segunda-feira, julho 27, 2015

Trump e a sua muralha


Disse que construiria uma muralha impenetrável, colossal, a todo o comprimento da fronteira entre os EUA e o México. Três mil cento e quarenta e cinco quilómetros, do Golfo de México ao Pacífico! Quer impedir a entrada de migrantes e refugiados nas terras do sonho americano. A terra dos imigrantes. Eles que sonhem mas não ousem pisar a terra do Tio Sam. Ele já não os quer. Sonhos americanos são para os americanos. Nem os desertos de Sonora e do Mojave, onde muitos já se perdem, lhe bastam. Venha a muralha. Saberá Trump que não foi assim que a América se fez?

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domingo, julho 26, 2015

Plutão, o anão

A sonda detectou gelos exóticos constituídos por nitrogénio, monóxido de carbono e metano, but no water.

Plutão, Caronte e Terra, à mesma escala.

O tempo dos vendilhões

Em tempos foi aqui dito que a lógica do saqueador do pote seria vendê-lo caso nada mais restasse dentro dele. Pois assim foi nestes anos, com uma agravante: o saqueador do pote, antes de o vender, desfê-lo em cacos e vendeu-o em pedaços. Já pouco resta.

Este é o tempo dos vendilhões.  

sábado, julho 18, 2015

O novo Eixo


Os líderes da Alemanha e da França anteciparam-se um dia à cimeira dos líderes governamentais dos países da Zona Euro para decidirem o que é importante. Primeiro entre si, no dia seguinte com os demais. Como se o Eixo franco-germânico (há quem lhe chame directório) fosse uma instituição da União Europeia. 

Nos palanques, a bandeira da UE é simbolizada atrás das bandeiras dos dois países do Eixo, e nas costas de Merkel e Hollande, lá aparece, tímida a espreitar, também atrás das bandeiras da França e da Alemanha. O simbolismo diz tudo. Na Zona Euro há umas democracias mais importantes do que outras. O domínio do Eixo é exercido pelo soft power ao qual os outros países se submeteram mansamente.

Não admira a relutância dos ingleses em prosseguir numa U.E. assim, dominada pelo Eixo franco-germânico.


quinta-feira, julho 16, 2015

A parede

Brandida a espada num primeiro momento, rapidamente foi depois embainhada. No final Tsipras recuou até à parede. Sucumbiu ao discurso do “não há alternativa”.

Há alternativa, mas todas as alternativas têm um preço.


Jogou-se a cartada da Rússia – bem jogada, pois quer dizer que a posição geopolítica grega tem um preço, que o Ocidente terá de pagar se quiser a Grécia do seu lado. Dirigentes de instituições como o FMI cometem já o sacrilégio de pronunciar a palavra “reestruturação” e assumem a insustentabilidade da dívida grega. Não é por acaso.

A cartada do referendo foi inesperada, ousada e bem jogada, mas inconsequente. Apresenta-se agora como um bluff que não surtiu efeito. Alguns argumentaram que a democracia da Grécia não valia mais do que as restantes 18 democracias da Zona Euro, como se fosse essa a questão em cima da mesa. O valor das outras democracias nunca foi posto em causa por aquele referendo.

Mas curiosamente, um dos perdedores desta história foi Wolfgang Schäuble, que desejava a saída da Grécia da Zona Euro - teve até uma altercação com Mário Draghi por causas disso, segundo consta. Os outros perdedores foram os gregos e os contribuintes da Zona Euro.

Os vencedores foram, mais uma vez, os especuladores: irão colher os milhares de milhões despejados novamente em cima da Grécia. São eles quem continuará a beneficiar dos disfuncionamentos da Zona Euro.

sábado, junho 27, 2015

Nem espada, nem parede: democracia!

Tsipras, confrontado com as ingerências e pressões intoleráveis da parte das instituições europeias neoliberais, opta pelo caminho democrático: convoca o referendo. Nem disse sim às imposições (a parede), nem disse não (a espada). Respondeu às instituições não democráticas com democracia: o povo grego que escolha o seu destino.

Face a este inesperado balde cheio de democracia pela cabeça abaixo, como reagem os responsáveis do Eurogrupo? Reagem mal. Instituições pós-democráticas têm dificuldade em lidar com soluções democráticas.

Definitivamente, esta União Europeia não é a minha União Europeia.

terça-feira, junho 23, 2015

Sobre o jihadismo

«Olivier Roy tem defendido de forma brilhante e persuasiva, que os jihadistas contemporâneos não podem ser compreendidos principalmente em termos culturais ou religiosos. A religiosidade muçulmana genuína tem sempre estado implantada numa cultura local ou nacional, onde a doutrina religiosa universalista é modificada pela aposição dos costumes, hábitos, santos e afins locais, e apoiada pelas autoridades políticas regionais. Não é este tipo de religiosidade que constitui a raiz do terrorismo dos nossos dias. O islamismo e os seus rebentos jihadistas são o produto daquilo que Rot chama Islão «desterritorializado», no qual os muçulmanos individuais se vêem isolados das tradições locais autênticas, muitas vezes como minorias em terras não-muçulmanas. Isto explica o porquê de tantos jihadistas não serem oriundos do Médio Oriente, mas sim criados (como Mohamed Atta um dos conspiradores do 11 de Setembro) na Europa Ocidental. O jihadismo é, por conseguinte, não uma tentativa de restaurar uma forma originária de islamismo genuíno, mas uma tentativa de criar uma nova doutrina universalista, que possa ser fonte de identidade dentro do contexto do mundo moderno, globalizado e multicultural.»

Francis Fukuyama, Depois dos Neoconservadores - A América numa Encruzilhada, Gradiva, 2006, pág. 67-68.

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sábado, junho 20, 2015

A espada

Entre a espada e a parede, Tsipras parece ter escolhido a espada, e já a brande. Veremos o que fará no último momento.

