sábado, fevereiro 04, 2017

Outros dias











© AMCD

Grey days

















© AMCD

Cabo Espichel ao fundo, 28 de Janeiro de 2017

quarta-feira, fevereiro 01, 2017

É bem sabido que todas as vedações têm dois lados.

«É bem sabido que todas as vedações têm dois lados. Dividem um espaço uniforme em exterior e interior. Mas os que se encontram de um dos lados da vedação vêem o exterior onde os que estão do outro lado vêem o interior. Os residentes dos condomínios isolam-se por meio da sua vedação, do caos e da dureza que tornam a vida urbana desconcertante, desagradável e vagamente ameaçadora, e ficam reclusos num oásis de calma e segurança. Ao mesmo tempo, contudo, separam os outros dos lugares decentes e seguros, cujos valores estão dispostos a defender encarniçadamente, e abandonam-nos às mesmas ruas sórdidas e miseráveis de que fugiram sem olhar a despesas. A vedação separa o ghetto voluntário dos ricos e dos poderosos dos inumeráveis ghettos forçados em que os deserdados vivem. Para os que fazem parte do ghetto voluntário, os restantes ghettos são lugares onde nunca porão os pés. Para os habitantes dos ghettos involuntários, em contrapartida, o território a que estão confinados (ao verem-se excluídos de todos os outros lugares) é um espaço do qual se encontram proibidos de sair.»

Zygmunt Baumman, Confiança e Medo na Cidade, Relógio D’Água, 2006

domingo, janeiro 29, 2017

Poema de Chico Buarque

Cotidiano

Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

Todo dia ela diz que é pra eu me cuidar
E essas coisas que diz toda mulher
Diz que está me esperando pro jantar
E me beija com a boca de café

Todo dia eu só penso em poder parar
Meio dia eu só penso em dizer não
Depois penso na vida pra levar
E me calo com a boca de feijão

Seis da tarde como era de se esperar
Ela pega e me espera no portão
Diz que está muito louca pra beijar
E me beija com a boca de paixão

Toda noite ela diz pra eu não me afastar
Meia-noite ela jura eterno amor
E me aperta pra eu quase sufocar
E me morde com a boca de pavor

Todo dia ela faz tudo sempre igual
Me sacode às seis horas da manhã
Me sorri um sorriso pontual
E me beija com a boca de hortelã

Chico Buarque, 1984

domingo, janeiro 22, 2017

Do sistema educativo trumpeano

Resultado de imagem para Trump at the trump-inaugural-addressDisse Trump no Discurso de Tomada de Posse referindo-se ao sistema educativo americano:

...an education system flush with cash, but which leaves our young and beautiful students deprived of knowledge;

O que é verdade: a eleição de Trump só se explica pela falta de educação de muitos dos seus concidadãos. Por outras palavras: só mal-educados votam num mal-educado.

Mas o dito também faz adivinhar a intenção de privatização do sistema educativo público daquele país.

Ainda o primeiro acto de Trump

A pouco e pouco ou muito rapidamente as incertezas converter-se-ão em certezas. Certezas indesejáveis. Trump tomou posse a 20 de Janeiro de 2017. Primeiro acto após o juramento, nesse mesmo dia, ainda a cadeira presidencial não tinha arrefecido do anterior presidente: a assinatura do Decreto que põe fim ao “Obamacare”. E assim, num gesto rápido e sublinhado pela assinatura, o novo presidente expõe mais de vinte milhões de americanos ao desabrigo assistencial na saúde: os mais pobres dos pobres. Um nojo!

Trump days! First act!

















Donald, no seu primeiro dia, na Sala Oval, dá uma machadada no Affordable Care Act (Obamacare), cuja assinatura foi aqui saudada, em 2010.

Consequência: 22 milhões de pessoas poderão perder apoio no acesso aos serviços de saúde (health insurance), de acordo com uma notícia do New York Times.

sábado, janeiro 14, 2017

Segura e murada

Para Bauman o progresso das sociedades e das épocas oscila como um pêndulo, não sendo unidireccional (evitaria ele, dessa forma, a antiga visão cíclica das coisas? A Roda da Fortuna?). Os estímulos e as energias subjacentes que movem a sociedade e a forma como esta se organiza politicamente e progride, são por um lado o desejo de mais liberdade e por outro, o desejo de mais segurança (tal como um trade off entre liberdade e segurança). Por vezes viveríamos sob o domínio da liberdade, por outras viveríamos sob o domínio da ordem “coercivamente imposta”, mas almejada. Os efeitos dos excessos de liberdade empurrariam as sociedades em direcção à procura da ordem, e os excessos da ordem “coercivamente imposta” levariam à fuga das sociedades em busca da liberdade. E assim constrói Bauman a sua dinâmica evolutiva das sociedades modernas. Entre a liberdade e o totalitarismo.

Para dizer a verdade, e curiosamente, o autor não coloca como motor do progresso social estímulos positivos como o desejo de obter algo – o desejo de obter liberdade, ou o desejo de obter segurança. Apresenta antes como energia maior para a evolução social dois estímulos negativos: o ódio e o medo. É certo que o medo paralisa, mas o medo também pode fazer correr. E assim correm as sociedades: ao sentir do medo.

Com base neste "modelo", Bauman, acaba por dividir o progresso histórico ocidental das sociedades, nas seguintes épocas:

Do final do século XIX ao início dos anos 30 – “Longa marcha para a liberdade”: diz ele que nessa época, “no final do século XIX as bibliotecas estavam lotadas de estudos eruditos escritos pelos Fukuyama de então, representando a história como uma longa marcha rumo à liberdade” (Bauman & Bordoni: 2016: pág. 87). A Iª Grande Guerra teria resultado de um excesso de liberdade e o seu prelúdio foram os árduos anos que se lhe seguiram até à Grande Depressão.

Dos anos 30 a meados dos anos 70 – foram os anos do ódio e do medo da liberdade. As sociedades passaram a almejar a ordem, e foram de tocha na mão atrás dos ditadores e do totalitarismo. Após a IIª Guerra Mundial, é que advieram os trinta gloriosos anos (aproximadamente entre 1945 e 1975): “Não obstante, os sonhos de menos caos e mais ordem só sobreviveram ao seu prelúdio totalitário durante os «trinta gloriosos anos» de guerra declarada contra a miséria, o medo e a privação humana, sob as bandeiras do «Estado Social»”(Bauman & Bordoni: 2016: pág. 87-88), que não deixa de ser um Estado ordenador, portanto.

