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sábado, fevereiro 04, 2017
quarta-feira, fevereiro 01, 2017
É bem sabido que todas as vedações têm dois lados.
«É bem sabido que todas as
vedações têm dois lados. Dividem um espaço uniforme em exterior e interior. Mas
os que se encontram de um dos lados da vedação vêem o exterior onde os que
estão do outro lado vêem o interior. Os residentes dos condomínios isolam-se
por meio da sua vedação, do caos e da dureza que tornam a vida urbana
desconcertante, desagradável e vagamente ameaçadora, e ficam reclusos num oásis
de calma e segurança. Ao mesmo tempo, contudo, separam os outros dos lugares
decentes e seguros, cujos valores estão dispostos a defender encarniçadamente, e
abandonam-nos às mesmas ruas sórdidas e miseráveis de que fugiram sem olhar a
despesas. A vedação separa o ghetto
voluntário dos ricos e dos poderosos dos inumeráveis ghettos forçados em que os deserdados vivem. Para os que fazem
parte do ghetto voluntário, os
restantes ghettos são lugares onde
nunca porão os pés. Para os habitantes dos ghettos
involuntários, em contrapartida, o território a que estão confinados (ao
verem-se excluídos de todos os outros lugares) é um espaço do qual se encontram
proibidos de sair.»
Zygmunt Baumman, Confiança e Medo
na Cidade, Relógio D’Água, 2006
domingo, janeiro 29, 2017
Poema de Chico Buarque
Cotidiano
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã
Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de café
Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão
Seis da tarde como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão
Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã
Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de café
Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão
Seis da tarde como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão
Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor
Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã
Chico Buarque, 1984
domingo, janeiro 22, 2017
Do sistema educativo trumpeano
...an education system flush with cash, but
which leaves our young and beautiful students deprived of knowledge;
O que é verdade: a eleição de Trump só se explica pela falta de educação de muitos dos seus
concidadãos. Por outras palavras: só mal-educados votam num mal-educado.
Mas o dito também faz adivinhar a intenção de privatização do sistema educativo público daquele país.
Ainda o primeiro acto de Trump
A pouco e pouco ou muito rapidamente as incertezas
converter-se-ão em certezas. Certezas indesejáveis. Trump tomou posse a 20 de Janeiro
de 2017. Primeiro acto após o juramento, nesse mesmo dia, ainda a cadeira presidencial não tinha arrefecido do anterior presidente: a assinatura do Decreto que põe fim ao
“Obamacare”. E assim, num gesto rápido e sublinhado pela assinatura, o novo presidente expõe
mais de vinte milhões de americanos ao desabrigo assistencial na saúde: os mais
pobres dos pobres. Um nojo!
Trump days! First act!
Donald, no seu primeiro dia, na Sala Oval, dá uma machadada no Affordable Care Act (Obamacare), cuja assinatura foi aqui saudada, em 2010.
Consequência: 22 milhões de pessoas poderão perder apoio no
acesso aos serviços de saúde (health
insurance), de acordo com uma notícia do New York Times.
sábado, janeiro 14, 2017
Segura e murada
Para Bauman o progresso das
sociedades e das épocas oscila como um pêndulo, não sendo unidireccional (evitaria
ele, dessa forma, a antiga visão cíclica das coisas? A Roda da Fortuna?). Os
estímulos e as energias subjacentes que movem a sociedade e a forma como esta
se organiza politicamente e progride, são por um lado o desejo de mais liberdade
e por outro, o desejo de mais segurança (tal como um trade off entre liberdade e segurança). Por vezes viveríamos sob o
domínio da liberdade, por outras viveríamos sob o domínio da ordem “coercivamente
imposta”, mas almejada. Os efeitos dos excessos de liberdade empurrariam as
sociedades em direcção à procura da ordem, e os excessos da ordem “coercivamente
imposta” levariam à fuga das sociedades em busca da liberdade. E
assim constrói Bauman a sua dinâmica evolutiva das sociedades modernas. Entre a
liberdade e o totalitarismo.
Para dizer a verdade, e curiosamente,
o autor não coloca como motor do progresso social estímulos positivos como o
desejo de obter algo – o desejo de obter liberdade, ou o desejo de obter
segurança. Apresenta antes como energia maior para a evolução social dois
estímulos negativos: o ódio e o medo. É certo que o medo paralisa, mas o medo também
pode fazer correr. E assim correm as sociedades: ao sentir do medo.
Com base neste "modelo", Bauman,
acaba por dividir o progresso histórico ocidental das sociedades, nas seguintes
épocas:
Do final do século XIX ao início
dos anos 30 – “Longa marcha para a liberdade”: diz ele que nessa época, “no final do século XIX as bibliotecas
estavam lotadas de estudos eruditos escritos pelos Fukuyama de então,
representando a história como uma longa marcha rumo à liberdade” (Bauman
& Bordoni: 2016: pág. 87). A Iª Grande Guerra teria resultado de um excesso
de liberdade e o seu prelúdio foram os árduos anos que se lhe seguiram até à
Grande Depressão.
Dos anos 30 a meados dos anos 70 –
foram os anos do ódio e do medo da liberdade. As sociedades passaram a almejar
a ordem, e foram de tocha na mão atrás dos ditadores e do totalitarismo. Após a
IIª Guerra Mundial, é que advieram os trinta gloriosos anos (aproximadamente
entre 1945 e 1975): “Não obstante, os
sonhos de menos caos e mais ordem só sobreviveram ao seu prelúdio totalitário
durante os «trinta gloriosos anos» de guerra declarada contra a miséria, o medo
e a privação humana, sob as bandeiras do «Estado Social»”(Bauman &
Bordoni: 2016: pág. 87-88), que não deixa de ser um Estado ordenador, portanto.
De meados dos anos 70 ao final da
primeira década do século XXI – voltou agora a ser a procura de liberdade o
motor do progresso social, parecendo a civilização ter esquecido os efeitos dos
excessos da liberdade. Resultado: caiu na orgia consumista, na degradação
ambiental e na crise do crédito, que tão bem conhecemos em 2008 e anos
seguintes. E depois o pêndulo volta a balançar. E para onde penderá ele agora?
