, e ela sozinha, seguir e determinar o seu próprio rumo.

Aos americanos estaremos sempre gratos pelo sangue que derramaram no passado, nos solos da Europa Ocidental, para a libertarem do imperialismo e do fascismo. Mas os tempos agora são outros, os americanos são outros e a Europa é outra.

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(*) AAVV, Grande Crónica da Segunda Guerra Mundial, Vol. 3. Selecções do Readers's Digest, 1978, pág. 458.


(**) Eliot Ackerman, James Stavridis, 2034, 2.ª ed., Penguin Random House, 2022, pág. 251.

segunda-feira, maio 09, 2022

O trauma da Primeira Guerra, da Segunda e da Terceira

Ninguém foi para a Segunda Guerra Mundial a cantar, nem mesmo os alemães.

Eric Hobsbawn

A Era dos Extremos, Editorial Presença, 3ª ed., 2002, p. 155.

****

Cantavam enquanto marchavam para a guerra, os soldados da Primeira Guerra. Alegremente marchando para o matadouro. Isto no início, quando ignoravam a lama e a metralha, o gás e o arame farpado.

Para a Segunda Guerra marcharam em silêncio, temerosos e soturnos, com a memória da Primeira nos encéfalos.

Para a Terceira Guerra, como marcharão? Com lágrimas? Alguém marchará? Ou antes da bota cardada bater no chão, o chão marchará e os corpos arderão como tochas? Não, para a Terceira Guerra ninguém marchará. Só os loucos.

E no entanto, hoje é dia de marchas e de memória em Moscovo. Comemoram, mas não parecem estar a fazer um correcto uso da memória. 
Se não, não marchariam como marcham, carreando os monstros nucleares da Terceira Guerra pela trela. Não. Nem agiriam como agem. Nem gritariam como gritam: hurrá! hurrá! hurráaaaaaaaaaaaaaa!


terça-feira, maio 03, 2022

quarta-feira, abril 27, 2022

Escaladas

 

Eliot Ackerman, James Stavridis, 2034, 2ª ed., Penguin Random House, 2022.

µµµµ

Boa leitura, para quem gosta de escaladas. Nucleares é claro. Para lá já estamos a caminhar, não é verdade?! 

Impensável, diz Guterres. Pensável, dizem Ackerman e Stavridis. Pensaram e escreveram.

Esperemos que não passe da ficção científica.

Um bom livro, escrito por quem sabe do ofício militar.

segunda-feira, abril 25, 2022

 Ditadura nunca mais!


25 de Abril, sempre!


Mas o desenvolvimento e a democracia* ainda estão por cumprir.


O elevador social? 

A maioria, levou-os do rés-do-chão ao 1º andar, enquanto os ricos do costume subiam do 10º ao 50º.

Qual elevador social?

Prossegue ainda a reprodução social.

O filho do pobre, pobre será e o filho do rico, rico será.

Pesa uma dívida enorme sobre a cabeça dos nossos filhos,

Criada pelos que nos desgovernaram.

Ditosa pátria.

Equipar as Forças Armadas. Pois.

Quem pensam que somos nós?

O país com uma das maiores dívidas do mundo

tem de se defender. Não serão os outros a defendê-lo.

O país com uma das maiores dívidas do mundo

não é um Estado vassalo.

Mas o cobertor é demasiado pequeno: tapamos o peito, destapamos os pés.

Vamos equipar as Forças Armadas, pois.

Ou serão carreiras e salários o que mais importa?

O ordenado dos generais e dos marechais?

(Quantos generais e almirantes, meu Deus.)

Ou serão os canhões e os porta-aviões?

E o que vamos nós destapar, rica pátria?

A Educação, a Saúde, a Segurança Social?

Deixem-me rir.

O país com uma das maiores dívidas do mundo.

E se começassem por pagá-la?


É o que me apraz dizer no dia de hoje.

Lamento.


Que cantem, pois.

