segunda-feira, junho 08, 2020

Beg your pardon?!



Churchill combateu de forma implacável o nazismo. Guiou os ingleses até à vitória final sobre os nazis. Os nazis, os maiores racistas de todos os tempos!


Post scriptum

Churchill emitiu em 1937 opiniões racistas, diz o Daniel Oliveira. Há ainda quem o ligue à morte de milhões de indianos em 1943, em plena Segunda Guerra Mundial. Uma barbaridade! Não vamos por aí.

Será que Churchill ainda pensava o mesmo em 1945 e no momento da sua morte?

As suas palavras de 1937 vinculam-no para todo o sempre à ignomínia de ser um racista, e assim continuar a ser lembrado para todo o sempre? É isso que releva, ou deve relevar, na sua passagem pelo mundo? Somos lestos a julgar e a atirar pedras.

Para mim, a estátua de Winston Churchill  representa alguém que se opôs ao mal absoluto e que o combateu com toda a sua energia, galvanizando os que estavam a seu lado - e não eram só os ingleses -, dando-lhes energia para fazerem o mesmo.

E não, Churchill, não foi Estaline. 

domingo, junho 07, 2020

Do grande Horácio, que viveu há mais de dois milénios

A fome por mais e a inquietude acompanham
a fortuna que cresce.
Horácio, Odes, Livro III, XVI

domingo, maio 17, 2020

Praia de Sesimbra



















Fotografia tirada a 25/04/2019

Façamo-nos entender. Gostar de praia não significa gostar de multidões e confusões, sol escaldante e escaldões, corpos lustrosos torrando ao sol do meio-dia.

No Verão gostamos de frequentar a praia na melhor hora, ou seja, quando as multidões a abandonam e o sol já não castiga, ao fim da tarde. Já chegámos a partir da praia ao princípio da noite, atravessando bares e festas, onde todos já se vestiam de gala. E nós de calções, com toalha ao ombro, meio molhados, atravessando o passadiço e a plataforma onde no bar já se preparava a festa e se ouvia a música batida.

Também frequentamos nessa estação extensas praias de vastos areais, quase desertas, preferencialmente quando o Zéfiro sopra e se contempla o mar quando o azul do céu é mais luminoso.

Nas outras estações frequentamos a praia a qualquer hora, esteja sol ou esteja chuva, bonança ou tempestade.

Adoramos o rumor do mar e o ribombar do trovão. Somos apaixonados por tempestades e ventos.

Gostamos de Ulisses e de Eneias, de Calipso e das Nereidas. Sim, também gostamos de Circe e da praia da ilha de Eeia.

Gostamos de praias.


Nós, 

os da Ocidental Praia. 

quarta-feira, maio 13, 2020

Sesimbra, como se o Verão tivesse acabado de partir














Sesimbra, 11 de Maio ao entardecer

Estranhamente, sabe a fim de Verão. Restaurantes fechados, praia fechada. Alguns solitários caminham na marginal, outros correm. Alguém fuma num banco que ladeia a marginal, encara o mar, e uma garrafa de cerveja aguarda, meio bebida, meio embrulhada num saco de papel a seu lado. Três surfistas estão dentro de água, encavalitados nas pranchas. Aguardam as ondas. Tudo aguarda. A praia sabe a nostalgia, como se o Verão tivesse acabado de partir. 

Summer's almost gone
Summer's almost gone
Almost gone
Yeah, it's almost gone
Where will we be
When the summer's gone?

                                    The Doors

Onde estaremos nós quando o Verão partir?

Onde estaremos quando o Verão chegar?


sábado, maio 09, 2020

A Ocidental Praia

Lemos que nos querem limitar o acesso à praia, a nossa ocidental praia,
para onde nos deslocamos para viver,
para onde nos deslocamos para morrer,
porque ali somos.

Corredores, polícias e drones,
Corredores perpendiculares ao mar,
interdições e limitações.

Não ousem.

Podem tirar-nos tudo, mas não a ocidental praia. É o que sempre nos restará sob pena de deixarmos de ser aquilo que somos há mais de 800 anos.

O que é Portugal senão a ocidental praia?

Lembram-se dos primeiros versos cantados pelo Poeta?

As armas e os barões assinalados,
Que da ocidental praia Lusitana,
Por mares nunca de antes navegados,
Passaram ainda além da Taprobana, …

Camões, Lusíadas, Canto I

Sim, vencemos mares nunca navegados,
E também os perdemos.

Não perderemos a praia.

Nós, os da Ocidental Praia.

***








Praia do Rei, 28 de Abril de 2020

sexta-feira, maio 08, 2020

Livro Lido: O Terceiro Chimpanzé, de Jared Diamond


Um excelente livro (óóóó).

Desfeita foi essa ideia do humanismo grego que proclama o homem como um ser prodigioso.

Foi Sófocles, na Antígona, que disse:

Muitos prodígios há; porém nenhum maior do que o homem.

Lido o livro, o prodigioso homem revela-se um exterminador, um genocida, um agressor contra o ambiente que o ampara, contra a terra-mãe que o gerou. Um horror!

O livro é muito bom, mas por vezes exaustivo, como por exemplo no capítulo 8, sobre a linguagem humana, tornando-se enfadonho nesse capítulo. Julgamos que o autor se deixou levar pela sua paixão pelas línguas.

