terça-feira, agosto 18, 2020

Território


Os homens têm olhado para o deserto como uma terra estéril, terreno livre para quem o quiser atravessar; mas, efectivamente, cada colina, cada vale do deserto tinham alguém que era o seu dono reconhecido e que seria capaz de defender imediatamente o direito da sua família, do seu clã a esse deserto, contra as transgressões. Até mesmo os poços e as árvores tinham os seus donos, que permitiam às pessoas que usassem as segundas como madeira e bebessem livremente dos primeiros, tanto quanto necessitassem, mas que imediatamente reprimiriam quem tentasse tomar conta da sua propriedade e explorá-la a ela ou aos seus produtos com outros, para benefício particular.  

T.E.Lawrence, Os Sete Pilares da Sabedoria
Publicações Europa-América, 1989, pp. 85-86

Refugio-me no deserto, neste momento particular, mas nem o deserto, descubro, é um espaço de liberdade. A liberdade colide sempre com a propriedade. O território é um espaço apropriado pelo ser, humano ou não humano. O território, na verdade, faz parte do ser. É a nossa circunstância, um prolongamento do corpo ou um espaço sem o qual o corpo definha. Eu sou eu e a minha circunstância (Ortega y Gasset). O território faz parte dessa circunstância que me define.

segunda-feira, agosto 17, 2020

O futuro


O futuro é um caixão. Lamento informá-lo, mas será isso que o aguarda no fim da jornada. Entretanto goze o caminho. E não vale apena chorar ou clamar injustiça. É pessimismo? Os espanhóis dizem que um pessimista é um optimista esclarecido. Mas não há qualquer optimismo aqui. Os dias têm sido negros. Primavera negra, Verão cinzento. "There must be some kind of way out of here", Said the joker to the thief (*). Aguardemos o Outono e o Inverno, com a esperança no horizonte.
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(*) Bob Dylan, All Along the Watchtower, 1967.

domingo, agosto 16, 2020

Epitáfio de Bartolomeu Dias

     V

        EPITÁFIO DE BARTOLOMEU DIAS



Jaz aqui, na pequena praia extrema,

O Capitão do Fim. Dobrado o Assombro,

O mar é o mesmo: já ninguém o tema!

Atlas, mostra alto o mundo no seu ombro.


                                              Fernando Pessoa, Mensagem


s.d.

Allegory Salvator Mundi

























Leonardo da Vinci (?), Auto-retrato (?), Allegory Salvator Mundi

sábado, agosto 15, 2020

Festa do Avante, comunistas e anticomunistas


Não sou comunista. Nunca o fui. Não gostaria de viver num regime comunista como o de Cuba, da Venezuela, da Coreia do Norte ou da China. Mas não sou anticomunista. Os comunistas são uma espécie de anticorpos contra o fascismo. Os melhores anticorpos que uma sociedade pode ter. Anticorpos que se activam quando as sociedades caem nessa doença do fascismo.
O vírus fascista que se cuide quando numa sociedade existem anticorpos comunistas.

Foram os comunistas os primeiros que entraram em Berlim, em 1945, o centro nevrálgico do nazismo. Foram a melhor resistência na Itália, na França, na Jugoslávia e noutros lugares, contra os opressores fascistas e nazis. Desalojaram o ditador cubano, Fulgêncio Baptista, do poder. Derrotaram os agressores americanos no Vietname. Foram derrotados no Chile por Pinochet e sofreram na pele por isso. Também perderam quando enfrentaram Franco, na Guerra Civil de Espanha, mas lutaram. Em Portugal, contra o Estado Novo, foram os que mais combateram e estiveram entre os que mais sofreram por isso.

Colocá-los na mesma plataforma que os fascistas ou os nazis, diz mais acerca de quem o faz do que dos comunistas.

Muitas vozes que se ouviram, a mais de três meses da data marcada para a realização da Festa do Avante, criticando a sua realização em tempos de pandemia, mais do que vozes preocupadas com a difusão do vírus, eram vozes anticomunistas. O seu anticomunismo falava mais alto do que reais preocupações sanitárias que diziam ter. Vozes toldadas pela ideologia, pelo anticomunismo. Desonestidade intelectual é o seu nome. Não enfio esse barrete, nem o barrete de qualquer ideologia. As minhas balizas sou eu que as traço.

À aproximação da data de realização da Festa, e avaliando a situação pandémica, os comunistas começaram a tomar medidas preventivas e a travar. Já limitaram o número de pessoas a entrar no evento para um terço, mas não se ficaram por essa medida. Vamos ver como será a Festa do Avante. Tomo os comunistas portugueses, como sempre tomei, por pessoas responsáveis e dignas de respeito.


sexta-feira, agosto 14, 2020

Ainda cá estamos

 © AMCD 

Praia da Sereia, há pouco. Cabo Espichel ao fundo.