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(*) "No seu sentido mais forte, democracia significa um poder que não tem representação, que é exercido diretamente. O sistema representativo, tal como funciona na Europa desde o século XIX, foi criado por medo da democracia. A ideia subjacente é a de que o poder das massas, ou da maioria, é perigoso. E o sistema representativo surge para impedir o que seria uma democracia efetiva. É qualquer coisa como um ‘assunto de família’: um pequeno número de eleitores que escolhem um ainda menor número de representantes. No século XIX, com a extensão do sufrágio, criou-se uma situação que é totalmente ilegítima: o casamento entre representação e democracia. Assim surge este sistema misto que não é democrático e que também não é verdadeiramente representativo. Criou-se algo que ia contra a democracia, a saber, uma classe de políticos profissionais, de gente que é especialista no poder. Ora, isto é contrário à democracia, assim como à própria lógica do sistema representativo que supõe uma proximidade entre o representante e o representado. Este sistema ilegítimo dá, por sua vez, um enorme poder aos governos."


Jacques Rancière, Expresso, Revista E, 22 de Abril de 2022, p.46.

sexta-feira, abril 15, 2022

Huntington tinha razão

 

Samuel Huntington, O Choque de Civilizações, 1ª ed., Gradiva, 1999

Afinal foi Huntington quem tinha razão e não Fukuyama.

Do seu livro de 1996:

No entanto, aquela eleição [a presidencial de 1994] levantou a questão de a parte ocidental do país se separar da Ucrânia que estava mais perto da Rússia. Alguns russos concordariam. Como disse um general russo, «em cinco, dez ou quinze anos, a Ucrânia, ou melhor, a Ucrânia Oriental, voltará para nós. A Ucrânia Ocidental que vá para o inferno!» Contudo, essa Ucrânia, uniata e ocidentalista, só seria viável com uma forte e eficaz ajuda ocidental. Porém, tal ajuda só será provável se as relações entre o Ocidente e a Rússia se deteriorarem gravemente para se assemelharem às que existiam no período da guerra fria.

Samuel Huntington, op. cit, pág. 196.


sábado, abril 09, 2022

A União faz a força.




Viva a União Europeia!

Viva Ursula von der Leyen!

É ou não é uma bofetada na cara do Putin?

Onde está o Biden?
Onde está o Boris?

Ursula von der Leyen, honra-me, como cidadão da U.E., ao visitar Kiev durante uma guerra.

A mensagem?! "A Ucrânia pertence à família europeia." 

Alguém tem dúvidas?

sábado, março 26, 2022

O metro por casa


Para quando o Sol?

Para quando a paz?

Para quando a luz?

Para quando a corrida sob o céu limpo?

Para quando o brilho dos teus olhos alegres?

Para quando as brincadeiras no parque?

Para quando os teus braços e abraços?

Para quando, para quando, para quando,

os leves sonhos das noites tranquilas?   

quinta-feira, março 24, 2022

sexta-feira, março 11, 2022

O Grande Portão de Kiev


Kiev resiste! 

Pela liberdade!

Que os teus portões se fechem ante a ofensiva russa.

Que os soldados do pequeno czar esbarrem contra as tuas muralhas.

Que o teu bravo povo os trave

aos portões de Kiev.

Não passarão!
***

(Nota: Mussorgsky era russo. Mas não é o bom povo russo que está aqui em causa, nem a sua rica cultura, que também é europeia. É o pequeno czar imperialista que o oprime e os mafiosos que extraem as riquezas da Rússia, para seu enriquecimento pessoal e empobrecimento do povo russo, paralisado e oprimido por séculos de czarismo e imperialismo. O povo russo precisava de outra revolução que derrubasse este pequeno czar. Se o povo russo não faz a revolução, então que lute o ucraniano contra o opressor e lhe mostre como se liberta um país.)

domingo, março 06, 2022

Louco?!

 

Alguns já começaram a considerá-lo um inimputável ao insinuarem que ensandeceu, que está louco. Putin não é louco. O seu acto de guerra contra a Ucrânia demonstra crueldade. Chamem-lhe assassino. Um frio assassino. Frio à superfície, claro. Nunca se sabe o que lá vai por dentro.