Aqui Bauman é profético, atendendo a que o seu escrito data de 2014:
“Estaremos a aproximar-nos, pela segunda vez na história recente, de uma
condição madura para ser explorada por demagogos que sejam suficientemente ocos,
iludidos e arrogantes para prometerem um atalho para a felicidade; e para traçarem
um caminho de volta ao paraíso da segurança perdida, na condição de
renunciarmos às liberdades que já são odiadas e muito mal recebidas pelos seus
possuidores, e assim também à nossa autodeterminação e à afirmação dos nossos
direitos?” (Bauman & Bordoni: 2016: pág. 89)
Zygmunt Bauman, 2014
Volto a repetir:
“Demagogos que sejam suficientemente ocos, iludidos e arrogantes para
prometerem um atalho para a felicidade; e para traçarem um caminho de volta ao paraíso
da segurança perdida, na condição de renunciarmos às liberdades que já são
odiadas e muito mal recebidas pelos seus possuidores?”
Isto lembra alguma coisa.
Leio Trump, leio Farage, leio Le
Pen, leio Putin, leio Erdogan. Leio outro mundo e outra Era que se avizinha,
agora sob a sombra do ódio e do medo à liberdade. Leio uma nova entrega a
uma outra ordem, que os ilusionistas nos prometem, segura e murada.
-------------------------------------
Referência: Bauman, Zygmunt; Bordoni, Carlo, Estado de Crise, Relógio D’Água, 2016.
O ódio e o medo de liberdade e o ódio e o medo da ordem coercivamente imposta
O ódio e o medo de liberdade e o
ódio e o medo da ordem coercivamente imposta não são traços inatos da espécie
humana nem “estão na natureza humana”. Só que aquilo que chamamos progresso não
é um movimento linear “unidireccional”, mas pendular, que extrai a sua energia
do desejo de liberdade (assim que começamos a sentir que a segurança é
excessiva, insuportavelmente intrusiva e opressiva) ou do desejo de segurança
(assim que começamos a sentir que a liberdade é um negócio excessiva e insuportavelmente
arriscado, produzindo pouquíssimos vencedores e uma quantidade exacerbada de
perdedores).
Zygmunt Bauman
----------------------------------
Fonte: Bauman, Zygmunt; Bordoni, Carlo , Estado de Crise, Relógio D’Água, 2016, pág. 87.
sexta-feira, janeiro 13, 2017
Multa
Multado outra vez
no túnel do Marquês.
120 euros por um retrato fugidio.
Da próxima vez
irei ao arrepio.
Por lá não tornarei.
quinta-feira, janeiro 12, 2017
terça-feira, janeiro 10, 2017
Zygmunt Bauman «In Memoriam» (1925 - 2017)
Outro Mestre que parte: Zygmunt Bauman.
Faleceu no dia 9 de Janeiro. Ontem.
Lamentamos profundamente a sua morte. Já nos tínhamos habituado à sua imagem de ancião, surpreendentemente lúcido. Possuía uma lucidez na análise social do mundo contemporâneo que fazia inveja a muitos jovens.
Que pena que a sua voz se tenha calado para sempre. Que pena que este homem tenha partido. Hoje, que soubemos da sua partida, fomos invadidos por uma profunda tristeza. Estávamos a ler, com muito prazer, um livro seu (mais um), um diálogo com Carlo Bordoni, como se pode ver pelo post abaixo. E que diálogo.
***
Tenho os seus livros muito sublinhados. Ao lado de cada frase sublinhada uma interjeição: "É isto!"
***
«A sociedade humana distingue-se de um rebanho de animais porque é possível nela haver quem seja sustentado por outrem; distingue-se porque tem a capacidade de conviver com inválidos, e de tal maneira que poderíamos dizer que a sociedade humana nasceu com a compaixão e a prestação de cuidados a outrem, qualidades que são exclusivamente humanas. O problema que hoje nos preocupa diz respeito a saber como poderemos transpor essa compaixão e essa solicitude à escala planetária. Estou consciente de que as gerações que nos precederam se confrontaram com a mesma tarefa, mas hoje o caminho que deveríamos seguir, agrade-nos ele ou não, terá de começar pela casa e pela cidade de cada um de nós, agora mesmo.
Não consigo pensar noutra coisa mais importante do que esta. É por ela que temos de começar.»
Zygmunt Bauman
___________________________
Fonte: Zygmunt Bauman, Confiança e Medo na Cidade, Relógio D'Água, 2005, pp.86-87.
segunda-feira, janeiro 09, 2017
Liberalismo e neoliberalismo: para quem ainda tem dúvidas
Ao contrário do liberalismo
clássico, que contemplava um modelo puramente de mercado, deixado à iniciativa
privada e à livre competição sem nenhuma intervenção do Estado (“mais mercado,
menos Estado”), o neoliberalismo instala-se no próprio Estado. Wendy Brown argumenta que o neoliberalismo,
em contraste com o liberalismo clássico, tende a empoderar cidadãos para os transformar
em empreendedores; por conseguinte, em estabelecer uma ética sem precedentes de
“cálculo económico”, a qual se aplica a actividades em favor do público que
antes o governo garantia.
A prática do neoliberalismo submete as funções sociais do Estado ao
cálculo económico: uma prática invulgar, que introduziu critérios de viabilidade nos serviços públicos, como se eles
fossem empresas privadas, para ordenar os campos da educação, da saúde, da
segurança social, do emprego, da pesquisa científica, do serviço público e da
segurança sob uma perspectiva económica.
Consequentemente, o neoliberalismo
retira a responsabilidade do Estado, fazendo-o renunciar às suas prerrogativas
e avançando na direcção da sua gradual privatização.
Carlo Bordoni
(realces nossos)
___________________________________
Fonte: Bauman, Zygmunt; Bordoni, Carlo , Estado de Crise, Relógio D’Água, 2016, pp. 30-31.
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domingo, janeiro 08, 2017
Fuga pela madrugada
já não o encontrou.
Fugiu pela madrugada.
Ainda a névoa se levantava
nos frondosos bosques de sobreiros,
num frio e soalheiro dia de Janeiro,
num frio e soalheiro dia de Janeiro,
pela via-férrea abandonada
já longe se encontrava.
