Ponte Ravenel em Charleston, Carolina do Sul
terça-feira, agosto 22, 2017
sábado, agosto 19, 2017
Do racismo, da intolerância e do medo perante o desconhecido
A intolerância, sugere [Umberto]
Eco, «chega antes de qualquer doutrina. Assim, a intolerância possui uma raiz
biológica, manifesta-se no reino animal sob a forma de territorialidade,
baseia-se em reacções emocionais que são, frequentemente, superficiais – não conseguimos
suportar aqueles que são diferentes de nós, por a sua pele ser de outra cor;
por falarem numa língua que não compreendemos; por comerem sapos, cães,
macacos, porcos ou alho; por fazerem tatuagens…»
Umberto Eco citado por
Zygmunt Bauman, “Sintomas em busca de um objecto e de um nome” in O Grande Retrocesso, Objectiva, 2017,
pág. 38
"No
one is born hating another person because of the color of his skin or his
background or his religion..."
Nelson Mandela citado
por Barack Obama no Twitter a 13 de
Agosto, em reacção aos confrontos e agressões de Charlottesville entre
supremacistas brancos e manifestantes anti-racismo. @BarackObama
***
O racismo não é inato, como dizia
Mandela, o que faz dele uma questão cultural. O racismo encontra, no entanto,
solo fértil nesse sentimento de intolerância com raízes biológicas, a que se
refere Eco, e que cada um de nós sente de forma primária e superficial. Há quem
explore esse medo perante o desconhecido, essa intolerância, para incutir no
outro a doutrina que proclama a superioridade racial de uns em relação aos
outros. Saber que o racismo tem raízes em reacções emocionais superficiais é
meio caminho andado para erradicá-lo. Os demagogos porém, como refere Bauman,
exploram esse medo perante o desconhecido para expandirem ideologias de ódio:
Os demagogos fundamentalistas,
integralistas, racistas e etnicamente chauvinistas podem, e precisam de, ser
acusados de alimentar uma «intolerância rudimentar» pré-existente e de com ela
lucrar, propagando, assim, as suas reverberações e exacerbado a sua morbidez –
mas não podem ser acusados de causar
o fenómeno da intolerância.
Onde procurar, então, a origem e a força
motriz desse fenómeno? Esta última, a meu ver, será o medo perante o desconhecido – de que os «estranhos» ou «forasteiros»
(por definição insuficientemente conhecidos, muito menos compreendidos, e praticamente
imprevisíveis nas suas condutas e reacções face às nossas próprias jogadas) são
o símbolo mais proeminente, o mais tangível, porque próximo e notório.
Zygmunt Bauman,
“Sintomas em busca de um objecto e de um nome” in O Grande Retrocesso, Objectiva, 2017, pág. 39.
Curiosamente esse medo perante o
desconhecido também tem sido ao longo da história explorado para fins de gestação
e propagação religiosa, estando na raiz das religiões que dividem os seres
humanos em diferentes credos. O medo perante o desconhecido é hoje ainda mais dramático,
pois o contexto social e económico em que vivemos aponta no sentido da individualização do individualismo, da quebra dos laços comunitários e sociais e atomização, em que cada indivíduo se
apresenta aos olhos do outro, cada vez mais, como um elemento estranho e suspeito,
alguém que pode ou não encerrar todos os males do mundo (é uma incerteza, um
risco), como uma caixa de Pandora, ou um terrorista. E a questão torna-se ainda
mais paradoxal quando vivemos na era da omnipresença informacional. Cada vez
mais informados mas desamparados perante o desconhecido à nossa porta, na nossa
rua, ao nosso lado.
segunda-feira, agosto 14, 2017
"Trump" ad nauseam
Há quem se questione, perplexo, acerca
das razões que levaram Trump a vencer as eleições americanas. Como foi
possível? Há quem responda, mas a questão volta continuamente a ser colocada, o
que prova que as respostas nunca chegam a ser conclusivas ou cabais. A
perplexidade ainda persiste em muitos círculos de opinion makers que falam
nas cadeias noticiosas mundiais (CNN, BBC, Sky
News, etc.). Há quem considere Trump genial por conseguir ser notícia o
tempo todo. Propositadamente ou não, ele tem a capacidade de ser notícia a um
ritmo horário contínuo. O seu nome é pronunciado dezenas de vezes por hora, para
não dizer centenas, em canais noticiosos como a CNN. Experimente o leitor ligar
esse canal a qualquer sinal horário, quando vão para o ar as highlights. Era assim há um ano quando a
campanha eleitoral americana estava no auge e os pivots da CNN lhe moviam um ataque cerrado, mas também é assim
agora. O seu nome é matraqueado a todo o momento. "Trump" ad nauseam. "Trump" no prime time. Trump, a obsessão da CNN. Inadvertidamente
o canal televisivo tornou-se o maior anunciador publicitário da marca "Trump"
ainda que a maioria das notícias sobre ele não o favoreçam. Ainda assim
publicitam-no. Ironicamente aparecem depois os opinion makers no mesmo canal a questionarem-se espantados acerca
das razões que levaram Trump à vitória.
Não terá o facto de o canal
manter a marca “Trump” no ar o tempo todo exercido um efeito em muitos telespectadores
acríticos, da mesma forma que a publicidade repetitiva o faz
relativamente a uma determinada marca de um produto que se quer vender?
sexta-feira, agosto 11, 2017
Nestas férias estou a ler…
…romances de cavalaria.
Quem diria que uma pechincha (custou apenas 2€ na livraria da Europa-América) daria um tão grande prazer de leitura. O livro da Europa-América está muito bem traduzido embora tenha algumas gralhas. Trata-se, no entanto, de uma edição de 1981.
…ensaios de política e economia.
…A Segunda Guerra Mundial (a perspectiva inglesa).
sábado, julho 22, 2017
O triunfo dos algoritmos
Quanto mais os trabalhadores funcionam como apêndices das máquinas com
que trabalham, menos liberdade de manobra têm, menos importantes são as suas
competências e mais vulneráveis se tornam ao desemprego tecnológico. É isso que
explica a oposição frequentemente forte dos trabalhadores à introdução das
novas tecnologias.
David Harvey, O Enigma do Capital, Bizâncio, 2011,
pág. 112
What will happen to
the job market once artificial intelligence outperforms humans in most
cognitive tasks? What will be the political impact of a massive new class of
economically useless people? What
will happen to relationships, families and pension funds when nanotechnology
and regenerative medicine turn eighty into the new fifty? What will happen to
human society when biotechnology enables us to have designer babies, and to
open unprecedented gaps between rich and poor?
