domingo, maio 11, 2014
A Leste nada de novo
O gigante russo agita-se de uma forma que não nos é estranha, europeus que somos, habituados a uma história convulsiva, habitantes de um mundo de memórias, muitas delas, senão a maior parte, repulsivas. A escalada para a guerra civil na Ucrânia e o actual comportamento da Rússia, só nos inflige estranheza, pela sensação de deja vu e de anacronismo. Já vimos, noutros tempos, estas paradas, estas fanfarras e anexações. As últimas foram no século XX, naquele tempo cinzento de todos os fascismos, que antecedeu o negrume da guerra. Seria inteligente, que os russos e os ucranianos percebessem que já nos encontramos no século XXI, na Europa, e deixassem definitivamente para trás essa fase mais negra da nossa história. Que entendessem que esta já não é, nem pode ser, a "velha Europa".
sábado, maio 10, 2014
Ajustados!
Vitória. Foi-se a troika, vitória. Somos livres e soberanos outra vez. Hurra.
Ficou a dívida pública, colossal. Ficaram
as sobretaxas nos vencimentos. Ficaram os impostos, enormemente aumentados, e as “poupanças” do Governo sempre
a realizar, qual espada de Dâmocles insegura a pairar. Ficaram as obras por acabar, os
estaleiros a enferrujar, as escolas por intervencionar, os desempregados por
ocupar, os pobres por recuperar, os desgraçados por salvar. E a sábia juventude, desempregada, a emigrar.
E as auto-estradas, todas portajadas, vazias e arejadas…
Ah, país! Ah, que bela destruição criativa!
E tiveram todo o cuidado em tocar cirurgicamente nos
impostos: desceram o IRC dos patrões, mas subiram o IVA, mais uma vez, e a TSU dos trabalhadores (disseram
que não subiram, mas ameaçam voltar a subir, se o Tribunal Constitucional não colaborar, na traição à Constituição), concederam mil perdões fiscais a milionários magistrais e vistos
dourados a ricos orientais.
Enfim, é demais!
Foi-se a troika, dizem, mas continuamos a ser "ajustados".
Foi-se a troika, mas a troika continua por cá.
Foi-se a troika, mas a troika continua por cá.
sexta-feira, maio 09, 2014
domingo, maio 04, 2014
Pela costa alentejana, em Abril
© AMCD
Em Abril percorri contemplativo as veredas da costa alentejana, entre a praia do Malhão e o Portinho
das Barcas, sempre a ver o mar nos confins do mundo.
Tranquilas cegonhas e pescadores
avistavam-se do cimo das arribas, aninhados em farilhões e plataformas de
abrasão.
A meio caminho, no Portinho das
Barcas, amêijoas à Bulhão Pato numa esplanada vazia.
Depois, o retorno à praia do Malhão, contornando a duna, e o rápido regresso ao
mundo, ao nosso pequeno mundo, já pela noite dentro.
sábado, maio 03, 2014
No meridiano
«Se Deus fizesse tenções de corrigir a degenerescência da humanidade não
o teria feito já? Os lobos eliminam as suas crias mais fracas, homem. Que outra
criatura seria capaz disso? E a raça humana não é ainda mais rapace? As leis
naturais mandam germinar, dar flor e fenecer, mas nos afazeres dos homens não
há declínio e o meio-dia da sua expressão assinala o começo da noite. A alma
humana fica exaurida no ponto culminante das suas façanhas. O seu meridiano é a
um tempo o início das trevas e o declinar do seu dia. O ser humano gosta de jogos?
Pois que jogue a valer. Isto que vocês aqui vêem, estas ruínas que as tribos de
selvagens tanto admiram, não vos parece que vai repetir-se? Vai, sim. Vezes sem
conta. Com outros povos, com outros filhos.»
Cormac McCarthy, Meridiano de Sangue, Biblioteca Sábado, 2008, pág. 126.
(os destaques são nossos)
Efeito Ozymândias.
segunda-feira, abril 28, 2014
domingo, abril 27, 2014
Vasco Graça Moura
Partiu hoje.
Dele retenho as suas traduções de Jean Racine, com destaque para Berenice, a sua oposição ao Novo Acordo Ortográfico e o seu amor à Cultura.
Era sem dúvida um dos nossos melhores.
Dele retenho as suas traduções de Jean Racine, com destaque para Berenice, a sua oposição ao Novo Acordo Ortográfico e o seu amor à Cultura.
Era sem dúvida um dos nossos melhores.
Repudiar, respeitosamente
Edward Wilson, A Conquista da Terra: a Nova História da Evolução Humana, Clube do Autor, 2013. Pág. 301
(o destaque é nosso)
Subscrevemos plenamente. Assinamos por baixo.
sexta-feira, abril 25, 2014
Mar da Arrábida e "Onde estava você, no 25 de Abril?"
© AMCD
Há quarenta anos, na savana moçambicana, nas margens do lago Niassa, soava na rádio um cante anunciador de uma revolução longínqua. A perplexidade era geral.
Era por lá que eu andava.
Já por estes dias e por cá, o mar da Arrábida tem estado sereno (é do quadrante Norte que o vento tem soprado e a serra dá abrigo a este mar), mas sob um céu por vezes carregado*.
(*) A fotografia é de anteontem.
40 anos passaram. Pois que venham mais 40!
Em quarenta anos se construiu o
que agora se destrói, e rapidamente. Resiste uma Constituição bem alicerçada.
Um último bastião. Mas por quanto tempo mais?
Todos sabemos que destruir é mais
fácil e mais rápido do que construir. Assistimos agora a uma destruição
criativa, mas o que se cria não é já uma revolução (ou no máximo será uma
revolução invertida, uma anti-revolução em marcha que nos conduz, já não à
liberdade, mas à servidão).
E se há quarenta anos o povo se
uniu e nessa união residia a sua força (cantava-se na rua, como em todas as
revoluções, em uníssono, que o povo unido jamais seria vencido), agora é pela sua
desunião que se enfraquece. Dividir para reinar tem sido a estratégia de todos
os inimigos da liberdade: opor novos a velhos, empregados a desempregados, os
que partem aos que ficam, nacionais a imigrantes, os que têm aos que não têm, os do público aos do privado, gerações
contra gerações...
Um povo desunido é um povo vencido!
Povos desunidos não tomam
Bastilhas.
quarta-feira, abril 23, 2014
domingo, abril 13, 2014
E na página 260, reza assim
E na página 260 lá encontramos inesperadamente Portugal, num
livro de divulgação científica sobre a história da evolução humana e das
sociedades.
Reza assim:
«Estudos adicionais sugerem (mas
ainda não o provaram de forma conclusiva) que o nivelamento é benéfico mesmo
para as sociedades modernas mais avançadas. Aquelas que mais fazem pela
qualidade de vida dos seus cidadãos, da educação aos cuidados de saúde, do
controlo do crime à preservação da auto-estima colectiva, são as que têm uma
diferença menor entre os rendimentos dos cidadãos mais abastados e dos mais
pobres. Entre 23 dos países mais ricos do mundo e estados individuais dos EUA,
de acordo com uma análise de 2009 efectuada por Richard Wilkinson e Kate
Picket, o Japão, os países nórdicos e o estado americano de New Hampshire têm simultaneamente
o mais estreito diferencial de riqueza e a média mais alta de qualidade de
vida. No fundo da tabela estão o Reino Unido, Portugal e o resto dos EUA.»
Edward Wilson, A
Conquista da Terra: a Nova História da Evolução Humana, Clube do Autor,
2013. Págs. 259-260.
(o destaque é nosso)
***
Nem quando nos embrenhamos na
leitura de um livro de divulgação científica de um entomologista escapamos ao opróbrio
de constatar que somos (éramos em 2009 e somos ainda) uma das mais desiguais
sociedades do mundo. Nem a leitura de uma obra que julgávamos afastar-nos da
espuma dos dias, consegue afinal alhear-nos desta vil realidade, cada vez mais
cavada pelas “elites” terratenentes e reaccionárias que nos dirigem. É tão
evidente que salta à vista. Até nos livros de divulgação científica de um
entomólogo! Lá está, na página 260: o nome do meu país. Ah, mas ombreamos com esses
países que são a cumeada do capitalismo neoliberal mais extremo, civilizadíssimos,
os países do tea party e dos lords: o Reino Unido e os EUA (o resto).