Quando a cidade carcereira acordou,
Em vão o buscaram,
no Norte, no Leste e no Oeste.
Foi para o Sul que descuraram.
O Sul, sempre o Sul.
Mediterrânico Sul
que nunca amaram.
sábado, janeiro 07, 2017
Mário Soares (1924-2017)
Para que neste blogue fique registado: Mário Soares morreu esta tarde.
Muito haveria a escrever. Outros fá-lo-ão ou já estão a fazê-lo. Mário Soares ficará para a História, a nossa História, que será escrita e reescrita e escrita novamente. Os vindouros saberão.
Curiosamente a recordação mais aprazível que dele tenho é a das suas apresentações na RTP 1 da série da BBC, O Século do Povo, quando no final rematava com o seu enfoque no século XX português. Uma História que em grande parte viveu e em parte protagonizou. Sabia do que falava. Recordo assim o Mário Soares na sua faceta pedagógica. Foi um homem do Século do Povo. Foi um democrata e um amante da liberdade, pois claro. Neste século XXI, interveio quando pressentiu que o neoliberalismo representava uma ameaça à democracia e ao Estado social.
Parte agora, quando a democracia se encontra em crise aguda, como se vê pela ascensão dos demagogos e pela separação entre o poder e a política.
Parte agora, quando a democracia se encontra em crise aguda, como se vê pela ascensão dos demagogos e pela separação entre o poder e a política.
Enfim, muito haveria a escrever. Outros fá-lo-ão e já estão a fazê-lo.
Até sempre Mário Soares.
O que amanhã sucederá, foge de sabê-lo
que o Acaso conceder, averba-o nos lucros.
E não desprezes a doçura do amor, nem as danças,
enquanto és jovem,
enquanto as cãs morosas estão longe
dos teus verdes anos. Por agora, procura o Campo de Marte
bem como os espaços onde à noitinha há doces sussurros,
à hora aprazada.
É então que, de um canto recôndito,
o amado riso denuncia a donzela escondida,
por lhe arrancares a ofertada jóia dos braços
ou o dedo que finge resistir.
Horácio,
Odes (I.9)
in Rocha Pereira (org. e trad.), Romana,
Antologia da Cultura Latina, 6ª ed. Guimarães, 2010, pág. 197
sexta-feira, janeiro 06, 2017
Um cheirinho a Benito
Será fascismo, o que aí vem? Já há quem lhe cheire a corporativismo. A Benito.
***
É uma pestilência que sopra do Oeste e atravessa o Atlântico.
Something is rotten in United States of America.
sábado, dezembro 31, 2016
O Mediterrâneo, no Porto
Nestes dias caminhei pelo Porto.
Não subi à Torre dos Clérigos, não entrei no Majestic, nem na livraria Lello & Irmão. Infelizmente
as multidões bloqueavam as entradas. Limitei-me a flanar pela cidade, pela
Ribeira e pela Foz. Contemplei o Douro e o Atlântico, mas a maior descoberta foi
o Mediterrâneo. Tropecei na obra por
acaso, na livraria Bertrand, quando folheava as Odes de Horácio, um livro caríssimo que me é caro, e que merece ser
caro, na secção de poesia. O meu olhar desviou-se para outros livros de
poesia mais baratos que lá estavam empilhados. Um livro prendeu-me
a atenção: ostentava na capa o desenho de uma oliveira. Após vários regressos à livraria,
e ao Mediterrâneo, de João Luís Barreto
Guimarães, lá adquiri o livro desse poeta nascido no Porto. É que sempre
que abria o Mediterrâneo o
Mediterrâneo encontrava, em todo o seu esplendor, em todo o seu perfume, em
toda a sua história e em toda a sua dor. O Mediterrâneo estava ali.Valeu a pena vir ao Porto encontrar o Mediterrâneo.
***
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sexta-feira, dezembro 30, 2016
Grandes aberturas: Criação
Sou cego, mas não sou surdo. E porque a minha desgraça não é completa
ontem fui obrigado a ouvir, durante quase seis horas, um auto-intitulado historiador
cuja descrição do que os Atenienses gostam de chamar «as Guerras Persas» era um
disparate de tal ordem que, se fosse menos velho e tivesse mais privilégios,
ter-me-ia levantado do lugar, no Odeon, e escandalizado Atenas inteira com a
resposta que lhe daria.
A verdade é que eu sei qual foi a origem das guerras gregas. Ele não. Como poderia sabê-la? Como poderia
um Grego saber uma coisa dessas? Passei a maior parte da minha vida na corte da
Pérsia e ainda hoje, com setenta e cinco anos, sirvo o Grande Rei, como servi o
seu pai, o meu querido amigo Xerxes, e, antes de Xerxes, o pai de Xerxes, um herói
conhecido inclusivamente pelos Gregos como Dario, o Grande.
Gore Vidal, Criação, Dom Quixote, 1989
***
Assim começa a Criação, de Gore Vidal. Com a irritação de Ciro Spitama, filho de
uma grega e de um persa, destacado na sua velhice pelo Grande Rei para ser embaixador
da Pérsia em Atenas, onde passará os seus últimos dias. Ciro irrita-se com a descrição
que ouve contar de Heródoto acerca dos feitos dos Gregos contra os Persas, numa
conferência dada pelo historiador no Odeon. Trata-se de disparates e inverdades,
a seu ver. Desta forma é dado o tom ao personagem que, ao longo de toda a história
narrada ao seu sobrinho, Demócrito, não se coíbe de desmistificar e minimizar
os feitos e as obras dos Gregos em relação aos feitos e às obras dos Persas.
Ciro
tem razão, se pensarmos bem. Afinal que relatos persas nos chegaram desses encontros
e confrontos? Porventura existiu algum Ésquilo ou algum Heródoto persa que enaltecesse
as façanhas dos próprios Persas ou nos transmitisse o seu ponto de vista acerca
dos factos? Os Persas não tinham as tradições escritas dos Gregos e as suas
façanhas eram valorizadas doutra forma, que não a escrita. Por outro lado os
historiadores, os poetas e os dramaturgos gregos, inauguraram uma velha
tradição que ainda hoje, infelizmente, persiste nas narrativas dos
historiadores actuais: a visão parcial dos factos; o enaltecimento dos feitos
realizados pelos seus próprios povos. Desse chauvinismo manso não parecem os
historiadores conseguir escapar. Aqui aplica-se um velho provérbio: é o olhar
do dono que engorda a galinha. Por muito imparciais que tentem ser, os
historiadores acabam sempre, mais tarde ou mais cedo, por trair essa intenção
de imparcialidade, nalguma frase ou ideia que deixam inadvertidamente
transparecer no seu “imparcial” texto.