Vírus Trump















Kamala Harris, no primeiro discurso enquanto vice-presidente candidata dos EUA:

Aos 43:52

“Vejam só o que eles [Trump e Mike Pence] nos deixaram: mais de 16 milhões sem trabalho, milhões de crianças que não podem regressar à escola, uma crise de pobreza, de sem-abrigo, afectando principalmente negros, mestiços e nativos índios, uma crise de fome que atinge uma em cada cinco mães com crianças que sentem fome e, tragicamente, mais de 165 000 vidas que foram encurtadas, e muitos não puderam ter a oportunidade sequer de despedir-se dos seus entes queridos. E não tinha de ser desta forma.”

Kamala Harris (traduzido daqui)


Aos 46:17


“Tudo isto [a gestão desastrosa de Trump e Pence da crise pandémica] é a razão. É a razão pela qual um americano morre a cada 80 segundos de COVID-19. É por isso que um número incontável de negócios tiveram de fechar as suas portas. É por essa razão que há um completo caos acerca de quando e como se devem reabrir as nossas escolas. Pais e mães estão confusos, inseguros e zangados relativamente aos cuidados a ter com as suas crianças e a segurança dos seus miúdos na escola. Se ficarão em perigo se forem à escola ou se ficarão para trás se não forem. Trump é também a razão pela qual milhões de americanos estão agora desempregados. Herdou a mais longa expansão económica da história que vinha desde a presidência de Barack Obama e Joe Biden. E depois, como tudo o que herdou, tratou logo de a deitar ao chão. Por causa das falhas de liderança de Trump, a nossa economia alcançou um dos maiores recordes entre as nações mais industrializadas, com uma taxa de desemprego que triplicou. Isto é o que acontece quando se elege um tipo que não é apto para o trabalho que tem de desempenhar. O nosso país acaba em frangalhos, acontecendo o mesmo com a nossa [dos EUA] reputação em todo o mundo.”

Kamala Harris (traduzido daqui)

***

A gestão desastrosa de Trump, a sua desvalorização da ameaça que representava o vírus quando o mesmo se anunciava, o seu desgoverno, foi outro vírus que atingiu a América. Trump é um vírus.

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Traduzido daqui:



quarta-feira, agosto 12, 2020

Kaputt


Curzio Malaparte (1944), Kaputt, Publicações Europa-América, 1979.

[Há uma edição deste ano da Cavalo de Ferro]

óóóó


Kaputt, onde o italiano Malaparte passeia impunemente a sua insolência (que faz passar por irreverência) sob o nariz dos nazis enquanto com eles janta. Teve de testemunhar o mal com os seus próprios olhos para aprender, da pior forma, o horror do nazismo e do fascismo, que antes abraçara. É nessa condição de “aliado” que lhe é conferido um livre trânsito que o leva a testemunhar os horrores na frente Leste: as perseguições, os fuzilamentos, a chacina dos judeus. Por toda a obra transparece o seu repúdio pela crueldade dos nazis, com a qual convive horrorizado, com a habilidade e a inteligência necessária para os ludibriar e sair dali vivo.

Tem, no entanto, um tique que manifesta ao longo do livro: associa muitas vezes o mal a um elemento feminino (chega a gracejar, dizendo que Hitler é uma mulher, ou que há um elemento feminino no "medo" e na crueldade dos alemães). Talvez não seja de forma consciente. É uma tendência com profundas raízes bíblicas e mitológicas: não foi Eva que convenceu Adão a morder a maçã? Não foi da caixa de Pandora que fugiram todos os males do mundo? Não era Medusa uma mulher? Ou Circe uma feiticeira? Será que Malaparte não se deu conta desta tendência para a diabolização do elemento feminino na sua história e na história da literatura?

O capitão Curzio Malaparte

terça-feira, agosto 11, 2020

A idolatria da grandeza


O muçulmano deslumbra-se com a grandeza. A frase mais dita e repetida por si reflecte essa idolatria da grandeza: “Alá é grande”. O cristão, por seu lado, deslumbra-se com o amor e com a vida: “Deus é amor”, “Deus é vida”.


Perante Deus, o cristão ajoelha-se, o muçulmano prostra-se.

Omnipotência, omnipresença e omnisciência, traduzem-se numa só palavra para o muçulmano: “grande”. Alá é grande.

sábado, agosto 08, 2020

Praia de Miramar

(C) AMCD

Em pleno Verão, a serenidade reina na praia de Miramar. A temperatura da água, cerca de 15º C, não convida ao banho. Ao longe, a capela do Senhor da Pedra, junto à praia do mesmo nome. A foto é de ontem.

sexta-feira, agosto 07, 2020

Animais errantes?! Qual quê: animais abandonados.

“Animais errantes”, ouvimos com surpresa e desagrado, na rádio, nas palavras de um representante dos veterinários. Que é feito então dos animais abandonados? Não existem? Ninguém os abandona agora?

 

É muito conveniente para os lobbies da veterinária, das lojas de animais, dos produtores rações para animais domésticos, entre outros, a utilização do termo “errante”. Chamar a um animal abandonado animal errante não onera ninguém, não pesa na consciência de ninguém, nem soará mal aos ouvidos dos que abandonam os animais, esses “amigos” dos animais, potenciais clientes dos ditos lobbies. Não causa danos morais quando devia causar, nem pesos na consciência quando devia pesar.