De meados dos anos 70 ao final da primeira década do século XXI – voltou agora a ser a procura de liberdade o motor do progresso social, parecendo a civilização ter esquecido os efeitos dos excessos da liberdade. Resultado: caiu na orgia consumista, na degradação ambiental e na crise do crédito, que tão bem conhecemos em 2008 e anos seguintes. E depois o pêndulo volta a balançar. E para onde penderá ele agora? Aqui Bauman é profético, atendendo a que o seu escrito data de 2014:

Estaremos a aproximar-nos, pela segunda vez na história recente, de uma condição madura para ser explorada por demagogos que sejam suficientemente ocos, iludidos e arrogantes para prometerem um atalho para a felicidade; e para traçarem um caminho de volta ao paraíso da segurança perdida, na condição de renunciarmos às liberdades que já são odiadas e muito mal recebidas pelos seus possuidores, e assim também à nossa autodeterminação e à afirmação dos nossos direitos?” (Bauman & Bordoni: 2016: pág. 89)

Zygmunt Bauman, 2014

Volto a repetir:

Demagogos que sejam suficientemente ocos, iludidos e arrogantes para prometerem um atalho para a felicidade; e para traçarem um caminho de volta ao paraíso da segurança perdida, na condição de renunciarmos às liberdades que já são odiadas e muito mal recebidas pelos seus possuidores?

Isto lembra alguma coisa.

Leio Trump, leio Farage, leio Le Pen, leio Putin, leio Erdogan. Leio outro mundo e outra Era que se avizinha, agora sob a sombra do ódio e do medo à liberdade. Leio uma nova entrega a uma outra ordem, que os ilusionistas nos prometem, segura e murada.

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Referência: Bauman, Zygmunt;  Bordoni, Carlo, Estado de Crise, Relógio D’Água, 2016.

O ódio e o medo de liberdade e o ódio e o medo da ordem coercivamente imposta

O ódio e o medo de liberdade e o ódio e o medo da ordem coercivamente imposta não são traços inatos da espécie humana nem “estão na natureza humana”. Só que aquilo que chamamos progresso não é um movimento linear “unidireccional”, mas pendular, que extrai a sua energia do desejo de liberdade (assim que começamos a sentir que a segurança é excessiva, insuportavelmente intrusiva e opressiva) ou do desejo de segurança (assim que começamos a sentir que a liberdade é um negócio excessiva e insuportavelmente arriscado, produzindo pouquíssimos vencedores e uma quantidade exacerbada de perdedores).  

Zygmunt Bauman

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Fonte: Bauman, Zygmunt;  Bordoni, Carlo , Estado de Crise, Relógio D’Água, 2016, pág. 87.

sexta-feira, janeiro 13, 2017

Multa

Ó pranto!
Multado outra vez
no túnel do Marquês.
120 euros por um retrato fugidio.
Da próxima vez
irei ao arrepio.

Por lá não tornarei.

terça-feira, janeiro 10, 2017

Zygmunt Bauman «In Memoriam» (1925 - 2017)

















Outro Mestre que parte: Zygmunt Bauman.

Faleceu no dia 9 de Janeiro. Ontem.

Lamentamos profundamente a sua morte. Já nos tínhamos habituado à sua imagem de ancião, surpreendentemente lúcido. Possuía uma lucidez na análise social do mundo contemporâneo que fazia inveja a muitos jovens.

Era provavelmente o melhor sociólogo do mundo e partiu. Era um prolífico analista social: muitos são os seus escritos. A sua análise era (é) sempre certeira e muitas vezes surpreendente.

Que pena que a sua voz se tenha calado para sempre. Que pena que este homem tenha partido. Hoje, que soubemos da sua partida, fomos invadidos por uma profunda tristeza. Estávamos a ler, com muito prazer, um livro seu (mais um), um diálogo com Carlo Bordoni, como se pode ver pelo post abaixo. E que diálogo.

***

Tenho os seus livros muito sublinhados. Ao lado de cada frase sublinhada uma interjeição: "É isto!"

***

«A sociedade humana distingue-se de um rebanho de animais porque é possível nela haver quem seja sustentado por outrem; distingue-se porque tem a capacidade de conviver com inválidos, e de tal maneira que poderíamos dizer que a sociedade humana nasceu com a compaixão e a prestação de cuidados a outrem, qualidades que são exclusivamente humanas. O problema que hoje nos preocupa diz respeito a saber como poderemos transpor essa compaixão e essa solicitude à escala planetária. Estou consciente de que as gerações que nos precederam se confrontaram com a mesma tarefa, mas hoje o caminho que deveríamos seguir, agrade-nos ele ou não, terá de começar pela casa e pela cidade de cada um de nós, agora mesmo.

Não consigo pensar noutra coisa mais importante do que esta. É por ela que temos de começar.»

Zygmunt Bauman
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Fonte: Zygmunt Bauman, Confiança e Medo na Cidade, Relógio D'Água, 2005, pp.86-87. 

segunda-feira, janeiro 09, 2017

Liberalismo e neoliberalismo: para quem ainda tem dúvidas

Ao contrário do liberalismo clássico, que contemplava um modelo puramente de mercado, deixado à iniciativa privada e à livre competição sem nenhuma intervenção do Estado (“mais mercado, menos Estado”), o neoliberalismo instala-se no próprio Estado. Wendy Brown argumenta que o neoliberalismo, em contraste com o liberalismo clássico, tende a empoderar cidadãos para os transformar em empreendedores; por conseguinte, em estabelecer uma ética sem precedentes de “cálculo económico”, a qual se aplica a actividades em favor do público que antes o governo garantia.


A prática do neoliberalismo submete as funções sociais do Estado ao cálculo económico: uma prática invulgar, que introduziu critérios de viabilidade nos serviços públicos, como se eles fossem empresas privadas, para ordenar os campos da educação, da saúde, da segurança social, do emprego, da pesquisa científica, do serviço público e da segurança sob uma perspectiva económica.