Ciro Spitama é uma personagem brilhante
e marcante no seu sarcasmo em relação aos feitos dos Gregos. Ele questiona e
escarnece de uma civilização que por nós é unanimemente aclamada e da qual nos
orgulhamos, pois é a raiz da nossa própria civilização. Nesta obra de Gore
Vidal a civilização Grega é colocada no seu devido lugar, não só em relação à
Persa, mas também em relação à Chinesa e à Hindu.
***
P.S. É uma grande obra, esta Criação de Gore Vidal. Perdoa-se-lhe a alocução latina “non sequitur” (pág. 332) no pensamento do persa do séc. V a.C. entre outros, poucos, anacronismos. Não chegam para a beliscar.
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quinta-feira, dezembro 29, 2016
Os sábios e os políticos deste Mundo
Confúcio era um dos poucos sábios que fazem realmente perguntas para
saber o que não sabem. Regra geral, os sábios deste Mundo preferem prender o
ouvinte com perguntas cuidadosamente preparadas tendo em vista obter respostas
que reflictam as opiniões imutáveis do sábio.
Gore Vidal, Criação, Dom Quixote, 1989, pág. 477
Felizmente – ou infelizmente – o homem público acaba sempre por se
confundir com o povo que dirige. Quando o general Péricles pensa em Atenas,
está a pensar em si próprio. Quando ajuda a primeira, ajuda o segundo.
Gore Vidal, Criação, Dom Quixote, 1989, pág. 602
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segunda-feira, dezembro 26, 2016
O fim de toda a educação
Sabemos já por Pascal e Montaigne que o fim de toda a educação consiste em tornar-nos capazes de estarmos sentados num quarto em silêncio. Ora, noventa por cento dos jovens, segundo as estatísticas já não são capazes de ler sem ouvir música ou espreitar de relance a televisão.
George Steiner, Quatro Entrevistas com George Steiner (por Ramin Jahanbegloo), Fenda, 2006, pág. 90. (destaques nossos)
George Steiner, Quatro Entrevistas com George Steiner (por Ramin Jahanbegloo), Fenda, 2006, pág. 90. (destaques nossos)
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domingo, dezembro 25, 2016
A morte em fuga, à sua frente
Num Domingo, no Montesinho, cedo pela manhã,
Caminhava um octogenário à beira de um caminho.
Lento e determinado, transportava uma gadanha.
E assim, sem o saber, afugentava a própria morte
com as suas próprias armas.
sábado, dezembro 24, 2016
Feliz Natal
Caravaggio, Madonna dei Palafrenieri, 1606
Feliz Natal,
P'ra esconjurar o Mal.
P'ra esconjurar o Mal.
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A triste grandeza
Trump e Putin falam de novas
corridas ao armamento. Um atreve-se a dizer que o mundo precisa da hegemonia
das duas nações porque entregue a si mesmo é a loucura que se vê. Uma piada com
certeza. Nenhum fala da necessária corrida ao desarmamento do mundo.
EUA e Rússia querem ser os patronos
do mundo. Os novos moralizadores. Adivinham-se novos tratados das Tordesilhas. Dividir
para reinar. Parece que irão reavivar este velho lema nos próximos tempos. Mas
não é de estranhar que os líderes das velhas superpotências sonhem com os tempos
áureos após 1945, quando o mundo as olhava com temerosa veneração. Na verdade
sentem que o tapete lhes está a ser puxado debaixo dos pés. Estão a fugir para a frente.
É preciso tornar os EUA grandes
novamente, disse Trump. A Rússia já persegue esse desígnio há algum tempo, em
relação a si própria - é o sonho de Putin. Infelizmente, Putin e Trump, parecem
não ter outros argumentos para defender a sua grandeza para além dos que assentam na ponta das suas armas. É uma triste grandeza.
Imagens dos tempos da grandeza americana.
(Não se colocaram aqui imagens dos tempos da grandeza russa, mas são do mesmo jaez)
sexta-feira, dezembro 23, 2016
...
Os ocupantes que têm logo à partida o objectivo de dominar e explorar criam inevitavelmente um inferno à superfície da Terra.
Norman Davies, A Europa em Guerra, 1939 - 1945, Edições 70, pág. 323
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sexta-feira, dezembro 16, 2016
C.B.
O albatroz
Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.
Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.
Antes tão belo, como é feio na desgraça
Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!
O Poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.
Charles Baudelaire, As Flores do Mal
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sábado, dezembro 10, 2016
Dívida pública: a cobardia nacional.
A dívida e o crédito são formas de transferir para o futuro pagamentos a realizar pelas despesas do
presente. Com uma dívida pública desta magnitude os portugueses do presente
comprometem irremediavelmente os portugueses do futuro: os seus filhos
e os seus netos, os não nascidos, os que não podem defender-se e os que não
votam. Todos eles encontram-se já condenados ao pagamento dos desvarios do
presente, e nem o sabem.
terça-feira, dezembro 06, 2016
O Futuro
Seria lindo que se tivesse realizado o sonho de vivermos num mundo sem
fome, com diferenças materiais e sociais menos gritantes. Mas os profetas que
no-lo prometeram, e se fizeram pastores do rebanho, foram mais prontos a pegar
o cajado e a chamar a si os benefícios. De forma que a revolução anunciada não
veio e jamais virá. Os abastados terão os meios para partir e colonizar novos e
mais confortáveis planetas, abandonando neste a massa que lentamente irá
apodrecendo, afogada na sua própria sujidade.
Rentes de Carvalho, A Ira de Deus sobre a Europa, Quetzal,
pág. 137
***
Uma espécie de Elysium.
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domingo, dezembro 04, 2016
Respeito
Recuso odiar o meu semelhante, discriminá-lo, suspeitá-lo, ameaçá-lo.