 

quinta-feira, agosto 06, 2020

Uma birra de filósofo


Bernard-Henri Lévi, Este Vírus que nos Enlouquece, Guerra e Paz, 2020.

óóóó

As ideias são mais teimosas do que os factos (pág. 29) e no entanto, afirma Bernard-Henri Lévy, as ideias também morrem, porque vivem da mesma maneira que os seres humanos. (pág. 23) 

Discordamos. A morte é um facto e as ideias sobrevivem-lhe.

E mais adiante afirma:

A velha lua marxista da crise do final do capitalismo misturou-se com a colapsologia. (pág. 42)

ΩΩΩ

As ideias não vivem da mesma maneira que os seres humanos, ao contrário do que diz Bernard-Henri Lévy. Atravessam gerações, vivem para além dos seres humanos que as difundiram. É por isso que a velha ideia marxista, essa lua, nas próprias palavras do filósofo francês, é velha e persiste. Sobreviveu a Marx, assim como o cristianismo sobreviveu a Cristo. As ideias só morrerão com a morte do último homem. Não estamos aí.

Afirma também Bernard-Henri Lévy que os vírus, no fundo, são muito mais a arma de um crime da natureza contra o homem do que um sinal de violência dos homens contra a natureza… (pág. 40). Ora se o filósofo não é favorável à personificação do vírus – o vírus não pensa, nem tem uma intenção - como se depreende da leitura das páginas 38 e 39, já concede que a natureza comete um crime contra o homem. A natureza não comete crimes, dizemos nós, da mesma forma que o vírus também não. O homem é que os comete, se quisermos persistir no dualismo homem/natureza.

Na verdade, o homem é parte da natureza. Exactamente aquela parte que comete crimes, se quisermos. O dualismo homem/natureza é uma simplificação que nos ajuda a ler a realidade, mas não é a realidade.

Concordamos mais com Boaventura de Sousa Santos (2020) quando afirma: “Não se trata de vingança da Natureza. Trata-se de pura auto-defesa.” O homem é o agressor.

Concordamos também com Peter Sloterdijk, que escreveu, na década de 80 do século passado, o seguinte:


A natureza, não humana, defende-se.

Há uma birra de Bernard-Henri Lévy contra a situação em que nos encontramos, como se o homem fosse uma vítima injusta da ira da natureza. Tem todo o direito de pensar assim.

O seu livro é muito interessante, mas que há ali uma birra há.
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Referências

Bernard-Henri Lévi, Este Vírus que nos Enlouquece, Guerra e Paz, 2020.
Boaventura de Sousa Santos, A Cruel Pedagogia do Vírus, Edições Almedina, 2020.
Peter Sloterdijk, Crítica da Razão Cínica, Relógio D’Água, 2011.

segunda-feira, agosto 03, 2020

Racistas e maçãs


Pergunta inútil: se há racismo em Portugal. Claro que há. É como perguntar se há maçãs podres num pomar.

José Manuel Viegas, “Racismo Lusitano”, A Origem das Espécies

 

De acordo com esta acepção há racismo em todas as sociedades. Haverá pomares sem maçãs podres? Concordamos com José Manuel Viegas, se não distinguirmos “racismo geral” de “racistas particulares”. Mas qual é a métrica para aferir se uma sociedade é racista? Quantos racistas são necessários para se concluir cabalmente que a sociedade em que se vive é uma sociedade racista? Quantas maçãs podres são necessárias para que se concluir que a safra de maçãs está comprometida, ou que o pomar é um pomar de maçãs podres? Estamos num terreno movediço: o simples facto de colocarmos a questão do grau de racismo de uma sociedade é geralmente mal interpretado, sendo acusado de racismo quem a coloca.

 

O racismo não é estatisticamente mensurável, mas existem indicadores que “se encontram no cerne da questão racial”, como é o caso do número de casamentos mistos, como salienta o historiador e antropólogo, Emmanuel Todd (2018), na sua obra, Onde Estamos?:

 

Durante esse período [1965-2015, nos E.U.A.], o sentimento racial persistiu numa parte importante da população branca, e pouca importância tem que as sondagens de opinião digam o contrário. É o que mostra uma análise do casamento, que se encontra no cerne da questão racial porque, se é misto a uma taxa elevada, as raças se diluem para desaparecerem finalmente. 

Emmanuel Todd (2018, pág. 331)

E mais adiante:


A percentagem de casamentos mistos é um indicador poderoso. Evoca o futuro porque, se forem numerosos numa determinada sociedade, os casais mistos que produzem filhos abolem a possibilidade de uma segmentação racial ou étnica da sociedade.

Emmanuel Todd (2018, pág. 386) 

(destaque nosso)

 

Em suma, para uma análise comparativa e objectiva do racismo nas sociedades e entre sociedades, a percentagem de casamentos mistos “é um indicador poderoso”. Pode estar aqui uma das métricas do racismo nas sociedades. Enquanto a questão do racismo for apenas uma questão de opinião, a discussão não cessará, assim como o ruído e a dissensão que a acompanha.