 

Um orgulho desmedido e sem razão. Uma vaidade, presunçosa e imperial. O desejo em tornar a Rússia grande outra vez. Notou-se logo quando rechaçou qualquer ajuda para resgatar o Kursk do fundo do mar, há quase 22 dois anos, no ano 2000, no Mar de Barents. Vários países propuseram ajuda para resgatar o submarino nuclear e tentar salvar os marinheiros que lá estavam, mas Putin, dispensou sempre a ajuda. A Rússia trataria orgulhosamente dos seus. Os marinheiros morreram no fundo do mar.

 

Isto ajuda a perceber o homem. Não lhe chamem louco. A maldade não se deve confundir com a loucura. Os loucos têm sempre algum grau de impunidade.

Putin não é impune.

 

Viva a Ucrânia livre! Vivam os Ucranianos!

domingo, fevereiro 20, 2022

Quem quer muito, muito, uma guerra na Europa?














Uma desilusão.

Primeiro a debandada do  Afeganistão e agora isto.

Mas é preciso vender armas e gás natural. É preciso conquistar os mercados. É preciso conquistar o mundo, principalmente quando se sente o mundo fugir debaixo dos pés.

O Ocidente está dividido e o responsável não é apenas Putin. Os anglo-saxónicos parecem querer forçar uma guerra e enterrar qualquer solução diplomática, ao contrário dos alemães e dos franceses.

Mas por que razão não pode ser a Ucrânia como a Finlândia, que está na U.E. mas não na NATO?

A União Europeia está a ser bem tramada neste jogo.

Enquanto isso lá vão os EUA, exportando inflação.

sexta-feira, dezembro 31, 2021

Ano Novo

A vida de sempre.


Bom 2022!

A geografia, sempre a geografia

 

Tim Marshall, O Poder da Geografia, Desassossego/Saída de Emergência, 2021


⭐⭐⭐⭐ 


A “aniquilação do espaço pelo tempo”, expressão de Marx (1818-1883) ao constatar que o tempo de viagem entre localidades diminuía progressivamente por causa das novas tecnologias dos transportes e das telecomunicações, não significou de forma nenhuma que o espaço deixou de importar. Na verdade, nem o espaço, nem a geografia, foram aniquilados e pesam ainda hoje no tabuleiro geopolítico do mundo, se bem que, cada vez mais, o espaço sideral ganhe uma relevância crescente no jogo. Quem dominar o espaço cósmico dominará a geopolítica, dominará a Terra. É, portanto, para aí que se projecta a mais cerrada competição entre as potências mundiais. A ameaça pode vir agora de cima, bem acima das nossas cabeças. Parece que uma arma disparada lá do alto encontra mais facilmente o seu alvo cá em baixo.

 

Assim, Tim Marshall, que acaba no Prisioneiros da Geografia com um capítulo dedicado às disputas pelo Árctico, neste Poder da Geografia, termina com um capítulo sobre as disputas pelo domínio do espaço cósmico, não deixando, nesta obra, de abordar outros palcos com relevância geopolítica à superfície do planeta, como por exemplo, a Austrália, a Etiópia, a Grécia, a Turquia, o Sahel, entre outros. Esta obra continua, de certa forma, os Prisioneiros da Geografia.

****

Da obra lida: 


«A nível regional, as potências europeias, mormente Espanha, Itália e França, sabem todas que as suas políticas internas  serão afetadas pelo que acontecer no Sael. Nos anos pós 2015, quando chegou um milhão de refugiados e migrantes, assistiu-se a um aumento na polarização política e no ganho de terreno dos partidos extremistas.»

Tim Marshall, O Poder da Geografia, 2021, p. 212.


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À superfície da Terra, o presente e o futuro apontam já para a construção de muros, obstáculos às migrações humanas. A Era dos Muros e do arame farpado começou. A Era dos Muros, de Tim Marshall, aguarda leitura.

quarta-feira, dezembro 29, 2021

Livros lidos: Apeirogon, Viagens Infinitas

 


Colum McCann, Apeirogon, Viagens Infinitas, Porto Editora, 2021.