Consequentemente, o neoliberalismo retira a responsabilidade do Estado, fazendo-o renunciar às suas prerrogativas e avançando na direcção da sua gradual privatização.

Carlo Bordoni
(realces nossos)
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Fonte: Bauman, Zygmunt;  Bordoni, Carlo , Estado de Crise, Relógio D’Água, 2016, pp. 30-31.

domingo, janeiro 08, 2017

Fuga pela madrugada

Quando a cidade acordou
já não o encontrou.
Fugiu pela madrugada.

Ainda a névoa se levantava
nos frondosos bosques de sobreiros,
num frio e soalheiro dia de Janeiro,
pela via-férrea abandonada
já longe se encontrava.

Quando a cidade carcereira acordou,
Em vão o buscaram,
no Norte, no Leste e no Oeste.
Foi para o Sul que descuraram.

O Sul, sempre o Sul.
Mediterrânico Sul
que nunca amaram.

sábado, janeiro 07, 2017

Mário Soares (1924-2017)


Para que neste blogue fique registado: Mário Soares morreu esta tarde.

Muito haveria a escrever. Outros fá-lo-ão ou já estão a fazê-lo. Mário Soares ficará para a História, a nossa História, que será escrita e reescrita e escrita novamente. Os vindouros saberão.

Curiosamente a recordação mais aprazível que dele tenho é a das suas apresentações na RTP 1 da série da BBC, O Século do Povo, quando no final rematava com o seu enfoque no século XX português. Uma História que em grande parte viveu e em parte protagonizou. Sabia do que falava. Recordo assim o Mário Soares na sua faceta pedagógica. Foi um homem do Século do Povo. Foi um democrata e um amante da liberdade, pois claro. Neste século XXI, interveio quando pressentiu que o neoliberalismo representava uma ameaça à democracia e ao Estado social.

Parte agora, quando a democracia se encontra em crise aguda, como se vê pela ascensão dos demagogos e pela separação entre o poder e a política. 

Enfim, muito haveria a escrever. Outros fá-lo-ão e já estão a fazê-lo.

Até sempre Mário Soares.

O que amanhã sucederá, foge de sabê-lo

O que amanhã sucederá, foge de sabê-lo, e o dia
que o Acaso conceder, averba-o nos lucros.
E não desprezes a doçura do amor, nem as danças,
enquanto és jovem,

enquanto as cãs morosas estão longe
dos teus verdes anos. Por agora, procura o Campo de Marte
bem como os espaços onde à noitinha há doces sussurros,
à hora aprazada.

É então que, de um canto recôndito,
o amado riso denuncia a donzela escondida,
por lhe arrancares a ofertada jóia dos braços
ou o dedo que finge resistir.

                                             Horácio, Odes (I.9)


in Rocha Pereira (org. e trad.), Romana, Antologia da Cultura Latina, 6ª ed. Guimarães, 2010, pág.  197

sábado, dezembro 31, 2016

O Mediterrâneo, no Porto

Nestes dias caminhei pelo Porto. Não subi à Torre dos Clérigos, não entrei no Majestic, nem na livraria Lello & Irmão. Infelizmente as multidões bloqueavam as entradas. Limitei-me a flanar pela cidade, pela Ribeira e pela Foz. Contemplei o Douro e o Atlântico, mas a maior descoberta foi o Mediterrâneo. Tropecei na obra por acaso, na livraria Bertrand, quando folheava as Odes de Horácio, um livro caríssimo que me é caro, e que merece ser caro, na secção de poesia. O meu olhar desviou-se para outros livros de poesia mais baratos que lá estavam empilhados. Um livro prendeu-me a atenção: ostentava na capa o desenho de uma oliveira. Após vários regressos à livraria, e ao Mediterrâneo, de João Luís Barreto Guimarães, lá adquiri o livro desse poeta nascido no Porto. É que sempre que abria o Mediterrâneo o Mediterrâneo encontrava, em todo o seu esplendor, em todo o seu perfume, em toda a sua história e em toda a sua dor. O Mediterrâneo estava ali.

Valeu a pena vir ao Porto encontrar o Mediterrâneo.

***

sexta-feira, dezembro 30, 2016

Grandes aberturas: Criação


Sou cego, mas não sou surdo. E porque a minha desgraça não é completa ontem fui obrigado a ouvir, durante quase seis horas, um auto-intitulado historiador cuja descrição do que os Atenienses gostam de chamar «as Guerras Persas» era um disparate de tal ordem que, se fosse menos velho e tivesse mais privilégios, ter-me-ia levantado do lugar, no Odeon, e escandalizado Atenas inteira com a resposta que lhe daria.

A verdade é que eu sei qual foi a origem das guerras gregas. Ele não. Como poderia sabê-la? Como poderia um Grego saber uma coisa dessas? Passei a maior parte da minha vida na corte da Pérsia e ainda hoje, com setenta e cinco anos, sirvo o Grande Rei, como servi o seu pai, o meu querido amigo Xerxes, e, antes de Xerxes, o pai de Xerxes, um herói conhecido inclusivamente pelos Gregos como Dario, o Grande.

Gore Vidal, Criação, Dom Quixote, 1989

***

Assim começa a Criação, de Gore Vidal. Com a irritação de Ciro Spitama, filho de uma grega e de um persa, destacado na sua velhice pelo Grande Rei para ser embaixador da Pérsia em Atenas, onde passará os seus últimos dias. Ciro irrita-se com a descrição que ouve contar de Heródoto acerca dos feitos dos Gregos contra os Persas, numa conferência dada pelo historiador no Odeon. Trata-se de disparates e inverdades, a seu ver. Desta forma é dado o tom ao personagem que, ao longo de toda a história narrada ao seu sobrinho, Demócrito, não se coíbe de desmistificar e minimizar os feitos e as obras dos Gregos em relação aos feitos e às obras dos Persas.