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 Referências

 

Emmanuel Todd (2018), Onde Estamos? Uma outra visão da história humana, Temas e Debates/Círculo de Leitores.

Viegas, José Manuel, “Racismo Lusitano”, Origem das Espécies (blogue) (consultado a 3 de Agosto de 2020). Daqui.

 

domingo, agosto 02, 2020

Malaguenha


A morte
entra e sai
da taberna.

Passam cavalos negros
e gente sinistra
pelos fundos caminhos
da guitarra.

E há um cheiro a sal
e a sangue de fêmea
nos nardos febris
da beira-mar.

A morte
entra e sai,
e sai e entra
a morte
da taberna.

Garcia Lorca

(traduzido por Eugénio de Andrade, Poesia e Prosa [1940 – 1986], II Volume, 3ª edição aumentada, Círculo de Leitores.

sexta-feira, julho 31, 2020

Banhistas


Renoir, Pierre-Auguste, Large Bathers (Les Grandes Baigneuses), 1884-87

quarta-feira, julho 29, 2020

O dinheiro de Bruxelas e o país dos espertalhões

Todos os espertalhões do país estão já a congeminar um plano para justificar o direito  ao dinheiro e à subvenção, ao fundo e ao maneio.

Clara Ferreira Alves, Revista E, Expresso,  24 de Julho de 2020

Não fosse este o país dos cobiçosos pilhadores-quando-podem. A ocasião faz o ladrão. Não sei porquê, vem-me sempre à memória a carraca de Albuquerque à saída de Malaca. Naufragou logo ali com o peso da pilhagem.

É o retrato de um povo. Se não de um povo, pelo menos de uma parte dele muito significativa.

terça-feira, julho 28, 2020

Escritos na parede, em Almada


Frases enigmáticas, escritas provavelmente por algum anarquista, de fugida, numa noite muito escura. Frases que nos desafiam de propósito, e, portanto, frases que gostamos de desafiar.

Eis uma das frases:

O futuro é passado no presente

Este “passado” é importante pois pode referir-se ao decorrer, e nesse caso a frase diz-nos que o futuro decorre no presente. Ou pode referir-se tão só ao que já ocorreu, ao tempo antes do presente. E aqui surge um paradoxo: como é que o futuro se pode considerar tempo antes do presente? A frase presta-se a diferentes interpretações e conduz-nos ao paradoxo.

Na verdade, o presente é o futuro do passado. Esta ideia está expressa no excelente livro de Ivan Krastev (2020), O Futuro por Contar, Objectiva, na página 18. Diz ele:

A diferença entre o passado e o presente é que nunca podemos conhecer o futuro do presente, mas já vivemos o futuro do passado.

Eis outra frase que lemos nas paredes, provavelmente escritas pela mesma pessoa, pois a letra era a mesma:

O dinheiro que salva também mata

Por que não o contrário? Ou seja: o dinheiro que mata também salva.

O “também” é de extrema importância na frase, assim como a palavra que surge no fim. Na frase inscrita na parede, o dinheiro é um malvado, pois no fim acaba por matar. Na frase que proponho o dinheiro no fim também salva. Acaba por ser uma visão mais positiva de um meio que é o dinheiro. O dinheiro não tem culpa. O uso que dele se faz é que pode ser questionável. Atirar no dinheiro é atirar ao lado.

Mas ainda assim, as referidas frases inscritas na parede são frases-pontapé. Frases que nos fazem pensar, nos interpelam e desafiam.

Mas como dizia Nanni Moretti: le parole sono importanti!

segunda-feira, julho 27, 2020

A bela Ferronière





















Leonardo da Vinci, La belle Ferronière, c. 1490

domingo, julho 26, 2020

Racistas ilustres*


Hoje derrubaram e vandalizaram a estátua do Cristóvão Colombo no Funchal, porque era racista, acusam-no. Sim à luz do contexto actual, Cristóvão Colombo era racista. Não o era, ou esse facto não relevava, no contexto histórico em que viveu. A história, se a analisarmos à luz do actual contexto moral, está cheia de racistas ilustres: Cristóvão Colombo, o padre António Vieira, Ghandi, Churchill, são os nomes que nos ocorrem, acusados de racismo, mas outros haverá. É bom não esquecer as atrocidades do passado, o esclavagismo e o imperialismo, os genocídios, é bom não esquecer a história, para que os mesmos erros não tornem a ser cometidos, mas também é bom não esquecer os contextos. Derrubar estátuas é um acto de zelotismo primário que não deve ser tolerado em democracia. Não se pode tolerar que uma minoria contorne a democracia para impor a sua vontade e a sua ideologia aos demais. Somos pelo livre jogo democrático. Se as estátuas desagradam então que se proponha um referendo para apurar se os cidadãos são favoráveis ou não à sua remoção do pedestal, na sua cidade.  Elas poderão ser removidas, mas se assim for que o sejam democraticamente. A democracia tem de falar mais alto, e no caso, a democracia directa.