Importa-me pouco em que divindade acredita, e nada me interessam os seus
hábitos e rituais. Mas dele espero reciprocidade no respeito que lhe tenho e na
dignidade que lhe reconheço.
Rentes de Carvalho, A Ira de Deus sobre a Europa, Quetzal,
2016, pág. 241.
***
Nada de confusões1.
O respeito vale mais, muito mais, do que a simples tolerância.
O assunto já aqui foi abordado.
Um excelente livro - A Ira de Deus sobre a Europa - e uma excelente análise, a de Rentes, sobre a mudança num país sito no coração da Europa, e sobre o futuro deste continente e quiçá do mundo.
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Respeito
Versões pindéricas
As imprecações contra o “politicamente correcto” e o multiculturalismo são versões pindéricas de uma cultura de extrema-direita.
António Guerreiro, "A História Gosta de se Citar", Público, 25 de Novembro de 2016
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sábado, novembro 26, 2016
Hoje chora a Sierra Maestra
Fidel Castro (1926-2016)
Hoje chora a Sierra Maestra. Morreu-lhe o filho mais
querido.
De Fidel aprendi que "jamais poderá ser revolucionário aquele que não acredita no Homem." Infelizmente já não me coloco nessa
categoria. Sinal de que estou a ficar velho. Talvez.
A Revolução é coisa de jovens.
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sexta-feira, novembro 25, 2016
O sacrilégio do Rentes
Rentes cometeu um sacrilégio. Esse, o de juntar numa só
frase, as palavras “refugiado” e “terrorismo”. O sacrilégio de pensar pela sua própria cabeça. O sacrilégio de considerar o “politicamente correcto” uma obnubilação aos que ousam exprimir livremente um pensamento claro e limpo, livre de
conspurcações ideológicas e modas correntes.
Ora um pensamento livre não se deixa agrilhoar pelo "politicamente correcto".
Cá vai:
Com os seus atentados e degolações, o
terrorismo bastaria como séria ameaça, mas mesmo sem violência, pela simples
presença e número, os refugiados contribuirão igualmente, senão para destruir a
Europa, de certeza para abalar os seus alicerces, transformar as suas
instituições, desestabilizar o equilíbrio e a variedade das sociedades que a
compõem. Os refugiados do Médio Oriente não conhecem mais do que os regimes
tirânicos e autoritários que, malgrado as suas imensas riquezas, só produzem
sofrimento, atraso e miséria.
Será então razoável esperar que gente
nada e criada nesses ambientes seja capaz, ou deseje, abraçar os nossos valores
de liberdade e respeito quando, apesar do sofrimento, eles, como muçulmanos,
consideram o seu modo de encarar a vida o único possível? E a sua religião
única e obrigatória?
Rentes de Carvalho, A Ira de Deus Sobre a Europa, Quetzal,
2016, pág. 13.
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sábado, novembro 19, 2016
As elites já não moram aqui
Ontem, 18/11/2016, António Guerreiro escreveu
no Público uma das suas interessantes
opiniões, agora contra os que usam o discurso da crítica das “elites”, sem que
precisem com rigor de que elites se tratam. “Que elites são essas tão vagamente nomeadas?”, questiona ele, e refere que “Não é possível saber [que elites são essas], nem há nada a saber, porque este discurso [o da crítica das elites] tem o objectivo de uma palavra de ordem, um refrão, que nada diz de substancial, mas chama a atenção sobre quem o profere.”
Mais adiante esclarece-nos que “a palavra “elite” de origem francesa, incorpora a originária raiz do verbo latino eligere, escolher”.
***
Quem são as elites de hoje afinal?
Quem são os escolhidos, os eleitos dos nossos dias? Não serão os que se podem
evadir, descomprometidamente, de um mundo que se tornou demasiado superlotado,
demasiado malcheiroso, demasiado insuportável, enfim, um mundo com demasiados
outros, comuns mortais? Afinal não era Jean-Paul Sartre que afirmava que o Inferno são os outros? Mas atenção: ainda que possam e desejem
apartar-se dos outros, as elites, para o serem, não se podem apartar do poder. Caso contrário que elites seriam? Elites sem poder? Trata-se de uma contradição nos seus termos. É
o poder que define as elites, acima de tudo. Mas hoje, também acima de tudo,
esse poder é um poder politicamente descomprometido, é um poder
desterritorializado, e a sociologia das elites sabe-o bem e melhor do que
ninguém.
Zygmunt Bauman, aborda o assunto na
sua obra, Em Busca da Política, Zahar
Editores, 2000. Afirma ele o seguinte:
Os operadores de capital da nossa época [a elite global de hoje] têm uma notável semelhança com os
proprietários de terras pré-modernos que viviam longe das suas propriedades. A
sua ligação com as localidades das quais retiram o excedente de produção é, no
entanto, ainda mais ténue do que os laços que uniam aqueles proprietários
fundiários às suas terras distantes.
Mesmo quando fisicamente ausentes e não integrando nem social nem
culturalmente a localidade, os antigos senhores de terras eram assim mesmo
proprietários fundiários, daí ser necessária uma certa preocupação em preservar
a capacidade da terra em produzir riqueza, caso contrário secaria a fonte da
sua riqueza e poder. No caso desses senhores de terras dos tempos
pré-modernos, o poder era acompanhado de obrigações, ainda que diluídas,
e a exploração andava de mãos dadas com algum tipo de solidariedade — ainda que
frágil e pouco confiável — para com a sorte dos explorados. Já não é mais
esse o caso ou pelo menos não tem que ser — e as pressões globais
combinadas dos todo-poderosos mercados financeiro, accionista e bancário cuidam
para que assim não seja.