Yuval Harari,
Homo Deus: A Brief History of Tomorrow, HarperCollins, 2017
(realce nosso)
Já não nos bastavam as ameaças
das alterações climáticas, do terrorismo, da proliferação nuclear, entre
outras. De acordo com Yuval Harari, sobre todos pairará a ameaça da inutilidade
e do desemprego tecnológico. O homem enquanto trabalhador tornar-se-á obsoleto.
Cada um de nós age e pensa, diz ele, de acordo com uma espécie de algoritmo
bioquímico que será ultrapassado pelos algoritmos artificiais inteligentes que criámos. A criação ultrapassará o criador. A raça humana será
extinta pela máquina inteligente. Os futuros humanos não serão humanos, serão
outra coisa qualquer. Uma espécie de super cyborg,
de homem-máquina, quase imortal. Homo deus
em vez de Homo sapiens. Qualquer
resistência em relação às novas tecnologias, das quais estamos cada vez mais
dependentes, será inútil. Qualquer resistência fará de nós luditas do século XXI. E como sabemos os luditas não
foram capazes de travar as máquinas.
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sexta-feira, julho 21, 2017
Martin Landau morreu na semana passada
Martin Landau (1928-2017)
Martin Landau morreu na semana passada.
Partiu o lendário comandante da base lunar Alfa, do Espaço 1999, série televisiva que nos encantou nos anos 70, com as
suas águias, naves de descolagem vertical, com os seus
intercomunicadores e as suas portas automáticas que abriam com um simples toque
num telecomando, e mais muito mais. Por vezes havia monstros invasores nos
corredores da base e um ecrã gigante na sala de comando através do qual o
comandante comunicava com alienígenas e com os pilotos das águias. Brincávamos
ao Espaço 1999 nas traseiras do
prédio. Um era o comandante, mas havia enfermeiras, pilotos, médicas e
cientistas… Aprendíamos assim. Quase tudo se concretizou em 1999: temos aviões
de descolagem vertical e telemóveis, portas que abrem à nossa aproximação, ecrãs
tácteis que também nos mostram quem está a falar connosco, computadores… Mas
falta-nos uma base lunar permanente. Uma base na Lua, onde o céu é sempre
estrelado. Na Lua, onde tudo parece mais perto do cosmos.
A morte de Martin Landau não nos passou
despercebida.
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Partidas
domingo, julho 16, 2017
Notícias da sexta extinção: o gradual desaparecimento dos leões e de outros grandes mamíferos
Scientists analysed
both common and rare species and found billions of regional or local
populations have been lost. They blame human overpopulation and overconsumption
for the crisis and warn that it threatens the survival of human civilisation,
with just a short window of time in which to act.
Fonte: The Guardian, aqui
Assistimos hoje ao rápido
desaparecimento dos grandes mamíferos da superfície da Terra, entre os quais
carnívoros e predadores como o leão, noticia o The Guardian. A sua presença no planeta não se coaduna com o
crescimento demográfico do homo sapiens
sapiens e com a crescente necessidade de mais espaço que suporte as suas
infinitas necessidades.
Historicamente o leão estava presente nas regiões onde surgiu a civilização e as primeiras aglomerações urbanas, na Mesopotâmia. Foi caçado pelos assírios e foi representado pelos caçadores-recolectores daquela região, muito antes disso. Actualmente, na Ásia, está confinado a uma pequena bolsa na floresta de Gir, no noroeste da Índia.
Historicamente o leão estava presente nas regiões onde surgiu a civilização e as primeiras aglomerações urbanas, na Mesopotâmia. Foi caçado pelos assírios e foi representado pelos caçadores-recolectores daquela região, muito antes disso. Actualmente, na Ásia, está confinado a uma pequena bolsa na floresta de Gir, no noroeste da Índia.
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No séc. VII a.C. o leão
era caçado pelos assírios no norte da Mesopotâmia, região que corresponde
actualmente ao norte do Iraque e sudeste da Turquia.
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Leão representado num pilar de Göbekli Tepe, presumivelmente
um centro de culto de caçadores-recolectores e um embrião dos
primeiros assentamentos urbanos, com cerca de 12 000 anos.
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Sexta Extinção
segunda-feira, julho 10, 2017
Revoluções políticas e revoluções científicas
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| Thomas Kuhn (1922 - 1996) |
As revoluções políticas
começam com um sentimento crescente, habitualmente restringido a um segmento da
comunidade política, de que as instituições existentes deixaram de poder
enfrentar adequadamente os problemas colocados pelo ambiente que elas próprias
em parte criaram. De modo muito semelhante, as revoluções científicas começam por um sentimento crescente, também geralmente
restringido a uma pequena subdivisão da comunidade científica, de que um
paradigma existente deixou de funcionar adequadamente na exploração de um
aspecto da natureza para o qual esse próprio paradigma tinha indicado o caminho.
Thomas Kuhn, A Estrutura das Revoluções Científicas, Guerra e Paz, 2009, pp.
133-134
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Sublinhado,
Thomas Kuhn
sábado, julho 08, 2017
quinta-feira, julho 06, 2017
Substancial, incidental e fatal
Como brincam com as palavras os políticos.
A coisa é muito grave,
mas releva do campo do incidental,
não do substancial. Há que
distinguir as coisas e os nossos aliados sabem distingui-las, garante o ministro Augusto Santos Silva, ou seja, trata-se de um incidente muito grave, o dos paióis,
mas não é substancial.
Contudo poderá vir a ser fatal. É aí que
reside o problema.
Um poema de O'Neill
A força do hálito
A força do hálito é como o que tem que ser.
E o que tem que ser tem muita força.
Vai (ou vem) um sujeito, abre a boca e eis que a gente,
que no fundo é sempre a mesma,
desmonta a tenda e vai halitar-se para outro lado,
que no fundo é sempre o mesmo.
Sovacos pompeando vinagres e bafios,
não são nada --bah...-- em comparação
com certos hálitos que até parece que sobem do coração.
"Ai onde transpira agora
o bom sovaco de outrora!"
Virilhas colaborando com parentesis ou cedilhas
são autênticas (e sem hálito) maravirilhas.
Quando muito alguns pingos nos refegos, nas braguilhas,
amoniacal bafor que suporta sem dor
aquele que está ao rés de tal teor.
Mas o mau hálito é pior que a palavra
sobretudo se não for da tua lavra.