Ah, grande piolheira!
Sorrio quando verifico que à luz
neoliberal, todo o livro é sobre uma quimera, uma abstracção, uma coisa que não
existe: a evolução das sociedades. Nas palavras da ida, mas não saudosa Margaret
Tatcher, a sociedade é uma abstracção, é coisa que não existe. Cá está então um
livro sobre a evolução de coisa nenhuma.
E quando vejo o meu país, assim contextualizado,
aflora-me sempre à memória aquele verso do O’Neil "...ó Portugal, se fosses só três sílabas de plástico, que era mais
barato!"
Etiquetas:
Ciência,
E.O. Wilson,
Livros,
Neoliberalismo,
Portugal
quarta-feira, abril 09, 2014
O hard talk de José Rodrigues dos Santos - II
"...até o advogado do diabo pode ser inteligente e pode perceber que não basta papaguearmos tudo aquilo que nos dizem para fazer uma entrevista".
É o que dá os duelos na terra dos josés.
José Sócrates a José Rodrigues dos Santos
Advogado do diabo, burro e papagaio. Eis no que se resume o segundo Hard Talk de José Rodrigues dos Santos com José Sócrates. A dada altura o jornalista disse que registou o insulto mas que não iria responder. Lá se foi o Hard Talk lusitano. Ó civilizadíssima Britânia, que só em ti há essa capacidade dos jornalistas e dos entrevistados se interpelarem duramente sem se deixarem arrastar para a lama!
É o que dá os duelos na terra dos josés.
Quando a cobiça naufragou
Naqueles dias reinava a cobiça
aliada ao poder tecnológico dos europeus. E naquelas terras e águas os europeus
eramos nós. Cheios de hubris e vã
glória chegávamos e pilhávamos. Tesouros para El Rei D. Manuel I. Era tanta a
cobiça que as barcas, quais arcas flutuantes, se afundavam sob o peso dos
tesouros pilhados nas industriosas cidades orientais. Foi assim com a Flor do Mar, hoje supostamente descoberta por drones subaquáticos nos mares da Indonésia.
Foi n’A Primeira Aldeia Global, de Martin Page, que tive um vislumbre do
valor e magnitude do tesouro que se transportava na Flor do Mar, da cobiça do Vice-Rei, e do naufrágio da carraca à
saída do estreito de Malaca.
«Quando chegou a altura da principal força portuguesa regressar à Índia,
Afonso de Albuquerque mandou carregar o navio-almirante, a Flor do Mar, com o
seu magnífico espólio, e com produtos para o rei D. Manuel I. Os bens
destinados ao monarca incluíam duas réplicas, em tamanho real, de
elefantes-bebés, feitas de prata maciça e embutidas com jóias, quatro estátuas
de leões de ouro, cheias de perfumes raros, e o trono de Malaca incrustado de
jóias.
A frota largou através do estreito, com o navio de Afonso de
Albuquerque tão carregado que mal se mantinham à tona de água. Quando chegou às
águas costeiras de Sumatra, após menos de meio dia de viagem, foi abalado por
uma pequena borrasca e afundou-se. Albuquerque e a sua tripulação fizeram-se às
jangadas salva-vidas, de onde foram recolhidos e levados para bordo de outros
navios.
Em 1992, a leiloeira de arte Sotheby's, contratada para avaliar o tesouro afundado a preços actuais, calculou
esse valor em 2,5 mil milhões de dólares. Não surpreende, assim, que tenha
havido tanto interesse em localizar os destroços do navio através do rastreio
de satélite, nem tão-pouco o feroz litígio internacional em relação à sua posse
legítima, em que Portugal não participa, mas que decorre principalmente entre a
moderna Malásia, da qual Malaca é uma capital de província, e a Indonésia, na
qual se integra Samatra.»
Martin Page, A Primeira Aldeia Global, 6ª edição, Casa
das Letras, 2010. Pág. 162.
Etiquetas:
Afonso de Albuquerque,
História,
Martin Page,
Navios
sábado, abril 05, 2014
Um certo tipo de país
Estamos em presença de
um povo manifestamente incapaz de se governar a si próprio. E sabes o que
acontece aos povos que não se conseguem governar a si próprios? Nem mais. Vêm
povos de fora governá-los.
Cormac McCarthy, Meridiano de Sangue, Biblioteca Sábado, 2008, pág. 37.
Ao lê-lo, não sei porquê, veio-me à ideia um certo tipo
de país. Aquilo a que alguns chamam um protectorado.
Etiquetas:
Cormac McCarthy,
Leituras,
Literatura,
Livros
segunda-feira, março 31, 2014
Lobos, não se pode viver sem eles
Parece
que os lobos de Yellowstone interferem com a geografia física do lugar. É esta
a conclusão que Sir David Attenborough nos transmite no excelente excerto do documentário entretanto colocado em destaque no blogue O Vento que Passa. Já tinha
lido sobre o efeito da recuperação dos lobos nos ecossistemas, num recente livrinho de Hubert Reeves que já aqui foi destacado, mas a notícia de que a própria geografia
física - o comportamento dos rios, por exemplo - se alterou pelo efeito da reintrodução dos lobos no Parque, é surpreendente.
Fica
aqui também o excerto do excelente documentário e logo abaixo um trecho do texto de
Hubert Reeves, que explica os efeitos da reintrodução do lobo no Parque de Yellowstone
(E.U.A).
«Não se pode viver com os lobos», repetem, há muito tempo, os seres humanos que são confrontados com a sua presença. Em 813, Carlos Magno cria a Companhia da Caça ao Lobo para proceder à sua erradicação. Todos os meios são bons para os matar: armadilhas, veneno, massacre dos recém-nascidos nos covis, espingardas. São oferecidos prémios cada vez mais elevados pelas suas orelhas.
No princípio do século XX os lobos foram,
efectivamente, eliminados no oeste dos Estados Unidos. Colocou-se,
imediatamente a seguir, o problema da proliferação de coiotes. Tentou-se
remediar o assunto aperfeiçoando programas de quotas. Resultado: assistiu-se a
uma multiplicação de raposas, que eram a sua presa favorita e rapidamente se
tornaram uma séria ameaça para as aves aquáticas. Em consequência da informação
retirada destas experiências, foi reintroduzida, há alguns anos, no Parque de Yellowstone,
na Califórnia, uma vintena de lobos provenientes do Canadá. Os efeitos que essa
reintrodução teve sobre a fauna e sobre a flora foram altamente benéficos.
Constatou-se, primeiro, uma diminuição do número de uapitis, um grande veado
cujo excesso de população causava graves danos à natureza. Numerosas plantas,
em particular os álamos, cujos jovens rebentos eram roídos em quantidades
excessivas por aqueles animais, reapareceram nos vales. As flores da montanha
multiplicam-se de novo nos outeiros, aos quais atraem numerosas borboletas para
lhes sugar o pólen. Faz-se ouvir, novamente, o chilrear de várias espécies de
aves que há muito se não ouviam. E os castores, que tinham desertado do parque
– provavelmente por causa da ausência das suas plantas favoritas - voltaram a
construir diques, graças aos quais numerosos organismos aquáticos
ressuscitaram.