ΩΩΩ

Será que os zelotas que desfiguraram a estátua de Atena e destruíram os templos da Era Clássica tinham razão? Será que os talibans que destruíram os budas de Bamiyan tinham razão? Será que os fundamentalistas do Estado Islâmico que destruíram Palmira tinham razão? Não nos parece.

Abaixo o fascismo iconoclasta!
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*Entenda-se que este título é uma provocação. Um oxímoro. Não há nada de ilustre no racismo. Mas há racismo e racistas. Mas muitas vezes confunde-se racismo com racistas e generaliza-se abusivamente a todo um povo a ignomínia do racismo, quando se diz que um povo é racista por nele haver racistas. A existência de racistas num povo não significa que todos o sejam, ou que a maior parte o seja.

Inclinações e prosternações: uma forma de jihad

Islâmicos prosternados junto a Hagya Sophia

















A exacerbação final [do militantismo sagrado islâmico] encontra a sua expressão mais concreta na prece obrigatória (salāt), praticada cinco vezes ao dia, cada uma compreendendo dezassete inclinações e duas prosternações – por isso, cada muçulmano praticante efectua diariamente oitenta e cinco inclinações e dez prosternações diante de Alá, ou seja, 29 090 inclinações e 3540 prosternações por ano lunar, com as recitações que as acompanham. (…) A palavra árabe masdjid, «mesquita» designa, por conseguinte, o «local de prosternação». Seria dar provas de leviandade de espírito subestimar o efeito formador do ritual praticado muitas vezes. O próprio profeta diz: Ad-dînu um’amala, a religião é o comportamento. Por esse motivo, os eruditos do islão chegam ao ponto de afirmar, com certa razão, que a prece ritual é uma forma de jihad.

Peter Sloterdijk (2009), A Loucura de Deus, Relógio D’Água, pág. 66.
(destaque a negrito nosso)

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A religião é o ópio do povo. Os ditadores gostam de ministrá-lo em doses maciças.

sábado, julho 25, 2020

A reabertura das escolas em tempos de pandemia: três casos




Fonte: https://www.worldometers.info/coronavirus/ (consultado a 25 de Julho)


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A reabertura das escolas em tempos de pandemia é a grande questão política que se coloca neste momento e assim será em crescendo até Setembro. A importância das escolas no funcionamento das sociedades é fulcral. Se houvesse alguma dúvida em relação ao seu papel, esta pandemia contribuiu para apagá-la. De facto, é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. De acordo com a revista TIME “60% das escolas em 186 países e territórios encerraram devido aos confinamentos, levando a que 1,5 mil milhões de estudantes tivessem de ficar em casa”. Fala-se apenas de estudantes, mas o número avoluma-se quando se pensa em toda a comunidade educativa.

É compreensível a ansiedade de alguns governantes com a reabertura das escolas no Outono. Querem re-normalizar o funcionamento das sociedades e da economia o mais depressa possível. Mas, qualquer precipitação pode ter consequências trágicas, levando ao aumento da difusão dos contágios e, consequentemente, ao aumento exponencial do número de óbitos.

O artigo da TIME ilustra três exemplos de reabertura das escolas, um com relativo sucesso, o dinamarquês, um intermédio, o sul coreano e um que correu mal, o israelita. Olhando para os gráficos da evolução do número de casos por dia são patentes as diferenças entre os três países após a reabertura das escolas, facto que reflecte as diferentes condições com que reabriram.


Em Israel, inicialmente foi seguido o modelo da “bolha protectora”, mas ao fim de duas semanas após a reabertura das escolas a 3 de Maio, as limitações que se colocavam ao tamanho das turmas foram levantadas. O resultado foi o agravamento das situações de contágio entre alunos, professores e comunidade educativa, forçando o governo a fechar as escolas a 3 de Junho.

Seria bom que isto não acontecesse em Portugal, quando as escolas reabrirem em Setembro.

quinta-feira, julho 23, 2020

Medo e crueldade












Em nenhuma parte da Europa o Alemão me aparecera tão nu, tão descoberto, como na Polónia. No decorrer da minha longa experiência de guerra, tinha-me convencido de que o Alemão não tem medo do homem forte, do homem armado que o enfrenta com coragem e que lhe faz frente. O Alemão tem medo dos desarmados, dos débeis, dos doentes. O tema do «medo», da crueldade alemã como efeito do medo, tornara-se o tema fundamental de toda a minha experiência. Para quem olhar bem, com inteligência moderna e cristã, este «medo» inspira piedade e horror, e nunca me tinha suscitado tanta piedade e tanto horror como na Polónia, onde me aparecia em toda a sua complexidade o elemento mórbido, feminino, da sua natureza. O que move o Alemão para a crueldade, para os actos mais fria, mais metódica, mais cientificamente cruéis é o medo. O medo dos oprimidos, dos desarmados, dos débeis, dos doentes, o medo dos velhos, das mulheres, das crianças, o medo dos judeus.