Mas o livro ajuda-nos a perceber o momento que atravessamos e alerta-nos para os horrores que estamos a desencadear: um holocausto ambiental que terá repercussões na civilização humana e na vida do planeta que vão muito para além dos malefícios causados pelo coronavírus que agora nos aflige.

E, muito importante, refere Jared Diamond, na página 269:

Finalmente, a maioria das principais actuais doenças infecciosas e parasitas da humanidade não poderia ter-se estabelecido antes da transição para a agricultura. Estes assassinos persistem apenas em sociedades populosas, com má nutrição e sedentárias, constantemente reinfectadas pelos outros e pelos próprios esgotos. A bactéria da cólera, por exemplo, não sobrevive por muito tempo fora do corpo humano.
Jared Diamond, O Terceiro Chimpanzé, 1993, pág. 268.


A bactéria da cólera não sobrevive por muito tempo fora do corpo humano, tal como um vírus. E da mesma forma que o campo de cultura fértil ideal para a eclosão de fenómenos bacteriológicos e virológicos eram as sociedades populosas e poluídas da Era Agrícola, pré-industrial, também hoje continuam a ser as áreas mais densamente povoadas e poluídas como as cidades industriais do Oriente, da China, entre outras, porque também as há noutros países e continentes, as áreas de onde continuam a brotar esses assassinos microscópicos. Porém desse país mais populoso e densamente povoado, que é a China, em particular nas suas regiões orientais e meridionais, advirão outras ameaças, segundo o autor, que refere que a sua dimensão populacional e a sua economia asseguram que os problemas ambientais se transformarão em problemas para o resto do mundo também(Diamond, 1993 [posfácio à edição de 2006], pág. 515)

Será dessas regiões densamente povoadas e poluídas que advirão as maiores ameaças ambientais e microbiológicas para a Humanidade. Mas não haja ilusões – essas regiões não são ilhas e o que lá ocorre não é só da responsabilidade de quem lá vive. A globalização une-nos a todos, produtores e consumidores, seres humanos. Seremos todos responsáveis enquanto não se criarem instituições globais com capacidade para regulamentar e impor o respeito pelos direitos dos trabalhadores e garantir as suas condições de vida e o seu bem-estar, em todos os países do mundo.

quinta-feira, maio 07, 2020

A anormal normalidade

Quando se adiciona estas extinções que nós já causámos àquelas que nós estamos para provocar, é claro que a actual onda de extinção está a ultrapassar a colisão do asteróide que erradicou os dinossauros. (…) Assim, a anunciada crise de extinção não é nem uma fantasia histérica, nem simplesmente um risco sério para o futuro. Em vez disso, é um acontecimento que tem vindo a acelerar há cinquenta mil anos e começará a aproximar-se do término no tempo de vida das nossas crianças.

Jared Diamond (1993), O Terceiro Chimpanzé, Círculo de Leitores. 2014. Pág. 492.

Seria agora uma boa hora para mudar o modelo económico que se baseia no crescimento sem fim do Produto Interno Bruto, no consumo perpétuo de recursos naturais e no consumo infinito de mercadorias, a maior parte delas supérfluas. Sim, agora que a globalização regride parou (embora prossiga dentro de momentos). Seria agora boa a hora para repensar este modelo insano de perpétua acumulação do capital, como se a exploração dos recursos naturais, em particular dos recursos naturais vivos, não tivesse fim nem limites. Seria agora uma boa hora para substituir definitivamente os combustíveis fósseis por fontes de energia alternativas não poluentes, não geradoras de gases com efeito de estufa. Parar de vez a extracção e a combustão de petróleo e de carvão. Mas não. Não aprendemos. Na nossa mira continua o crescimento do PIB acima de 0%, custe o que custar. Objectivo supremo.

É preciso parar com isto.

A extrema poluição atmosférica está de regresso às cidades da Ásia Oriental. Em breve regressará também às outras cidades do mundo industrializado, à medida que os homens vão abandonando os seus bunkers.

E assim regressamos à anormal normalidade.

sábado, maio 02, 2020

Homem-vírus



Não é novidade: o comportamento demográfico da população mundial, considerando o seu crescimento natural ao longo dos tempos, com particular destaque após a Revolução Industrial, é idêntico ao comportamento difusivo de um vírus.

De há uns tempos para cá o ser humano assumiu um comportamento infeccioso em relação ao planeta que habita. A continuar assim sabemos o que acontece. Sabemos o que acontece aos corpos que os vírus infectam.

No entanto não se trata aqui de considerar o ser humano um vírus. Este comportamento evolutivo exponencial e viral do Homo sapiens tem origem bem marcada. Não foi sempre assim.

Deveremos regressar à Era Pré-Industrial? Talvez não seja necessário, mas teremos de mudar de vida, caso queiramos ter um planeta com condições para nos suportar. 

Mas não tenhamos dúvidas: nesta refrega entre Homem e Planeta, a prosseguir, é o Homem que terá os dias contados. A Terra, tal como a Vida, encontrará sempre o seu caminho, com o ser humano ou sem ele.

Vejam só: alguns animais selvagens, mal os homens se retiraram para os seus lares-bunkers, invadiram as ruas vazias das cidades. E nem perderam muito tempo.

Que atrevimento!