Ciro tem razão, se pensarmos bem. Afinal que relatos persas nos chegaram desses encontros e confrontos? Porventura existiu algum Ésquilo ou algum Heródoto persa que enaltecesse as façanhas dos próprios Persas ou nos transmitisse o seu ponto de vista acerca dos factos? Os Persas não tinham as tradições escritas dos Gregos e as suas façanhas eram valorizadas doutra forma, que não a escrita. Por outro lado os historiadores, os poetas e os dramaturgos gregos, inauguraram uma velha tradição que ainda hoje, infelizmente, persiste nas narrativas dos historiadores actuais: a visão parcial dos factos; o enaltecimento dos feitos realizados pelos seus próprios povos. Desse chauvinismo manso não parecem os historiadores conseguir escapar. Aqui aplica-se um velho provérbio: é o olhar do dono que engorda a galinha. Por muito imparciais que tentem ser, os historiadores acabam sempre, mais tarde ou mais cedo, por trair essa intenção de imparcialidade, nalguma frase ou ideia que deixam inadvertidamente transparecer no seu “imparcial” texto.


Ciro Spitama é uma personagem brilhante e marcante no seu sarcasmo em relação aos feitos dos Gregos. Ele questiona e escarnece de uma civilização que por nós é unanimemente aclamada e da qual nos orgulhamos, pois é a raiz da nossa própria civilização. Nesta obra de Gore Vidal a civilização Grega é colocada no seu devido lugar, não só em relação à Persa, mas também em relação à Chinesa e à Hindu.

***

P.S. É uma grande obra, esta Criação de Gore Vidal. Perdoa-se-lhe a alocução latina “non sequitur” (pág. 332) no pensamento do persa do séc. V a.C. entre outros, poucos, anacronismos. Não chegam para a beliscar. 

quinta-feira, dezembro 29, 2016

Os sábios e os políticos deste Mundo

Confúcio era um dos poucos sábios que fazem realmente perguntas para saber o que não sabem. Regra geral, os sábios deste Mundo preferem prender o ouvinte com perguntas cuidadosamente preparadas tendo em vista obter respostas que reflictam as opiniões imutáveis do sábio.

Gore Vidal, Criação, Dom Quixote, 1989, pág. 477

Felizmente – ou infelizmente – o homem público acaba sempre por se confundir com o povo que dirige. Quando o general Péricles pensa em Atenas, está a pensar em si próprio. Quando ajuda a primeira, ajuda o segundo.


Gore Vidal, Criação, Dom Quixote, 1989, pág. 602

segunda-feira, dezembro 26, 2016

O fim de toda a educação

Sabemos já por Pascal e Montaigne que o fim de toda a educação consiste em tornar-nos capazes de estarmos sentados num quarto em silêncio. Ora, noventa por cento dos jovens, segundo as estatísticas já não são capazes de ler sem ouvir música ou espreitar de relance a televisão.

George Steiner, Quatro Entrevistas com George Steiner (por Ramin Jahanbegloo),  Fenda, 2006, pág. 90. (destaques nossos)

domingo, dezembro 25, 2016

A morte em fuga, à sua frente

Num Domingo, no Montesinho, cedo pela manhã, 
Caminhava um octogenário à beira de um caminho.
Lento e determinado, transportava uma gadanha.

E assim, sem o saber,  afugentava a própria morte
com as suas próprias armas. 

sábado, dezembro 24, 2016

Feliz Natal

Caravaggio, Madonna dei Palafrenieri, 1606

Feliz Natal,

P'ra esconjurar o Mal.

A triste grandeza

Trump e Putin falam de novas corridas ao armamento. Um atreve-se a dizer que o mundo precisa da hegemonia das duas nações porque entregue a si mesmo é a loucura que se vê. Uma piada com certeza. Nenhum fala da necessária corrida ao desarmamento do mundo.

EUA e Rússia querem ser os patronos do mundo. Os novos moralizadores. Adivinham-se novos tratados das Tordesilhas. Dividir para reinar. Parece que irão reavivar este velho lema nos próximos tempos. Mas não é de estranhar que os líderes das velhas superpotências sonhem com os tempos áureos após 1945, quando o mundo as olhava com temerosa veneração. Na verdade sentem que o tapete lhes está a ser puxado debaixo dos pés. Estão a fugir para a frente.

É preciso tornar os EUA grandes novamente, disse Trump. A Rússia já persegue esse desígnio há algum tempo, em relação a si própria - é o sonho de Putin. Infelizmente, Putin e Trump, parecem não ter outros argumentos para defender a sua grandeza para além dos que assentam na ponta das suas armas. É uma triste grandeza.

Imagens dos tempos da grandeza americana.
(Não se colocaram aqui imagens dos tempos da grandeza russa, mas são do mesmo jaez)

sexta-feira, dezembro 23, 2016

...


...
















Os ocupantes que têm logo à partida o objectivo de dominar e explorar criam inevitavelmente um inferno à superfície da Terra.


Norman Davies, A Europa em Guerra, 1939 - 1945, Edições 70, pág. 323

sexta-feira, dezembro 16, 2016

C.B.


O albatroz

Às vezes, por prazer, os homens da equipagem
Pegam um albatroz, imensa ave dos mares,
Que acompanha, indolente parceiro de viagem,
O navio a singrar por glaucos patamares.

Tão logo o estendem sobre as tábuas do convés,
O monarca do azul, canhestro e envergonhado,
Deixa pender, qual par de remos junto aos pés,
As asas em que fulge um branco imaculado.

Antes tão belo, como é feio na desgraça
 Esse viajante agora flácido e acanhado!
Um, com o cachimbo, lhe enche o bico de fumaça,
Outro, a coxear, imita o enfermo outrora alado!

O Poeta se compara ao príncipe da altura
Que enfrenta os vendavais e ri da seta no ar;
Exilado no chão, em meio à turba obscura,
As asas de gigante impedem-no de andar.

Charles Baudelaire, As Flores do Mal

sábado, dezembro 10, 2016

Dívida pública: a cobardia nacional.

A dívida e o crédito são formas de transferir para o futuro pagamentos a realizar pelas despesas do presente. Com uma dívida pública desta magnitude os portugueses do presente comprometem irremediavelmente os portugueses do futuro: os seus filhos e os seus netos, os não nascidos, os que não podem defender-se e os que não votam. Todos eles encontram-se já condenados ao pagamento dos desvarios do presente, e nem o sabem.

terça-feira, dezembro 06, 2016

O Futuro

Seria lindo que se tivesse realizado o sonho de vivermos num mundo sem fome, com diferenças materiais e sociais menos gritantes. Mas os profetas que no-lo prometeram, e se fizeram pastores do rebanho, foram mais prontos a pegar o cajado e a chamar a si os benefícios. De forma que a revolução anunciada não veio e jamais virá. Os abastados terão os meios para partir e colonizar novos e mais confortáveis planetas, abandonando neste a massa que lentamente irá apodrecendo, afogada na sua própria sujidade.