Curzio  Malaparte (1944), Kaputt, Publicações Europa-América, 1979, pág. 88.


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O desconhecimento e o desconhecido escondem-se sempre por trás do medo. O medo do outro, esse desconhecido, pode conduzir, em situação extrema, à agressão, quando pressentimos no outro uma potencial ameaça, um risco, um perigo. Colocamo-nos em guarda ante o desconhecido. O outro é um abismo.

Os Alemães pouco participaram das grandes navegações e dos encontros entre povos e civilizações, iniciadas no século XV. Só quanto os europeus partilharam a África, no final do século XIX, lhes coube a Togolândia, o Camarões, a África Oriental (actual Tanzânia) e o Sudoeste Africano (actual Namíbia). Neste último território ensaiaram o extermínio de povos autóctones e o funcionamento de campos de concentração*, “solução” que viriam mais tarde a adoptar largamente na Europa, durante a IIª Guerra Mundial, para fins de extermínio, não só de judeus, mas principalmente de judeus.
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(*) Sobre as atrocidades dos Alemães no Sudoeste Africano, ver Niall Ferguson, Civilização: o Ocidente e os Outros, Civilização Editora, 2012, pp. 205-213.

quarta-feira, julho 22, 2020

O brasileiro

O brasileiro é um feriado.
Nelson Rodrigues (1912-1980)*

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*citado por: 

Oscar Mascarenhas, O Grande Livro dos Pensamentos & das Citações, Marcador, 2015.

segunda-feira, julho 20, 2020

Não, não é Horácio, é Macaulay


XXVII

Then out spake brave Horatius,
The Captain of the Gate:
"To every man upon this earth
Death cometh soon or late.
And how can man die better
Than facing fearful odds,
For the ashes of his fathers,
And the temples of his gods

 Thomas Babington Macaulay, Lays of Ancient Rome (1842)

Uma tradução:

Então falou o bravo Horácio,
O Capitão do Portão:
“A todo o homem acima desta terra
A morte virá mais cedo ou mais tarde.
E que melhor morte pode um homem desejar
Do que enfrentando riscos tremendos,
Em nome das cinzas dos seus antepassados
E dos templos dos seus deuses

Thomas Macaulay, Cantos de Roma Antiga (1842)

domingo, julho 19, 2020

Deserta como o fim do mundo

















Alentejo. Imediações de Santa Margarida do Sado.

Ouvia-se um sibilar distante. Um som que se confundia com o ligeiro sopro do vento nas copas das árvores, mas, apurando mais o ouvido, percebia-se que eram veículos circulando ao longe a alta velocidade. Os automóveis sibilavam na auto-estrada. Naquela estrada porém, nem um só passou enquanto estivemos parados para abastecer o estômago.  36º C à sombra e uma estrada deserta.

Deserta como o fim do mundo.

quarta-feira, julho 15, 2020

Era uma vez na Europa


Boaventura de Sousa Santos (2020), A Cruel Pedagogia do Vírus, Edições Almedina.

óóóóó

Uma pandemia desta dimensão provoca justificadamente comoção mundial. Apesar de se justificar a dramatização, é bom ter sempre presente as sombras que a visibilidade vai criando. Por exemplo, os Médicos Sem Fronteiras estão a alertar para a extrema vulnerabilidade ao vírus por parte dos muitos milhares de refugiados e imigrantes detidos nos campos de internamento na Grécia. Num desses campos (campo de Moria), há uma torneira de água para 1300 pessoas e falta sabão. Os internados não podem viver senão colados uns aos outros. Famílias de cinco ou seis pessoas dormem num espaço com menos de três metros quadrados. Isto também é Europa – a Europa invisível.

Boaventura de Sousa Santos (2020), A Cruel Pedagogia do Vírus

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Antes de mais diga-se que o livrinho de Boaventura de Sousa Santos é excelente, porque convida à reflexão. Mas não concordamos com tudo.

O facto de cairmos de paraquedas em solo europeu não nos torna automaticamente europeus. Estar na Europa não implica necessariamente ser da Europa ou ser europeu. Para contrariarmos Boaventura de Sousa Santos, quando refere que “Isto também é Europa – a Europa invisível.” diremos que não é Europa, é antes na Europa. Na fronteira sul da Europa, no caso. A constatação deste facto deverá aliviar as nossas consciências? Talvez não. A Europa encontra-se perante um desafio e Boaventura de Sousa Santos desafia-nos.

Digamos que entre os recém-chegados à nossa casa há os que fogem do pesadelo da guerra (os refugiados) e há os que perseguem com ambição um sonho europeu (os imigrantes económicos, muitos deles ilegais). E para tornar as coisas ainda mais complexas há ainda os que fogem dum pesadelo bélico e acalentam, ao mesmo tempo, o sonho europeu. Ora defende-se aqui que devem ser acolhidos todos os que fogem ao pesadelo da guerra, independentemente de acalentarem ou não o sonho europeu. Defende-se aqui, também, que a dívida moral dos europeus para com os outros povos do mundo, pelas malfeitorias que os europeus realizaram no passado, entre as quais se contam a exploração colonial e a escravatura, não é eterna, ao contrário do que muitos parecem defender, para justificarem a defesa de políticas migratórias de porta escancarada.