Ontem em São Petersburgo:




E noutra ocasião, em Maio:

Capisce?

sexta-feira, junho 19, 2015

Pós-política, pós-democracia

O desaparecimento da política é um dos aspectos mais salientes do pensamento moderno e tem muito a ver com a nossa prática política. A política tende a desaparecer quer no subpolítico (economia) quer no que se clama ser mais elevado do que a política (a cultura) – ambos dando azo à arte arquitectónica, à prudência do homem de estado.
Allan Bloom, A Cultura Inculta, 2ª ed., Europa-América, 1989, pág. 184

Sagaz, Allan Bloom notava em 1987 uma tendência que marcava a América e que entretanto alastrou ao planeta inteiro: trata-se do desaparecimento da política. A economia venceu ao ponto de dominar toda a esfera política. Esta actualmente reduz-se apenas à economia e à finança, que tudo condicionam. O crescimento económico passou a ser o desígnio universal e único - não há país no mundo que não o ambicione.

Já não vivemos num período democrático. A liberdade dos povos para escolher caminhos deixou de existir. Já só existe o caminho assinalado pela economia e pela finança. Vivemos tempos de ditadura económica e financeira. Se não acreditam, perguntem aos actuais gregos.

sexta-feira, junho 12, 2015

Um homem não é um homem: é capital humano.

Gostei muito desta pequena animação no blog do Francisco Oneto. Chama-se "Emprego". O Francisco chamou-lhe, ironicamente, "Capital Humano". É claro que se trata de uma crítica e convoca-nos à reflexão.

Nesta novilíngua neoliberal tudo se converte em mercadoria. Tudo se converte em capital. Capital humano, capital social, capital natural... Aos olhos desta gente tudo é um meio de produção ou de "riqueza", ou de produção de riqueza.

Quando olham o mar não vêem o mar: veem um potencial de riqueza e exploração. Quando olham uma floresta, não veem uma floresta: veem árvores das patacas a florirem notas. E na sua visão, um homem, não é um homem. É um meio de produção. Capital humano.

Eis o maravilhoso mundo novo do empreendedor neoliberal.

Gostei muito do pequeno filme.

quarta-feira, junho 10, 2015

Fogo Grego


Foi a grande aquisição na Feira do Livro deste ano. Já o tinha requisitado e lido na biblioteca municipal, mas vê-lo ali entre as pechinchas, novo, capa dura, primeira edição, ilustrada e a cores... Não resisti.

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Após o saque de Roma pelo visigodo Alarico, em 410, o século seguinte assistiu ao colapso do mundo romano clássico. O fogo da Grécia antiga tinha-se extinguido na metade ocidental da Europa. Está muito mais vivo em 1989 do que estava em 989.

Olivier Taplin, Fogo Grego, Gradiva. 1ª ed. 1990. pág. 16

Maersk Majestic


Cargueiros colossais sulcam os mares com tripulações mínimas. Os seus contentores empilhados acomodam mercadorias produzidas nas fábricas do mundo, quase todas na China.


Entre o Mar Vermelho e o Mar Mediterrâneo, no canal do Suez.

domingo, maio 31, 2015

O eterno retorno: uma vez e outra chegaremos à luz

somos postos no mundo para uma existência subterrânea de luta; uma vez e outra chegaremos à luz, uma vez e outra experimentaremos a hora dourada da vitória – e depois erguer-nos-emos recém-nascidos, indestrutíveis, tensos e prontos para o que é novo, mais difícil, mais distante, como um arco que cada necessidade meramente estica mais.

Friedrich Nietzsche

Nietzsche, Friedrich, A Genealogia da Moral, Publicações Europa-América, 2002, pág. 51

sábado, maio 23, 2015

Trabalhos e escravidões

Pouco tempo tem havido para escrever nos Trabalhos e os Dias. Os trabalhos têm tomado conta dos dias. Os dias afogam-se em trabalhos que não nos deixam respirar. Qualquer fuga episódica ao trabalho está condenada ao fracasso. Pagam-se caras as fugas com o acumular dos trabalhos aquando do regresso.

São os tempos de uma ideologia para a qual o trabalho é um fim e não um meio. Esta fé incondicional no trabalho como um fim em si mesmo*, no papel da empresa e no crescimento económico como panaceias para a resolução dos problemas sociais é completamente equívoca. Se uma empresa puder realizar a sua produção com dois, não empregará quatro, nem que tenha de sobrecarregar os dois que emprega (Se tal lhe for permitido! E com estes que nos governam, diga-se de passagem, tudo lhes é permitido). Tão simples como isso. E se necessário fá-lo-ão só com um, sobrecarregando-o mais ainda e baixando-lhe o salário, que é um "custo de produção". As empresas não são a Santa Casa da Misericórdia nem a sua vocação é o combate aos problemas sociais. E assim vamos sendo conduzidos à servidão por uma ideologia marcada pela fé cega na Empresa, no empresário e no empreendedorismo que resvala para a exploração do Homem pelo Homem. Esta sim, é a estrada que conduz à servidão. Num extremo, lá está a velha memória da escravatura, as mulheres e crianças das minas de carvão ou nas fábricas inglesas, exploradas por patrões humanos, muito humanos.

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Alguns papagaios, comentadores do regime, afirmam por aí que o PSD não tem um programa e blá, blá, blá…e que já devia ter e blá, blá, blá… Como se precisasse. Ainda não perceberam ao fim de quatro anos o programa do PSD? Ele é austeridade, redução de funcionários públicos, redução de salários e de pensões, congelamento de carreiras, desestruturação do Estado, retirada do Estado da economia (como se fosse possível colocar o Estado num compartimento estanque, desligado da economia) e a transferência dos seus serviços para os privados (os mercados), as privatizações, a precariedade, etc., etc., etc. Claro que para realizar tudo isto é preciso criar um ambiente de desconfiança em relação aos serviços do Estado. E estes governantes desconfiam do Estado que governam e manifestam-no às claras. A empresa privada realiza melhor, acreditam eles. É o cúmulo.

E eis um dos resultados dantescos desta política: num dos países demograficamente mais velhos do mundo, os jovens foram, e ainda são, obrigados a emigrar em massa. Um desperdício de recursos humanos e dos esforços de uma sociedade que neles investiu, sendo agora outras as sociedades que colhem os frutos desse investimento. Há exemplo maior do que este acerca do que é um mau governo num período de paz?