O poder do capital perde cada vez mais a sua materialidade, e torna-se cada
vez mais “irreal” quando visto a partir do significado que a realidade tem para
as pessoas que não integram a elite global e têm pouca oportunidade
de juntar-se a ela. Uma nova habilidade para evitar, elidir e escapar
substituiu o envolvimento na vigilância, no treinamento e na administração como
recurso primordial e essencial do poder. Tornou redundante todo e qualquer compromisso
— por mais benigna ou cruel a forma que assumisse. Sobretudo, a capacidade de
evitamento tornou disponível a outrora suprema forma panóptica de envolvimento
através do esforço de vigilância, treinamento e disciplina. O financiamento do
controle de tipo panóptico é hoje considerado um gasto desnecessário e
injustificável, irracional mesmo, a ser descartado ou, melhor ainda,
completamente eliminado. O sinóptico — um panóptico tipo faça-você-mesmo, que
seduz muitos a embasbacarem-se com poucos, em vez de contratar uns poucos para
vigiar muitos — mostrou-se um instrumento de controlo muito mais eficaz e económico.
Os remanescentes do velho panóptico ainda actuantes não visam o treinamento
corpóreo nem a conversão espiritual das massas, mas a manter no seu lugar
aqueles sectores das massas que não devem seguir a elite no seu novo gosto pela mobilidade.
As classes cultas do nosso tempo,
produtoras e detentoras de saber [outra elite que Guerreiro critica], também se parecem às congéneres
pré-modernas à época em que estas se postavam em segurança atrás das impenetráveis
muralhas do latim, isolando-se da gente simples. Com efeito, o
ciberespaço da web mundial é sob muitos aspectos o equivalente actual do latim
medieval. Ela torna os integrantes das classes cultas pessoas sem território
e fora do alcance daqueles que lhes são próximos no espaço físico, ao mesmo
tempo que lança o alicerce tecnológico de um outro universo, um universo
virtual que aproxima os membros da classe culta. Na qualidade de homens e
mulheres de saber eles habitam o ciberespaço, no qual as distâncias são medidas
por padrões inteiramente diferentes dos que são usados no espaço geográfico
comum; no ciberespaço criam-se pistas independentes das rotas seguidas pelos
outros e a sinalização é disposta de maneira apenas, quando muito, superficial
e casualmente relacionada à cartografia e topografia usuais.
Zygmunt Bauman, Em Busca da Política, Zahar Editores, 2000
(adaptada), os destaques e sublinhados são nossos.
***
As elites já não moram aqui.
Moram em todo o lado, ou seja, não moram em lado nenhum. A extrema mobilidade é uma das suas características. A capacidade de morar em qualquer lugar,
onde lhes aprouver, sem qualquer outra ligação de maior a esse lugar, localidade
ou região, para além de ocuparem esporadicamente um dos seus condomínios aí
localizados, é outra das suas particularidades. O compromisso político com as
sociedades que as viram nascer deixou de ser considerado pelas elites como uma
obrigação, um dever ou uma necessidade de sobrevivência, ou ainda uma condição para a obtenção de poder. A possibilidade de evasão ou “evitamento” por parte das elites trata-se
antes de uma libertação.
As novas elites dispensam representação
e furtam-se à taxação.
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Sociologia
The Times They are a Changing. Really?! A Nova Ordem Trumpeana
Tudo começou quando se cantava uma
Nova Ordem Mundial no rescaldo da antiga (com a derrota da URSS no Afeganistão e
o seu fim, surpreendente, na época). Seguiu-se, breve, uma nova ordem unipolar dominada
pela hiperpotência americana. A América era grande outra vez. Essa nova ordem foi
uma ordem de novas guerras e rebeliões em países aparentemente distantes da
Europa, mas não tão distantes quanto isso. Durante os conflitos, potentes meios
de comunicação globais não deixavam de mostrar as imagens dos infernos
terrestres (tivemos bombardeamentos em directo comentados com todo o
profissionalismo) e imagens dos paraísos terrestres, chegando tais imagens aos
quintos dos infernos terrestres. E os que viviam no inferno dos conflitos, e os
que podiam, rapidamente de lá queriam sair, legitimamente ou ilegitimamente. E
saíam. E para onde rumar, mesmo com risco de vida, se não para os paraísos
terrestres mais próximos.
Carontes bem pagos ajudavam à travessia
agora inversa, do Hades ao Éden, das terras dos mortos para as terras dos
vivos, terras prometidas de vida farta e plena. Então os novos bárbaros começaram
a chegar, ousando atravessar desertos e fossos dantescos, mediterrânicos. Os
novos bárbaros serão os novos europeus (lê-se numa revista), pois claro (afinal
os velhos europeus – nós - também não fomos já velhos bárbaros?).
***
Schengen rebentou como uma
barragem prenhe de água até não poder mais. O descontrolo instalou-se nas
fronteiras externas da “União” e depois nas fronteiras internas. Rios de
imigrantes e refugiados começaram a penetrar os caminhos da Europa em direção
ao Norte. A figura do imigrante clandestino, ilegal, desapareceu. Eram todos
refugiados. Um governo socialista francês fechou os olhos à construção de uma
cidade de barracas num extremo do seu território, frente à fossa mais estreita
e menos profunda, e por isso mais transponível, do Canal da Mancha. Formou-se então
essa enorme “selva” de habitações precárias – uma “selva” em plena Europa
continental, frente a esse outro paraíso mais paradisíaco, aos olhos de quem
procura, não refúgio, mas outra coisa qualquer, que é a Grã-Bretanha. Na
verdade, aqueles refugiados de Nord-Pas-de-Calais, já não fugiam da guerra, não
procuravam refúgio, procuravam sim outra coisa. Pois afinal no paraíso francês
não havia guerra, não é verdade? Então o que procuravam aqueles refugiados?
Não haviam alcançado já a paz nas terras de França? Não se encontravam já distantes
dos infernos terrestres? A constituição da “Selva” em Nord-Pas-de-Calais teve
um efeito desconfortável no subconsciente de muitos dos que viviam além Mancha.
Afinal, meu Deus, meu Deus, o que vinha aí. Epílogo: Venceu o Brexit! O Reino
Unido, desunido, abandona o barco Europeu, qual escaler lançado ao mar em
momento de aflição ou invasão, quando o grande navio já mete água por todo o lado.
***
Meses depois, do outro lado do
Atlântico, vence um Trump. Um grosseiro. Outro rombo no casco do navio
Ocidental.
O Euro afunda-se agora face ao
dólar, na iminência de uma subida das taxas de juro diretoras americanas e a
Itália ameaça uma evasão da zona Euro, aprofundando mais ainda a eterna crise
do Euro. Crise que só terminará, diga-se de passagem, com o fim do Euro. Em
suma: o Euro é a crise.