⭐⭐⭐⭐


Este ano a Assembleia da República legislou sobre o alargamento do período do luto parental, tendo aprovado a passagem desse período, de cinco para vinte dias. Como é sabido, vinte dias não apagam de forma alguma a dor da perda de um filho. Toda uma vida não basta. Se alguma dúvida houver, leiam o Apeirogon, de Colum McCann. A dor da perda atravessa o livro e as muitas histórias que nele se contam.

 

O pano de fundo, histórico e geográfico, é Israel e a Palestina. E, como se refere repetidamente em várias passagens desde o início, aqui, a geografia é tudo.

 

O conflito israelo-palestiniano nunca me entusiasmou (entusiasmará alguém?). É cansativo estar sempre a ouvir notícias do eterno conflito que grassa naquela região. Foi por isso que hesitei na compra deste livro. Folheei-o várias vezes antes de o adquirir, sempre que fui à livraria. Estou convencido que entre Israel e a Palestina nunca haverá paz enquanto o homem da rua não a procurar no fundo do seu coração. Os seus líderes até podem assinar acordos visando a paz, sob o patrocínio das grandes potências – fazem belas fotografias os apertos de mão – mas enquanto as correntes do ódio não forem quebradas no âmago do homem da rua, que sofre pela perda dos seus entes queridos, e enquanto esse homem canalizar o seu sofrimento para alimentar o ódio que sente, jamais haverá paz. A violência gera violência, dizem. Mas não tem de ser sempre assim. Ali, a paz não pode ser imposta de cima para baixo. Ela tem de partir de baixo, da vontade do povo chão. Ela tem de partir de uma espécie de educação de cada homem.

 

Quando era jovem dizia que um dia haveria de ter barbas brancas e ainda ouviria falar do conflito entre judeus e palestinianos. Pois bem, a barba já me nasce branca e o conflito prossegue.

 

Na contracapa do livro, alguém do Guardian escreve que se trata de uma obra-prima, um romance, que mudará o mundo. Há muita ingenuidade nisto.

 

****

 

Da obra elejo a seguinte passagem, como poderia eleger outra. É uma passagem que ajuda a compreender a designação de Povo do Livro, atribuída aos judeus, e ao horror que sentem quando iconoclastas destroem livros:

 

«457. Na tradição judaica, é proibido deitar fora escritos que invoquem o nome de Deus. Livros de orações. Pergaminhos. Enciclopédias. Trajes. Atilhos de filactérios. Até mesmo panfletos ou livros de banda desenhada. Em vez de serem destruídos, os textos são enterrados numa genizah, uma sepultura para a palavra escrita.»

 

«456. Os manuscritos do Mar Morto foram originalmente escondidos em vasos de barro e colocados em grutas para os proteger. Se não voltassem a se encontrados, a escrita decompor-se-ia naturalmente. Nos vasos selados – sem luz nem chuva -, os manuscritos podiam ir apodrecendo lentamente.»

 

«455. A genizah nos dias de hoje encontra-se muitas vezes no sótão ou na cave de uma sinagoga, ou até mesmo num contentor com autorização para estar na rua, à porta.»

 

Colum McCann, Apeirogon, Viagens Infinitas, Porto Editora, 2021, p. 284.

domingo, dezembro 26, 2021

Richard Rogers

Richard Rogers (1933-2021)

Um destes dias morreu o famoso arquitecto Richard Rogers e, lamentavelmente, não tive tempo de postar uma homenagem, na hora, a esse grande homem do qual conhecia tão pouco: o Domo do Milénio, em Londres e, mais antigo, o Centro Georges Pompidou, em Paris, eram obras suas. Fiquei a saber há pouco. Mas era outra a sua obra que me era familiar: o livro Cidades para um Pequeno Planeta, da editora Gustavo Gili (GG), de 2001.

 

A criação da moderna cidade compacta exige a rejeição do modelo de desenvolvimento monofuncional e a predominância do automóvel. A questão é como pensar e planear cidades, onde as comunidades prosperem e a mobilidade aumente, como buscar a mobilidade do cidadão, sem permitir a destruição da vida comunitária pelo automóvel, além de como intensificar o uso de sistemas eficientes de transporte e reequilibrar o uso das nossas ruas em favor do pedestre e da comunidade.  