Enfim, "o tempo e a maré não esperam por homem nenhum" e os animais selvagens também não.

sábado, abril 25, 2020

terça-feira, abril 14, 2020

Prescientes

O Presidente Barack Obama (2014), ao contrário do primata que ocupa actualmente a Casa Branca. Ora vejam só.




E Bill Gates (2015), pois claro. Aqui.

domingo, abril 12, 2020

Examinar é preciso, viver não é preciso


O nosso sistema educativo, que se pretende inclusivo, dizem, tem no final provas exclusivas, provas excludentes, provas selectivas. Um paradoxo. Provas para separar o trigo do joio. Provas para seriar.

No fim do dia, afinal o que conta são os exames. A avaliação, selectiva, sobrepõe-se a tudo o resto, ou seja, a todas as outras funções que a escola tem ou deveria ter, na escala de valores que a sociedade lhe atribui. É assim que a sociedade vê a escola e quanto a isso não há nada a fazer. As outras funções da escola não atingem tal magnitude nessa escala de valorização social, é o que se depreende da decisão de priorizar a reabertura do ensino presencial pelos 11º e 12º anos, logo que seja possível, nas disciplinas em que o exame se exige para entrada no ensino superior. Por outras palavras, a razão magna para reabrir o ensino presencial, no contexto actual, é a necessidade de realizar exames de acesso ao ensino superior.

O que diria Sócrates, o Filósofo, desta nossa concepção de escola?

(De Platão não falo, pois consta que a encimar o portão da Academia estava uma placa com a inscrição “Exigem-se conhecimentos de Matemática!”)

O que diria Agostinho da Silva, que defendia um ensino superior com portas abertas para todos os que nele quisessem entrar?

Os exames são a magna obra da Escola. Examinar é preciso, viver não é preciso.

Lista de Livros da Quarentena


O Amor nos Tempos de Cólera, Gabriel García Márquez
A Peste, Albert Camus
Decameron, Giovanni Boccaccio
A Guerra dos Mundos, H. G. Wells
1984, George Orwell
A Estrada, Cormac McCarthy
Diário do Ano da Peste, Daniel Defoe [por sugestão de Orhan Pamuk]
Os Noivos, Alessandro Manzoni [por sugestão de Orhan Pamuk]
Diário da Peste, Daniel Defoe [por sugestão de Orhan Pamuk]

[Outros livros poderão vir a ser acrescentados à lista]

***

Avisos à navegação:

A Estrada, de Cormac McCarthy, é apocalíptico e deprimente. Ali o homem é lobo do homem. Um livro a evitar nos tempos que correm por gente com propensão para a depressão.

A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells, pode ser lido como uma parábola em que os alienígenas somos nós.

1984, de George Orwell, mostra-nos o totalitarismo em que podemos cair ou para onde já alegremente nos encaminhamos. O Grande Irmão, mais conhecido por Big Brother, zelará por nós.

No nosso caso será o Grande Algoritmo.

sexta-feira, abril 10, 2020

Passeio higiénico em retirada


Os passeios higiénicos, esporádicos, converteram-se em rápidas retiradas de meia-hora em direcção ao bunker caseiro. Passeios tristes, passeios vazios pelas ruas quase desertas.

Hoje vi avós à janela no rés-do chão a conversarem com a pequena neta acompanhada pelos pais. O casal e a filha estavam encostados ao automóvel de porta aberta frente à janela. Conviviam assim. Próximos, mas cautelosamente distanciados, a dois metros da janela. Não queriam aproximar-se mais. Havia risos que ecoavam na rua vazia vindos dali. A alegria dos avós, dos pais e da neta. Mais adiante, noutra rua, deparei-me com uma cena idêntica.

Maldito vírus que impõe distâncias entre os entes mais queridos. Maldito vírus que nos tolhe a liberdade.

Vi também papoilas cujas pétalas eram de um vermelho muito vivo. Cresciam junto à base de um sinal de trânsito, no meio do estreito passeio que acompanha a via rápida. Cruzei-me também com um sem-abrigo, um jovem muito envelhecido, encurvado e cabisbaixo. Pressentia-se o sofrimento.

Não me cruzei com mais ninguém.

Regressei a casa.

domingo, abril 05, 2020

Era de paradoxos: um vírus que é um gigante


Todos os dias na TVI, após o Jornal das 8, são agora declamados, contra um fundo negro onde correm as palavras,  os versos do “Monstrengo” da Mensagem de Fernando Pessoa, pela voz do saudoso João Villaret:

        O MOSTRENGO

O mostrengo que está no fim do mar
Na noite de breu ergueu-se a voar;
À roda da nau voou três vezes,
Voou três vezes a chiar,
E disse: «Quem é que ousou entrar
Nas minhas cavernas que não desvendo,
Meus tectos negros do fim do mundo?»
E o homem do leme disse, tremendo:
«El-Rei D. João Segundo!»

«De quem são as velas onde me roço?
De quem as quilhas que vejo e ouço?»
Disse o mostrengo, e rodou três vezes,
Três vezes rodou imundo e grosso,

«Quem vem poder o que só eu posso,
Que moro onde nunca ninguém me visse
E escorro os medos do mar sem fundo?»
E o homem do leme tremeu, e disse:

«El-Rei D. João Segundo!»
Três vezes do leme as mãos ergueu,
Três vezes ao leme as reprendeu,

E disse no fim de tremer três vezes:
«Aqui ao leme sou mais do que eu:
Sou um Povo que quer o mar que é teu;
E mais que o mostrengo, que me a alma teme
E roda nas trevas do fim do mundo;
Manda a vontade, que me ata ao leme,
De El-Rei D. João Segundo!»