Não, não é Europa, é na Europa. E sim, é invisível, mas na Europa invisível, porque ninguém para lá vira o rosto*.
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(*) Temos vergonha em dizer que de lá toda a gente desvia o rosto porque nos vem à memória o gesto que os civis alemães esboçavam quando eram obrigados, pelas tropas aliadas no final da IIª Guerra Mundial, a caminhar entre as pilhas de cadáveres dos campos de concentração: desviavam o rosto.

terça-feira, julho 14, 2020

Entretanto, no Mar da China Meridional

Os porta-aviões USS Nimitz e USS Ronald Reagan e a respectiva escolta, num raro exercício no Mar da China Meridional 

Entretanto, no Mar da China Meridional, jogam-se jogos de guerra. A hiperpotência em declínio mostra os dentes à potência em ascensão. Uma manifestação de força para conter veleidades chinesas. Os E.U.A. não estão dispostos a tolerar a expansão chinesa no Mar da China Meridional, que em parte se baseia na construção de ilhas artificiais para depois reivindicar direitos soberanos sobre o mar envolvente. Há muito que a ilha da Formosa (Taiwan), localizada imediatamente a nordeste daquele mar, está na mira da China, e todos sabemos o que trava os chineses. Não ousarão esboçar um gesto de invasão enquanto se sentirem menos poderosos do que os E.U.A. também naquelas águas. Os E.U.A., entretanto, não se inibem de anunciar que consideram ilegal a maior parte das reivindicações marítimas chinesas.

A China é paciente.

segunda-feira, julho 13, 2020

O mundo de amanhã. Pobre América.


Carlos Gaspar (2020), O Mundo de Amanhã, Geopolítica Contemporânea, Fundação Francisco Manuel dos Santos.
óóóó

O livrinho de Carlos Gaspar, O Mundo de Amanhã, Geopolítica Contemporânea interessa aos que se preocupam com os rumos do mundo.

Nele se percebe que o futuro geopolítico já é o presente. Estados Unidos da América, hiperpotência em declínio, Rússia estagnada, a lutar por manter o estatuto de superpotência, e China em ascensão económica, militar, científica e tecnológica, são os actores de primeira grandeza nesse palco geopolítico do mundo, com a União Europeia (conjuntamente com o Reino Unido), em segundo plano.

Da conclusão do autor concluímos que o mundo de amanhã é incerto, balizado no entanto por algumas certezas que se prendem com os protagonistas geopolíticos, o jogo entre eles, e os possíveis papéis que irão desempenhar no teatro do mundo.

Nos primeiros parágrafos da conclusão concluímos que o futuro do mundo oscila entre uma utopia e uma distopia: “No mundo de amanhã, é possível que as pessoas vivam bem para lá dos cem anos…” e, no parágrafo seguinte, “No mundo de amanhã, é igualmente possível que o isolamento e o tédio condenem os mais velhos a uma escolha impossível entre a melancolia e o suicídio…” (Gaspar, 2020, págs. 97-98). É assim que começa, na conclusão, por traçar dois cenários possíveis e extremos, mas vai muito para além das questões demográficas e gerontológicas.

Talvez o rumo se encontre entre a utopia e a distopia, num equilíbrio instável. E, neste caso, é sempre bom saber de que lado se encontra o abismo.

***

Muito se sublinhou, mas cá vai uma frase sublinhada e uma reflexão:

O “sonho chinês” realiza-se com as novas Rotas da Seda.

Carlos Gaspar (2020), op. cit., pág. 46

Ah, as grandezas do mundo e os sonhos de grandeza! Muitos querem ser grandes, projectando no futuro os gloriosos momentos do passado. Sonham os chineses então com futuras rotas da seda. Os russos sonham com paradas militares imperiais. Os portugueses, com projecções no mar, o mar, o mar. Sonhos de impérios pretéritos.

Os americanos ainda são grandes e não sonham. Têm pesadelos. Pesadelos chineses. Sentem a sua grandeza ameaçada. Sentem que perdem o pé. Só assim se explicam as proclamações de America first!, e, Make America great again! Nem que seja atropelando os demais, açambarcando meios e remédios, como se tem visto com o remdesivir. Pobre América.

domingo, julho 12, 2020

Azenhas do Mar em tempo de SARS-CoV-2























Envolta na bruma, depois do almoço domingueiro, em pleno Verão. Uma frescura. Cerca de 21ºC quando Lisboa arde com 32º C. Um refúgio contra o calor abrasador do Estio, a poucos quilómetros da capital.