Da malvada, da cárie ou, meudeus, do infinito,
o mau hálito é sempre, na narina,
como o baudelaireano, desesperado grito
da "charogne" que apodrecer não queria.
Alexandre O'Neill (1969)
Mais poemas de Alexandre O'Neill, e mais, muito mais: aqui.
A força do hálito é como o que tem que ser.
E o que tem que ser tem muita força.
Vai (ou vem) um sujeito, abre a boca e eis que a gente,
que no fundo é sempre a mesma,
desmonta a tenda e vai halitar-se para outro lado,
que no fundo é sempre o mesmo.
Sovacos pompeando vinagres e bafios,
não são nada --bah...-- em comparação
com certos hálitos que até parece que sobem do coração.
"Ai onde transpira agora
o bom sovaco de outrora!"
Virilhas colaborando com parentesis ou cedilhas
são autênticas (e sem hálito) maravirilhas.
Quando muito alguns pingos nos refegos, nas braguilhas,
amoniacal bafor que suporta sem dor
aquele que está ao rés de tal teor.
Mas o mau hálito é pior que a palavra
sobretudo se não for da tua lavra.
Da malvada, da cárie ou, meudeus, do infinito,
o mau hálito é sempre, na narina,
como o baudelaireano, desesperado grito
da "charogne" que apodrecer não queria.
Alexandre O'Neill (1969)
***
Mais poemas de Alexandre O'Neill, e mais, muito mais: aqui.
segunda-feira, julho 03, 2017
Foi você que pediu uma granada
Imagine que está a comer tranquilamente num restaurante e lá
para dentro rebola uma das granadas furtadas em Tancos. Não se
preocupe, pois o ministro assevera-nos que se trata apenas de uma granada ofensiva.
As defensivas são mais letais.
O ministro da Defesa ainda está sentado no seu lugar?
O Chefe do Estado-Maior do Exército ainda está sentado no
seu lugar?
O que aconteceu em Tancos é inadmissível. Não é apenas
grave, é gravíssimo.
Seria bom que as armas fossem descobertas rapidamente, não
interessa onde, antes que rebentem por aí, ou por aqui.
Outra coisa: colocar Tancos dentro do mesmo saco que
Pedrógão Grande quanto a apuramento de responsabilidades e suas consequências
políticas, como já ouvi de alguns comentadores, é pura desonestidade
intelectual. Mas enfim, a politiquice cala mais fundo e estes senhores não resistem
à tentação e à pulhice.
sábado, julho 01, 2017
Insucesso escolar e pobreza
Ora é aqui que está a questão. Deviam lembrar-se disto
os que fazem a leitura dos rankings das escolas, comparando resultados entre o
ensino privado e o ensino público, apontando baterias a este último.
Portugal, país mui católico, se atendermos ao número de
crentes, é um dos países da Europa onde as desigualdades sociais entre ricos e pobres é o mais
alargado e onde a pobreza grassa. Os doutos que apontam o dedo às escolas públicas e ao ensino que lá
se presta, baseando-se nos resultados dos exames nacionais, deviam lembrar-se desta
realidade.
Neste país mui católico parece que são precisos pobrezinhos para que haja
caridadezinha. Para isso os pobrezinhos dão muito jeitinho.
sexta-feira, junho 23, 2017
O deboche da reportagem
Não poderia deixar de estar mais de acordo com o que escreve António Guerreiro, aqui. Nem há palavras. António Guerreiro disse-as todas, bem ditas e pesadas. É o que penso sobre grande parte das reportagens da tragédia de Pedrogão Grande. Um deboche de reportagens que se converteu num regabofe ao voyeurismo boçal.
Até se arranjou um nome hollywoodesco para a estrada EN 236-1: "A Estrada da Morte".
Vivemos na sociedade do espectáculo no seu pior. (*)
Muitos jornalistas deveriam cultivar-se mais, estudar mais e cuidar das ideias. Deveriam voltar a estudar Ética nos bancos da Universidade, se é que alguma vez a estudaram, para que se respeitassem mais e nos respeitassem, que gostamos de ser e de estar informados, com qualidade.
Afinal informar também é educar. Mas como poderão os jornalistas educar se não forem bem educados? Alguns, inadvertidamente, ou talvez não, parecem conceber a informação como se de um espectáculo se tratasse e as reportagens como se fossem uma espécie de filmes de hollywood.
----------
(*) Lembrei-me de uma notícia de há muitos anos sobre a indecisão acerca de um título a colocar num novo filme do 007. Os que escolhiam o título acabaram por concluir que se as palavras "morrer" ou "matar", ou qualquer outra associada à morte, integrassem o título do filme, mais gente iria vê-lo. Era uma questão comercial. E assim lá escolheram o título: Tomorrow Never Dies ou Die Another Day (foi um destes, não posso precisar qual).
sábado, junho 17, 2017
Um súbito despertar em sobressalto
O último teste para esta projecção da Terra-mãe na totalidade mundana começou com a crise ecológica da Terra, que é, simultaneamente, a primeira crise da humanidade. Esta crise actual da mundaneidade vai mais fundo do que as que surgiram sob a pressão das religiões de redenção e da antiga apocalíptica. Porque para a humanidade actual torna-se, pela primeira vez, verdadeiramente visível na sua totalidade a sua casa comum real no momento da sua destruição. Na tentativa dos povos de mudarem para ela, descobrem-na como algo que já está inexoravelmente em vias de devastação. Esta crise da mundaneidade põe à partida em questão o poder-ser-casa da Terra e o poder habitar da humanidade.
Peter Sloterdijk, O Estranhamento do Mundo, Relógio D’Água.
2008. Pág. 218.
***
Suprema ironia. No preciso
momento em que, pela primeira vez, vislumbramos o planeta que nos acolhe, na sua
totalidade, tomamos consciência da devastação que o consome e que nos poderá
vir a consumir. É como se acordássemos subitamente, sobressaltados, numa casa
em chamas. É preciso fazer algo para nos salvarmos e salvarmos o lar “que já está inexoravelmente em vias de
devastação”.
Suprema ironia. Quando dormíamos, o nosso sono era reparador e profundo, alheio a todos os perigos. Foi preciso acordar para nos apercebermos da nossa fragilidade e dos efeitos secundários dos actos que cometíamos enquanto sonâmbulos. Agora toda a Terra é a nossa circunstância, sem a qual não há Eu que resista. Vivemos também uma crise de mundaneidade (e não só ecológica), pois só quando o Homem vislumbra a Terra na sua totalidade se apercebe da própria Humanidade que o planeta encerra. Não é apenas a Terra que é vislumbrada na sua totalidade, mas também a Ecúmena.