Isto não é um milagre. Esta
reintrodução do lobo constitui, de algum modo, uma exibição da força da
natureza. Demonstra a importância da noção de escala de predação. Numa natureza
em equilíbrio, as espécies são, simultaneamente, presas e consumidoras. O
coelho bravo, que devora os prados, pode-se tornar, de um instante para o
outro, vítima da raposa. O gavião captura um melro, que comia minhocas, que se
alimentavam de folhas secas. No decurso de milhões de anos de evolução criou-se
uma hierarquia, na qual cada espécie forma uma malha da cadeia alimentar. No
topo estão os grandes predadores: aves de rapina, lobos e grandes felinos.
A eliminação destes predadores pela
actividade humana - caça ou ocupação do território - perturba gravemente as
interacções. Tendo tomado conhecimento da sua importância para a saúde da
natureza, da qual dependemos, há que intervir. Essa responsabilidade é-nos
imposta pelo exemplo da experiência de Yellowstone.»
Hubert
Reeves, Onde Cresce o Perigo Surge Também
a Salvação,Gradiva. 2014. págs. 111-112.
Etiquetas:
Ambiente,
David Attenborough,
Hubert Reeves
domingo, março 30, 2014
O hard talk de José Rodrigues dos Santos
Toda a gente ficou surpreendida
com o Hard Talk de José Rodrigues dos
Santos com José Sócrates. Apetece dizer: terra de provincianos! Mas a verdade
é que o dito programa da BBC tem o formato de uma dura entrevista em que o
interpelado se sujeita às regras do jogo e sabe ao que vai, e vai por sua
própria conta e risco. O que José Rodrigues dos Santos fez foi uma espécie de
Hard Talk surpresa, subvertendo o modelo a que o comentador estava habituado. Surpreendido, José Sócrates passou de comentador a entrevistado e interpelado (mas
não, atropelado). Ia para um espaço de comentário e saiu-lhe uma entrevista.
Que venham então mais hard talks, para ver se de uma vez por
todas, os que difundem opinião parcial, tendencialmente dissimulada e partidariamente disfarçada, possam ser contraditos.
Mas a questão é a seguinte: estará o provinciano jornalismo português preparado para tal desafio?
Mas a questão é a seguinte: estará o provinciano jornalismo português preparado para tal desafio?
Graça
Sob o neoliberalismo terratenente
lusitano, conservador e neo-salazarista, Portugal transforma-se num país cada
vez mais polarizado, socialmente desigual, entre uns poucos de
agraciados, e uns muitos desgraçados, governados por uns
engraçados cínicos, sem graça nenhuma.
Em suma: um país de desgraçados, governado
por engraçados, ao serviço de uns poucos agraciados.
segunda-feira, março 24, 2014
Notícias do milagre económico - II
Os dados são de 2012, é certo, mas são os mais recentes
disponibilizados pelo I.N.E. Entretanto, alguns pobres morreram, emigraram, ou por
certo, fruto do milagre, enriqueceram.
E nesta:
Atente-se, o desemprego diminuiu, mas a percentagem
de casais desempregados aumentou.
Ó admirável milagre económico!
E esta ainda, fresquíssima, de hoje, do Boletim Estatístico de Março do Banco de Portugal: a Balança Corrente regista um saldo negativo (deficit) de 185 milhões de euros (vide página 153, um pdf).
Vai de vento em popa, o milagre económico. Tão célere vai
que o Governo até já pensa em fazer poupanças de 1,7 mil milhões de euros…Que digo
eu? Poupanças?! Cortes!
domingo, março 23, 2014
A luta titânica entre os impulsos domesticadores e os bestializadores
«Na própria cultura contemporânea trava-se uma luta titânica entre os
impulsos domesticadores e os bestializadores, e seus respectivos meios de
comunicação. Seria surpreendente a obtenção de sucessos mais significativos no
campo da domesticação, diante de um processo de civilização em que uma onda
desinibidora sem precedentes avança de forma aparentemente irrefreável (*).»
Peter Sloterdijk, Regras
para o Parque Humano, São Paulo, Estação Liberdade, 2000. pág. 46
______________________________________
(*) Refiro-me aqui à onda de violência que presentemente irrompe nas
escolas em todo o mundo ocidental, em especial nos Estados Unidos, onde os
professores começam a instalar sistemas de segurança contra estudantes. Assim
como na Antiguidade o livro perdeu a luta contra os teatros, hoje a escola
poderá ser vencida na batalha contra as forças indirectas de formação, a
televisão, os filmes de violência e outros mídias desinibidoras, se não
aparecer uma nova estrutura de cultivo capaz de amortecer essas forças
violentas.
***
Miley Cyrus, a fumar "charros" em público ou Justin Bieber apanhado bêbado a conduzir (e não era uma carroça). Dois ídolos globais da juventude estudantil. São domesticadores ou bestializadores?
O escândalo vende. E quanto mais escandaloso melhor. A fórmula é velha e conhecida dos empresários capitalistas da "indústria" da música popular, dita comercial, do espectáculo, do entretenimento, da literatura e doutras artes. Mas adiante, que de uma coisa não há dúvida: aqueles cantores, entre outros, são fenómenos que integram essa "onda desinibidora sem precedentes" que "avança de forma aparentemente irrefreável". São "forças indirectas de formação" contra as quais a escola, entre outras instituições conservadoras, se batem, sem sucesso.
sábado, março 22, 2014
Uma sugestão à Exma. Sr.ª Presidente da Assembleia da República.
Que leia a crónica de hoje de Vasco
Pulido Valente no Público, “A
sociedade de mercado”, sempre que ousar ter a ideia de comemorar um acontecimento como
a Revolução de 25 de Abril de 1974, sob o patrocínio comercial ou outro
patrocínio qualquer, de um qualquer patrono.
sexta-feira, março 21, 2014
Até sempre Medeiros Ferreira
A falta de tempo tem dificultado
a minha vinda aqui e a actualização do blogue que se quer como um caderninho de
pequenas (e grandes) notas, para mais tarde reler.
Medeiros Ferreira faleceu há uns
dias. No dia da sua morte quis mas não consegui deixar-lhe aqui a minha humilde
homenagem. A austeridade roubou-me tempo. A austeridade levada ao extremo
conduzirá à servidão e à escravatura, caso o permitamos. É notório.
Medeiros então partiu.
Recordo-o doutros tempos, dos
corredores da Universidade. Eu, aluno, cruzava-me por vezes com ele, Professor.
Sabia quem ele era. Sabia que foi no mesmo arquipélago que vimos pela primeira
vez a luz, sabia que tínhamos isso em comum. Eu simpatizava com o homem, que
parecia sempre azafamado, sempre em movimento. Partiu esta semana o meu
conterrâneo insular açoriano.
Que descanse em paz.
Estes homens e mulheres que
cresceram connosco e que nos acompanharam (habituámo-nos à sua constante ou pontual presença desde que temos memória) estão aos poucos a partir e a deixar-nos aqui
pelo mundo. Já sem eles, ficamos mais sós, cada vez mais entregues a nós mesmos
e às circunstâncias da vida. Eles são as nossas referências que partem.
Mas ainda bem que deixaram obra. Ainda
bem que existiram. Ainda bem que continuam connosco, pela obra que nos deixam. Podemos ainda ouvir o seu pensamento, ler os seus escritos, conhecer as suas ideias. Dessa forma permanecem connosco. Não tenhamos dúvidas.
sábado, março 15, 2014
Um excelente livro, com dois erros a corrigir
"Ao actual ritmo de
extinção perder-se-á até ao fim do século metade das espécies actualmente
existentes. Há, certamente, qualquer coisa com que nos devemos inquietar..."
Hubert Reeves, Onde Cresce o Perigo Surge Também a Salvação,Gradiva.2014.
pág.90
"Não haverá respeito entre os seres humanos enquanto não respeitarmos os
seres não humanos."