É claro que no novo normal é impossível evitar o medo do vírus quando se sai à rua. Ele avista-se por vezes no olhar daqueles com quem nos cruzamos, o que é muito desagradável. No caminho, com cerca de dois metros de largura, que se avista no canto inferior direito da fotografia de baixo,  uma família  - pai, mãe e dois filhos - que vinha subindo, pouco antes de cruzar-se connosco, colocou as máscaras e apartou-se bem, não fossemos ter peçonha. O olhar receoso da filha adolescente por detrás da máscara cruzou-se com o meu. Reparei depois nesse olhar já aliviado mais adiante, ao retirar a máscara com todo o cuidado.

Diabo de novo normal.

Mas também se ouviram risos nas esplanadas, de gente jovem, ociosa e feliz.

segunda-feira, julho 06, 2020

For a Few Dollars More, de Ennio Morricone


Quero aqui também homenagear o maestro Ennio Morricone (1928-2020), cuja música me tem acompanhado desde tenra idade. Por vezes dava comigo a trauteá-la sem me lembrar bem da proveniência. Onde é que tinha ouvido aquilo? Música magnífica. Partiu hoje.

Curiosamente, faz quase um ano em que publiquei aqui uma música sua.

Magnífico.

Até sempre Ennio Morricone.

A Geografia não está em lugar nenhum, a Geografia está em todo o lado


óóóóó

Origens, Como a Terra nos Criou, de Lewis Dartnell, é o melhor livro de Geografia que li nos últimos anos, embora seja mais do que um livro de Geografia. 

As prateleiras das livrarias reservadas aos livros de Geografia são, curiosamente, difíceis de localizar pois é reduzido número de livros que as compõem: alguns atlas e meia dúzia de livros técnicos. Por vezes nem existem. Este facto poderia levar-nos a pensar que se trata de uma disciplina moribunda, se compararmos o espaço dedicado à História, à Economia, à Política, à Filosofia ou à Sociologia. Mas assim não é. É um caso paradoxal: a Geografia não está em lugar nenhum porque a Geografia está em todo o lado. Encontramo-la na estante de Arquitectura, por exemplo nos magníficos escritos de Álvaro Domingues, do qual destaco A Volta em Portugal (2017), encontramo-la na estante da Política, nos livros de Tim Marshall, por exemplo, com o famoso Prisioneiros da Geografia (2017), encontramo-la no magnífico Colapso (2008) de Jared Diamond, na estante de História, e até o relato da Primeira Viagem em Redor do Mundo (2020), de António Pigafetta, justamente também na estante de História, embora não deixe de ser um relato de grande interesse geográfico. E agora, noutra estante qualquer, perto de si, que não a de Geografia, encontramos o Origens, Como a Terra nos Criou (2019), de Lewis Dartnell.

Estes livros são, acima de tudo, livros de Geografia. Deviam ser incontornáveis (para não dizer “obrigatórios”) para quem ensina e para quem quer aprender Geografia, ou para quem quer ter uma perspectiva geográfica do mundo, pois tratam da relação entre o Homem e a Terra ou, dito de outra forma, tratam do espaço geográfico, esse espaço que resulta das interacções que se estabelecem entre o meio e o ser humano que o habita e ao qual se adapta e transforma.

Cinco estrelas para o Origens, Como a Terra nos Criou, de Lewis Dartnell!

quinta-feira, junho 11, 2020

Querer nada, ser livre

Quer pouco: terás tudo.
Quer nada: serás livre.
O mesmo amor que tenham
Por nós, quer-nos, oprime-nos.

                                 Ricardo Reis, Odes, Fernando Pessoa (1930), Lisboa: Ática, 1946


Já cantava Horácio nas suas Odes:

A quanto mais se negar o homem,
 mais dos deuses receberá.

                                   Horácio, Odes, Livro III, XVI, Livros Cotovia, 2008


Porém, Ricardo Reis queria que os deuses dele não se lembrassem:


 Quero dos deuses só que me não lembrem.
Serei livre — sem dita nem desdita,
Como o vento que é a vida
Do ar que não é nada
O ódio e o amor iguais nos buscam; ambos,
Cada um com seu modo nos oprimem.
                A quem deuses concedem
                Nada, tem liberdade

                                Ricardo Reis, Odes, Fernando Pessoa (1930), Lisboa: Ática, 1946

Em suma, só seria livre aquele sobre o qual não recairia o olhar dos deuses.
A liberdade acima de tudo, até do próprio amor que oprime, segundo Ricardo Reis.

quarta-feira, junho 10, 2020

Viva Portugal! Vivam os Portugueses! Vivam os nossos egrégios avós!





Vivam todos os que somos e todos os que estão entre nós!

terça-feira, junho 09, 2020

Pela tormenta do mar Egeu

Se numa tempestade africana o mastro geme,
não sou pessoa que recorra a miseráveis preces,
fazendo promessas e pactos
para que as mercadorias cipriotas ou tírias

as riquezas do ávido mar não aumentem:
se assim acontecer, ajudado por um bote de dois remos,
o gémeo Pólux e uma brisa me hão-de levar
incólume pela tormenta do mar Egeu.

                                               Horácio, Odes, Livro III, XXIX


segunda-feira, junho 08, 2020

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