Rentes de Carvalho, A Ira de Deus sobre a Europa, Quetzal, pág. 137

***

Uma espécie de Elysium.


domingo, dezembro 04, 2016

Respeito

Recuso odiar o meu semelhante, discriminá-lo, suspeitá-lo, ameaçá-lo. Importa-me pouco em que divindade acredita, e nada me interessam os seus hábitos e rituais. Mas dele espero reciprocidade no respeito que lhe tenho e na dignidade que lhe reconheço.

Rentes de Carvalho, A Ira de Deus sobre a Europa, Quetzal, 2016, pág. 241.

***

Nada de confusões1.

O respeito vale mais, muito mais, do que a simples tolerância.

O assunto já aqui foi abordado.

Um excelente livro - A Ira de Deus sobre a Europa - e uma excelente análise, a de Rentes, sobre a mudança num país sito no coração da Europa, e sobre o futuro deste continente e quiçá do mundo.

Ainda voltaremos a falar dele.

E, diga-se de passagem, uma excelente capa.

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(1) - A Ira de Rentes, está longe de ser uma imprecação contra o "politicamente correcto" ou contra o multiculturalismo. 

Versões pindéricas

As imprecações contra o “politicamente correcto” e o multiculturalismo são versões pindéricas de uma cultura de extrema-direita.

António Guerreiro, "A História Gosta de se Citar", Público, 25 de Novembro de 2016

sábado, novembro 26, 2016

Hoje chora a Sierra Maestra

Fidel Castro (1926-2016)

Hoje chora a Sierra Maestra. Morreu-lhe o filho mais querido.

De Fidel aprendi que "jamais poderá ser revolucionário aquele que não acredita no Homem." Infelizmente já não me coloco nessa categoria. Sinal de que estou a ficar velho. Talvez.

A Revolução é coisa de jovens.

sexta-feira, novembro 25, 2016

O sacrilégio do Rentes

Rentes cometeu um sacrilégio. Esse, o de juntar numa só frase, as palavras “refugiado” e “terrorismo”. O sacrilégio de pensar pela sua própria cabeça. O sacrilégio de considerar o “politicamente correcto” uma obnubilação aos que ousam exprimir livremente um pensamento claro e limpo, livre de conspurcações ideológicas e modas correntes.

Ora um pensamento livre não se deixa agrilhoar pelo "politicamente correcto".

Cá vai:

 Com os seus atentados e degolações, o terrorismo bastaria como séria ameaça, mas mesmo sem violência, pela simples presença e número, os refugiados contribuirão igualmente, senão para destruir a Europa, de certeza para abalar os seus alicerces, transformar as suas instituições, desestabilizar o equilíbrio e a variedade das sociedades que a compõem. Os refugiados do Médio Oriente não conhecem mais do que os regimes tirânicos e autoritários que, malgrado as suas imensas riquezas, só produzem sofrimento, atraso e miséria.

Será então razoável esperar que gente nada e criada nesses ambientes seja capaz, ou deseje, abraçar os nossos valores de liberdade e respeito quando, apesar do sofrimento, eles, como muçulmanos, consideram o seu modo de encarar a vida o único possível? E a sua religião única e obrigatória?

Rentes de Carvalho, A Ira de Deus Sobre a Europa, Quetzal, 2016, pág. 13.

sábado, novembro 19, 2016

As elites já não moram aqui

Ontem, 18/11/2016, António Guerreiro escreveu no Público uma das suas interessantes opiniões, agora contra os que usam o discurso da crítica das “elites”, sem que precisem com rigor de que elites se tratam. “Que elites são essas tão vagamente nomeadas?”, questiona ele, e refere que “Não é possível saber [que elites são essas], nem há nada a saber, porque este discurso [o da crítica das elites] tem o objectivo de uma palavra de ordem, um refrão, que nada diz de substancial, mas chama a atenção sobre quem o profere.” Mais adiante esclarece-nos que “a palavra “elite” de origem francesa, incorpora a originária raiz do verbo latino eligere, escolher”.

***

Quem são as elites de hoje afinal? Quem são os escolhidos, os eleitos dos nossos dias? Não serão os que se podem evadir, descomprometidamente, de um mundo que se tornou demasiado superlotado, demasiado malcheiroso, demasiado insuportável, enfim, um mundo com demasiados outros, comuns mortais? Afinal não era Jean-Paul Sartre que afirmava que o Inferno são os outros? Mas atenção: ainda que possam e desejem apartar-se dos outros, as elites, para o serem, não se podem apartar do poder. Caso contrário que elites seriam? Elites sem poder? Trata-se de uma contradição nos seus termos. É o poder que define as elites, acima de tudo. Mas hoje, também acima de tudo, esse poder é um poder politicamente descomprometido, é um poder desterritorializado, e a sociologia das elites sabe-o bem e melhor do que ninguém.

Zygmunt Bauman, aborda o assunto na sua obra, Em Busca da Política, Zahar Editores, 2000. Afirma ele o seguinte:

Os operadores de capital da nossa época [a elite global de hoje] têm uma notável semelhança com os proprietários de terras pré-modernos que viviam longe das suas propriedades. A sua ligação com as localidades das quais retiram o excedente de produção é, no entanto, ainda mais ténue do que os laços que uniam aqueles proprietários fundiários às suas terras distantes.

Mesmo quando fisicamente ausentes e não integrando nem social nem culturalmente a localidade, os antigos senhores de terras eram assim mesmo proprietários fundiários, daí ser necessária uma certa preocupação em preservar a capacidade da terra em produzir riqueza, caso contrário secaria a fonte da sua riqueza e poder. No caso desses senhores de terras dos tempos pré-modernos, o poder era acompanhado de obrigações, ainda que diluídas, e a exploração andava de mãos dadas com algum tipo de solidariedade — ainda que frágil e pouco confiável — para com a sorte dos explorados. Já não é mais esse o caso ou pelo menos não tem que ser — e as pressões globais combinadas dos todo-poderosos mercados financeiro, accionista e bancário cuidam para que assim não seja.