Enfim, prosseguem os dias afogados em trabalhos. São os trabalhos e os dias dos tempos que correm.

É sábado. Vou trabalhar que o trabalho já se acumula.
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(*) Aos amantes do trabalho, fiquem sabendo: os nazis tinham a política de extermínio pelo trabalho, a Vernichtung durch Arbeit. O trabalho não era um fim em si mesmo. O trabalho era o fim. O trabalho liberta? Talvez, se não for excessivo, caso contrário, mata.

sábado, abril 11, 2015

Refuse! Resist!

     Nanning, China

Alguém se recusa obstinadamente a sair. Não aceita a compensação para o realojamento. A casa bloqueia a rua e a rua atropela a casa. A casa já lá estava. Temos aqui, evidentemente, um conflito entre o global e o local.

Algo mudou na China. No passado, ouvi dizer, não havia pejo em arrasar cidades só para que uma barragem ao serviço do interesse colectivo pudesse ser construída. O colectivo sobrepunha-se ao particular. E não se davam quaisquer compensações aos residentes que perdiam a casa e tinham de se mudar.

Hoje temos destas casas renitentes na China. "Nail houses" é o que lhes chamam - casas encravadas no "progresso".

O particular já tem os seus direitos, pelos vistos. Isso surpreende-me. Estamos a falar da China.

Contudo, talvez aqui se oponham dois particulares - o proprietário da nail house e o "empreendedor" construtor de "cidades", arauto do "progresso" global.

Um desbravador de mundos. Um construtor de mundos. Mundos de plástico, artificiais, diga-se de passagem. Neoliberal destruição criativa.

Referência: AQUI.

domingo, março 22, 2015

Cofres cheios, bolsos vazios.

Diz a nossa alegre, jocosa e ufana, Ministra das Finanças, que os cofres do Estado estão cheios.

Parabéns! Arrebatada proeza, a alcançada!

Os cofres estão cheios e os bolsos vazios.

E sempre as palavras de O'Neil a ressoarem-me na cabeça: ah, Portugal, Portugal, se fosses só três sílabas de plástico, que era mais barato!

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Vejo por aí um cartaz  com o dito "Acima de tudo, Portugal!" Portugal über alles! Pois claro.

Mas afinal o que é Portugal para esta gente?

Não deveria rezar o cartaz "Acima de tudo, os Portugueses!"? Vindo de quem vem, admirar-me-ia, se ousassem a tanto.

Está mais do que claro que para esta gente Portugal não são os portugueses.

Afinal Portugal tem os cofres cheios e os portugueses, a larga maioria, tem os bolsos vazios. 

domingo, fevereiro 08, 2015

Quem quer ver a Europa Continental a arder?

Victoria Nuland ao centro.
Estamos a assistir a uma competição diplomática curiosa relativamente ao conflito ucraniano: enquanto Hollande e Merkel tentam por todos os meios deitar água na fervura e realizam um derradeiro esforço para colocar frente a frente Putin e Poroshenko, em Minsk, os Estados Unidos e o Reino Unido, neste contexto, que exigiria mais recato, pelo menos enquanto se aguarda o desfecho do encontro, não hesitam em lançar gasolina na fogueira. Os seus secretários de Estado, homens de Estado e falcões, apressam-se logo a disparar na direcção da Rússia. Ululantes, ameaçam armar mais ainda a Ucrânia. Comportam-se como enfants terribles nesta história.

Nem a Alemanha nem a França, as potências continentais da Zona Euro, querem um conflito às suas portas. Têm interesses económicos no Leste da Europa, em particular a Alemanha, que está mais perto da frente de batalha. Já os EUA e os ingleses, não observam o conflito da mesma forma, nem, aparentemente, com a mesma preocupação. Os EUA chegam a aborrecer-se com a Velha Europa, hesitante, lenta e burocrática. Tentam passar por cima dela neste processo. Fuck the European Union, lá deixou escapar a Secretária de Estado Adjunta de Obama, Victoria Nuland, ao telefone. Face ao comportamento diplomático americano, parece que essa é a atitude reinante nos bastidores anglo-americanos. Parece que desejam ardentemente que deflagre um fogo maior na Europa Continental.

sábado, fevereiro 07, 2015

Mudança, mas que mudança?

Medo de arriscar. A prudência é a lei do bom-senso português.
José Gil*

Quarenta anos de “rotativismo” trouxeram-nos até aqui. Quarenta anos de “mudança”!

Alguns clamam agora, novamente, por mudança. Mas que mudança? Já estamos habituados resignados à tal mudança na continuidade e à tal continuidade na mudança. Na verdade, até aqui sempre houve quem prometesse mudar alguma coisa para que tudo ficasse na mesma. Houve até quem se limitasse a esperar na certeza de que um dia, só não sabia quando, dizia ele, haveria de ser primeiro-ministro. E não é que foi mesmo. Tal é a “mudança”. Vamos ouvir clamar muito por aí, por “mudança”, agora que as eleições se aproximam. “Mudança!”, reivindica-se uma vez mais.

A verdade é que Portugal é um país conservador, ou, por outras palavras, os portugueses são conservadores. Tão conservadores são que votaram num presidente que tem a “estabilidade” como um dos supremos valores do seu ideário. Tão conservadores que, passados tantos anos após o 25 de Abril, colocaram dois salazaristas nos mais altos cargos da nação. Cheira a caruncho por todo o lado. Na verdade foi sempre o medo de mudança que imperou. De mudança autêntica. O medo de existir.

Gritai agora! Clamai! Cantai agora o “Acordai!”

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PS - Porque agora é que é a hora! Ou será que adormecemos?

Mas diga-se de passagem: o que esperar do país com a sexta população mais idosa do mundo? Audácia? Desejo de mudança? Ou mais conservadorismo, imobilismo e medo? O que esperar de um país em que as elites rentistas, mais poderosas e detentoras do mais rico património já se ocuparam em expulsar os mais jovens e audazes para o exterior?

