

© AMCD
Ontem, nas praias a sul da Costa da Caparica, não se podia mergulhar no mar sem dar uma cabeçada numa alforreca. Milhas e milhas a perder de vista: alforrecas por todo o lado.
Virámos as costas ao mar e mergulhámos no bar.

Ah, país de eufemismos... Lesados
do BES, dizem eles, os repórteres, os pivots,
os jornalistas. Quais lesados?!
O desgraçado do lorde barão deixou-se filmar com prostitutas e cocaína. Dizem que era o presidente do Comité
de Conduta e Privilégios da Câmara dos Lordes e que por vezes arengava para que
os seus pares se pautassem por um bom comportamento e pelos bons costumes, não fosse tão
nobre instituição ser desonrada.
Brandida a espada num primeiro
momento, rapidamente foi depois embainhada. No final Tsipras recuou até à parede.
Sucumbiu ao discurso do “não há alternativa”.
Mas curiosamente, um dos perdedores
desta história foi Wolfgang Schäuble, que desejava a saída da Grécia
da Zona Euro - teve até uma altercação com Mário Draghi por causas disso, segundo consta. Os outros perdedores
foram os gregos e os contribuintes da Zona Euro.
Tsipras, confrontado com as
ingerências e pressões intoleráveis da parte das instituições europeias neoliberais,
opta pelo caminho democrático: convoca o referendo. Nem disse sim às imposições
(a parede), nem disse não (a espada). Respondeu às instituições não
democráticas com democracia: o povo grego que escolha o seu destino.
Gostei muito desta pequena animação no blog do Francisco Oneto. Chama-se "O Emprego". O Francisco chamou-lhe, ironicamente, "Capital Humano". É claro que se trata de uma crítica e convoca-nos à reflexão.
…somos postos no mundo para uma existência subterrânea de luta; uma vez
e outra chegaremos à luz, uma vez e outra experimentaremos a hora dourada da
vitória – e depois erguer-nos-emos recém-nascidos, indestrutíveis, tensos e
prontos para o que é novo, mais difícil, mais distante, como um arco que cada
necessidade meramente estica mais.
Pouco tempo tem havido para
escrever nos Trabalhos e os Dias. Os
trabalhos têm tomado conta dos dias. Os dias afogam-se em trabalhos que não nos deixam
respirar. Qualquer fuga episódica ao trabalho está condenada ao fracasso. Pagam-se caras
as fugas com o acumular dos trabalhos aquando do regresso.![]() |
| Victoria Nuland ao centro. |
“A austeridade está a matar o projecto político que é a Europa.” Não me diga?!
Foi presciente John Kenneth
Galbraith quando disse um dia que “a grande dialéctica do nosso tempo não é, como antigamente se supunha e alguns ainda supõem, entre o capital e o trabalho, mas entre a empresa e o Estado.”
Hoje, para cúmulo, temos alguns “lacaios” das “empresas” metidos no
governo dos Estados. O seu comportamento é como o de um vírus ou de um cavalo
de tróia. Uma vez no governo dos Estados, começam por retirar espaço à acção dos
próprios Estados, para que as empresas que servem possam conquistar esses mesmos espaços, que
se constituem afinal como novos mercados, novos prados, sempre cobiçados pelo
olho gordo da grande empresa capitalista (ou pelos chineses, diga-se de
passagem, tão arreliados que ficaram por não poderem comprar o porto do Pireu).
Há muito entusiasmo no ar com a
vitória de um partido político, o Syriza, na Grécia. Pois bem, os partidos
podem vencer as eleições que quiserem e onde quiserem e os eleitores podem até bem
rabiar, mas o poder está com os Bancos (e não me refiro a bancos
nacionais*). Vivemos novos tempos.![]() |
| Proust, 1887 |
O culto da juventude que apareceu a seguir à Primeira Grande Guerra, como foi assinalado pelos espíritos lúcidos de Ortega y Gasset e Stefan Zweig, instalou-se para ficar. A nossa preocupação, volvidos todos estes anos, continua a ser a de parecermos jovens, por muito velhos que sejamos. Richard Branson, 64 anos, com o seu sorriso pepsodent, a sua informalidade e o seu cabelo sempre louro, é disso uma ilustração, assim como Harrison Ford, 72 anos, com o seu brinco jovial, o seu cabelo desgrenhado e a ganga que habitualmente o cobre. E já nem falamos de Madonna, uma menina de 56 anos.
O livro A Sexta Extinção, de Elizabeth Kolbert, foi considerado pelo New York Times um dos dez livros do ano de 2014. Editado pela Vogais, li-o em tempo record e com grande prazer, mas a
edição portuguesa - 1ª edição, Junho de 2014 - está cheia de gralhas. Gralhas de palmatória. Um tão bom
livro de divulgação científica não merecia gralhas assim. Ou tratou-se de uma
tradução apressada, ou de uma revisão descuidada. Por exemplo, optou-se pela
expressão abrasileirada “Antropoceno” em vez do aportuguesado “Antropocénico”.
Mas não é por aí que o gato vai às filhoses, até porque neste caso, o livro
revela uma certa coerência, tratando por exemplo, o Cretácico por Cretáceo e
por aí fora.
Curiosamente, já tinha acontecido
o mesmo com outro excelente livro desta editora – Breve História da Humidade, 1ª edição, Novembro de 2013, de Yuval Harari. Também nesse livro
foram várias as gralhas detectadas, nomeadamente em quadros e esquemas.
Ao nível mais importante, somos um mamífero razoavelmente cruel, feito
para avançar, ultrapassar e destruir obstáculos. Na realidade, o obstáculo
atrai-nos magneticamente. Há algo de central em nós que prefere a dificuldade,
que procura os problemas enredados. Em última instância, isso deve-se ao facto
de os mais dotados e enérgicos entre nós saberem há muito – sem, talvez,
enunciarem este conhecimento – que a
verdade é mais complexa do que as necessidades humanas, podendo até ser
completamente alheia, ou mesmo oposta a essas necessidades.
O nosso Estado foi construído contra
o Castelhano e contra o Mouro, há quase 900 anos, na Idade Média. As práticas
terroristas que hoje condenamos ao Estado Islâmico, e condenamos bem, também
nós já as praticámos. Então, os bárbaros éramos nós. Pilhagens, cercos, razias,
conquista de territórios à espadeirada, decapitações, eram o “pão nosso de cada
dia”, a tal ponto que, perto delas, as atuais práticas terroristas do Estado
Islâmico parecem ser coisa de crianças.