O poder do capital perde cada vez mais a sua materialidade, e torna-se cada vez mais “irreal” quando visto a partir do significado que a realidade tem para as pessoas que não integram a elite global e têm pouca oportunidade de juntar-se a ela. Uma nova habilidade para evitar, elidir e escapar substituiu o envolvimento na vigilância, no treinamento e na administração como recurso primordial e essencial do poder. Tornou redundante todo e qualquer compromisso — por mais benigna ou cruel a forma que assumisse. Sobretudo, a capacidade de evitamento tornou disponível a outrora suprema forma panóptica de envolvimento através do esforço de vigilância, treinamento e disciplina. O financiamento do controle de tipo panóptico é hoje considerado um gasto desnecessário e injustificável, irracional mesmo, a ser descartado ou, melhor ainda, completamente eliminado. O sinóptico — um panóptico tipo faça-você-mesmo, que seduz muitos a embasbacarem-se com poucos, em vez de contratar uns poucos para vigiar muitos — mostrou-se um instrumento de controlo muito mais eficaz e económico. Os remanescentes do velho panóptico ainda actuantes não visam o treinamento corpóreo nem a conversão espiritual das massas, mas a manter no seu lugar aqueles sectores das massas que não devem seguir a elite no seu novo gosto pela mobilidade.

As classes cultas do nosso tempo, produtoras e detentoras de saber [outra elite que Guerreiro critica], também se parecem às congéneres pré-modernas à época em que estas se postavam em segurança atrás das impenetráveis muralhas do latim, isolando-se da gente simples. Com efeito, o ciberespaço da web mundial é sob muitos aspectos o equivalente actual do latim medieval. Ela torna os integrantes das classes cultas pessoas sem território e fora do alcance daqueles que lhes são próximos no espaço físico, ao mesmo tempo que lança o alicerce tecnológico de um outro universo, um universo virtual que aproxima os membros da classe culta. Na qualidade de homens e mulheres de saber eles habitam o ciberespaço, no qual as distâncias são medidas por padrões inteiramente diferentes dos que são usados no espaço geográfico comum; no ciberespaço criam-se pistas independentes das rotas seguidas pelos outros e a sinalização é disposta de maneira apenas, quando muito, superficial e casualmente relacionada à cartografia e topografia usuais.

Zygmunt Bauman, Em Busca da Política, Zahar Editores, 2000 (adaptada), os destaques e sublinhados são nossos.

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As elites já não moram aqui. Moram em todo o lado, ou seja, não moram em lado nenhum. A extrema mobilidade é uma das suas características. A capacidade de morar em qualquer lugar, onde lhes aprouver, sem qualquer outra ligação de maior a esse lugar, localidade ou região, para além de ocuparem esporadicamente um dos seus condomínios aí localizados, é outra das suas particularidades. O compromisso político com as sociedades que as viram nascer deixou de ser considerado pelas elites como uma obrigação, um dever ou uma necessidade de sobrevivência, ou ainda uma condição para a obtenção de poder. A possibilidade de evasão ou “evitamento” por parte das elites trata-se antes de uma libertação.

As novas elites dispensam representação e furtam-se à taxação.

The Times They are a Changing. Really?! A Nova Ordem Trumpeana

Tudo começou quando se cantava uma Nova Ordem Mundial no rescaldo da antiga (com a derrota da URSS no Afeganistão e o seu fim, surpreendente, na época). Seguiu-se, breve, uma nova ordem unipolar dominada pela hiperpotência americana. A América era grande outra vez. Essa nova ordem foi uma ordem de novas guerras e rebeliões em países aparentemente distantes da Europa, mas não tão distantes quanto isso. Durante os conflitos, potentes meios de comunicação globais não deixavam de mostrar as imagens dos infernos terrestres (tivemos bombardeamentos em directo comentados com todo o profissionalismo) e imagens dos paraísos terrestres, chegando tais imagens aos quintos dos infernos terrestres. E os que viviam no inferno dos conflitos, e os que podiam, rapidamente de lá queriam sair, legitimamente ou ilegitimamente. E saíam. E para onde rumar, mesmo com risco de vida, se não para os paraísos terrestres mais próximos.

Carontes bem pagos ajudavam à travessia agora inversa, do Hades ao Éden, das terras dos mortos para as terras dos vivos, terras prometidas de vida farta e plena. Então os novos bárbaros começaram a chegar, ousando atravessar desertos e fossos dantescos, mediterrânicos. Os novos bárbaros serão os novos europeus (lê-se numa revista), pois claro (afinal os velhos europeus – nós - também não fomos  já velhos bárbaros?).

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Schengen rebentou como uma barragem prenhe de água até não poder mais. O descontrolo instalou-se nas fronteiras externas da “União” e depois nas fronteiras internas. Rios de imigrantes e refugiados começaram a penetrar os caminhos da Europa em direção ao Norte. A figura do imigrante clandestino, ilegal, desapareceu. Eram todos refugiados. Um governo socialista francês fechou os olhos à construção de uma cidade de barracas num extremo do seu território, frente à fossa mais estreita e menos profunda, e por isso mais transponível, do Canal da Mancha. Formou-se então essa enorme “selva” de habitações precárias – uma “selva” em plena Europa continental, frente a esse outro paraíso mais paradisíaco, aos olhos de quem procura, não refúgio, mas outra coisa qualquer, que é a Grã-Bretanha. Na verdade, aqueles refugiados de Nord-Pas-de-Calais, já não fugiam da guerra, não procuravam refúgio, procuravam sim outra coisa. Pois afinal no paraíso francês não havia guerra, não é verdade? Então o que procuravam aqueles refugiados? Não haviam alcançado já a paz nas terras de França? Não se encontravam já distantes dos infernos terrestres? A constituição da “Selva” em Nord-Pas-de-Calais teve um efeito desconfortável no subconsciente de muitos dos que viviam além Mancha. Afinal, meu Deus, meu Deus, o que vinha aí. Epílogo: Venceu o Brexit! O Reino Unido, desunido, abandona o barco Europeu, qual escaler lançado ao mar em momento de aflição ou invasão, quando o grande navio já mete água por todo o lado.