Suprema ironia. Quando dormíamos, o nosso sono era reparador e profundo, alheio a todos os perigos. Foi preciso acordar para nos apercebermos da nossa fragilidade e dos efeitos secundários dos actos que cometíamos enquanto sonâmbulos. Agora toda a Terra é a nossa circunstância, sem a qual não há Eu que resista. Vivemos também uma crise de mundaneidade (e não só ecológica), pois só quando o Homem vislumbra a Terra na sua totalidade se apercebe da própria Humanidade que o planeta encerra. Não é apenas a Terra que é vislumbrada na sua totalidade, mas também a Ecúmena.
Poderíamos colocar aqui algumas objecções
ao parágrafo do Sloterdijk: quão inexorável é esse processo de devastação? “Inexorável”
é uma palavra forte, em rota de colisão com a nossa civilização que teima em resistir
e em confrontar tudo quanto é desafio, em particular os desafios que ameaçam a sua
própria existência. Será assim tão inexorável a devastação ao ponto de ser
irreversível? Logo agora que tomámos consciência da devastação, é tarde demais
para agir? Neste momento em que acordámos, vamos já assumir que o planeta “está inexoravelmente em vias de devastação”?
Ou estaremos negação, não querendo assumir a inexorabilidade de um apocalipse?
Só um deus pode salvar-nos, disse
um filósofo do pessimismo. Pessimismo ou realismo?
A última frase do parágrafo é
muito questionável num dos seus termos: não é “o poder-ser-casa” da Terra que
está em questão. A Terra já deu provas do seu “poder-ser-casa”. O que está em
causa é o poder habitar da Humanidade.
O que está em causa é o habitante e não a casa. A casa, para dizer a verdade,
já teve outros habitantes, noutras circunstâncias.
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Peter Sloterdijk
quarta-feira, junho 14, 2017
O "charuto" vertical
Hoje as câmaras do mundo
estiveram focadas num prédio londrino de 24 andares que ardeu por completo,
como um charuto vertical.
***
O urbanismo associado a concepções
de alojamento massivo de população desfavorecida em altos edifícios
residenciais, há muito que deu mostras de ser um urbanismo falhado que não
se adequa à vida de uma cidade que se quer relacional. Os mais pobres são alojados e arrumados em pombais humanos, onde os riscos se
acumulam com o passar do tempo – e às vezes nem é preciso muito tempo – até redundarem
em catástrofes. No Reino Unido já era clássico o caso do colapso de Ronan Point,
Caning Town, no Borough de Newham em Londres, em 1968, causado por uma explosão num fogão a gás (tinham passado apenas
dois meses após a chegada dos primeiros moradores). A tragédia de hoje
ultrapassa, de longe, a do colapso de Ronan Point.
terça-feira, junho 13, 2017
That 2,000 Yard Stare
Tom Lea, That 2,000 Yard Stare, 1944.
Daqui.
***
***
Adeus gloriosa guerra
Jamais gloriosa
Vitoriosa guerra
Jamais vitoriosa
A senda que à guerra conduz
À derrota conduz
(A guerra é sempre uma derrota)
(A guerra é sempre uma derrota)
sábado, junho 10, 2017
Da literatura e da arte que perverte, degrada e brutaliza
«Se é verdade que a literatura e a arte de qualidade podem educar a sensibilidade,
engrandecer as nossas percepções, refinar o nosso discernimento moral, pelo
mesmo raciocínio poderão também perverter, degradar e brutalizar a nossa imaginação
e os nossos impulsos miméticos.»
George
Steiner, “Homem Gato” in George Steiner
em The New Yorker, Gradiva, 2010, pág. 265.
As palavras são importantes, para
o bem e para o mal. A literatura e a arte também podem ser uma droga potente. Assim
se explicam alguns dos seus efeitos nefastos sobre a nossa “imaginação e os
nossos impulsos miméticos”. A citação de George Steiner enquadra-se num breve texto
que escreveu sobre a obra de um escritor considerado maldito: Céline. Mas quanta
literatura e arte (e a literatura é uma das artes) não existem por aí com esse
efeito, embora se possa questionar a sua qualidade e até a sua categoria enquanto
obra artística. (É isto literatura?) Livros que incendeiam as almas e o
mundo, e que sem eles o mundo decerto seria um lugar bem melhor, sem ideologias
e religiões incendiárias, e, consequentemente, sem tanto sofrimento. Mas para “educar a
sensibilidade” e “engrandecer as nossas percepções” há um preço a pagar.
***
Também poderíamos dizer em nota
de rodapé que não existem religiões nem ideologias incendiárias, o que existem
são incendiários inspirados por religiões e ideologias.
sexta-feira, junho 09, 2017
Da lei inelutável da história
«Permanece uma lei inelutável da história não dar aos contemporâneos a
possibilidade de reconhecer, logo desde os primeiros alvores, os grandes
movimentos que marcam o período em que vivem.»
Stefan Zweig, O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu,
Assírio & Alvim, 2005, pág. 392
“E também não gosto…” Nietzsche não era anti-semita e por certo não gostaria de nazis
«Mas não gosto de todos esses pequenos percevejos, cuja ambição insaciável
é a de libertar o cheiro infinito, até o infinito acabar por cheirar a
percevejos; não gosto de túmulos redecorados que imitam a vida; não gosto dos
homens cansados e gastos que se embrulham em sabedoria e têm uma visão «objectiva»;
não gosto de agitadores que se vestem de heróis e disfarçam a velha cabeça de
alho chocho com um boné mágico de ideias; não gosto de artistas ambiciosos que
aspiram representar o ascético e o sacerdote e que, no fundo não passam de
palhaços trágicos; e também não gosto
desses especuladores mais recentes no idealismo, os anti-semitas que, a rolar
os olhos num estilo cristão-ariano-filisteu, procuram despertar todos os
elementos bovinos do povo através de um abuso exasperante dos meios mais vis de
agitação e atitudes morais (que todo o tipo de fraude intelectual alcança
algum grau de sucesso na Alemanha de hoje está relacionado com a estultificação
inegável e já tangível da mente alemã, cuja causa procuro numa dieta
extremamente exclusiva de jornais, políticas, cerveja e música wagneriana,
incluindo o que esta dieta pressupõe: em primeiro lugar a constrição e vaidade
características da nação, o princípio forte mais limitado de «Deutschland, Deutschland
über alles», bem como a paralysis agitans das ideias modernas»).»