9-9-1918
in Mensagem. Fernando Pessoa. Lisboa: Parceria António Maria Pereira, 1934 (Lisboa: Ática, 10ª ed. 1972).
  - 62.


Um vírus que é um gigante.

Era de paradoxos.

sábado, março 28, 2020

Um estado de sei lá

Parece que estamos a viver dentro de uma história de George Orwell. Tudo isto é demasiado horroroso. Enclausurados em casa com o terror lá fora, e, pior, com o terror cá dentro. O terror a tomar conta de tudo. O medo de virmos a perder os nossos entes mais queridos, mais frágeis e mais velhos. O medo a querer tomar conta de nós como o Grande Irmão a querer zelar por nós. Esse medo parasita, viral.

Vivemos um estado de emergência. Um estado de sei lá.

Um pesadelo orwelliano.

domingo, março 22, 2020

Passeio higiénico

Passeia-te a ti mesmo.

***

Não tendo animais de companhia para passear, passeei-me a mim mesmo hoje, nos termos regulamentares, claro está. O Decreto n.º 2-A/2020, que regulamenta a aplicação do estado de emergência decretado pelo Presidente da República, no seu Artigo 5º, alínea i) permite-o, desde que se trate de "deslocações de curta duração, para efeitos de fruição de momentos ao ar livre".

Realizado o rápido passeio pelas ruas quase desertas em que me cruzei com raros transeuntes em igualdade de circunstâncias, seguiu-se, mais uma vez, tal como no domingo passado, "uma rápida retirada em direcção ao recato do lar-bunker onde se consumiu o resto do dia". Isto já começa a ser o novo normal domingueiro, um estúpido novo normal, diga-se de passagem: rápidas retiradas para o lar-bunker. O problema é que ninguém nos garante que o tal micro-organismo* "«agregado de biomoléculas» patogénico e incapacitado para viver autonomamente fora das células que parasita" (Kutschera, 2008) não o tenha já invadido, insidioso e invasivo que ele é, e aguarde apenas o momento oportuno para nos invadir a nós

____________________________

(*) Com efeito, um vírus não é considerado um organismo e representa uma forma intermédia situada entre o mundo inanimado das moléculas e as células metabolicamente activas. (Kutschera, 2008). Não vamos portanto elevá-lo a micro-organismo, porque organismo é que ele não é (pelo menos autónomo).


Referência

Kutschera, Urlich (2008), Biologia Evolutiva, Fundação Calouste Gulbenkian, 2013

quinta-feira, março 19, 2020

Evolução do nº de infectados pelo coronavirus, EUA, Europa e China


Fonte: Bloomberg (adaptado)

https://www.bloomberg.com/graphics/2020-wuhan-novel-coronavirus-outbreak/, (consultado a 19/03/2020)

Pela leitura desatenta dos gráficos até parece que os EUA estão numa situação tão grave como a Europa ou a China, mas não é verdade. A Bloomberg devia ter rodeado o gráfico dos E.U.A, com uma lupa, pois o número de infectados nesse país corresponde a apenas 10,3% dos infectados na China e a 9,1% dos infectados na Europa.

domingo, março 15, 2020

Peripatético sob ameaça



Hoje, pela manhã, entre a Praia da Rainha e a Praia do Rei, poucos eram os que se passeavam à beira-mar. Todos devidamente apartados (excepto alguns que iam aos pares), uns correndo, outros caminhando, passando bem à ilharga uns dos outros, não fosse o coronavírus andar por ali.

Depois, a rápida retirada em direcção ao recato do lar-bunker onde se consumiu o resto do domingo.

***

Desta vez o Titanic embateu num vírus, e entre o ir e o não ir ao fundo, lá se vai tentando fingir a normalidade.

***

Tenho-me lembrado nestes dias das palavras de George Steiner que disse que tinha uma certa imagem mental da verdade emboscada ao virar da esquina, à espera de que o homem se aproxime – e a preparar-se para lhe dar uma cacetada na cabeça*; e também de Urlich Beck e da sua Sociedade do Risco, a nossa sociedade do risco.

Estes tempos de excepção colocam-nos naqueles dias de aproximação de apocalipses, os dias do fim, em que é rompida a normalidade da rotina quotidiana. Mas é apenas isso no caso presente: a mera sensação de iminência de um fim.

O vírus não afundará o Titanic. Ficaremos somente um pouco mais conscientes do quão frágil é o navio em que navegamos face a essa verdade que a Natureza nos oferece: a de que estamos sós num universo hostil que só está à espera nalguma esquina que o homem se aproxime para lhe dar uma marretada na cabeça.

É que não era suposto estarmos aqui e contudo estamos.

___________________________
(*) George Steiner, Nostalgia do Absoluto, Relógio D’Água, 2003. Pág. 80 e 81.


domingo, fevereiro 23, 2020

sexta-feira, fevereiro 21, 2020

Até sempre, VPV

Vasco Pulido Valente (1941- 2020) 

Em primeiro lugar: muito obrigado, Vasco Pulido Valente!