É mais do que certo: aqui, assistiremos à continuidade na mudança e à mudança na continuidade. Os que nos trouxeram até aqui vão continuar por aqui, a comandar os destinos da pátria, naquilo em que ainda comandam, se assim se pode falar, porque na realidade já muito lhes escapa.
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(*) José Gil, Portugal, Hoje: O Medo de Existir, 7ª ed., Relógio D’Água, 2005, pág.79

Não me diga?!


E não sabemos nós outra coisa?! Há anos! Há tanto tempo que já é uma verdade de La Palice.

Mas diga-nos Vossa Excelência: o que se propõe fazer quanto a isso?

É que proclamar evidências não é o suficiente para nos levar a bom porto.

domingo, fevereiro 01, 2015

São as empresas, senhores, são as empresas.

Foi presciente John Kenneth Galbraith quando disse um dia que a grande dialéctica do nosso tempo não é, como antigamente se supunha e alguns ainda supõem, entre o capital e o trabalho, mas entre a empresa e o Estado.” Hoje, para cúmulo, temos alguns “lacaios” das “empresas” metidos no governo dos Estados. O seu comportamento é como o de um vírus ou de um cavalo de tróia. Uma vez no governo dos Estados, começam por retirar espaço à acção dos próprios Estados, para que as empresas que servem possam conquistar esses mesmos espaços, que se constituem afinal como novos mercados, novos prados, sempre cobiçados pelo olho gordo da grande empresa capitalista (ou pelos chineses, diga-se de passagem, tão arreliados que ficaram por não poderem comprar o porto do Pireu).

Esses espaços do Estado a que me refiro, mais não são do que serviços sociais públicos, sectores inteiros, que antes de mais, para essa gente, é preciso desmantelar e retirá-los do âmbito do Estado para os entregar às empresas privadas. É isso que querem dizer com “reformas estruturais”. As “reformas estruturais”, para esta gente, passam pela privatização de cobiçados sectores públicos, e pela sua "devolução" à economia, dizem eles. Que é preciso tirar o Estado da economia, acreditam eles. Mas para tal, só o conseguirão, antes de mais, desacreditando o funcionamento dos serviços públicos aos olhos dos cidadãos (pois mal irá a Saúde, quando os cidadãos deixarem de acreditar no Serviço Nacional de Saúde, mal irá a Educação pública, quando os cidadãos deixarem de acreditar no Ensino prestado na escola pública, mal irão os sistemas de transporte públicos, quando os cidadãos deixarem de acreditar nos seus serviços…e assim sucessivamente…e até a democracia, mal irá, quando se deixar de acreditar nela). Então, estes sacerdotes fundamentalistas do Mercado, mal disfarçados de democratas, actuam diariamente para desacreditar e desvalorizar os serviços públicos. Ele é escolas, hospitais, transportes… Desinvestem! Que não há dinheiro para essas coisas.

Nunca a carga fiscal sobre as famílias foi tão elevada, para uma tão grande degradação dos serviços públicos. Nunca se pagou tanto em impostos, sem que tal pagamento se revelasse numa qualquer melhoria dos serviços públicos prestados. Pelo contrário, assistimos ao caos nas urgências dos hospitais, nas escolas, (onde já é visível a falta de pessoal auxiliar), nos tribunais, nas esquadras, nas prisões, nos apoios sociais aos mais pobres, e despedem-se funcionários públicos, gente a abater, selectivamente enviados para “campos de requalificação”, ante-câmaras do desemprego.

Não fossem as resistências e a boa fé da população e de uma certa sociedade civil, já a Educação e a Saúde teriam saído quase integralmente do âmbito do Estado (já quanto aos transportes, para lá se caminha, com as anunciadas privatizações, acrescendo às já realizadas).

Mas enquanto tal não se fizer, não se calarão as vozes dos que nos massacram e infernizam com a insistência nas tais “reformas estruturais”.

Vem tudo isto a propósito da afirmação do Sr. Primeiro-ministro, que assume “o compromisso de honra” em baixar o IRC. O IRC! Já não se compromete honrosamente o Sr. Primeiro-ministro em baixar o IVA ou o IRS. Não! Compromete-se em baixar o IRC! Mais uma vez o IRC! São as empresas, senhores, são as empresas.

Fosse o mundo governado como se de uma empresa se tratasse, então tudo estaria melhor. É nisto que esta gente acredita.

domingo, janeiro 25, 2015

A vitória do Syriza (a quente)

Há muito entusiasmo no ar com a vitória de um partido político, o Syriza, na Grécia. Pois bem, os partidos podem vencer as eleições que quiserem e onde quiserem e os eleitores podem até bem rabiar, mas o poder está com os Bancos (e não me refiro a bancos nacionais*). Vivemos novos tempos.

Vamos ver como se confrontará este Syriza com o choque de realidade que em breve vai ter de enfrentar.

Vamos ver que opção tomará quando tiver de escolher entre a espada e a parede. Registe-se que os recuos em direcção à parede já começaram há algum tempo.

Sempre poderá escolher a espada. Admirar-me-ei.
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(*) - O termo "banco nacional" é já um oxímoro.

E agora “Baltazar”?

O nosso lusitano “Baltazar Garzon”, ante a fumarada, viu a possibilidade de brilhar. Afinal não há fumo sem fogo e concordemos, o fumo era e é muito. Foi por isso mais forte do que ele, era uma oportunidade para brilhar neste mundo mediático em que se tornou a nossa realidade social. Mandou prender o homem agora transformado em São Sócrates de Évora, para onde já convergem, em peregrinação, as multidões de crentes. E em verdade se diga, goste-se ou não do homem, temos hoje, em “plena” democracia, um prisioneiro político, e apenas porque a justiça, como é habitual neste país, tarda, e como tal, em injustiça se torna. Na verdade, fumo há muito, mas caramba, parece que, volvidos quase dois meses, não se vislumbra a mais fugaz chama. E agora? E agora “Baltazar”?

sábado, janeiro 24, 2015

O culto da eterna juventude

Todas as gerações do século XIX aspiraram a ser maduras o mais cedo possível e sentiam uma estranha vergonha da sua própria juventude. Compare-se com os jovens actuais – homens e mulheres – que tendem a prolongar ilimitadamente a sua puerícia e nela se instalam como que definitivamente.

Ortega y Gasset, “Juventud”, El Sol, 9 de Junho de 1927.