Hubert Reeves, Onde Cresce o Perigo Surge Também a Salvação,Gradiva.2014.
pág.139
Hubbert Reeves ainda escreve, e que
bem escreve. Para nosso deleite, consegue encantar-nos e ao mesmo tempo
alertar-nos com a sua divulgação científica e activismo ambiental. Já não lia
uma obra sua desde Um Pouco Mais de Azul,
edição de 1986, um livro que me era dedicado: “Este livro é dedicado a todas as pessoas maravilhadas com o mundo”,
dizia no início. Maravilhado com o mundo, porém decepcionado com o Homem, que
transforma o mundo numa latrina. É uma contradição. O Homem está no
mundo. O Homem é obra da Natureza. O Homem é por isso Natureza, e este dualismo
Homem/Natureza é ilusório. Mas adiante. Resolvi agora ler, neste longínquo
2014, o seu livro Onde Cresce o Perigo Surge
Também a Salvação.
Onde Cresce o Perigo Surge Também a Salvação é uma excelente obra,
que se lê num ápice, mas contém dois erros tão evidentes, que o revisor
científico deveria ter dado por eles: coloca a camada de ozono na ionosfera e esta
a 50 km de altitude (pág. 54) e a Nova Zelândia no Índico (pág. 84). Enfim,
duas pequenas manchas que não estragam a obra. O livro recebeu o Grande Prémio Ciência Viva!
quinta-feira, março 06, 2014
Notícias do milagre económico
Damos aqui início à rubrica "Notícias do milagre económico".Comecemos então:
"Pensões atribuídas a partir de amanhã com cortes imediatos."
"Mais de 400 mil sem subsídio de desemprego no início do ano"
Ora se isto não é o milagre económico, então o que será?
quarta-feira, março 05, 2014
Pais e filhos, na paz e na guerra.
“Pois ninguém é tão insolente que a prefira [a guerra] à paz. Nesta os filhos enterram os pais,
mas naquela [na guerra] são os pais
que enterram os filhos.”
Palavras de Creso dirigidas a Ciro, Rei dos Persas
Heródoto, Histórias, Livro I, Edições 70, 1998. pág.
118.
***
E, dizemos nós,
salvaguardando as devidas diferenças, que na paz, os filhos são apoiados pelos
pais na juventude; e os pais, na sua velhice, são
apoiados pelos filhos. Assim deveria ser.
Mas não é isso que hoje está a
acontecer neste triste país. Nesta paz que apodrece, também são os pais que na
sua velhice se vêm obrigados a apoiar os filhos, mesmo quando
estes já são adultos ou quase velhos.
sábado, março 01, 2014
Exigem-se conhecimentos de Matemática!
“EXIGEM-SE CONHECIMENTOS DE MATEMÁTICA”
Ali não entrava qualquer um.
Aquilo era uma Universidade! Perdão, era a Universidade!
Volvidos cerca de 2500 anos, as universidades
do Ocidente são a evidência do declínio da cultura geral* de uma civilização
que nasceu na Idade Média, quando os bárbaros deram início à formação de reinos,
e não na Antiga Grécia ou na Mesopotâmia, como alguns historiadores
anglo-saxónicos nos querem fazer crer, nomeadamente Niall Ferguson**, que no seu "modelo" cria um Ocidente.1, um Ocidente.2, e por aí fora, como se fossem novas
versões de uma aplicação informática.
Volvidos 2500 anos, dizia eu, os
estudantes de agora, alguns, exigem o direito à humilhação e à praxe, e os governantes,
uma Universidade para as empresas.
Desculpem a má-criação: bardamerda!
--------------------------------------------------------------------------
(*) Sobre este assunto ler o
famoso livro do falecido Professor Allan Bloom, The Closing of the American Mind, Simon & Schuster, 1987.
(**) Sobre isto, ver a sua
obra, Niall Ferguson , Civilization: The
West and the Rest, Penguin Books, 2011
Ambas as obras encontram-se traduzidas na nossa língua.
Etiquetas:
Allan Bloom,
Niall Ferguson,
Platão,
Universidade
quinta-feira, fevereiro 27, 2014
Até sempre Paco (1947-2014)
Partiu ontem. Ficará a sua música, agora nossa, para sempre.
Música do Sul, das casas caiadas de branco e do sal. Mosteiro de Sal, a música que soa. Um dos seus álbuns intitula-se Castro Marim, terra da sua mãe e dos meus antepassados. Minha terra portanto.
Obrigado Paco de Lucía por tornares o fardo da nossa existência mais suportável.
sábado, fevereiro 15, 2014
Três visões convergentes para Portugal
“Caso o continente [europeu]
continue impávido, a alternativa passa pela interdependência com outras
identidades: a CPLP para a defesa e promoção da língua portuguesa no mundo
nacional e internacional; os EUA para a inovação tecnológica, científica e
universitária e para o futuro da racionalidade internacional da segurança;
Brasil, Angola, Moçambique e China, entre outros países, para o
restabelecimento das relações comerciais e financeiras suplementares ao espaço
europeu. E, sobretudo, para carrear as peças para uma governança mundial.”
José Medeiros Ferreira, Não há Mapa Cor-de-Rosa, A História (Mal)dita da Integração Europeia,
Edições 70, 2013
“É preciso uma política externa realista, guiada por uma estratégia
nacional sem preconceitos nem ilusões, que leve em conta o factor de defesa e
não esqueça os espaços lusófonos; e tal não é possível sem que se restaure a
ideia do primado da Nação como valor político, como lugar das liberdades e
direitos dos cidadãos e como elemento estrutural do desenvolvimento e da
economia.
Num mundo globalizado e com uma cultura cosmopolita de movimento e
mudança, os portugueses têm seculares vantagens competitivas: do cosmopolitismo,
identificado por Pessoa como característica nacional, à capacidade de resposta
aos grandes desafios, identificada por Jorge Dias.”
Jaime Nogueira Pinto, Portugal, Ascensão e Queda, D. Quixote,
2013
“E há duas janelas de liberdade que acho fundamentais. Uma é a Comunidade
de Países de Língua Portuguesa (CPLP), que é uma instituição única. Se reparar,
a CPLP é toda constituída por países marítimos, pobres, e nenhum tem frota
marítima. Neste momento, o transporte marítimo está a ter um desenvolvimento extraordinário.
Se houver uma bandeira da CPLP e uma frota comum, nós somos capazes de a fazer.
A outra janela de liberdade é a plataforma continental, que eu considero que
tem perigos. A Comissão Europeia anunciou que vai definir o mar europeu.
Estamos dependentes das nações unidas para a aprovação da plataforma
continental, que é a maior do mundo. Sabemos a riqueza que lá está. Mas nada
disto está no programa de qualquer partido. Estava previsto que a plataforma
continental fosse aprovada em 2013, já foi adiada para 2015, receio que, com
aquela minúcia burocrática, em vez de lerem 2015, leiam 2051. A plataforma
continental é a janela de recuperação e independência de Portugal.”
Adriano Moreira, “Motivar
o Diálogo” (entrevista), Montepio,
Inverno 2013.
***
Nestas três visões convergentes,
o futuro não passa pela Europa, nem por nenhum mapa cor-de-rosa de partilha
colonial (ou seja, do regresso das velhas relações de dominação entre a Metrópole
e o Ultramar; nem tal faria sentido). O Ultramar morreu e o sonho da Europa
definha. Medeiros Ferreira bem nos lembra que “a União Europeia não precisa, nem tem, identidade e muito menos
constitui um só povo” e da necessidade de “contractos políticos e jurídicos entre as suas partes constitutivas,
cidadãos, povos e Estados”. Em suma, não deveríamos ter tanta pressa em
evidenciar-nos como “bons alunos” face a poderes e instituições europeias não
democráticas, que defendem interesses obscuros que não os da nossa pátria, e por
que não dizê-lo, da nossa Nação. A salvaguarda dos interesses e da liberdade
dos povos europeus deve ser assegurada por contractos bem firmados. É claro,
existe uma ideia romântica de Europa, porém é a realidade que deve impor-se.