Friedrich Nietzsche, A Genealogia da Moral, Publicações
Europa-América, 2002, pág. 134 (livro de bolso) (o destaque a negrito é nosso)
***
Que eram eles, esses nazis, senão
“pequenos percevejos” que empestavam o mundo, querendo que o mundo cheirasse
como eles. Não foi a sua ideologia um “túmulo redecorado de vida”? Não eram eles
“agitadores vestidos de heróis” nas suas fardas e botas cardadas? Palhaços
trágicos! Anti-semitas que despertaram os “elementos bovinos” do povo alemão, “através
do abuso exasperante dos meios mais vis de agitação e atitudes morais”. Eis os
homenzinhos das SS, nas suas
primeiras “acções de combate”, quando saltavam dos seus camiõezinhos ao som de
apitos e se punham a dar cacetadas nos sociais-democratas, como nos narra Stefan
Zweig:
«Certo dia, quatro camiões chegaram de repente a grande velocidade a uma
localidade fronteiriça onde se estava a realizar um comício pacífico dos
social-democratas; cada camião vinha apinhado de jovens nacional-socialistas
empunhando cacetes de borracha, e tal como me tinha sido dado ver, na Praça de
São Marcos em Veneza, também estes aqui surpreenderam, pela sua rapidez, todos
os presentes que foram apanhados desprevenidos. Tratou-se exactamente do mesmo
método copiado dos fascistas, só que aprendido com férrea precisão militar e sistematicamente
organizado até ao último pormenor, à maneira alemã. A um assobio, os homens das
SS saltaram dos veículos à velocidade de um raio, bateram com os seus cacetes
de borracha em quem lhes aparecia pela frente e, antes que a polícia pudesse
intervir, ou os trabalhadores pudessem juntar-se, já eles tinham voltado a
saltar para dentro dos camiões que partiram à desfilada.»
Stefan Zweig, O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu, Assírio & Alvim,
2005, pág. 394
***
Não, Nietzsche não era
anti-semita, e por certo abominaria nazis. Parece tê-los cheirado com
muitos anos de antecedência, muito antes dos contemporâneos daqueles se terem
apercebido do que aí vinha.
quinta-feira, junho 08, 2017
Ironias da História
No século XVI os escravos negros
eram desembarcados em Lisboa em condições desumanas. Depois de serem capturados nas selvas e traficados
nos portos de África eram forçados a embarcar como animais selvagens. Chegavam “em condições terríveis «empilhados nos
porões dos navios, vinte e cinco, trinta ou quarenta de cada vez, mal
alimentados, acorrentados uns em cima dos outros». Modas luxuosas e loucas
contaminavam a cidade: tornou-se comum ter um escravo negro em casa.” (Crowley,
2016, pág. 318). Nessa Era em que se dava início ao que viria a chamar-se
comércio triangular, através do Atlântico, – armas por escravos e escravos por
algodão, café ou açúcar – o Ocidente arrancava os negros do continente africano,
com a colaboração de outros africanos, e arrastava-os para Europa e depois,
mais tarde, directamente para as fazendas e plantações das Américas.
Hoje, volvidos cerca de 500 anos,
ironia da História, são os negros que partem, expelidos pelo continente
infernal, enfrentando todos os perigos da travessia dos desertos africanos e do
Mar Mediterrâneo, também em condições desumanas, colocando em risco a própria
vida e entregam-se nos braços do Ocidente, de livre vontade, prontos a abraçar
qualquer trabalho mal pago, qualquer trabalho escravo, qualquer trabalho nas
quintas da Europa, algumas exploradas por gente mafiosa e sem escrúpulos, quase
como noutros tempos.
***
Fogem de outras guerras. O
inferno é algures em África e o Diabo só pode morar ali. Só assim se explica a
debandada dos africanos. Não são escravos, dirão, são homens. Contudo, o que
dizer sobre o que se passa na Líbia em relação aos que chegam das terras a sul
do Sara?
Vede Aqui!
Se não é escravatura, então o que
é?
***
Referência:
Crowley, Roger; Conquistadores,
Como Portugal Criou o Primeiro Império Global, Editorial Presença, 2016,
pág. 318.
quarta-feira, junho 07, 2017
Sobre bombas e cacetadas
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| Thomas Friedman |
Thomas Friedman deve ser mesmo um bom opinion maker, pois muitos são os seus artigos de opinião no New York Times que ficam na memória ou na retina de quem os lê, e após uma só leitura. Um artigo que retive foi o das "nossas três bombas". De acordo com Thomas Friedman são três as bombas que a qualquer momento podem deflagrar e desestabilizar a nossa realidade: a bomba nuclear, a bomba da dívida e a bomba climática. O artigo é este: “Our Three Bombs”, New York Times, 7/10/2009
Desde que li o artigo em 2009, as bombas de Friedman nunca mais me saíram da cabeça. Inspirado por ele, reformulo
aqui a lista de "bombas" que nos ameaçam, e são mais do que três, embora algumas, em parte, se
possam sobrepor .
Em primeiro lugar as três bombas de Friedman:
1. A bomba da ameaça nuclear (a Guerra Fria terminou mas as
bombas ainda existem assim como a ameaça da proliferação nuclear).
2. A bomba da dívida (uma bomba com repercussões económicas e financeiras, também ela devastadora de vidas).
3. A bomba climática (desencadeada pelo incremento do
efeito de estufa com todas as suas consequências).
Às bombas de Friedman acrescento as seguintes (com algum risco de sobreposição parcial):
4.
A bomba demográfica (o crescimento demográfico
no mundo é explosivo, acompanhado por uma crescente produção, consumo e pressão
sobre os recursos naturais que são limitados face às ilimitadas necessidades
humanas);
5.
A bomba ambiental (estamos a atravessar a 6ª
extinção em massa, e não foi causada por um meteorito que colidiu com a
Terra, a não ser que chamemos ao ser humano um “meteorito”. Bem vindos ao Antropoceno.);
6. E a bomba terrorista (eles andam aí).
As consequências destas bombas podem ser devastadoras. Aliás já estão a sê-lo para muitos.