Por tudo isto são por isso agora
mais sonoros os brados dos profetas da desgraça e das cassandras, anunciando o
fim do Euro e a derrocada do projeto Europeu. O fim de um mundo que se queria
novo e o começo de um novo mundo que afinal é o velho.
The times are changing.
Mas o vento que por aqui sopra, nem cheira bem, nem está de feição.
Mas o vento que por aqui sopra, nem cheira bem, nem está de feição.
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domingo, novembro 13, 2016
quinta-feira, novembro 10, 2016
Trump, trump, bang, bang.
Eis que o Imperador Trump tomará
o ceptro e irá sentar-se no trono da América. Será que desta vez a América irá
deixar o mundo em paz? E será que o mundo irá deixar a América em paz? Afinal são
muitos os que acusam de inacção a América quando alguns conflitos despontam. Depois, mais tarde, vêm acusar a América de querer
ser o polícia do mundo e de se querer substituir ao papel da ONU com a qual rivaliza
no intervencionismo “salvador” do mundo.
O Trump quer fazer da América
grande outra vez. Mas se pensarmos bem, foram as grandes guerras que fizeram a
grandeza da América.
***
Estou curiosíssimo para ver que
cavalos vai Trump nomear, qual novo Calígula, imperador louco dos tempos
pós-modernos. Avizinham-se tempos interessantes para a globalização galopante, com
o Brexit e agora com o presidente Trump a agitar a bandeira do proteccionismo e das
fronteiras fechadas. Tudo parece indicar que o galope da globalização vai ser
travado, mas é difícil crer nisso, tal a velocidade que assumiu o processo. Petróleo
a queimar, armas a disparar e corpos a tombar (muitos deles negros, às mãos armadas da polícia) continuarão a ser garantidos na terra do Tio Sam e, provavelmente, noutros lugares do mundo. Prosseguirão as alterações climáticas, a todo o gás, assim como o
aquecimento global. Preparemo-nos para o pior, esperando que o pior não
aconteça. Eis os tempos do cowboy americano,
de revólveres na mão, disparando as suas armas em todas as direcções: trump, trump, bang,
bang.
domingo, novembro 06, 2016
A natureza das coisas
Todas as coisas acabam mal, no fim. Mas acabar é a natureza das coisas.
Gore Vidal, Criação, Publicações Dom Quixote, 1981, pág. 68.
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sábado, novembro 05, 2016
O velho humanismo: uma mistura para vomitar. Mas será o novo melhor?
O velho humanismo afasta-se e desaparece. A nostalgia atenua-se e é
cada vez mais raro que nos voltemos para rever a sua forma estendida no
caminho. Era esta a ideologia da burguesia liberal. Inclinava-se sobre o povo,
sobre os sofrimentos humanos. Cobria, sustentava a retórica das almas belas,
dos grandes sentimentos, das boas consciências. Compunha-se de citações
greco-latinas polvilhadas de judaico-cristianismo. Um cocktail assombroso, uma
mistura para vomitar. Só alguns intelectuais (de “esquerda” – mas ainda haverá intelectuais
de direita?) mantêm ainda o gosto por esta bebida triste, nem revolucionários,
nem abertamente reaccionários, nem dionisíacos, nem apolíneos.
É, assim, para um novo humanismo que devemos tender e esforçar-nos,
isto é, para uma nova praxis e um
outro homem, o da sociedade urbana. Escapando aos mitos que ameaçam esta
vontade, destruindo as ideologias que desviam este projecto e as estratégias
que afastam este percurso. A vida urbana ainda não começou. Nós realizamos hoje
o inventário dos despojos de uma sociedade milenar na qual o campo dominou a
cidade, cujas ideias e “valores”, os tabus e as prescrições eram, em grande
parte, de origem agrária, marcados por uma dominante rural e “natural”. Do
oceano campesino emergiam custosamente esporádicas cidades. A sociedade rural
era (ainda é) a sociedade da não-abundância, da provação aceite e rejeitada,
dos interditos que ordenam a regulamentam as privações. Esta também foi,
todavia, a sociedade da Festa, mas esse aspecto, o seu melhor, não foi retido,
e era ele que seria necessário ressuscitar e não os mitos e os limites!
Henri Lefebvre, O Direito à Cidade, Letra Livre, 2012,
pág. 110.
A vida urbana já começou. Lefebvre
acusa o velho Humanismo burguês e aponta para um novo, ironicamente ainda mais aburguesado
(não é afinal um humanismo de burgo aquilo que ele nos propõe?). Trata-se no
entanto de uma fuga para a frente. Ora o novo humanismo que ele nos propõe ainda é
pior. Sabemo-lo agora. Trata-se de um humanismo urbano que descarrila na
desumanidade das cidades sem fim. É o humanismo das ruas nocturnas, frias e
vazias que produziu os sem-abrigo deambulantes e envergonhados que povoam as
grandes cidades, verdadeiras sepulturas do espírito humano. À festa rural circunscrita
opôs-se o frenesim festivo e consumista, urbano e omnipresente. À contenção da
sociedade da não-abundância, sobrepôs-se o desperdício da sociedade da
abundância, incontida, desregrada, infrene e insustentável. Se a dominante
rural era “natural” e idílica, a urbana é artificial, insana e doentia.
Trata-se de uma dominante mecânica. Um irónico humanismo de máquina.
Somos hoje prisioneiros de um
quotidiano sistematicamente medido e controlado pelas máquinas do tempo, essa
marca do novo humanismo. Vivemos o totalitarismo do tempo maquinal, em
sociedades-máquina (e em cidades-máquina), onde os vizinhos não se conhecem. Nas
sociedades humanistas urbanas defendidas por Lefebvre marchamos todos a toque
de caixa. Alguns de olhos sonâmbulos ainda entoam loas a esse novo humanismo, nas
novas manhãs urbanas que agora cantam. Um canto desafinado.