“Caso o continente continue impávido”, começa por dizer Medeiros
Ferreira, ainda talvez esperançoso no despertar da nova Europa. Até agora a
Europa não tem dado mostras desse despertar: pelo contrário, é o fantasma da
velha Europa que se assoma. Não vale a pena então aguardar. O futuro não passa pela
Europa, melhor, não passa exclusivamente, nem em grande parte, pela Europa. Não
desperta a Europa, pois que despertemos nós! “A sociedade portuguesa tem de abandonar a atitude passiva que é a sua
desde a entrada na Comunidade Europeia, em 1986” (Medeiros Ferreira, 2013:
136).
Da leitura das referidas obras dos
autores supracitados ressalta a ideia de que, no estabelecimento de relações
internacionais, não devemos colocar todos os ovos no mesmo cesto, ou seja, no
cesto Europeu. Devemos diversificar as nossas relações internacionais, que
devem ser de interdependência. Existem portanto outros caminhos:
- O dos países da CPLP, em estreita interdependência e respeito mútuo, ultrapassados os velhos traumas coloniais e neocoloniais;
- O dos países onde existem espaços de lusofonia (literalmente, onde o português soa), e por aqui temos, para além dos países da CPLP, outros países, não só europeus, como a França, a Suíça ou o Reino Unido, onde significativas comunidades de portugueses se avolumam, mas também nos países emergentes como a África do Sul; ou não sendo emergentes, a Venezuela, os EUA, entre outros.
- O dos países com os quais temos relações ancestrais, como a China e a Índia, ou até a Indonésia, antigo inimigo e agora possível amigo;
- O nosso mar e a nossa plataforma continental – a nossa relação com o mar;
- E por que não, a criação de novos laços com países do Leste Europeu, como a Ucrânia, baseando-nos também na importante comunidade imigrante desse grande país presente no nosso;
- Não devemos esquecer nunca a Espanha, ou as Espanhas, que assume sempre um papel de relevo por razões históricas e geográficas; tem sido uma verdadeira “compagnon de route”;
- E claro, a União Europeia, mas neste caso, que existam relações contratualizadas entre “cidadãos, povos e Estados”, que salvaguardem os nossos interesses, a nossa soberania e a nossa independência e não o que temos agora.
Em suma, precisamos de lançar em
várias direcções, novas “amarras” relacionais que nos liguem a estes espaços.
Impõe-se a reconquista da soberania perdida.
sábado, fevereiro 08, 2014
Parece
Pois, parece que assim é. Parece
que está quase concluída a nossa proletarização. O nosso ajustamento. Estamos a
ser “ajustados”! Parece que estamos quase a regressar ao tempo em que se
desdenhava dos que borravam as botas no trabalho (ignominiosamente designados
de "borra-botas"), dos que trabalhavam com as mãos, dos cinicamente
desvalorizados por quem neles assentava o traseiro para se alçar às mais
altas cúpulas sociais. Coisa de meninos finos, sopeiras e penicos.
Cada vez que os vejo na televisão,
vem-me o cheiro a caruncho. Parece um novo Estado Novo. Parece a mesma gente.
segunda-feira, janeiro 20, 2014
«é»
Ouvi uma vez dizer, num Verão
distante do século XX, da boca do meu querido avô algarvio, já falecido - trabalhador
rural no Inverno, marnoteiro no Verão – que “Nascer é morrer!”. Ele era analfabeto, mas não era inculto. Às vezes vem-me à
memória aquele dito. A frase é reveladora de um antigo espírito mediterrânico que
parece viver ainda entre os povos do Sul, e que nele decerto vivia. Talvez uma
coisa dos antigos gregos. É uma frase muito curta, lapidar, de três palavras
apenas, mas que tudo parece conter - o nascimento, a vida e a morte. E esse “é” da frase encerra toda uma vida,
toda uma existência entre o nascimento e a morte. Esse “é” que nada é (é a mais
curta palavra da frase), é tudo o que importa. É tudo o que nos importa.
Na frase, encontramos a crença na
força do Destino, a Moira, à qual até os antigos deuses se tinham de submeter. Está
lá o ancestral fatalismo mediterrânico, a crença de que viver é sofrer, e por
isso os antigos poetas afirmavam que o melhor para o Homem era atravessar
rapidamente as portas do Hades, logo após o nascimento.
Ouvi um dia, numa igreja, um
padre afirmar na sua prédica, que o momento da morte era mais importante que o
do nascimento. Que só nesse momento se podia atestar todo um percurso,
valorizador ou desvalorizador. Sólon diria o mesmo em relação à possibilidade
de verificação da felicidade humana. Só no fim é que se vê.
sábado, janeiro 18, 2014
Alto do Jaspe
No sábado passado caminhei pela Arrábida até ao Alto do Jaspe. Uma raposa que por ali andava surpreendeu os visitantes à beira da estrada e deixou-se fotografar. Depois, desapareceu destemida por entre os carrascos (Quercus coccifera).
Do Alto do Jaspe avistei o mar brumoso e diverti-me a pensar que a América já ali estivera tão perto, há cerca de 115 milhões de anos, exactamente onde a onda petrificada da Serra do Risco parece rebentar.
Um painel, ainda intacto, informa os visitantes sobre a paisagem que se avista, a geologia e a biologia do Parque. Tomei a liberdade de transcrever o texto.
Alto do Jaspe
«Da Pedreira de Jaspe que atrás
de nós se esconde parecendo ocultar a beleza excepcional da Brecha da Arrábida
que em tantos lugares foi utilizada para enriquecer o património cultural da
região e do país, até à vista deslumbrante que à nossa frente se abre e onde se
destaca a Serra do Risco - este é mais um ponto panorâmico revelador da riqueza
paisagística e patrimonial da Arrábida.
O Risco apresenta a escarpa
litoral calcária mais elevada da Europa, com 380 m, que cai num mar calmo, azul
cristalino e verde-esmeralda. A beleza que a natureza aqui esculpiu ou desenhou
não passa despercebida e não cansa de nos maravilhar.
“A Serra [do Risco] tem o ar de
uma onda que avança impetuosa e subitamente estaca e se esculpe no ar, é uma
onda de pedra e mato, é o fóssil de uma onda.”
Sebastião da Gama (1924
– 1952)
Esta Pedreira do Jaspe é, de
entre o conjunto de antigas pequenas explorações espalhadas pela Arrábida, a
mais expressiva quanto à exposição superficial de um tipo de rocha exclusivo
desta região, a chamada Brecha da Arrábida (também designada no século XIX e
início do século XX como “Brecha de Portugal” ou “Mármore da Arrábida”).
A Brecha da Arrábida, formada
durante o Jurássico Superior, há cerca de 160 Milhões de anos, recobre uma
descontinuidade sedimentar cujo estudo é fundamental para o melhor conhecimento
das fases iniciais de evolução do Oceano Atlântico. Naquele tempo o grande
continente euroasiático e o norte-americano encontravam-se ainda unidos,
formando-se um só continente, que foram definitivamente separados e
sucessivamente afastados até à actualidade, por alastramento contínuo dos fundos
oceânicos, a partir do final do Cretácico Inferior (há 115 milhões de anos).
O conjunto de afloramentos da
Pedreira do Jaspe, que foram, na realidade, duas pedreiras com laborações
separadas até ao ano de 1976, aquando da criação do Parque Natural da Arrábida,
coloca em evidência diversos aspectos geológicos relacionados com a História da
Terra nesta região atlântica.»
Parque Natural da Arrábida – Parque Marinho
«A fauna terrestre na área do Parque
apresenta uma assinalável riqueza, com mais de 850 espécies de invertebrados e vertebrados.
Nas falésias localizam-se grutas que albergam uma importante fauna cavernícola,
incluindo algumas espécies de morcegos ameaçadas, com estatuto de protecção e
que aqui se reproduzem e hibernam.