Por toda a parte, os mais velhos corriam desnorteados atrás da última moda; de repente, já só havia uma ambição: a de ser «jovem» e de inventar rapidamente, atrás de uma tendência que ontem ainda era actual, uma outra ainda mais actual, mais radical, nunca vista até então.

Stefan Zweig, O Mundo de Ontem, Recordações de um Europeu, Assírio & Alvim, 2005, pág. 331

***

No início do século XX, os jovens tentavam parecer mais velhos e respeitáveis. Trajavam quase formalmente. Após a Primeira Grande Guerra instalou-se o culto da eterna juventude: procuramos parecer sempre jovens, independentemente da idade que atravessamos.

Proust, 1887
Quem vivia com lucidez nos anos que sucederam a Primeira Grande Guerra apercebeu-se com grande admiração que se instalara um novo espírito do tempo. Ao invés do que ocorria na Belle Époque, agora todos queriam parecer jovens, inclusivamente os jovens. Antes, tentavam parecer mais velhos e respeitáveis. Vede Proust na sua meninice, como no seu traje já estava presente a corrente que prende o relógio, não fosse o tempo escapar. Já estaria o menino, tão jovem, preocupado com o tempo que se poderia perder? Em que medida o tempo perdido é uma preocupação de um jovem? Não dizem que nessa fase da vida é como se fossemos imortais, exactamente porque a linha que nos serve de limite se encontra para além do horizonte? Não! Proust já trajava assim porque queriam que parecesse respeitável e mais velho do que realmente era, como defendiam os padrões da época.


O culto da juventude que apareceu  a seguir à Primeira Grande Guerra, como foi assinalado pelos espíritos lúcidos de Ortega y Gasset e Stefan Zweig, instalou-se para ficar. A nossa preocupação, volvidos todos estes anos, continua a ser a de parecermos jovens, por muito velhos que sejamos. Richard Branson, 64 anos, com o seu sorriso pepsodent, a sua informalidade e o seu cabelo sempre louro, é disso uma ilustração, assim como Harrison Ford, 72 anos, com o seu brinco jovial, o seu cabelo desgrenhado e a ganga que habitualmente o cobre. E já nem falamos de Madonna, uma menina de 56 anos.

sexta-feira, janeiro 23, 2015

Liberdade

LIBERDADE

                (Falta uma citação de Séneca)

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa

segunda-feira, janeiro 19, 2015

Reformas e pistolas

Sempre que os nossos governantes, ou os da Comissão Europeia, ou do FMI, vêm falar da necessidade de reformas estruturais, saco logo da pistola.

domingo, janeiro 18, 2015

Do céu ameaçador ao inimigo interior

Vendo bem as coisas, e em perspectiva, as ruas do Ocidente são hoje um lugar bem mais seguro do que eram entre 1945 e 1989. Naquele período o céu pesava como chumbo. A qualquer momento podia cair-nos em cima da cabeça uma chuva atómica. Ainda que não esteja afastado o regresso desses tempos, o que temos hoje de mais perigoso são energúmenos à solta com bombas artesanais e armas automáticas que esporadicamente espalham o terror e a morte entre as populações, em acções circunscritas no tempo e no espaço. Não obstante tal adversidade, as sociedades prosseguem funcionando - os cães ladram e a caravana passa. No entanto, agora é a nossa liberdade que periga, porque a cada medida securitária que se impõe para os travar, sacrifica-se um pouco mais da nossa liberdade. Ao extremo, por causa dos terroristas, arriscamo-nos um dia a viver sem liberdade, sem privacidade e sem democracia.

sábado, janeiro 17, 2015

A Sexta Extinção, de Elizabeth Kolbert

O livro A Sexta Extinção, de Elizabeth Kolbert, foi considerado pelo New York Times um dos dez livros do ano de 2014. Editado pela Vogais, li-o em tempo record e com grande prazer, mas a edição portuguesa - 1ª edição, Junho de 2014 -  está cheia de gralhas. Gralhas de palmatória. Um tão bom livro de divulgação científica não merecia gralhas assim. Ou tratou-se de uma tradução apressada, ou de uma revisão descuidada. Por exemplo, optou-se pela expressão abrasileirada “Antropoceno” em vez do aportuguesado “Antropocénico”. Mas não é por aí que o gato vai às filhoses, até porque neste caso, o livro revela uma certa coerência, tratando por exemplo, o Cretácico por Cretáceo e por aí fora.

Segue-se uma breve lista de gralhas detectadas na primeira edição de 2014:

Na página 38, há uma referência à História Natural de Pliny (?), quando o autor dessa obra, na verdade, é Plínio. Aqui o nome não foi traduzido, coisa que já acontece na página 114, embora nessa página o nome da obra de Plínio, o Velho (23 d.C – 79-d.C.), apareça em inglês.

Na página 51, onde se lê “continuou isso mesmo” deve ler-se “não passou disso mesmo”.

Na página 81, onde se lê “uma análise genérica”, deve ler-se “uma análise genética”.

Na página 97, onde se lê “consistem de tiras”, deve ler-se, “consistem em tiras”.

Na página 101, onde se lê “tendem a estarem” deve ler-se “tendem a estar”.

Até aqui, pequenas gralhas, mas na página 118, surge uma de fazer saltar a peruca - diz-se lá, relativamente ao asteróide que terá colidido com a Terra e posto fim à era dos dinossauros, que, “Ao bater contra a península do Iucatão, movia-se a qualquer coisa como 73 quilómetros por hora…” (?). Setenta e três quilómetros por hora? Só?! Na verdade, a velocidade calculada é cerca de 73 000 km por hora.

Na página 121, onde se lê “densamente populado” deverá ler-se “densamente povoado”.

Na página 142, onde se lê “o interesse de Zalasiewicz por ratos gigantes representa uma extinção lógica”, deverá ler-se “o interesse de Zalasiewicz por ratos gigantes representa uma extensão lógica”. (Aqui trata-se claramente de um erro de simpatia).

Na página 145 refere-se que Charles Lyell, nos anos de 1930 (?), “cunhou as palavras Eoceno, Mioceno e Plioceno”. Ora acontece que o homem faleceu em 1875.