A estas bombas acrescentaria a
bomba mais ameaçadora de todas: aquela que ninguém espera e que por isso não
pode ser nomeada por ser uma bomba desconhecida. Não tenhamos a ilusão de que somos conhecedores de todas as
ameaças que pairam sobre as nossas cabeças. A realidade cósmica pode surpreender-nos
com uma verdade inesperada e, dessa forma, ameaçar a nossa existência. Como disse
George Steiner uma vez e que já aqui foi citado:
Tenho uma certa imagem
mental da verdade emboscada ao virar da esquina, à espera de que o homem se
aproxime – e a preparar-se para lhe dar uma cacetada na cabeça.
George Steiner,
Nostalgia do Absoluto, Relógio D’Água, 2003. Pág. 80 e 81
Entretanto, carpe diem.
Baixem lá essa bosta, pá!
Quereis um desígnio? Baixem-na! Baixem a dívida pública! Libertem as futuras gerações desse fardo. A dívida pública excessiva será uma amarra que não as deixará navegar.
É certo que cresceu com a crise económica após 2009, pela integração de dívida privada, do crédito mal-parado e dos bancos resgatados pelos contribuintes. Grandes (alguns na verdade eram pequenos e foram tratados como grandes) demais para falirem.
Mas não nos deixemos iludir pelos que se ufanam de tão bons tempos que vivemos (dizem eles), do reduzido défice (o menor de sempre, dizem), da redução do desemprego (é bom ouvir) e do incipiente crescimento económico que o país manifesta agora, em grande parte, devido ao turismo e às actividades no seu entorno.
Gostaria de ouvir os políticos, lá do alto dos seus palanques, perorarem sobre a dívida pública com o mesmo entusiasmo com que discursam acerca da redução do défice e do crescimento económico. Mas não é lá muito conveniente, pois não?!
Enquanto uma dívida pública desta magnitude perdurar não estaremos seguros, nem nós, nem os nossos filhos, nem os nosso netos. Eles é que vão pagar. Teremos então gerações de escravos.
Passos tardam na relva
Passos tardam na relva
Entre o luar e o luar,
Tudo é eflúvio e selva.
Sente-se alguém passar.
Passa, pisando leve
O chão que o luar desmente,
Num pálido hausto leve
De pisar levemente.
É elfo, é gnomo, é fada
A forma que ninguém vê?
Lembro. não houve nada.
Sinto, e a saudade crê.
Entre o luar e o luar,
Tudo é eflúvio e selva.
Sente-se alguém passar.
Passa, pisando leve
O chão que o luar desmente,
Num pálido hausto leve
De pisar levemente.
É elfo, é gnomo, é fada
A forma que ninguém vê?
Lembro. não houve nada.
Sinto, e a saudade crê.
Fernando Pessoa (5-9-1933)
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Poesia
sábado, junho 03, 2017
A nova pimenta de Lisboa
Lisboa está a passar novamente
por um momento de prosperidade e o turismo é a sua nova pimenta. Houve outros
tempos assim, em que uma Lisboa cosmopolita fervilhava de gente vinda de todos
os cantos, uns atraídos pelas riquezas da Índia e pelas novas descobertas do
mundo, outros, forçados, vindos em levas de escravos, outros ainda para
trabalhar na construção das naus e dos novos edifícios emblemáticos do período
das Descobertas, muitos dos quais ainda resistem para deleite de turistas e
Madonnas. Lisboa então maravilhava e prosperava. Mas infelizmente não há bem
que nunca acabe. No caso actual os efeitos secundários deste “bem” já se
começam a sentir. Lisboa está cara. Lisboa não é para lisboetas. O seu centro
transformou-se num parque temático e os turistas, hoje, são mais que pombos. Os
lisboetas mais cobiçosos e oportunistas e com alguma capacidade financeira, ou
de improvisação, apressam-se em transformar os seus apartamentos, pequenos ou
grandes, novos ou velhos, em unidades de alojamento para turistas, que o tempo
é de vacas gordas. É fartar vilanagem.A incursão nocturna na Feira do Livro de Lisboa e os escritores judeus
Ontem realizámos a nossa primeira
incursão nocturna na Feira do Livro de Lisboa. Missão: localizar rapidamente e
sem ajuda de qualquer mapa ou GPS o pavilhão da Bertrand e adquirir por uns
módicos 12,25 € o famoso livro do Prémio Nobel da Economia, Daniel Kahneman, Pensar Depressa e Devagar (Temas e Debates/Círculo
de Leitores), anunciado como o livro
do dia da editora e por isso mais barato. Soubemo-lo pela consulta prévia do
portal da Feira, na Internet (http://feiradolivrodelisboa.pt). Subimos impelidos
pela fresca brisa nocturna a avenida da esquerda por entre os pavilhões das
editoras, levados pelo instinto e pela memória de outras feiras, e fomos
certeiros. A Bertrand estava no sítio habitual com vários pavilhões e um amplo
balcão corrido, exclusivo para pagamentos, com várias caixas.
Missão cumprida, deambulámos depois por entre os pavilhões das editoras até ao
cume da Feira onde estacionava uma convidativa carripana de farturas (na
verdade estas carripanas encontram-se estacionadas em vários cantos estratégicos,
no sopé e no cume da Feira).
Em casa, abro o livro, dou um
relance nas badanas, na capa e no verso: Daniel Kahneman é judeu - outro judeu.
Salto a introdução (ao diabo com as introduções, deixo-as quase sempre para o
fim) e começo a ler o primeiro capítulo. Descubro que o livro tem duas
personagens – o Sistema 1 e o Sistema 2. Torço o nariz. Que raio de nomes. Mas
rapidamente se tornou claro que poderá ser uma leitura interessante, ou então será
mais um livro que irá repousar na anti-biblioteca. O Cisne Negro do Taleb, já lá está. Foi lido até pouco mais de metade
com algum interesse, depois com alguma resistência e depois com alguma
penosidade: logo naquelas páginas iniciais se percebe o leimotiv, o motto - “shit
happens” – que é apresentado em looping, com inúmeros exemplos, quase
até à exaustão. Destino: anti-biblioteca. A leitura será retomada noutro dia,
talvez para as calendas. Espero que não ocorra o mesmo com o livro do Kahneman.
Afinal os judeus, por razões
históricas, religiosas e civilizacionais, parece que se especializaram na
lapidação de diamantes, na banca e na escrita – são um dos povos do Livro -, e na
verdade escrevem obras cativantes como diamantes. Quase sem me dar conta dou
com a casa repleta de livros de judeus, estando inclusivamente a ler em
simultâneo várias obras deles: Homo Deus,
do Yuval Harary (HarperCollins
Publishers), George Steiner em The New Yorker (o da Gradiva),
e agora este do Kahneman.