Existem duas espécies únicas de
flora, dois endemismos arrabidenses: Convolvulus
fernandensii e Euphorbia pedroi
que surgem em matagais abertos nos afloramentos rochosos voltados para sul
sobre o mar. Ocorrem exclusivamente na Serra da Arrábida três endemismos de
fauna, dois coleópteros (gorgulhos-esmeralda) e o caracol Candidula setubalensis, que se encontra na lista vermelha da IUCN.
Ao longo da costa escarpada, os
fundos rochosos dão lugar a baías abrigadas, a praias de areia e a grutas
marinhas onde vivem mais de mil espécies. Nas arribas e nas falésias nidificam
aves e existem fósseis de pegadas de dinossauros. Tais características fazem
deste lugar marinho um dos mais ricos a nível europeu.
Por isso, em 1998, foi criado o
Parque Marinho, incluído no Parque Natural da Arrábida da Arrábida, onde a vida
marinha recupera e o mar enriquece, oferecendo um futuro melhor para a pesca e
para o turismo sustentável.»
sábado, janeiro 11, 2014
Homens excelentes, homens felizes
Por estes dias da morte de Eusébio, lembrei-me desta velha história:
![]() |
| Cleóbis e Bíton Museu Arqueológico de Delfos |
«Por estas razões, pois, e pelo
desejo de ver terras, Sólon saiu do país e foi visitar Amásis ao Egipto e Creso
a Sardes. À sua chegada, foi hospedado por Creso no seu palácio. Depois, no
terceiro e no quarto dia, por ordem de Creso, os servidores passearam Sólon
pelos tesouros e mostraram-lhe toda a riqueza e opulência aí existentes. Depois
de ter observado e examinado tudo, quando considerou o momento oportuno, Creso
perguntou-lhe: “Hóspede ateniense, até nós chegaram muitas vezes relatos a teu
respeito, por causa da tua sabedoria e das tuas viagens como, por amor à
sabedoria, tens percorrido toda a Terra, levado pela curiosidade. Vem-me agora
o desejo de te perguntar se já vistes alguém que fosse o mais feliz dos
homens.” Interrogou-o dessa forma, na esperança de ser ele o mais feliz de
todos, mas Sólon, sem qualquer lisonja e com sinceridade, reponde: “ Sim, ó
rei, Telo de Atenas”. Surpreendido com a resposta, Creso perguntou com
interesse: “Porque julgas que Telo é o mais feliz?” E ele explicou: “Natural de
uma cidade próspera, por um lado, teve filhos belos e bons e de todos eles viu
nascerem filhos e todos permaneceram com vida; por outro, depois de gozar uma
vida próspera, para o nosso meio, teve o mais brilhante termo da vida. Declarada
a guerra pelos atenienses contra os seus vizinhos de Elêusis, ele acorreu em
auxílio, provocou a fuga dos inimigos e morreu da forma mais gloriosa. Os
Atenienses sepultaram-na com exéquias públicas no próprio local em que tombou e
tributaram-lhe grandes honras”.
Como Sólon, ao falar das muitas
prosperidades de Telo, incitara Creso, este perguntou quem, dentre os homens
que ele vira, seria o segundo depois de Telo, imaginando obter de certeza pelo
menos o segundo lugar. Mas Sólon respondeu: “Cleóbis e Bíton. Estes de facto,
que eram de raça argiva, tinham suficientes meios de subsistência e eram, além
disso, dotados de grande força física. Os dois foram igualmente atletas
vencedores e deles conta-se ainda a seguinte história. Numa altura em que os
Argivos celebravam a festa em honra de Hera, tornava-se absolutamente
necessário que a sua mãe fosse levada num carro ao templo, mas os bois não
chegaram a tempo do campo. Constrangidos pela falta de tempo, os jovens
submeteram-se eles próprios ao jugo, puxaram o carro em que sua mãe se colocara
e, numa distância de quarenta e cinco estádios, transportaram-na até ao
santuário. Depois de fazerem isto, sob os olhares de toda a assembleia,
sobreveio-lhes o melhor termo de vida, e neles mostrou a divindade ser melhor
para o homem morrer do que viver. Os Argivos, rodeando os jovens, elogiavam a
sua força e as Argivas a mãe que tais filhos teve. Ela, cheia de júbilo pela
façanha e pelos elogios, de pé diante da estátua, pediu que a deusa concedesse
aos seus filhos Cleóbis e Bíton, que tanto a haviam honrado, o melhor que um
homem pode obter. Depois desta prece, uma vez realizados o sacrifício e o
banquete, os jovens adormeceram no próprio templo e não se levantaram mais. Foi
esse o fim que tiveram. Os Argivos ergueram-lhes estátuas que consagraram em
Delfos como homens excelentes que eram.”
Heródoto, Histórias (Livro 1º), Lisboa, Edições 70, 1994, pág. 74 e 75.
Sólon, é claro, foi rapidamente despedido pelo indignado Creso, "sem dele receber qualquer palavra".
Telo de Atenas, Cleóbis e Bíton,
eram homens excelentes para os gregos e tiveram o tratamento devido aos homens
excelentes: após a morte, foram sepultados com exéquias públicas e ergueram-lhes
estátuas consagradas em templos sagrados.
Etiquetas:
Grécia Antiga,
Heródoto,
História,
Sólon
domingo, janeiro 05, 2014
sexta-feira, janeiro 03, 2014
Os Gregos , de H.D.F. Kitto
«A graça e o encanto são os sinais da arte iónica, da mesma maneira que a força e a beleza o são da arte dórica. Para avaliar este facto, basta comparar a arquitectura iónica com a dórica: a leveza geral do estilo iónico, realçada pelas encantadoras volutas dos seus capitéis, oferece um contraste impressionante.»
Kitto, H.D.F., Os Gregos, 3ª ed., Coimbra, Arménio Amado
Editora, 1990. Pág. 143.
***
Excelente obra, a de H.D.F. Kitto
sobre os Gregos da época clássica. Custa apenas €6,90, mas vale muito mais. Passa quase despercebida nas estantes das livrarias. Feliz o dia em que a folheei curioso. Foi editada pela
primeira vez em 1951 (em Portugal, em 1959), traduzida por
José Manuel Coutinho e Castro, e revista pela Exma. Senhora Doutora
Maria Helena da Rocha Pereira.
Equiparo-a, pelo prazer que a sua
leitura me suscita, ao Fogo Grego de
Oliver Taplin. A terceira edição d’Os Gregos que ainda resiste nas estantes é de 1990, quando se realizou uma tiragem de 3000 exemplares.
Questiono-me, como pode uma obra deste jaez não se ter esgotado durante estes 23 anos? Que sorte ter dado com ela.
Etiquetas:
Civilizações,
Grécia Antiga,
Livros
quarta-feira, janeiro 01, 2014
A Mensagem do Presidente
Gostei de ouvir a Mensagem de Ano
Novo do Presidente da República, mas,
perdoem que pergunte: não é a assumpção da necessidade de um “programa cautelar” a
prova evidente do falhanço das políticas tomadas até aqui por este Governo, que
tem sido tão bem respaldado pelo Presidente?
Julgo que não vale a pena dourar
a pílula: a necessidade de um “programa cautelar” é uma prova mais do que evidente
do falhanço das políticas governamentais, para não falar do resto – dos elevados
níveis de desemprego, da pobreza, das desigualdades sociais, da emigração, do
défice orçamental, etc., etc. etc. Faz por isso todo o sentido clamar por mais
justiça social e por desenvolvimento (na Mensagem de Ano Novo, o Presidente não se esqueceu de referir estes desígnios). Na verdade, o crescimento económico de nada nos servirá se
não for acompanhado por desenvolvimento, ou seja, para ser mais exacto, pela
criação de emprego, pela redução da pobreza e pela diminuição das injustas
desigualdades sociais.
Além disso, por muito virtuoso
que possa ser o “programa cautelar” – parece que é assim que querem que pensemos
dele, que é uma coisa virtuosa - a verdade é que a Irlanda o rechaçou.