Na página 147, onde se lê “Geology of Making”, deve ler-se “Geology of Mankind”.

Na página 151, falta a expressão “que é” a seguir a “fecho de correr”.

Na página 160, onde se lê “Ulf Riebsell é um oceanógrafo e biológico”, deve ler-se “Ulf Riebsell é um oceanógrafo e biólogo”.

Na página 202, onde se lê “afídeos”, deve ler-se “afídios”.

Na página 235, onde se lê “biomos”, deve ler-se “biomas”.

Na página 257, diz-se que “a temperatura corporal de um morcego em hibernação baixa 50 ou 60 graus, muitas vezes até quase congelarem” (!). Suspeito que são graus fahrenheit e não graus celsius.

E agora o erro que considero mais crasso:

Na página 280 lê-se que “data de há 12 mil anos ou perto disso, quando os humanos modernos primeiramente migraram de África”. Deveria ler-se “120 mil anos”. É uma gralha recorrente no livro, e até flagrante.

Na página 328 lê-se “Esta teoria [“Fora de África”] defende que todos os humanos são descendentes de uma pequena população que vivia em África há sensivelmente 20 mil anos [?]. Há cerca de 120 mil anos [?], um subgrupo dessa população migrou para o Médio Oriente…”. Ora, onde se lê “20 mil anos”, deveria ler-se “200 mil anos”. Só assim tem sentido a consideração de que foi há cerca de 120 mil anos que se registou uma migração para Médio Oriente.

Afinal no próprio livro se lê, logo na segunda frase do prólogo que “esta história começa com a emergência de uma nova espécie, talvez há 200 mil anos.”

Concluindo, não devolvi o livro. O prazer que a sua leitura me deu superou a quantidade de gralhas encontradas. No entanto o leitor mais incauto pode acabar por ficar desinformado se não atentar nos erros que a tradução/revisão deixou passar.

Curiosamente, já tinha acontecido o mesmo com outro excelente livro desta editora – Breve História da Humidade, 1ª edição, Novembro de 2013, de Yuval Harari. Também nesse livro foram várias as gralhas detectadas, nomeadamente em quadros e esquemas.

No entanto descanse o leitor, pois a editora, nas páginas do copyright das obras referidas, dá-lhe uma garantia incondicional de satisfação e qualidade, referindo que o reembolsará, se não ficar satisfeito com a qualidade destes livros.

quarta-feira, janeiro 14, 2015

A Verdade

Ao nível mais importante, somos um mamífero razoavelmente cruel, feito para avançar, ultrapassar e destruir obstáculos. Na realidade, o obstáculo atrai-nos magneticamente. Há algo de central em nós que prefere a dificuldade, que procura os problemas enredados. Em última instância, isso deve-se ao facto de os mais dotados e enérgicos entre nós saberem há muito – sem, talvez, enunciarem este conhecimento – que a verdade é mais complexa do que as necessidades humanas, podendo até ser completamente alheia, ou mesmo oposta a essas necessidades.
(…)
Tenho uma certa imagem mental da verdade emboscada ao virar da esquina, à espera de que o homem se aproxime – e a preparar-se para lhe dar uma cacetada na cabeça.

George Steiner, Nostalgia do Absoluto, Relógio D’Água, 2003. Pág. 80 e 81

***

Habitamos num “universo, de forma alguma feito para o nosso conforto e sobrevivência, e muito menos para o nosso progresso económico e social nesta minúscula Terra.”(Steiner) E, segundo Steiner, essa é uma imagem assustadora.

A verdade, que tanto procuramos movidos pela curiosidade científica, pode revelar-se adversa aos interesses humanos. A verdade pode ser um asteróide enorme, indetectado, imparável, em rota de colisão com a Terra. A verdade pode ser outra. A sua revelação pode no entanto, ser-nos desconfortável.

Se assim for, o que iremos fazer quanto a isso? Deveremos negá-la?

domingo, janeiro 11, 2015

E você? Sente-se Ocidental?

Uma civilização representa a mais ampla entidade cultural. Aldeias, regiões, grupos étnicos, nacionalidades, grupos religiosos, todos têm culturas distintas em diferentes níveis de heterogeneidade cultural. A cultura de uma aldeia na Itália meridional pode ser diferente da de uma aldeia no Norte, mas ambas partilham uma cultura italiana comum que as distingue das aldeias alemãs. As comunidades europeias, por seu lado, partilharão traços culturais que as distinguem das comunidades chinesas ou hindus. Chineses, Hindus e Ocidentais, no entanto, não são parte de qualquer entidade mais ampla. Constituem civilizações. A civilização é, assim, o mais elevado agrupamento cultural de pessoas e o nível mais amplo de identidade cultural que as pessoas possuem e que as distingue das outras espécies. Ela define-se quer por elementos objectivos comuns, como a língua, a história, a religião, costumes e instituições, quer pela auto-identificação subjectiva das pessoas. As pessoas têm níveis diferentes de identidade: um residente de Roma pode definir-se, em vários graus de intensidade, como romano, italiano, católico, cristão, europeu, ocidental. A civilização a que pertence é o nível mais amplo de identificação a que se sente ligado. As civilizações são os maiores de «nós» dentro dos quais, culturalmente, nos sentimos «em casa» de uma forma diferente de todos os outros «eles».

Samuel Huntington, O Choque de Civilizações e a Mudança na Ordem Mundial, Gradiva, pág.47. (os destaques são nossos)

***

O conceito de civilização é incómodo. Causa comichão a muita gente. Contudo factos são factos. As ciências sociais e naturais nem sempre nos dão, ou darão, as respostas que gostaríamos de ouvir. Temos de estar preparados para isso. Da mesma forma que muitos idealistas querem erradicar a pobreza no mundo, outros também desejam apagar todas as linhas divisórias que levam à existência de um “nós” e um “eles”. Será tal coisa possível?