Perdemos mais um excelente analista crítico da sociedade portuguesa. Uma voz necessária, e, muitas vezes, incómoda. Era um prazer ler as suas crónicas, mesmo quando as considerávamos cáusticas ou mordazes, ou até injustas. Mas era uma voz para ouvir com atenção.

Esteve entre nós, bloguers: escreveu num blogue chamado o "O Espectro". A blogosfera estava efervescente nessa altura. O link está ali em baixo nos "Saudosos Idos". É verdade: disparava em todas as direções, com a sua escrita acutilante, irónica e jocosa. Sobre Cavaco escreveu o seguinte, uma vez:


Ler os ditos de VPV era um puro prazer. 

Fica aqui a minha homenagem.

Até sempre, Vasco.

terça-feira, fevereiro 04, 2020

Até sempre, George Steiner






George Steiner (1929-2020)

Esvaziamos da sua humanidade aqueles a quem negamos a palavra. Tornamo-los nus e absurdos. O “silêncio de pedra” pode ser uma imagem literal e terrível do murmúrio confuso, ou na ausência de discurso, do “petrificado”. Quando o diálogo com os outros se quebra a Medusa domina o interior do nosso ser.

George Steiner (1971), No Castelo do Barba Ruiva, Relógio D’Água, 1992, Pág. 118.

Até sempre, George Steiner.

sexta-feira, janeiro 31, 2020

sábado, janeiro 11, 2020

Liberdade

Liberdade é não sentir medo.

                                        Nina Simone

(citada por Joacine Moreira, Expresso, Revista E, 28 de Dezembro de 2019, pág. 105)

quarta-feira, janeiro 01, 2020

terça-feira, dezembro 31, 2019

terça-feira, dezembro 24, 2019

Capital excessivo

O homem moderno, extenuado pela enormidade dos seus meio técnicos, é empobrecido pelo próprio excesso das suas riquezas (…). Um capital excessivo e, portanto, inutilizável.

Paul Valéry

citado por Umberto Eco, A Vertigem das Listas, Difel, 2009, pág. 169 

domingo, novembro 17, 2019

Praia de Altura, Norte, Sul, Este, Oeste

Este

(Fotografias de 16 de Novembro de 2019)

segunda-feira, novembro 11, 2019

O Inverno aproxima-se a largos passos


Fonte da Telha                                                                                              © AMCD

sábado, novembro 09, 2019

Quem quer tramar a ADSE?


No primeiro dia da semana que agora acaba, Marques Mendes, na SIC, alertou para a má gestão da ADSE pelo Governo. Mais, deu a entender que se trata de uma gestão danosa - estranhamente danosa - quando se trata de um serviço que assegura os cuidados de saúde dos funcionários públicos – os utentes – que para ele contribuem e também para os outros, que não contribuindo por o seu rendimento ser inferior ao salário mínimo nacional, a ele têm direito. No total, segundo referiu, trata-se de um milhão e duzentos mil utentes. Acontece que os que não contribuem acabam por ser suportados pelos que contribuem, não colocando o Estado um único cêntimo para suportar esse encargo, quando é da sua responsabilidade fazê-lo. Segundo Marques Mendes, o Estado deve milhões à ADSE, não compensa a ausência de contribuições dos utentes isentos, e o Governo está a ignorar, há quatro anos, um estudo do Tribunal de Contas que aponta caminhos de viabilidade para a ADSE.

Hoje, no final da semana, o economista Daniel Bessa, na sua coluna do Expresso, volta a chamar a atenção para a situação insustentável da ADSE.

Ora parece que há algo de podre no reino da Dinamarca. É caso para perguntar: quem quer tramar a ADSE? O que tem o Governo Socialista contra a ADSE? Por que razão procede a uma gestão danosa?

domingo, novembro 03, 2019

Livro lido: O Apelo da Tribo


Mario Vargas Llosa, O Apelo da Tribo, Quetzal, 2019

Reapreciação: óóóó 
(Já nos tínhamos referido a este livro, mas a leitura não estava concluída).

Leitura fluída e agradável. Boa tradução, se bem que o uso de plebeísmos como “estrambótico” ou “endrominar”, na página 294, nos faça torcer o nariz. Entre os liberais abordados, existem alguns conscientes da monstruosidade que é o fundamentalismo de mercado e, pura e simplesmente, não vão por aí. É o caso de Isaiah Berlin:

«Dito isto, temos de acrescentar que, entre as várias correntes de pensamento que cabem dentro da aceção «liberal», Isaiah Berlin não concordou totalmente com aqueles que, como Friederich von Hayek ou Ludwig von Mises, veem no mercado livre a garantia do progresso, não só do económico, mas também do político e cultural, o sistema que pode harmonizar melhor a diversidade quase infinita de expetativas e ambições humanas, dentro de uma ordem que salvaguarde a liberdade. Isaiah Berlin albergou sempre dúvidas sociais-democratas sobre o laissez-faire e reiterou-as poucas semanas antes da sua morte, na esplêndida entrevista – espécie de testamento – que concebeu a Steven Lukes, repetindo que não conseguia defender sem alguma angústia a liberdade económica ilimitada que “encheu de crianças as minas de carvão”». (pág. 264)

Até o liberalismo tem o seu extremismo. E se Vargas Llosa alerta para as ideologias que fazem o apelo da tribo em desfavor da liberdade do indivíduo, também é verdade que identifica alguns pensadores que integram uma tribo ideológica à qual ele não se pode furtar: a dos liberais. Dentro dessa tribo, há uma facção de fundamentalistas de mercado que defendem a ideologia neoliberal com tal fanatismo que mais se parecem com propaladores de uma nova fé.