Nas prateleiras, repousam livros
de Hannah Arendt, Elias Canetti, Zygmunt Bauman, Eric Hobsbawn, Stefan Zweig,
George Steiner, Tony Judt e se calhar outros com os quais ainda nem me deparei,
também escritos por gente da diáspora. Outros li, como Primo Levi, que não
queria deixar de referir aqui. A todos eles tiro o meu chapéu. Grande gente, grande
povo e grande civilização que culturalmente nos enriquece a todos. Como foi
possível termos expulsado outrora esta gente?
Bem hajam! (Ops, não é este o
título da obra de outro judeu que também li recentemente?).
segunda-feira, maio 22, 2017
O Alien: Covenant e a Guerra dos Tronos
No Alien: Covenant decidiram os argumentistas, como agora é moda,
aproveitar e misturar cenas similares a outras histórias que fizeram história:
nele encontramos a indomável criatura que escapa ao seu criador, virando-se contra ele, coisa que já vem do tempo do Dr. Frankenstein e provavelmente antes
disso, e que se repete vezes e vezes sem fim, do Robocop
ao Terminator, antes e depois. Temos
também um robot psicopata, qual Hannibal Lecter, que esconde as suas intenções assassinas
sob uma face inexpressiva, quiçá até bondosa e uma falsa atitude protectora, até se revelar na sua
extrema agressão. E uma cena no banho, à Psico,
do velho Hitchcock, mas agora com um casal bem amparado em vez de uma menina
desamparada e de grito estridente.Argúcia do realizador: receitas antigas para novos proventos.
***
Já na Guerra dos Tronos a misturada é também evidente: velhas epopeias, ilíadas e odisseias, histórias medievais, as histórias fantásticas de Tolkien, com dragões e anões, mas
agora condimentadas com erotismo e soft porn (receita
das Sombras de Grey?), relações incestuosas, sadismo,
zombies e grosserias. Enfim, um melting
pot que vende.
domingo, maio 21, 2017
A realidade sofre
«When examining the history of any human network,
it is therefore advisable to stop from time to time and look at things from the
perspective of some real entity. How do you know if an entity is real? Very
simple – just ask yourself, ‘Can it suffer?’ When people burn down the temple
of Zeus, Zeus doesn’t suffer. When the euro loses its value, the euro doesn’t
suffer. When a bank goes bankrupt, the bank doesn’t suffer. When a country
suffers a defeat in war, the country doesn’t really suffer. It’s just a
metaphor. In contrast, when a soldier is wounded in battle, he really does
suffer. When a famished peasant has nothing to eat, she suffers. When a cow is
separated from her newborn calf, she suffers. This is reality.»
Yuval Noah Harari
Yuval Noah
Harari, Homo Deus, A Brief History of
Tomorrow, HarperCollins Publishers, 2017
***
Yuval Harari, testa a realidade pelo
sofrimento. Quer saber se uma entidade é real? É, se apresentar um
potencial de sofrimento. Caso contrário estamos a falar de abstracções, metáforas,
realidades intersubjectivas, porém, não da realidade objectiva. Essa sofre. É um
pensamento com similitudes ao pensamento cartesiano. O “penso, logo existo” de
Descartes é substituído pelo “sofro, logo existo”. No entanto Harari circunscreve
esta ideia à história das redes de relações humanas - the history of any human network. Não aplicou o método de Descartes
– a dúvida em relação à fiabilidade
dos sentidos na leitura de toda realidade. Descartes viu-se então só com o seu
pensamento e, como não podia duvidar que estava a pensar, deduziu que existia
porque estava a pensar.
A realidade para Yuval Harari não é um pensamento, é um sentir. O sentimento vem antes do pensamento, e vem depois. Ou vem sem que exista pensamento algum.
Porém, cogitatio est. O pensamento existe. (Ortega y Gasset)
A realidade para Yuval Harari não é um pensamento, é um sentir. O sentimento vem antes do pensamento, e vem depois. Ou vem sem que exista pensamento algum.
Porém, cogitatio est. O pensamento existe. (Ortega y Gasset)
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sexta-feira, maio 19, 2017
Como Portugal criou o primeiro império global
«Este uso do terror será grandioso para a obediência a Vossa Alteza sem
necessidade de os conquistar»
Afonso de Albuquerque
Roger Crowley narra-nos a impressionante
história da entrada dos portugueses no Índico no início do século XVI. Como Portugal
criou o primeiro império global? Lido o livro, a resposta à questão é
extremamente simples. Portugal criou o primeiro império global através do
terror. Um terror que aplicou com persistência e tenacidade. Onde quer que surgissem no mar, as enfunadas velas brancas com a vermelha cruz de Cristo pintada, a população dos
lugares costeiros debandava. Fomos terroristas, piratas e corsários e aplicámos
todo o hardpower para dominar a costa
do Malabar, da África Oriental, do Golfo Pérsico e mais além. Chegámos a penetrar
no ardente Mar Vermelho e ousámos trepar e atacar as muralhas de Adém. Fomos
longe demais. O espírito que nos movia no início do século XVI era ainda o da
cruzada medieval. O objectivo era matar o Islão no berço, passar o mouro à espada,
sem dó nem piedade ou esmagá-lo por todas formas possíveis e imaginárias. Queimámos,
esquartejámos, empalámos, enforcámos, retalhámos, massacrámos, pilhámos…
Conta o narrador que após a
tomada de Goa os rios que envolviam a ilha ficaram rubros do sangue dos muçulmanos
apanhados na orgia saqueadora, e que nem os crocodilos “conseguiram lidar com a
fartura”. “Foi uma limpeza” escreveu Afonso de Albuquerque a Dom Manuel I.
A história de Portugal no Índico
não foi uma coisa bonita de se ver.
E no entanto, ficamos perplexos
com tanta bravura e crueldade.
O livro já vai na 6ª edição.
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domingo, maio 07, 2017
A derrota do fascismo de pantufas
Venceu a União Europeia, que
precisa urgentemente de ser reformada nas suas políticas. Os eleitores franceses, e
anteriormente os holandeses, não quiseram entrar em aventureirismos que os
poderiam levar a um empobrecimento. Interiorizaram que a cisão com o projecto
europeu, o fim do Euro e da União Europeia, teria um impacto muito negativo nas suas carteiras, com as desvalorizações das moedas nacionais que então criariam e,
consequentemente, das suas poupanças. As derrotas de Le Pen, em França, e de Geert Wilders, na Holanda, devem-se às suas posições contra o projecto europeu e contra a União Europeia.