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Meses depois, do outro lado do Atlântico, vence um Trump. Um grosseiro. Outro rombo no casco do navio Ocidental.

O Euro afunda-se agora face ao dólar, na iminência de uma subida das taxas de juro diretoras americanas e a Itália ameaça uma evasão da zona Euro, aprofundando mais ainda a eterna crise do Euro. Crise que só terminará, diga-se de passagem, com o fim do Euro. Em suma: o Euro é a crise.

Por tudo isto são por isso agora mais sonoros os brados dos profetas da desgraça e das cassandras, anunciando o fim do Euro e a derrocada do projeto Europeu. O fim de um mundo que se queria novo e o começo de um novo mundo que afinal é o velho.

The times are changing.

Mas o vento que por aqui sopra, nem cheira bem, nem está de feição.

 Eis a nova ordem trumpeana.

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quinta-feira, novembro 10, 2016

Trump, trump, bang, bang.

Eis que o Imperador Trump tomará o ceptro e irá sentar-se no trono da América. Será que desta vez a América irá deixar o mundo em paz? E será que o mundo irá deixar a América em paz? Afinal são muitos os que acusam de inacção a América quando alguns conflitos despontam. Depois, mais tarde, vêm acusar a América de querer ser o polícia do mundo e de se querer substituir ao papel da ONU com a qual rivaliza no intervencionismo “salvador” do mundo.

O Trump quer fazer da América grande outra vez. Mas se pensarmos bem, foram as grandes guerras que fizeram a grandeza da América.

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Estou curiosíssimo para ver que cavalos vai Trump nomear, qual novo Calígula, imperador louco dos tempos pós-modernos. Avizinham-se tempos interessantes para a globalização galopante, com o Brexit e agora com o presidente Trump a agitar a bandeira do proteccionismo e das fronteiras fechadas. Tudo parece indicar que o galope da globalização vai ser travado, mas é difícil crer nisso, tal a velocidade que assumiu o processo. Petróleo a queimar, armas a disparar e corpos a tombar (muitos deles negros, às mãos armadas da polícia) continuarão a ser garantidos na terra do Tio Sam e, provavelmente, noutros lugares do mundo. Prosseguirão as alterações climáticas, a todo o gás, assim como o aquecimento global. Preparemo-nos para o pior, esperando que o pior não aconteça. Eis os tempos do cowboy  americano, de revólveres na mão, disparando as suas armas em todas as direcções: trump, trump, bang, bang.



domingo, novembro 06, 2016

A natureza das coisas

Todas as coisas acabam mal, no fim. Mas acabar é a natureza das coisas.

Gore Vidal, Criação, Publicações Dom Quixote, 1981, pág. 68.

sábado, novembro 05, 2016

O velho humanismo: uma mistura para vomitar. Mas será o novo melhor?

O velho humanismo afasta-se e desaparece. A nostalgia atenua-se e é cada vez mais raro que nos voltemos para rever a sua forma estendida no caminho. Era esta a ideologia da burguesia liberal. Inclinava-se sobre o povo, sobre os sofrimentos humanos. Cobria, sustentava a retórica das almas belas, dos grandes sentimentos, das boas consciências. Compunha-se de citações greco-latinas polvilhadas de judaico-cristianismo. Um cocktail assombroso, uma mistura para vomitar. Só alguns intelectuais (de “esquerda” – mas ainda haverá intelectuais de direita?) mantêm ainda o gosto por esta bebida triste, nem revolucionários, nem abertamente reaccionários, nem dionisíacos, nem apolíneos.  

É, assim, para um novo humanismo que devemos tender e esforçar-nos, isto é, para uma nova praxis e um outro homem, o da sociedade urbana. Escapando aos mitos que ameaçam esta vontade, destruindo as ideologias que desviam este projecto e as estratégias que afastam este percurso. A vida urbana ainda não começou. Nós realizamos hoje o inventário dos despojos de uma sociedade milenar na qual o campo dominou a cidade, cujas ideias e “valores”, os tabus e as prescrições eram, em grande parte, de origem agrária, marcados por uma dominante rural e “natural”. Do oceano campesino emergiam custosamente esporádicas cidades. A sociedade rural era (ainda é) a sociedade da não-abundância, da provação aceite e rejeitada, dos interditos que ordenam a regulamentam as privações. Esta também foi, todavia, a sociedade da Festa, mas esse aspecto, o seu melhor, não foi retido, e era ele que seria necessário ressuscitar e não os mitos e os limites!

Henri Lefebvre, O Direito à Cidade, Letra Livre, 2012, pág. 110.

A vida urbana já começou. Lefebvre acusa o velho Humanismo burguês e aponta para um novo, ironicamente ainda mais aburguesado (não é afinal um humanismo de burgo aquilo que ele nos propõe?). Trata-se no entanto de uma fuga para a frente. Ora o novo humanismo que ele nos propõe ainda é pior. Sabemo-lo agora. Trata-se de um humanismo urbano que descarrila na desumanidade das cidades sem fim. É o humanismo das ruas nocturnas, frias e vazias que produziu os sem-abrigo deambulantes e envergonhados que povoam as grandes cidades, verdadeiras sepulturas do espírito humano. À festa rural circunscrita opôs-se o frenesim festivo e consumista, urbano e omnipresente. À contenção da sociedade da não-abundância, sobrepôs-se o desperdício da sociedade da abundância, incontida, desregrada, infrene e insustentável. Se a dominante rural era “natural” e idílica, a urbana é artificial, insana e doentia. Trata-se de uma dominante mecânica. Um irónico humanismo de máquina.

Somos hoje prisioneiros de um quotidiano sistematicamente medido e controlado pelas máquinas do tempo, essa marca do novo humanismo. Vivemos o totalitarismo do tempo maquinal, em sociedades-máquina (e em cidades-máquina), onde os vizinhos não se conhecem. Nas sociedades humanistas urbanas defendidas por Lefebvre marchamos todos a toque de caixa. Alguns de olhos sonâmbulos ainda entoam loas a esse novo humanismo, nas novas manhãs urbanas que agora cantam. Um canto desafinado.

Profundo

Caminho durante horas a fio, desviando-me esporadicamente de um borrão de merda de cão.