Ora o neoliberalismo é o liberalismo extremado e dos extremos nunca vem coisa boa. Levado ao extremo o liberalismo devém num fundamentalismo de mercado, numa ideologia do egoísmo sustentado na cobiça e na ganância. Ainda assim muitos liberais vêem no neoliberalismo uma coisa boa. É o caso de Mario Vargas Llosa.

domingo, outubro 27, 2019

Uma paródia britânica: a crise das democracias


No Reino Unido verifica-se um estranho caso de incompatibilidade entre duas formas de democracia: a directa e a representativa. O que foi decidido em 2016 através da democracia directa, pelo voto popular, está a ser contrariado, de alguma forma, desde então, pela democracia representativa, que utiliza todo o tipo de expedientes e pretextos para entravar o que foi decidido em referendo. Somos levados a crer que a vontade do povo e a vontade dos seus representantes, que têm assento no Parlamento, não é a mesma. Se assim é, parece que a solução lógica residiria na escolha de outros representantes. Mas desde 2016 já muita água passou sob as pontes e por isso nada nos garante agora que a vontade do povo seja a mesma. Daqui decorre que uma eleição para o Parlamento Britânico pode não solucionar coisa nenhuma. A paródia britânica prossegue.

quinta-feira, outubro 24, 2019

O apelo da tribo neoliberal

Mario Vargas Llosa, O Apelo da Tribo, Quetzal, 2019

Apreciação:  óóóó

Mário Vargas Llosa não resistiu ao apelo da tribo neoliberal, ou seja, ao apelo da tribo dos que idolatram o mercado desregulado, o mais desregulado possível, embora diga defender o mercado regulado. Se há algo de errado no liberalismo é esse fundamentalismo de mercado que pretende alargar a lógica do seu funcionamento a todas as esferas da vida e mercantilizar tudo, da saúde à educação, da segurança à arte e quase tudo o resto. Para a tribo dos fundamentalistas do mercado, por exemplo, um casamento não é um casamento, é um contrato; a educação de um filho, não é simplesmente educação, é um investimento; o desemprego não é um infortúnio, é uma oportunidade para se ser empreendedor, uma situação de transição entre dois empregos, e assim sucessivamente. Se o mercado foi uma descoberta associada ao desenvolvimento das trocas comerciais, a tentativa de alargamento desse mecanismo a todas as esferas da vida é, no mínimo, um erro.

Mário Vargas Llosa até reconhece o “excessivo economicismo em que se confinou um certo liberalismo”(p. 65), mas depois lamenta que Ortega y Gasset, que foi um liberal na cultura e na filosofia e “tão curioso e aberto a todas as disciplinas” (p. 77) tenha sentido “uma desconfiança parecida com o desdém” em relação ao “mercado livre” e à “liberdade económica”. Chega por isso a acusar Ortega Y Gasset de ser um “liberal parcial” que padece de uma “limitação geracional” (p.77). Mais adiante chega a criticar Ortega y Gasset, considerando-o “um liberal limitado pelo seu desconhecimento da economia”, facto que “o levou por vezes, quando propunha soluções para problemas como o centralismo, o caciquismo ou a pobreza, a postular o intervencionismo estatal e um dirigismo voluntarista” (p.87) e que “os erros de Ortega” eram os erros de um “ingénuo” (p.91), pasme-se. Sente-se que Vargas Llosa queria que Ortega y Gasset fosse da sua tribo, e seria, apenas com o problema de não ser um neoliberal, ou seja, de não estender o seu liberalismo também à esfera económica.

Ora Ortega y Gasset era um filósofo que estava muito à frente do seu tempo, e que está ainda muito à frente de Mário Vargas Llosa, não cometendo o mesmo erro que este comete ao abraçar o desumano mecanismo de mercado, esse “frio” e “implacável” mercado que, nas próprias palavras de Vargas Llosa, “premeia o êxito e castiga o fracasso de maneira implacável” (p. 48), como se assim fosse ou fosse sempre assim – este é um mandamento dos fundamentalistas do mercado – e como se Llosa não soubesse o que essa palavra, “implacável”, esconde.

O livro está a ser, contudo, muito interessante. A leitura prossegue a bom ritmo. Na tribo de Vargas Llosa, cabem liberais respeitáveis e admiráveis, como Adam Smith, Ortega y Gasset entre outros, mas lá está também Friedrich von Hayek, um bispo do fundamentalismo de mercado (1).

(1)    Segundo Llosa, “Hayek refere-se aos países subdesenvolvidos e diz que, felizmente para eles, os países ocidentais puderam prosperar e avançar graças ao seu sistema, de modo a terem agora um modelo a seguir e também poderem receber uma ajuda dos países do Primeiro Mundo na sua luta pelo progresso.” (pág.129) Ora, ou Hayek é ingénuo, ou isto é de um cinismo atroz.