Serão os irlandeses parvos?
Se vier o “programa cautelar”, o que quer que isso seja, em
caso de necessidade, dizem, e se for accionado, adivinhe quem vai pagar?
Etiquetas:
Política,
Presidente Cavaco
A passagem de ano é quando o homem quer
Na verdade, na verdade, a passagem de ano é que é quando o homem quer, não o Natal.
Toda esta alegria alimentada a espumante ou champagne, para não mencionar beberagens mais agrestes, não passa de uma grande ilusão: os dias sucedem-se e hoje é quarta-feira. No entanto, a laboriosa cidade jaz adormecida.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Etiquetas
- . (3)
- 25 de Abril (14)
- Acordo Ortográfico (1)
- Açores (2)
- Adelino Maltez (2)
- Adriano Moreira (8)
- Afeganistão (7)
- Afonso de Albuquerque (1)
- África (10)
- Agamben (2)
- Agostinho da Silva (9)
- Água (1)
- Agustina Bessa-Luís (1)
- Alcácer do Sal (2)
- Alcochete (1)
- Alentejo (1)
- Alepo (1)
- Alexandre Farto (1)
- Alfonso Canales (1)
- Algarve (15)
- Alienação (1)
- Allan Bloom (1)
- Almada (1)
- Alterações Climáticas (1)
- Álvaro Domingues (1)
- Ambiente (68)
- América (2)
- Amy Winehouse (1)
- Anaximandro (1)
- Âncoras e Nefelibatas (1)
- Andaluzia (7)
- Andrew Knoll (1)
- Angola (2)
- Ann Druyan (1)
- Ano Novo (2)
- António Barreto (1)
- António Guerreiro (3)
- Antropoceno (5)
- Antropologia (3)
- Apocalípticas (1)
- Arafat (1)
- Arcimboldo (1)
- Aretha Franklin (1)
- Aristides de Sousa Mendes (1)
- Aristóteles (4)
- Arqueologia (1)
- Arquíloco (1)
- Arquitectura (1)
- Arrábida (2)
- Arte (12)
- Arte Etrusca (1)
- Astronomia (11)
- Atletismo (5)
- Azenhas do Mar (1)
- Babel (3)
- Banda Desenhada (1)
- Banksy (2)
- Baudelaire (1)
- Bauman (25)
- Benfica (3)
- Bento de Jesus Caraça (3)
- Bernard-Henri Lévy (1)
- Bernini (1)
- Bertrand Russel (1)
- Biden (1)
- Bill Gates (1)
- Biodiversidade (1)
- Biogeografia (1)
- Bismarck (1)
- Blogosfera (11)
- Blogues (3)
- Boas-Festas (1)
- Boaventura de Sousa Santos (6)
- Bob Dylan (2)
- Brasil (4)
- Brexit (5)
- Bruegel (1)
- Bruno Patino (1)
- Cão d' Água (1)
- Capitalismo (5)
- Caravaggio (2)
- Carl Orff (1)
- Carlo Bordoni (1)
- Céline (1)
- Censura (1)
- Cervantes (2)
- Charles Darwin (1)
- Charles Trenet (1)
- Chesterton (1)
- Chico Buarque (1)
- China (4)
- Chris Jordan (2)
- Cícero (3)
- Cidade (1)
- Ciência (14)
- Ciência e Tecnologia (5)
- Ciência Política (2)
- Cinema (1)
- Citações (118)
- Civilizações (9)
- Clara Ferreira Alves (4)
- Claude Lévy-Strauss (3)
- Claude Lorrain (1)
- Coleridge (1)
- Colonialismo (1)
- Colum McCann (1)
- Comunismo (1)
- Conceitos (1)
- Conquista (1)
- Cormac McCarthy (4)
- Cornelius Castoriadis (4)
- Coronavírus (7)
- Cosmé Tura (1)
- COVID-19 (3)
- Crise (2)
- Crise financeira (1)
- Cristiano Ronaldo (4)
- Cristo (1)
- Crítica literária (1)
- Croce (1)
- Cultura (5)
- Curzio Malaparte (2)
- Daniel Bessa (1)
- Daniel Boorstin (1)
- David Attenborough (3)
- David Bowie (1)
- David Harvey (8)
- David Landes (1)
- David Wallace-Wells (1)
- Dedos famosos que apontam (5)
- Democracia (7)
- Demografia (1)
- Desabafos (3)
- Descartes (1)
- Desemprego (1)
- Desenvolvimento (2)
- Desmond Tutu (1)
- Desporto (15)
- Direitos Humanos (1)
- Diversão (1)
- Don Delillo (1)
- Dudley Seers (1)
- Dulce Félix (1)
- Dürer (3)
- E.O. Wilson (3)
- E.U.A. (1)
- Eça de Queirós (2)
- Economia (69)
- Eduardo Lourenço (3)
- Educação (35)
- Edward Soja (2)
- Einstein (1)
- Elias Canetti (1)
- Elites (1)
- Embirrações (4)
- Emerson (1)
- Emmanuel Todd (1)
- Empédocles (1)
- Ennio Morricone (2)
- Ensino (8)
- Ericeira (1)
- Escultura (6)
- Espanha (2)
- Espinosa (1)
- Espuma dos dias (5)
- Ésquilo (1)
- Estado Islâmico (1)
- Estoicismo (2)
- Estranhos dias os nossos (2)
- Ética (10)
- EUA (19)
- Eugénio de Andrade (3)
- Europa (18)
- Famosos Barbudos (1)
- Fascismo (2)
- Fauna (40)
- Feira do Livro (2)
- Ferdinand Addis (1)
- Férias (2)
- Fernando Grade (1)
- Fernando Pessoa (17)
- Ficção (1)
- Ficção Científica (2)
- Fidel Castro (3)
- Figueiras (1)
- Filosofia (67)
- Finanças (1)
- Flora (11)
- Fogo (1)
- Fonte da Telha (1)
- Formosa (1)
- Fotografia (114)
- Foucault (5)
- França (5)
- Frank Herbert (2)
- Freitas do Amaral (1)
- Fukuyama (2)
- Futebol (23)
- Gabriel García Márquez (2)
- Galbraith (1)
- Garcia Lorca (3)
- Garzi (1)
- Geografia (29)
- Geologia (4)
- Geopolítica (16)
- George Steiner (14)
- Georges Moreau de Tours (1)
- Gerês (4)
- Globalização (15)
- Gonçalo Cadilhe (2)
- Gonçalo M. Tavares (1)
- Gonçalo Ribeiro Telles (1)
- Gore Vidal (3)
- Goya (1)
- Gramsci (1)
- Grandes Aberturas (8)
- Grécia (2)
- Grécia Antiga (10)
- Guadiana (5)
- Guerra (20)
- Guterres (2)
- Handel (1)
- Hannah Arendt (1)
- Harold Bloom (2)
- Hayek (1)
- Hegel (1)
- Henri Lefebvre (1)
- Henrique Raposo (1)
- Heraclito (7)
- Heródoto (5)
- Hervé Le Tellier (1)
- Hesíodo (7)
- Hillary Clinton (1)
- Hino (2)
- História (16)
- Hobsbawm (4)
- Homenagem (7)
- Homero (5)
- Horácio (4)
- Hubert Reeves (3)
- Hugo Chávez (3)
- Humanismo (2)
- Humor (1)
- Ian Bremmer (3)
- Ian Morris (1)
- Iconoclastia (2)
- Ideologia (8)
- Ignacio Ramonet (2)
- Ilíada (1)
- Iluminismo (2)
- Imigração (1)
- Immanuel Wallerstein (1)
- Imprensa (1)
- Índia (2)
- Internacional (31)
- Iraque (1)
- Islão (3)
- Israel (5)
- Jacques Barzun (1)