 

Richard Rogers, op. cit., pág. 38

 

Nitidamente, as preocupações de Richard Rogers eram a prosperidade da comunidade, a mobilidade do cidadão, a vida comunitária, o uso da rua em favor do pedestre e da comunidade. A comunidade, agora refugiada de si mesma no automóvel, nos edifícios de escritórios, nos centros comerciais e nos condomínios fechados. A comunidade fragmentada empobreceu a vida na cidade com largos segmentos que a compõem a abandonarem a vida de rua, a vida na rua. A vida saiu da rua. Passam por ali automóveis e, ocasionalmente, um pedestre.

 

Mas havia outras preocupações:

 

Acredito piamente na importância da cidadania e na vitalidade e humanidade que ela estimula. A cidadania manifesta-se em gestos cívicos planeados e de grande escala, mas também em gestos espontâneos e de pequena escala. Juntos, eles criam a rica diversidade da vida urbana.

 

Richard Rogers, op. cit., pág. 15

 

A necessidade de promover a cidadania que se sente escapar das nossas cidades com a perda de solidariedade e o avanço da indiferença. Vivemos em sociedades de indiferença (já o disse o Papa) e os indiferentes somos nós para com os quais os outros, os nossos concidadãos, se isso se lhes pode chamar, também se manifestam indiferentes. E parecemos todos indiferentes à nossa indiferença. Nem nos damos conta. Não somos apenas diferentes, somos indiferentes, e nisso somos iguais. A indiferença é inimiga da diversidade. E não há como escapar a isto. Como não poderíamos ser indiferentes aos que chegam a clamar por refúgio e abrigo, e que procurarão chegar cada vez mais, se somos indiferentes connosco?

Bem-vindos à cidade da indiferença, o que equivale dizer, à sociedade da indiferença. Era, portanto, necessário, para Richard Rogers, reanimar a cidadania nas ruas, nas cidades e nas sociedades, a cidadania em cuja importância Richard Rogers acreditava piamente.

 

O padrão-anti social do crescimento segmentado, causado por um desenvolvimento orientado apenas para o lucro, mostrou-se inadequado às necessidades da cidade.


Richard Rogers, op. cit., pág. 116.

 

Parece que não aprendemos nada.

 

Até sempre Richard Rogers.

sábado, dezembro 25, 2021

.


Não deixou obra escrita. Escreveu apenas uns rabiscos na areia, ensimesmado numa breve reflexão e, de seguida, apagou-os. "Quem nunca pecou que atire a primeira pedra", proferiu.


O que terá escrito?

quinta-feira, dezembro 09, 2021

In Memoriam

 

José Eduardo Pinto da Costa (1934-2021)

Os nossos melhores não são apenas os craques da bola ou os treinadores de futebol prestigiados lá fora. Entre nós há gente de grande qualidade com outros misteres. 

José Eduardo Pinto da Costa, era sem sombra de dúvida um dos nossos melhores.

Que descanse em paz.


sábado, setembro 11, 2021

sexta-feira, agosto 27, 2021

A debandada

 A retirada americana (ocidental, para ser mais preciso) é um desastre consumado: um falhanço. A morte de soldados americanos hoje, no festim bombista, devem estar a pesar na consciência de Biden.

O presidente Marcelo relativiza: “Quando há uma retirada assim, todas as soluções são más”. Sim, todas as soluções são más, mas há soluções mais más* do que outras. Uma “retirada assim” tem um nome: debandada.


(*) piores

quarta-feira, agosto 25, 2021

O passado não fica lá atrás

 

Jorge Luís Borges, Outras Inquirições, Quetzal, 2020.

⭐⭐⭐⭐

O passado é indestrutível; mais tarde ou mais cedo tornam todas as coisas, e uma das coisas que tornam é o projeto de abolir o passado.