Embora no livro não existam capítulos biográficos de Margaret Tatcher, Ronald Reagan, Von Mises ou Milton Friedman, estes cultores e defensores do neoliberalismo não deixam de ser alvo de admiração e referência por Vargas Llosa que coloca todos no mesmo saco, homens de cultura liberal e neoliberais económicos e políticos.

***
Uma nota final

Aqui prefere-se o liberal Keynes ao neoliberal Hayek.

Aqui admiramos a cultura liberal e os seus defensores, intelectuais como Jacques Barzum, Allan Bloom, Harold Bloom, Ortega e Gasset, George Steiner, Roger Scruton, entre muitos outros intelectuais que podem ser considerados da ala Direita.

Mas não deixamos de escutar os intelectuais da ala Esquerda, marxistas inclusive, como David Harvey, Immanuel Wallerstein, Manuell Castels e outros, como Zygmunt Bauman ou Tony Judt, por exemplo, já falecidos.

Como dizia Ortega e Gasset “Ser de esquerda é, como ser da direita, uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser imbecil; ambas, com efeito, são formas de hemiplegia moral.”

Em todas as alas há argumentos, vozes e pensamentos que devem ser ouvidos e pesados, ou seja, dignos de consideração.

domingo, outubro 20, 2019

Horror às máquinas (aspiradores matutinos de sábado)

Secadores e aspiradores,
Horrores!

Onde o silêncio repousa
também quero estar,
Mas longe, muito longe
dos cemitérios.

Talvez entre os sobreiros da manhã,
Onde a brisa não sopra ou sopra ligeira,
Afagando a ondulação das searas,
Ainda longe da ceifa e das vis ceifadeiras mecânicas.

Anseio por uma manhã sonhada
Longe de todas as máquinas.

terça-feira, outubro 15, 2019

Os outros cafres da Europa

https://www.nytimes.com/interactive/2019/10/12/opinion/columbus-day-italian-american-racism.html
Italianos recém-chegados aos EUA, Ellis Island, cerca de 1905
Fotografado por Lewis Hine, via Bettmann Archive/Getty Images

Parece que os italianos não foram sempre “brancos” nos EUA.

Excelente artigo no The New York Times sobre o racismo na América:

Brent Staples, “How Italians Became ‘White’”, The New York Times, 2019

(https://www.nytimes.com/interactive/2019/10/12/opinion/columbus-day-italian-american-racism.html), consultado em 13/10/2019

segunda-feira, outubro 14, 2019

Livro lido: A Origem de (Quase) Tudo


Apreciação: ****

O Universo está cheio de mistérios para os quais a Ciência ainda não tem uma explicação satisfatória. Da matéria escura à energia escura, do aparecimento do Universo ao surgimento da Vida, da vinda do Homo sapiens às primeiras cidades, os mistérios e maravilhas aqui abordados são muitos. 

Leitura fácil e aprazível. Divulgação científica da boa.

domingo, outubro 13, 2019

End of summer


Praia do Rei                                                                             © AMCD

Resultados eleitorais – uma nota

Fonte: MAI, 2019, consultado a 13/10/2019


Que alívio para a CDU. Já não precisa de ser bengala do PS, agora que a Direita não espreita na esquina mais próxima. Livrou-se desse papel-empecilho, dessa pedra no sapato que a impedia de caminhar livremente. Pode agora trilhar o seu caminho e regressar ao seu estado natural de coligação crítica dos disfuncionamentos da sociedade capitalista. Tal voz é necessária para que a sociedade corrija ou esteja atenta a certos resultados que vai gerando, em particular, quando se acentua o alargamento da desigualdade à sombra da liberdade, sempre mais livre para uns do que para outros. Liberdade para escolher, dizem os neoliberais, como se essa liberdade de escolha fosse igual para todos e como se tal desigualdade fosse sempre justa. Não é.


domingo, outubro 06, 2019

Hoje vou votar


Nalgumas escolas públicas ainda se ensina em contentores, em pré-fabricados, em espaços que mais parecem estaleiros de obras paradas e em edifícios vetustos. As nossas crianças, os jovens, os professores e todos os que lá trabalham e estudam, merecem uma escola melhor.

Nas Forças Armadas, o que Tancos revelou, acima de tudo, foi o estado degradado em que se encontram as infra-estruturas, os quartéis, as armas e as fardas, fruto de um desinvestimento gritante, muito para além da incompetência de um ministro e das chefias militares. Em Tancos até o reles ladrão reparou na ocasião. Acontece que, ao contrário das outras ordens profissionais, os militares, por natureza da sua profissão, não se podem manifestar politicamente. Até os camionistas têm mais poder reivindicativo do que eles.

O desinvestimento é visível também na degradação do edificado e das condições de trabalho, em tudo o que são serviços públicos: dos hospitais aos tribunais, das esquadras aos quartéis de bombeiros, dos serviços sociais às repartições e aos transportes, das lojas do cidadão com as suas infindas filas e esperas desesperantes (e exasperantes) aos lares de terceira idade.

Infelizmente a tónica reivindicativa dos sindicatos tem residido quase exclusivamente nas questões salariais e carreiras, descurando a urgente necessidade de melhoria das condições de trabalho e de rejuvenescimento das classes profissionais. Hoje a degradação e o envelhecimento estão à vista de todos.