- Jakob Schlesinger (1)
- James Knight-Smith (1)
- Japão (5)
- Jared Diamond (2)
- Jean Fouquet (1)
- Jihadismo (1)
- Jim Morrison (1)
- Jô Soares (1)
- João Lourenço (1)
- João Luís Barreto Guimarães (1)
- João Maurício Brás (9)
- João Salgueiro (1)
- João Villaret (1)
- Jogos Olímpicos (14)
- John Keegan (1)
- John Locke (1)
- Jonathan Swift (1)
- Jorge Luis Borges (1)
- Jornalismo (3)
- José Gil (4)
- Joseph Conrad (3)
- Joseph-Noël Sylvestre (1)
- Juliette Gréco (1)
- Justiça (1)
- Kamala Harris (1)
- Karl Polanyi (3)
- Karl Popper (1)
- Kazuo Ishiguro (1)
- Ken Follett (1)
- Kenneth Clark (1)
- Kolakowski (1)
- Kropotkin (1)
- Krugman (1)
- Lana Del Rey (1)
- Langston Hughes (1)
- Laurent Binet (1)
- Lavoisier (1)
- Leituras (10)
- Leon Tolstói (1)
- Leonardo da Vinci (4)
- Li Wenliang (1)
- Liberalismo (5)
- Liberdade (5)
- Lipovetsky (4)
- Lisboa (2)
- Literatura (10)
- Literatura pós-modernista (1)
- Livros (77)
- Livros Lidos (35)
- Lorca (3)
- Lou Marinoff (1)
- Lugares de Portugal (4)
- Macaulay (1)
- Madeira (1)
- Madeleine Albright (2)
- Madredeus (2)
- Madrid (1)
- Mafalda (1)
- Málaga (1)
- Manuel António Pina (1)
- Máquinas (6)
- Maradona (1)
- Marc Augé (1)
- Marcelo Rebelo de Sousa (2)
- Marco Aurélio (1)
- Maria Filomena Mónica (4)
- Maria José Morgado (1)
- Maria José Roxo (1)
- Marilyn (1)
- Mário Soares (1)
- Marques Mendes (2)
- Marte (3)
- Martin Landau (1)
- Martin Page (2)
- Marx (8)
- Marxismo (1)
- Matemática (1)
- Máximas pessoais (3)
- Medeiros Ferreira (1)
- Media (4)
- Mega Ferreira (1)
- Melville (3)
- Memória Esquecida (6)
- Michel Houellebecq (2)
- Michel Serres (1)
- Migrações (1)
- Miguel Ângelo (1)
- Miguel de Unamuno (2)
- Miguel Esteves Cardoso (2)
- Miguel Torga (5)
- Mikhail Gorbachev (1)
- Minho (1)
- Mitologia (3)
- Moçambique (1)
- Modernidade (3)
- Montesquieu (1)
- Morin (1)
- Morrissey (1)
- Mozart (1)
- Música (20)
- Mussorgsky (1)
- Nagasaki (1)
- Naide Gomes (1)
- Nanni Moretti (1)
- Natal (4)
- NATO (1)
- Natureza (1)
- Natureza Humana (1)
- Navios (2)
- Nazismo (1)
- Nelson Évora (1)
- Neoliberalismo (70)
- Niall Ferguson (3)
- Nietzsche (9)
- Noam Chomsky (1)
- Norman Davies (2)
- Notícia (2)
- Notícias do milagre económico (2)
- Nova Iorque (1)
- Nuno Rogeiro (3)
- O Neoliberalismo no seu Estertor (19)
- O neoliberalismo no seu melhor (9)
- Obama (6)
- Opinião (3)
- Oppenheimer (1)
- OqueStrada (1)
- Orlando Ribeiro (3)
- Ortega y Gasset (10)
- Orwell (2)
- Os touros querem-se vivos (2)
- Paco de Lúcia (1)
- Padre António Vieira (2)
- Paidéia (1)
- Paisagem (28)
- Paleontologia (2)
- Palestina (3)
- Palmira (1)
- Pandemia (9)
- Papa Bento XVI (4)
- Paquistão (2)
- Para memória futura. Ambiente. (1)
- Paris (2)
- Partidas (53)
- Pascal (1)
- Patrick Deneen (1)
- Patti Smith (1)
- Paul Valéry (2)
- Pelé (1)
- Pensamentos (54)
- Peter Sloterdijk (33)
- Phil Hansen (1)
- Píndaro (1)
- Pino Daeni (1)
- Pintura (84)
- Platão (3)
- Plutarco (1)
- Poder (1)
- Poe (1)
- Poemas da minha vida (9)
- Poesia (105)
- Política (161)
- Política Internacional (2)
- Porto (18)
- Portugal (59)
- Portugal é Paisagem e o Resto é Lisboa (9)
- Portugueses (5)
- Pós-modernidade (2)
- Praia (20)
- Pré-socráticos (1)
- Presidente Cavaco (23)
- Putin (4)
- Quino (1)
- Raça (1)
- Rachmaninov (1)
- Racismo (2)
- Rafael (3)
- Rafael Alberti (1)
- Reflexões (4)
- Reflexões sobre Reflexões (1)
- Reino Unido (6)
- Relações Internacionais (4)
- Religião (28)
- Rembradt (1)
- Renoir (1)
- Rentes de Carvalho (4)
- Respeito (2)
- Revolução Industrial (1)
- Revoluções (5)
- Ricardo Reis (1)
- Richard Dawkins (4)
- Richard Rogers (1)
- Rimbaud (2)
- Robert Capa (2)
- Roberto Bolaño (1)
- Rocha Pereira (1)
- Rodin (2)
- Roger Scruton (1)
- Roma (9)
- Rússia (4)
- Safo (1)
- Sal da Língua (1)
- Salazar (2)
- Samuel Barber (1)
- Samuel Huntington (1)
- Santa Sofia (1)
- Sean Connery (1)
- Sebastião Salgado (1)
- Seca (1)
- Século XX (2)
- Séneca (4)
- Sesimbra (2)
- Sevilha (4)
- Sexta Extinção (3)
- Shostakovich (1)
- Simões Lopes (1)
- Sionismo (1)
- Síria (9)
- Socialismo (1)
- Sociedade (22)
- Sociologia (11)
- Sócrates (2)
- Sófocles (2)
- Solidão (1)
- Sólon (2)
- Sorolla (1)
- Steven Pinker (2)
- Stiglitz (1)
- Sublinhado (24)
- Suiça (1)
- Sun Tzu (1)
- Suzanne Collins (1)
- T.E.Lawrence (1)
- Tabucchi (1)
- Telavive (1)
- Telescópio James Webb (1)
- Televisão (1)
- Terreiro do Paço (2)
- Território (1)
- Terrorismo (11)
- Thomas Friedman (2)
- Thomas Kuhn (1)
- Tim Marshall (2)
- Titã (1)
- Tocqueville (1)
- Toledo (2)
- Tom Lea (1)
- Tony Judt (11)
- Transformações Sócio-Culturais (1)
- Triste País (1)
- Trump (15)
- Turquia (2)
- Ucrânia (9)
- Ulrich Beck (6)
- Umberto Eco (8)
- União Europeia (25)
- Universidade (1)
- Urbanismo (2)
- Ursula von der Leyen (1)
- Utopia (1)
- Vargas Llosa (3)
- Vasco da Gama (1)
- Vasco Graça Moura (1)
- Vasco Pulido Valente (5)
- Venezuela (1)
- Verão (9)
- Violência Policial (1)
- Virgílio (1)
- Viriato Soromenho-Marques (1)
- Vital Moreira (1)
- Vítor Gaspar (1)
- Viviane Forrester (1)
- Vulcões (3)
- walt whitman (5)
- Walter Mittelholzer (1)
- Winston Churchill (2)
- Xenofonte (2)
- Yuval Harari (3)
- Zelensky (1)
- Zizek (2)
- Zurique (1)
- Zweig (6)





