Jorge Luís Borges, Op. cit, pág. 91

segunda-feira, agosto 23, 2021

O tempo não nos vencerá

 

Michel Houellebecq, Intervenções, Alfaguara, 2021.


⭐⭐⭐⭐


Compreendeu por fim o que toda a gente à sua volta sabia: quando já não somos desejáveis, deixamos de ter o direito ao desejo.

Michel Houellebecq, Op. cit., pág. 119.

 

Sei agora que o tempo não nos vencerá.

 Michel Houellebecq, Op. cit., pág. 147.

 

Não me esquecerão necessariamente depressa, mas serei esquecido ainda assim.

 Michel Houellebecq, Op. cit., pág. 160.



****

Só não é esquecido quem não viveu.

 

Acabo sempre por ir dar ao poema de Alfonso Canales. O poema que encerra a Verdade. Um poema onde me refugio sempre que a ideia do esquecimento me assombra.

 

É escusado alimentar lamentos sobre o esquecimento a que um dia seremos votados. Ser lembrado não é importante. O importante é viver (preferencialmente sem sofrimento e sem fazer sofrer os outros). Lamentou-se também uma vez José Saramago, ou talvez não tenha sido um lamento, mas uma mera constatação, de que os seus livros um dia seriam esquecidos numa prateleira qualquer, assim como o seu nome. Bastariam umas décadas ou um século.

 

Na verdade, no fim, ou mesmo antes do fim, só o pó subsistirá. Pó das estrelas.

 

Mesmo assim, TEREMOS VIVIDO.

 

Não, o tempo não nos vencerá.

domingo, agosto 22, 2021

Miramar


© AMCD 

sexta-feira, agosto 20, 2021

A estranha “reconquista” taliban

 É estranho. Não há contagem de mortos e feridos até agora, sabendo nós que a imprensa sensacionalista aproveitaria logo o facto se os houvesse. Uma reconquista sem mortos.

 

Outra estranheza: uma jornalista americana da CNN calcorreia as ruas de Cabul, incólume, e entrevista alguns talibans. Enquanto isso, a multidão apavorada procura escapar para o aeroporto.

Clarissa Ward, jornalista da CNN em Cabul

Os únicos mortos até agora, parecem resultar do descontrole da multidão e dos que se penduram irracionalmente nos trens de aterragem dos aviões de transporte militar, sendo atropelados na pista, ou caindo do céu. Parece que o pavor mata mais do que as balas.

 

Nas ruas os talibans assemelham-se a lobos no meio de cordeiros, ou melhor, a cães pastores entre os rebanhos. Tentam controlar a multidão. Alguns disparam para o ar, do cimo das pick-ups. Outros açoitam os transeuntes mais recalcitrantes.

 

As bandeiras dos talibans são brancas como a bandeira da paz, mas com inscrições. Fazem lembrar as bandeiras do Daesh, só que essas eram negras.  Questiono-me se as bandeiras dos talibans foram sempre brancas ou se são apenas brancas para esta ocasião. Veremos se as bandeiras brancas não se irão transformar em bandeiras negras até 31 de Agosto, data previamente anunciada para a conclusão da retirada americana.  Ou após essa data.

 

Até agora, a "reconquista" parece um 25 de Abril ao contrário, sem cravos, nem papoilas, na ponta das armas. Um 25 de Abril invertido, sem festa ou adesão popular. Um 25 de Abril que em vez de liberdade carrega servidão e opressão. 


É o querido mês de Agosto da sociedade tribal afegã. Um povo de pastores belicosos, do qual a guerra parece fazer parte dos costumes: chega o Verão, vem a guerra. Parece que para aquela gente a vida não seria a mesma sem ela.

 

Alguns dizem que esta "reconquista" é uma derrota para o império americano. Outros repetem à exaustão o cliché segundo o qual o Afeganistão é o cemitério dos impérios. Será mesmo assim? Creio que exageram.

 

Afinal não houve reconquista nenhuma: os talibans acabaram por ocupar um território que os americanos decidiram abandonar. Não podiam nem queriam ficar lá para sempre. Mas se quisessem ficariam.

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