Este estado de coisas acaba por favorecer os que defendem a causa privada e um serviço público “tendencialmente pago” (tendencialmente gratuito é tendencialmente pago, se atendermos à forma com foi introduzido o termo “tendencialmente”) em detrimento da causa pública.

Nos últimos quatro anos, a dívida pública continuou a aumentar em termos absolutos, sendo os futuros imperativos de pagamento e as possíveis imposições draconianas de credores uma espada de Dâmocles sobre as gerações mais jovens. A dívida pública crescente é a porta aberta através da qual a austeridade entrará. E como será quando chegar a recessão? Será que os optimistas que nos governaram pensaram nisso?

Isto está mal. Hoje vou votar. É o mínimo.

sábado, outubro 05, 2019

Freitas do Amaral (1941-2019)



Álvaro Cunhal, Freitas do Amaral, Mário Soares e Sá Carneiro orientaram os portugueses nos primeiros tempos da democracia, após o 25 de Abril. Não nos desonraram, antes pelo contrário. Não devem ser esquecidos.

Freitas do Amaral, que agora parte, foi mais do que um político desses primeiros tempos, foi um cidadão empenhado e um político activo, tendo até governado neste século - foi ministro. Foi um amigo da cultura e do saber, um intelectual prolífico. Pensou pela sua própria cabeça, não se acomodando a pensamentos de grupo rebanho. Um exemplo.

Que descanse em paz.

quarta-feira, setembro 04, 2019

A Lua na Terra: exploração lunar em Bangalore


As crateras foram tapadas um dia depois. Envergonhar ainda resulta (isso se quem decide não for um sem-vergonha).

Daqui

terça-feira, setembro 03, 2019

Immanuel Wallerstein: “Há sempre alternativas políticas.”

Morreu Immanuel Wallerstein (1930-2019), o dos sistemas-mundo, anunciam no Ladrões de Bicicletas.

Há tempos sublinhei estas palavras de Wallerstein num livro:

O capitalismo é um sistema-mundo que existe há quinhentos anos e se baseia na primazia da acumulação incessante do capital. (…)
Observa-se desde há quinze anos [desde o início dos anos 80] o ressurgimento de uma ideologia neoliberal que pretende fazer crer às pessoas que é necessário ser-se competitivo porque o mundo capitalista se tornou global. Como se se tratasse de um novo constrangimento. Como é evidente, isto é completamente ridículo: sempre foi necessário ser-se competitivo. Mas, quando se apresenta a mundialização como uma ruptura, afirma-se também que não existe outra opção possível. No fundo, trata-se de uma tese anti-política, que diz: «Nada mais podemos fazer senão submetermo-nos.» Ora, se o sistema tem uma grande força, não é verdade que não haja alternativas políticas. Há sempre alternativas políticas. (…)
Immanuel Wallerstein (1998)

Immanuel Wallerstein in Gérard Vindt, 500 Anos de Capitalismo, A Mundialização de Vasco da Gama a Bill Gates, Temas & Debates, 1999, p. 150.

Não há comunidades situadas (nem sitiadas)


Não há comunidades situadas, presas aos lugares; não existem fronteiras para o pensamento e para a cultura; não existem condições culturais que permitam a longa estabilidade temporal das permanências vernaculares. Como dizia o poeta Luís de Camões,

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto por mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Álvaro Rodrigues, Vida no Campo (2011), pág. 235

domingo, setembro 01, 2019

A cultura do “foda-se”

Top de vendas de livros não ficção, segundo o Expresso, 31 de Agosto de 2019:

A Arte Subtil de Saber Dizer que se Foda
Está tudo Fodido

(…)

E, atenção atenção, vem aí o Des Foda-se, Saia da sua Cabeça, Entre na sua Vida, promessa de vendas e receitas chorudas, a caminho de um futuro top 10.

A compra por impulso vinga.

***

Primeiros versos da canção “Norman Fucking Rockwell”, do recém lançado álbum Norman Fucking Rockwell!! da seráfica melodramática Lana Del Rey:


Goddamn, man-child
You fucked me so good that I almost said, "I love you"


Profundo!

Até o amor (o que é isso?) se rende ao fuck.


***

O escândalo morreu (já ninguém se escandaliza) e no entanto o escândalo vende. As editoras e os autores sabem-no.

Miguel Esteves Cardoso (O Amor é Fodido, Como é Linda a Puta da Vida) sabia disso muito bem; José Saramago (O Evangelho segundo Jesus Cristo) sabia disso muito bem; Salman Rushdie (Versículos Satânicos) sabia disso muito bem.

Escandalizaram muita gente, venderam muito por isso, mas não só por isso.

segunda-feira, agosto 26, 2019

No princípio era o Pictograma


Os hieróglifos, em certas circunstâncias, valem mais do que as palavras. Fazem-se entender mesmo pelos analfabetos ou pelos estrangeiros, desconhecedores da língua. Contudo, fazer-se entender não significa, necessariamente, fazer-se obedecer. Em suma: há quem desobedeça à proibição. 

Neste meio os cães e os gatos acabam por ter mais direitos do que os homens: são inocentes, não sabem ler nem escrever e nada entendem de hieróglifos.

No entanto, para que conste, não foram avistados quaisquer cães, gatos ou humanos em infracção. 

O lugar é nas imediações do Pico Ruivo.

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