Os problemas que se colocam hoje ao
mundo transcendem a capacidade dos velhos Estados-nação para os resolverem. São
problemas transnacionais. São precisas organizações de alcance mais vasto (espaços políticos transnacionais), e reticulares (cidades globais
funcionando em rede).
Mas o fascismo de pantufas
continuará a andar por aí, pronto a ocupar o poder em França, se
Macron e a União Europeia não estiverem à altura dos desafios (as migrações ilegais
massivas, os refugiados, o terrorismo, os problemas ambientais e as alterações
climáticas, e as ameaças geopolíticas que sopram de várias direcções).
segunda-feira, abril 17, 2017
The specifics
Now few biochemists and molecular biologists doubt that life can arise naturally from nonlife , even though the specifics are yet to be discovered.
Lawrence Kraus, A Universe from Nothing: Why There Is Something Rather Than Nothing, Simon & Schuster, 2012
***
Defende-se que pode haver criação sem criador e que a vida surgiu da não vida, mas o problema são os detalhes - "the specifics". Sempre os detalhes.
Mas afinal, o que se esconde nos detalhes? Deus, o Diabo, o Nada?
segunda-feira, abril 10, 2017
Maria Helena da Rocha Pereira (1925-2017)
Maria Helena da Rocha Pereira (1925-2017)
Hoje partiu uma das nossas melhores.
Enriqueceu-nos.
Por ela chegou até nós a Cultura Clássica, os mundos gregos e romanos. Muito antes de sabermos quem ela era, já tínhamos descuidadamente lido algumas das suas traduções entre as quais A República, de Platão, da Fundação Calouste Gulbenkian. Depois foi uma curiosa descoberta verificarmos, afinal, que o seu nome estava em muitas obras traduzidas e lidas.
É gratidão o que sentimos e lamentamos a sua partida. Foi (É) para nós a Tradutora e a Anfitriã desses mundos longevos.
Fica aqui a nossa humilde homenagem.
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Partidas,
Rocha Pereira
domingo, abril 02, 2017
Um mundo novo é inevitável
Todos sabemos que a lagarta se metamorfoseará numa borboleta. Mas a
lagarta saberá isso? Esta é a pergunta que temos de fazer aos profetas da
catástrofe. São como as lagartas no casulo da mundivisão da sua existência de
lagarta, inconscientes da sua metamorfose iminente. São incapazes de distinguir
entre a decadência e a mudança para uma coisa diferente. Veem a destruição do
mundo e dos seus valores, embora não seja o mundo que está a perecer, mas a
imagem que têm do mundo.
Ulrich Beck, A Metamorfose do Mundo, Edições 70,
2017, pág. 30
Um novo mundo é possível?! Que
interessa isso agora? Agora é tarde. Os portões saíram dos seus gonzos. Um novo
mundo é já inevitável! Quer queiramos quer não. A metamorfose do mundo está em
curso. O que daí virá? Um admirável mundo novo? Talvez. Um mundo distópico? Não
sabemos. Não será por certo um mundo em que os amanhãs cantam. Por certo será um
mundo que não esperamos e do qual nem suspeitamos. Um mundo distante, muito distante
desse mundo desejável pelos que proclamavam a possibilidade de um novo mundo,
diferente do que nos impunha a globalização capitalista.
Ulrich Beck morreu. Só o soube, para grande surpresa minha, quando
adquiri este seu novo livro póstumo: A
Metamorfose do Mundo. Julgava-o vivo. Outro mestre que partiu, já há dois
anos. Vive no entanto na sua obra e no pensamento que dela ecoa.
Até sempre Ulrich Beck.
***
Novas costas delinear-se-ão. Ilhas e porções de terra hoje emersas ficarão submersas, assim
como as áreas baixas das cidades e as baixas das cidades. Populações procurarão
refúgio noutros lugares, espécies perecerão com o desaparecimento dos seus habitats e tempestades cada vez mais violentas
varrerão os céus, a terra e os mares. Vinhedos, oliveiras e palmeiras surgirão noutros
horizontes, mais para o norte e mais para o sul e certos insectos transmissores
de doenças alastrarão também, assim como os desertos que já cobrem um terço da
superfície da área continental planetária. Oceanos nunca antes navegados por veleiros serão atravessados por esses barcos de lés a lés. Os corais branqueiam-se e morrem,
como já se anuncia, e muitas espécies perecerão numa já anunciada sexta extinção
em curso. Não obstante não é do Apocalipse segundo São João de que falamos. É de outra coisa. A metamorfose do mundo é também a nossa metamorfose, assim como a
da nossa visão do mundo. Virá um Homem novo. Um cyborg (já há quem por aí ande, merecidamente feliz, com um novo coração
artificial). Também isto é já parte do mundo novo.
domingo, março 12, 2017
Ninguém nasce revolucionário
El hombre nos es totalmente dueño de su destino. El hombre también es
hijo de las circunstancias, de las dificultades, de la lucha. Los problemas lo
van labrando como un torno labra un pedazo de metal. El hombre no nace revolucionário,
me atrevo a decir.
Fidel
Castro
in Ignacio Ramonet, Biografia a dos Voces, Penguin Random House Grupo Editorial, 2015
Ninguém nasce revolucionário.
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Fidel Castro,
Ortega y Gasset
quinta-feira, março 09, 2017
Hoje está Levante
Quando o Levante se erguia e soprava,
Os meus avós apuravam o ouvido
P’ra ouvir o mar rugir.
Ouvíamo-lo mesmo por trás das serras ondulantes
No nosso curto horizonte.
As serras que se acercavam,
e nos rodeavam,
nos cingiam,
e protegiam.
Ao Sul o mar rugia,
Sempre que o Levante se levantava.
(Consta que ainda assim é,
nos dias que correm)
Os meus avós apuravam o ouvido
P’ra ouvir o mar rugir.
Ouvíamo-lo mesmo por trás das serras ondulantes
No nosso curto horizonte.
As serras que se acercavam,
e nos rodeavam,
nos cingiam,
e protegiam.
Ao Sul o mar rugia,
Sempre que o Levante se levantava.
(Consta que ainda assim é,
nos dias que correm)
sábado, fevereiro 04, 2017
Tempos de Neptuno
Estes tempos são os meus tempos
Tempos de tempestade
Tempos de lesa-majestade
Tempos de barco ao fundo
Tempos de fim do mundo
Tempos de Neptuno
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