Fez-me pensar este post do Ma-shamba – “Je suis Baga”. Afinal por que nos indignamos tanto com a morte de 20 pessoas em Paris, ao ponto de sairmos à rua, em manifestação, enquanto quase nos passam despercebidas as cerca de 2 000 mortes causadas pelo Boko Haram, em Baga, na Nigéria, na quarta-feira passada? Não se observou qualquer veemente manifestação nas avenidas das cidades ocidentais. Porquê?

sábado, janeiro 10, 2015

Nem todos somos Charlie!


Este também não é. Vide aqui.

Confesso que também não gosto lá muito de unanimismos, que me fazem uma certa confusão.  E já começa por aí muito boa gente, e muito má gente, a dizer que eles não, que eles não são Charlie. No que me toca, solidarizo-mo com as vítimas que teimavam em ser livres e em dar azo à sua liberdade de expressão. A Liberdade é talvez o maior valor da nossa civilização e aqui não pode haver qualquer concessão ao medo. Ser Charlie é ser pela Liberdade e pela coragem de a defender, com prejuízo, se necessário, da nossa própria vida. É que a Liberdade é um valor que está acima da própria Vida, pelo menos na minha escala de valores. É isso que significa preferir "morrer de pé, a viver de joelhos". 

Não me surpreende lá muito que o senhor Jean-Marie Le Pen não seja Charlie. 

sexta-feira, janeiro 09, 2015


quarta-feira, dezembro 31, 2014

2015 Anno Domini

UM FELIZ 2015 PARA TODOS!

quarta-feira, dezembro 10, 2014

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© AMCD

domingo, outubro 19, 2014

Safo

     Charles-Auguste Mengin, Safo, 1867, Manchester Art Gallery

Quando morreres,
hás-de jazer sem que haja no futuro
 memória de ti nem saudade. É que não tiveste parte
nas rosas de Piéria.
Invisível, andarás a esvoaçar
no Hades, entre os mortos impotentes.

Safo, Lesbos, Séc. VII-VI a.C.
(traduzido por Maria Helena da Roca Pereira, in Hélade)

***

Mais de dois mil e quinhentos anos nos separam, imortal Safo.
E poucas foram as vozes femininas desse tempo que chegaram até nós.
Contudo a tua ainda soa - tu, que participaste nas rosas de Piéria - entoando cânticos e declamando poemas às primeiras horas da Aurora.

Sei que ainda percorres descalça as praias de Lesbos com a tua harpa,
enquanto o teu olhar divaga no mar, 
insaciado, insatisfeito, invadido pela saudade.
Transporta um desejo obsessivo de reencontro impossível.
Daí a profunda dor que canta
Por um ardente amor ausente.

Distante. Sempre.

sábado, outubro 18, 2014

Para quem os impostos sobem

Lido hoje no Público:

Uma das tendências internacionais dos últimos anos (e décadas) foi a diminuição da carga fiscal sobre as empresas. Não só se reduziram as taxas de impostos sobre o rendimento das empresas como, por via de acordos internacionais e directivas europeias, se criaram mecanismos que permitiram a redução dos impostos.”

Ricardo Cabral, Público, 18 de Outubro, pág.51.

***

Há dias emiti um comentário n' O Insurgente a um post que punha em questão a ideia de estarmos a viver numa época de “[Neo]Liberalismo” - para estes “Testemunhas de Jeová” do liberalismo, fundamentalistas do laisser faire, laisser passer,  o termo “neoliberalismo” é impronunciável, é um “vai de retro Satanás”, daí escreverem o prefixo entre aspas, ou entre parêntesis, ou, neste caso, entre colchetes -, na medida em que os impostos cobrados eram maiores que nunca, ilustrando com um gráfico esse aumento.

Acontece porém que se esqueceram do facto de que existem impostos e impostos, e que, não obstante, no seu conjunto, os impostos tenham aumentado, os que recaem sobre os lucros das empresas, ao invés, têm diminuído, como salienta Ricardo Cabral.

As grandes fortunas, fugidias, foram contempladas por este governo com um perdão fiscal, é bom não esquecer. O IRC é o único imposto que tem diminuído, assim como a TSU. Os impostos sobre os lucros dos bancos e sobre as transacções financeiras (a que me referi como impostos sobre o capital) são irrisórios.

O colossal aumento dos impostos recai principalmente sobre os rendimentos do trabalho.

***

Entrar n’ O Insurgente para colocar uma objecção ou uma crítica às ideias daquela gente é como entrar numa congregação de Testemunhas de Jeová para os tentar convencer acerca do erro em que incorrem ao fazerem uma interpretação literal da Bíblia. Aquela gente está cega pela crença ideológica. Só vêem o que querem ver. É uma questão de Fé e não de Razão.

sábado, outubro 11, 2014

A fé do ateu

O agnóstico considera a existência de Deus uma possibilidade. É uma hipótese que não descarta. Para um ateu, Deus não existe. O ateu, por sua vez, crê na inexistência de Deus. É por isso um homem de fé, o ateu.

Quando o “Estado Islâmico” éramos nós

O nosso Estado foi construído contra o Castelhano e contra o Mouro, há quase 900 anos, na Idade Média. As práticas terroristas que hoje condenamos ao Estado Islâmico, e condenamos bem, também nós já as praticámos. Então, os bárbaros éramos nós. Pilhagens, cercos, razias, conquista de territórios à espadeirada, decapitações, eram o “pão nosso de cada dia”, a tal ponto que, perto delas, as atuais práticas terroristas do Estado Islâmico parecem ser coisa de crianças.

Fica um excerto do texto de Martin Page, A Primeira Aldeia Global, relativo ao cerco de cidade de Lisboa (1147), então cidade moura, pelos exércitos de D. Afonso Henriques, auxiliados por cruzados bretões, ingleses, normandos e alemães, entre outros:

«Escreveu no seu relato, o capelão dos cavaleiros normandos: “O ânimo dos nossos homens foi enormemente fortalecido para continuar a lutar contra o inimigo.” Um grupo de cavaleiros, que, entretanto, tinha ido fazer uma incursão a Sintra, acabava de regressar para junto dos seus companheiros de cerco, carregado com o produto das pilhagens.