Don Delillo, Zero K, Sextante, 2016, pág. 264

Delillo caminha pelas cidades, de mãos nos bolsos, ensimesmado, de olhos postos no passeio onde grassa a merda de cão. Leio noutro lugar que os animais domésticos superam já os animais selvagens (*), em número e em massa (omite o narrador, por certo, os insectos, nessa assumpção desesperante). Triste humanidade, rendida a uma natureza artificial que ela mesma criou. Homo Deus nos tornámos! Um pesadelo! Há seres humanos em excesso à superfície da Terra e animais domésticos também. O próprio Homem é já um animal doméstico. E ainda há quem defenda a paródia do Humanismo - esse ser prodigioso que é o Homem - mesmo depois de constatar todo mal que o homem (sim, com letra pequena!) faz a si mesmo e toda a destruição que inflige no jardim que lhe foi legado. Sim, venham de lá agora dizer que este discurso apoia a acção de genocidas que se entretêm a erradicar seres humanos da face Terra. Não se trata disso. Para melhorar o mundo, não tenhamos dúvidas, o primeiro passo é erradicar os genocidas.
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(*) Yuval Harari, Homo Deus: A Brief History of Tomorrow, Harper Collins Publishers, 2016

domingo, setembro 25, 2016

Nicolaes Ruts

Rembradt, Retrato de Nicolaes Ruts, 1631

Sopa quente e bebidas frescas

Uma contradição mata o seu contrário; as inconsistências [no carácter] existem lado a lado, em resposta a diferentes situações. Como poderia um indivíduo rígido sobreviver num mundo variável? No Inverno, sopa quente; no Verão, bebidas frescas.

Jacques Barzun, Da Alvorada à Decadência, Gradiva, 2003, p. 149.


O Eu é indissociável da sua circunstância. Assim se explicam as inconsistências que preenchem o carácter. Há, no entanto, quem as confunda com contradições, em particular quando ajuíza sem atender às circunstâncias que rodeiam as acções.

Pelas acções se conhece o carácter, contudo as circunstâncias que nelas influem não são despiciendas e devem também pesar numa avaliação do carácter.

sábado, setembro 24, 2016

Em alta


Em Dortmund mora um prodígio: Raphael Guerreiro. Está em alta. 

O defesa joga agora ao ataque e insufla de alma a equipa do Dortmund quando entra em jogo ou quando joga de início. Não é o único, diga-se de passagem, mas quando joga tudo se agita.

Eis a sequência dos últimos resultados do Borussia de Dortmund:

14/09/16       Legia Warszawa     0 - 6   Borussia Dortmund
17/09/16  Borussia Dortmund     6 - 0   Darmstadt
20/09/16                 Wolfsburg     1 - 5   Borussia Dortmund
23/09/16  Borussia Dortmund     3 - 1   Freiburg

Vinte golos marcados em quatro jogos (!), e não estamos a falar de hóquei em patins. Apenas dois golos sofridos.

Neste quatro jogos, Raphael Guerreiro marcou 3 golos e deu outros 3 a marcar (assistências), tendo jogado 262 minutos (apenas em dois dos últimos quatro esteve os 90 minutos em campo). 

No jogo contra o Dalmstadt, o treinador Tuchel deu-se ao luxo de o retirar conjuntamente com Dembelé, aos 63 minutos, para os preservar para o jogo seguinte e para que recebessem o aplauso merecido pela magnífica partida que estavam a realizar (então o Dormund já vencia por 3-0).

No jogo contra o Freiburg, entrou apenas aos 71 minutos: marcou golo aos 90'+1.

Uma verdadeira arma secreta do Dortmund.

É o melhor português emigrante a jogar futebol no momento.
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PS - Honra seja feita aos outros magníficos jogadores do Dortmund, muito jovens, que constituem uma verdadeira equipa multinacional: Aubameyang (Gabão), Pulisic (EUA), Piszczek (Polónia), Dembelé (França), Götze (Alemanha), o guarda-redes Bürki (Suíça) entre outros.

sexta-feira, setembro 23, 2016

O Presidente emplastro


Palavra de honra, que foi o que me veio à cabeça quando o vi, esta terça-feira, entre o casal Obama.

O frenético Marcelo está em todas.

De segunda a sexta-feira, ora nos noticiários da rádio (e logo pela manhã!), ora na TV, lá está ele, no boneco. É incontornável.

sexta-feira, setembro 16, 2016

Colher nos campos do saber

Cícero inventou o conceito de «cultura», ainda hoje válido, ao comparar o cultivo da alma com o cultivo dos campos e, para ele, era óbvio que a literatura era a melhor maneira de cultivar o campo da alma.

Em ambos os campos, o cultivo faz-se porque há a perspectiva de crescimento. Por consequência, ler é como colher nos campos do saber.


Peter Sloterdijk, Morte Aparente no Pensamento, Relógio D’Água, 2014 , pág. 72.

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Dos distantes campos romanos brotou a palavra “cultura”. Marcus Tullius Cícero (106 a.C. – 43 a.C.) foi quem lhe deu nome. O nome que ainda lhe damos.

quinta-feira, setembro 01, 2016

Fim das férias, início dos queixumes

Acabam as férias e começa Setembro. Começam os queixumes. Faltam magistrados, faltam oficiais de justiça, faltam médicos, faltam enfermeiros, faltam auxiliares de acção educativa, faltam meios, falta isto e falta aquilo…falta dinheiro… Falta tudo! Cada responsável corporativo tem uma visão parcelar do seu sector, ignorando as necessidades dos demais. Nem quer saber disso, não é com ele. Só lhe diz respeito o seu sector. Assim, reivindica sem visão e conhecimento das necessidades de todo o conjunto. Atender positivamente a todas as reivindicações seria o pântano. O governante tem de ter a coragem de dizer não, uma vez que não pode dizer sim a todos. Caso contrário, a sociedade torna-se ingovernável.  

Os queixumes tinham ido de férias, os queixumes regressaram. Quando os oiço, vindos de férias, apetece mandá-los de férias outra vez. Para bem longe.

terça-feira, agosto 23, 2016

Euforia e alucinação

E o país mais poderoso do mundo vai ser governado ou por esta senhora ou pelo outro senhor do chinó?!

Deus nos acuda!

domingo, agosto 21, 2016

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