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Profundo
Don Delillo, Zero K, Sextante, 2016, pág. 264
Delillo caminha pelas cidades, de
mãos nos bolsos, ensimesmado, de olhos postos no passeio onde grassa a merda de
cão. Leio noutro lugar que os animais domésticos superam já os animais selvagens (*),
em número e em massa (omite o narrador, por certo, os insectos, nessa assumpção
desesperante). Triste humanidade, rendida a uma natureza artificial que ela
mesma criou. Homo Deus nos tornámos!
Um pesadelo! Há seres humanos em excesso à superfície da Terra e animais
domésticos também. O próprio Homem é já um animal doméstico. E ainda há quem defenda
a paródia do Humanismo - esse ser prodigioso que é o Homem - mesmo depois de
constatar todo mal que o homem (sim, com letra pequena!) faz a si mesmo e toda a destruição que inflige no
jardim que lhe foi legado. Sim, venham de lá agora dizer que este discurso apoia a acção de genocidas que se entretêm a erradicar seres humanos da face Terra.
Não se trata disso. Para melhorar o mundo, não tenhamos dúvidas, o primeiro
passo é erradicar os genocidas.
_______________________________________________________
(*) Yuval Harari, Homo Deus: A Brief History of Tomorrow, Harper Collins Publishers,
2016
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domingo, setembro 25, 2016
Sopa quente e bebidas frescas
Uma contradição mata o seu contrário; as inconsistências [no
carácter] existem lado a lado, em
resposta a diferentes situações. Como poderia um indivíduo rígido sobreviver
num mundo variável? No Inverno, sopa quente; no Verão, bebidas frescas.
Jacques Barzun, Da Alvorada à Decadência, Gradiva, 2003, p. 149.
O Eu é indissociável da sua circunstância. Assim se explicam
as inconsistências que preenchem o carácter. Há, no entanto, quem as confunda com
contradições, em particular quando ajuíza sem atender às circunstâncias que
rodeiam as acções.
Pelas acções se conhece o carácter, contudo as
circunstâncias que nelas influem não são despiciendas e devem também
pesar numa avaliação do carácter.
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Jacques Barzun
sábado, setembro 24, 2016
Em alta
Em Dortmund mora um prodígio: Raphael Guerreiro. Está em
alta.
O defesa joga agora ao ataque e insufla de alma a equipa do Dortmund
quando entra em jogo ou quando joga de início. Não é o único, diga-se de passagem, mas
quando joga tudo se agita.
Eis a sequência dos últimos resultados do Borussia de
Dortmund:
14/09/16 Legia Warszawa 0 - 6 Borussia Dortmund
17/09/16 Borussia Dortmund 6 - 0 Darmstadt
20/09/16 Wolfsburg 1 - 5 Borussia Dortmund
23/09/16 Borussia Dortmund 3 - 1 Freiburg
Vinte golos marcados em quatro jogos (!), e não estamos a
falar de hóquei em patins. Apenas dois golos sofridos.
Neste quatro jogos, Raphael Guerreiro marcou 3 golos e deu
outros 3 a marcar (assistências), tendo jogado 262 minutos (apenas em dois dos últimos quatro esteve os 90 minutos em campo).
No jogo contra o
Dalmstadt, o treinador Tuchel deu-se ao luxo de o retirar conjuntamente com
Dembelé, aos 63 minutos, para os preservar para o jogo seguinte e para que
recebessem o aplauso merecido pela magnífica partida que estavam a realizar (então
o Dormund já vencia por 3-0).
No jogo contra o Freiburg, entrou apenas aos 71 minutos: marcou golo aos 90'+1.
Uma verdadeira arma secreta do Dortmund.
É o melhor português emigrante a jogar futebol no momento.
----------
PS - Honra seja feita aos outros magníficos jogadores do Dortmund, muito jovens, que constituem uma verdadeira equipa multinacional: Aubameyang (Gabão), Pulisic (EUA), Piszczek (Polónia), Dembelé (França), Götze (Alemanha), o guarda-redes Bürki (Suíça) entre outros.
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PS - Honra seja feita aos outros magníficos jogadores do Dortmund, muito jovens, que constituem uma verdadeira equipa multinacional: Aubameyang (Gabão), Pulisic (EUA), Piszczek (Polónia), Dembelé (França), Götze (Alemanha), o guarda-redes Bürki (Suíça) entre outros.
sexta-feira, setembro 23, 2016
O Presidente emplastro
Palavra de honra, que foi o que me veio à cabeça quando o vi, esta terça-feira, entre o casal Obama.
O frenético Marcelo está em todas.
De segunda a sexta-feira, ora nos noticiários da rádio (e logo pela manhã!), ora na TV, lá está ele, no boneco. É incontornável.
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Marcelo Rebelo de Sousa
sexta-feira, setembro 16, 2016
Colher nos campos do saber
Em ambos os campos, o cultivo faz-se porque há a perspectiva de
crescimento. Por consequência, ler é como colher nos campos do saber.
Peter Sloterdijk, Morte Aparente no Pensamento, Relógio D’Água,
2014 , pág. 72.
***
Dos distantes campos romanos brotou a palavra “cultura”. Marcus Tullius Cícero (106 a.C. – 43 a.C.) foi quem lhe deu nome. O nome que ainda
lhe damos.
quinta-feira, setembro 01, 2016
Fim das férias, início dos queixumes
Acabam as férias e começa
Setembro. Começam os queixumes. Faltam magistrados, faltam oficiais de
justiça, faltam médicos, faltam enfermeiros, faltam auxiliares de acção
educativa, faltam meios, falta isto e falta aquilo…falta dinheiro… Falta tudo! Cada
responsável corporativo tem uma visão parcelar do seu sector, ignorando as
necessidades dos demais. Nem quer saber disso, não é com ele. Só lhe diz respeito o seu sector. Assim, reivindica
sem visão e conhecimento das necessidades de todo o conjunto. Atender positivamente a todas as reivindicações seria o pântano. O governante tem de ter a coragem de dizer não, uma
vez que não pode dizer sim a todos. Caso contrário, a sociedade torna-se
ingovernável.
Os queixumes tinham ido de férias, os queixumes regressaram.
Quando os oiço, vindos de férias, apetece mandá-los de férias outra vez. Para
bem longe.
terça-feira, agosto 23, 2016
Euforia e alucinação
Deus nos acuda!
domingo, agosto 21, 2016
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