Enquanto os bretões pescavam na margem sul do Tejo, um grupo de muçulmanos atacou, matando vários deles e fazendo cinco prisioneiros. Como represália, os ingleses organizaram um assalto à margem sul, à cidade de Almada, regressando nessa mesma tarde, com 200 prisioneiros muçulmanos e moçárabes e mais de 80 cabeças cortadas, o que, segundo então afirmaram, só lhes havia custado uma baixa. Empalaram as cabeças em lanças e agitaram-nas por cima das muralhas de Lisboa.

“Vieram ter com os nossos homens, suplicando-lhes que lhes dessem as cabeças que tinham sido cortadas”, acrescenta o capelão cronista. “Tendo-as recebido, voltaram para dentro das muralhas chorando a sua dor. Durante a noite, em quase todas as zonas da cidade, apenas se ouvia a voz da mágoa e o lamento da saudade. A audácia deste feito transformou-nos no pior terror para o inimigo.”»

Martin Page, A Primeira Aldeia Global, 6ª ed, Casa das Letras, 2010, pp. 87-88.

***

Em suma, naquela altura os terroristas éramos nós. (Não estamos com isto a querer desculpar os imperdoáveis crimes do Estado Islâmico, mas factos são factos)

Hoje, o Estado Islâmico está a aplicar tácticas medievais de terror que os ocidentais então usavam sem qualquer pudor. Mas estamos no século XXI.

Naquele distante ano do século XII, a cidade sob cerco era Lisboa, hoje é Kobani.

quarta-feira, outubro 08, 2014

O menino é o alvo

Jean Fouquet. Madona e Menino, painel direito do Díptico de Melun. ca. 1450

***

Caramba! Um seio prestes a rebentar, e logo no século XV!
Já o menino, tem um ar estranho o menino.
Insuflado de uma alma adulta, perscruta ao colo, carrancudo.
Guarda o alvo seio o menino.
E aponta sub-repticiamente o menino.
E o alvo seio aponta o menino.
O menino é o alvo.

domingo, outubro 05, 2014

Homens que odeiam as viagens

Odeio as viagens e os exploradores. E aqui estou eu disposto a relatar as minhas expedições. Mas quanto tempo para me decidir! Quinze anos passaram desde a data em que deixei o Brasil pela última vez e, durante todos esses anos, muitas vezes acalentei o projecto de começar este livro: a cada vez, era detido por uma espécie de vergonha e de repulsa, pois será mesmo necessário contar minuciosamente tantos pormenores insípidos, tantos acontecimentos insignificantes?  

Claude Lévi-Strauss, Tristes Trópicos, Edições 70, 1993,p. 11

A ideia de viajar nauseia-me.
Já vi tudo que nunca tinha visto.
Já vi tudo que ainda não vi.

O tédio do constantemente novo, o tédio de descobrir, sob a falsa diferença das coisas e das ideias, a perene identidade de tudo, a semelhança absoluta entre a mesquita, o templo e a igreja, a igualdade da cabana e do castelo, o mesmo corpo estrutural a ser rei vestido e selvagem nu, a eterna concordância da vida consigo mesma, a estagnação de tudo que vive só de mexer-se.

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, Assírio & Alvim, 6ª ed. 2013, 130.

Que é viajar, e para que serve viajar? Qualquer poente é o poente; não é mister ir vê-lo a Constantinopla. A sensação de libertação, que nasce das viagens? Posso tê-la saindo de Lisboa até Benfica, e tê-la mais intensamente do que quem vá de Lisboa à China, porque se a libertação não está em mim, não está, para mim, em parte alguma. «Qualquer estrada», disse Carlyle, «até esta estrada para Entepfuhl, te leva até ao fim do mundo». Mas a estrada de Entepfuhl, se for seguida toda, e até ao fim, volta a Entepfuhl; de modo que o Entepfuhl, onde já estávamos, é aquele mesmo fim do mundo que íamos a buscar.

Fernando Pessoa, Livro do Desassossego, Assírio & Alvim, 6ª ed. 2013, 140.

***

Claude Lévi-Strauss e Fernando Pessoa eram dois homens que odiavam as viagens. O primeiro sabia, ou pressentia, que ao fazer das culturas indígenas o objecto da sua dissecação análise, já estaria dessa forma a contaminá-las. O seu olhar inquisidor era também o do explorador científico. Claude Lévi-Strauss sabia muito bem o que se seguiria e para que servia essa actividade científica e exploradora a que se dedicava com minúcia. O Homem lança-se ao conhecimento do Mundo para melhor dominar o Mundo. Primeiro vem a exploração, depois a dominação.


Já para Fernando Pessoa, o universo interior era mais apelativo e encantador do que o universo exterior. Esse apelo soava mais alto, a ponto de ele desvalorizar completamente as deslocações no espaço físico. Para ele as grandes viagens eram as que realizava interiormente, quiçá, embalado pelos copos de aguardente. 

sábado, outubro 04, 2014

O mural apagado


Soube hoje que apagaram este mural do Banksy. Houve quem não percebesse a ironia e se queixasse às autoridades.

Os instalados pombos, racistas, sedentários, ridículos, manifestam-se contra a andorinha errante.

Pois o mural fica também aqui.

Aqui ninguém o apagará.

A paisagem bucólica e o carro

      Banksy, A Paisagem Bucólica e o Carro

domingo, setembro 28, 2014

Duas de Harold Bloom


“Um tal leitor [o leitor comum] não lê por prazer fácil ou para expiar culpas sociais, mas para dilatar uma existência solitária.”

Harold Bloom, O Cânone Ocidental, Círculo de Leitores, 5ª ed., 2013, pág. 504.



“O nosso destino comum é a idade, a doença, a morte e o esquecimento. A nossa esperança comum, ténue mas persistente, encontra-se numa qualquer versão da sobrevivência.”

Harold Bloom, O Cânone Ocidental, Círculo de Leitores, 5ª ed., 2013, pág. 509.

sábado, setembro 27, 2014

Bobi e Tareco alistam-se no Estado Islâmico

Notícia de primeira página do Correio da Manhã: "De colégio de freiras para radical na Síria".

Já só falta noticiar que o Bobi e o Tareco, fartos do dono, partiram para a Síria para se alistarem no Estado Islâmico.

Não há pachorra!

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